A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

MONTANHAS DENTRO DA NOITE



O lago está apagado,
escuro dorme o canavial
a resmungar em sonho.
Espalham-se terríveis sobre a terra
as longas ameaças das montanhas:
elas não tem descanso,
respiram fundo e ficam
umas de encontro às outras apertadas,
num surdo respirar,
carregadas de forças abafadas
sem remissão numa paixão insaciada.


Hermann Hesse
In: Andares
Tradução; Geir Campos

A UMA FLOR


(Photography by Antônio Carlos Januário)

Hoje é dia de fotos.
Oh, delicada, universal vaidade,
seria impressão ou recolhes as pétalas
ocultando alguma ruga que desponta?

Mas não me respondas.
Alguns segredos melhor se guardam
no faz-de-conta.


Fernando Campanella


TO A FLOWER

It's photo's day.
Is it impression
or recoil you thy petals
concealing some wrinkle
you've relieved?

But don't respond.
Some secrets are better kept
on the make-believe.

Fernando Campanella

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Solidão



A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke,
in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

DO AZUL, NUM SONETO



Verificar o azul nem sempre é puro.
Melhor será revê-lo entre as ramadas
e os altos frutos de um pomar escuro
- azul de tênues bocas desoladas.


Melhor será sonhá-lo em madrugadas,
fresco, inconstante azul sempre imaturo,
azul de claridades sufocadas
latejando nas pedras – nascituro.


Não este azul, mas outro e dolorido,
evanescente azul que na orvalhada
ficou, pétala ingênua, torturada.


Recupero-o, sem ter, e ei-lo perdido,
azul de voz, de sombra envenenada,
que em nós se esvai sem nunca ter vivido.



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Antologia Poética

SONETO



Vínhamos de ontem como quem da sorte,
embora finda a vaza, não se olvida
e a quer de novo, quando novas cartas
tem entre as mãos, como nos têm os dias.


Os naipes jogo sobre a mesa. Espero
que cada lance nunca se repita,
mas possa ver o céu que amanhecia
outrora, no que vai surgir da noite


aberta inteira sobre o verde. E quero
que seja agora meu o haver passado
como as tardes se foram, mas as somos.


Incerto, ganho. Pois em nós o tempo
refaz de claridade o que perdemos
e repõe no universo o que foi sonho.



Alberto da Costa e Silva
In: As Linhas da Mão (1978)

sábado, 10 de outubro de 2009

GÔNDOLA



No alto, o azul e o fogacho do sol;
em baixo, o rio eternamente calmo;
sobre a quilha ligeira e graciosa,
coisas de amor e instrumentos de cordas.


Recatados e escuros são teus bordos,
mas com doçura o momento se curte;
estranho e doce é o sonho da morte,
do fim do amor e da juventude.


Rumo a desconhecidos objetivos
meus jovens anos deslizando vão
-como tu, leve e graciosa gôndola,
por luminosa e amável amplidão.



Hermann Hesse
In: Andares
Tradução: Geir Campos

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

L’Ange Du Méridien



Na tormenta que ronda a catedral
Como um contestador que o seu juízo
Mói e remói, é um bálsamo , afinal,
Ser-se atraído pelo teu sorriso:

Anjo ridente, amável monumento,
Com uma boca de cem bocas:não
Te ocorre vislumbrar por um momento
O quanto as nossas horas já se vão

Do teu relógio, onde a soma do dia
É sempre igual, em nítida harmonia,
Como se as nossas horas fossem plenas.

Pétreo, como saber das nossas penas?
Acaso teu sorriso é mais risonho
À noite, quando expões a pedra em sonho?

Rainer Maria Rilke,
Tradução: Augusto de Campos

NO BOSQUE DE FAIAS



Andas fundo sobre o chão dourado dos mares.
Insonoro ascendem, em raios, grisalhos corais,
Fogos fosfóreos fluindo de verdes cristais,
Pérolas afundam no solo murcho-marrom.

Lá fora, das margens argênteas do sol
Pendem as flores-de-sino,
Seduzindo com cálices azuis
O fundo esmeralda.

Max Dauthendey
(1867-1918)
Tradução:André Vallias


IM BUCHENWALD

Du gehst tief auf dem goldenen Grunde der Seen.
Lautlos steigen in Strahlen graue Korallen,
Fließen Phosphorfeuer von grünen Kristallen,
Sinken Perlen auf den braunwelken Grund.

Draußen von silbernen Sonnenufern
Neigen sich Glocken
Und locken mit blauen Kelchen
Die smaragdene Tiefe.

Max Dauthendey

SOMBRA DE NUVENS



Negras rastejam as ondas de hera
Sobre pérgulas de laca dourada.
Nas areias faiscantes, fumegam
Nascentes cálido-violetas.

Borboletas de cinza oscilam e caem
Por entre o éter ressonante.
Os cânticos dos lírios
Inclinam-se e suplicam.


Max Dauthendey
in : Ultra Violett
(Alemanha -1867-1918)
Tradução:André Vallias


WOLKENSCHATTEN

Schwarz schleichen Efeuwellen
Über Goldlackranken.
Im Glimmersande rauchen
Violenschwüle Quellen.

Aschenfalter wehen und tauchen
Durch den klingenden Äther.
Die Gesänge der Lilien
Wanken und flehen.

Max Dauthendey
(Germany -1867-1918)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Razões adicionais para os poetas mentirem"



Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
"Sou um desesperado".
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
"Estou morrendo"
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.


Hans Magnus Enzensberger
(Alemanha- 1929)
Antologia Bilíngue - Tradução Kurt Scharf e Armindo Trevisan

terça-feira, 29 de setembro de 2009

*****


(Tereza Zafon)

E agora
já é ontem,
o ainda agora
cinza rapsódia
fundo soturno das
imagens encantadas.

Roubar do infinito
as palavras ditas
pretensão do sim.

Meus desejos,
ilusões deste mundo
que reza a solidão.

As letras das canções
que se separam e se
juntam,
numa insuportável,
interminável serenata
em despedida

Pode você enxergar
tudo que se foi
e ouvir?

Lembre-se daquele telhado
no subúrbio, atravessado
pelo trem da memória.


Jacob Pinheiro Goldberg

FANTASMAS



Lívidos fantasmas deslizam nas horas perdidas
Chegam à minha alma
E como sombras da noite
Levantam os meus ímpetos mortos
Desatando as ligaduras do tempo.
O luar da madrugada fria cai no meu rosto
E ilumina com branda amargura
O meu espírito que espera a hora insolúvel.
Os caminhos cobrem-se de homens que dormem na morte
E cresce no meu coração um desejo incontido
Para uma união mais forte, mais intensa e mais perfeita.
A minha pupila é banhada pela enorme lágrima
Que umedecerá o solo castigado.
A lágrima que levará ternura às existências sofridas,
A lágrima que se mudará em sangue,
Que levantará a vida morta do universo!


Nova York, 1944
Adalgisa NeryIn
in: Cantos da Angústia

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Chuva



Chuva morna, chuva de verão
Borbulha de arvores e arbustos.
Oh! Como é bom e cheio de benção
Uma vez mais sonhar de verdade!


Quanto tempo fiquei aqui fora,
Quão estranha essa sensação:
Habitar a própria alma,
O estranho, sem atração.


Nada quero, nada peço.
Baixinho cantarolo sons de criança,
E, surpreso, chego ao berço
Dos sonhos quentes de folgança.


Coração, como estás machucado
Porem feliz, remexendo cegamente,
Nada pensar, nada saber,
Respirar e sentir, somente.



Hermann Hesse
In: Caminhada

sábado, 26 de setembro de 2009

POÇAS D’ÁGUA



. . . poesia dançando nos campos da alma
na evocação da presença lagrima
a dormir na prece do vento irrequieto.


. . . murmúrio do amor que se deitou sozinho
na cama fria da desesperança
com saudade do abraço que aquece os corpos
do beijo a sussurrar promessas presença.


. . . procissão de vozes a se fazerem mar verde
de versos que o vento beija sem chorar
de ilhas virgens a não se deixarem tocar.


Poças d’agua
em meus olhos pisados de paisagens alagadas
inundados de todas as vivencias
vivencias de meus horizontes timidos
a repousarem sobre estradas gritantes.


Alvina Nunes Tzovenos
In: 'Palavras ao Tempo'
(Rio Grande do Sul-1927)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Há uma solidão no céu



Há uma solidão no céu,
uma solidão no mar
e uma solidão na morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.


Emily Dickinson
Tradução de Paulo Mendes Campos

Fazer um Céu



Fazer um céu, com pouco a gente faz
basta uma estrela
uma estrela e nada mais.
Pra ter nas mãos o mundo
basta uma ilusão
um grão de areia
é o mundo em nossa mão.
Sonhar é dar à vida nova cor
dar gosto bom às lagrimas de dor
o sol pode apagar, o mar perder a voz
mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.


Mário Lago
(Rio de Janeiro-1911-2001)

MOTO



por que moer a mesma pedra

por que a mesma esfera
sobre seus ossos
ad nauseam a girar?

nada de novo sob o sol
parece mesmo haver -
salvo o olhar

Fernando Campanella
(Minas gerais)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O amor tem vozes misteriosas...



- O amor tem vozes misteriosas
No coração implume...
- Como são cheirosas as primeiras rosas,
E os primeiros beijos como têm perfume!

- O amor tem prantos de abandono
No coração que morre...
- As folhas tombam quando vem o outono,
E ninguém as socorre!

- O amor tem noites, noites inteiras,
De agonias e de letargos...
- Que tristeza têm as rosas derradeiras,
E os últimos beijos como são amargos!


Alphonsus de Guimaraens
(pai)
(Mina Gerais- 1870-1921)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

COMO UM EMBALO



Fosse uma chama, crepitaria
sob meus dedos, na solidão.
Nada mais quero, nada queria.
As noites chegam, os dias vão.

Fosse uma chama, breve arderia,
brasa de sonho, na escuridão.
Já nada quero da luz do dia...
Queima uma estrela na minha mão.

Mas nada quero da luz da estrela...
(Chegam as noites, os dias vão.)
Por que sonhá-la, se vais perdê-la,
alma perdida na solidão?


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo, 1976
(Minas Gerais -1918-2008)

SONETO




A uma réstia de sonho chamam vida.
A uma sombra maior chamam-lhe morte.
Vida e morte, não mais, pouso e suporte,
sopro de permanência e despedida.

Uma treva febril noite é chamada.
A uma luz mais febril chamam-lhe dia.
E entre elas se põe a estrela fria
que irrompe como flor da madrugada.

Paira em tudo um silêncio que anoitece,
que amanhece, e que vence todo ruído,
e como sol não visto num perdido
horizonte se esfaz e se retece.

Tudo é longe demais, por demais perto.
E a alma, que faz neste feroz deserto?


Alphonsus de Guimaraens Filho
(Minas Gerais -1918-2008)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A JANELA DA VIDA


Olho,
à janela,
o tempo
que passa
e não espera
ninguém.

Tempo ingrato
Tempo que marca
a vida,
tempo perdido
no tempo,
tempo alegre,
tempo bom.

O tempo
é como o rio:
transporta
a vida
na barquinha
das recordações...


Delores Pires
In 'A Estrela e a Busca'

Poema retirado do blogger 'Gotas de Poesia e Outras Essências'

Feliz Ano 5770 !!!



Minhas sinceras homenagens a todo povo judeu, Feliz Ano 5.770,
שתהיה לך שנה מתוקה נפלאה ומלאה בדברים טובים

שנה טובה

domingo, 20 de setembro de 2009

Somos pessoas estranhas



somos
pessoas
estranhas
nem sabemos
que sonhos
que somos

esses
olhos
poucos

essas
folhas
secas?

esqueçam
fiquem
calados

somos
estranhos
no entanto

esta noite
dormiremos
lado a lado

Rodrigo Garcia Lopes
(Paraná-1965)

sábado, 19 de setembro de 2009

Próximo à viagem




Aqui em meu quarto
restarão todas as coisas que
me acompanham.
Ainda que em minha escrivaninha
se abisme o último grão da vertical de areia,
continuará incessante em meu corpo.
No regresso, se eu regressar, os livros terão algo de poeira.
A tarde se acostumará
à penumbra do silêncio.
Somente deixo minha ausência.


Arturo Herrera
Tradução:Ronaldo Cagiano
(Argentina- 1974)

Barcos é que somos



A teu lado viajo.
Contigo navego.
Remos são as palavras
que te digo e escrevo.


Ancoras de ternura
com elas compomos
e mastros de espuma.


Barcos é que somos.


Albano Martins
in: 'Complementos de lugar'
Antologia Poética

Legenda




Ao Aureliano Lima


Tarde
regressam
as manhãs
ou seu
imprevisto azul.

Cedo
se colhe
o cintilante
e frágil
perfume das laranjas.


Albano Martins
in 'Paralelo ao vento'


Há um instante em que a memória é estreita
para conter o mar, o sal, os navios,
a penumbra branca das gaivotas.

Um instante de nudez perfeita.


Albano Martins
in 'Em tempo e memória'
(Portugal 1930)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A ESTRELA COMPANHEIRA



Estava
na noite
escura.
Andava
ao léu,
passos
incertos.
A estrela
me viu
tristonho
e me fez
companhia...


Delores Pires
In 'A Estrela e a Busca'
Poema retirado do blog "Gotas de poesias e outras essências"

Isento



Mira-te pelo calendário das flores
Que são só viço e esquecimento.
Desprende-te dos ofícios do dia,
Apaga os números, os anos e anos,
Releva a data de teu nascimento.
E assim, por tão leve sendo,
Por tão de ti isento,
De uma quase não resistência de pluma,
Abraça o momento,
Te apruma,
Tome por bagagem os sonhos
E apanha carona no vento.

Fernando Campanella
(Poema em homenagem pelo aniversário
de minha amiga Maria Madalena)

sábado, 12 de setembro de 2009

O sol de nossas vidas...




Cada minuto é apenas um momento musical,
sem memória.. E a saudade não vem de
longe, é como uma cor outonal na paisagem
e muda como um poente...Não há futuro.
Tudo é paisagem para os nossos olhos
calmos e líricos.
Sentimos a intimidade das coisas
impossíveis.


Cristovam Pavia
(Portugal- 1933-1968)

Remanso


(Santorini- Grécia)


Tarde triste e silenciosa
de vila de beira mar:
uma tarde cor-de-rosa
que vai morrendo em luar...

Ao longe, a várzea cintila
de uns restos de sol poente;
mas, por sobre toda a vila
-- do morro a que fica rente --
desce uma sombra tranqüila
e anoitece lentamente.

Nem rumor da natureza,
nem eco de voz humana
perturba a infinita calma,
a solitária vila praiana.

Nem se ouve o mar, longe, e manso!

A tudo, em redor, invade
um ar de mole descanso...
Silêncio... Imobilidade...
Como que interrompida
a correnteza da vida
fez neste ponto um remanso.


Vicente de Carvalho

"BECO"



Que se passa naquele beco
onde nunca estive?
Vislumbro o muro de passagem:
sombras, manchas, rastros
de existência.

Quem o habita, se é que o habita
alguém, se é que o beco
existe como existem
seres e coisas que vejo?

Quem derrama nesse recanto do universo
o sinal de vida, a marca indelével
da matéria organizada?

O que existe fora do meu
alcança de vista? Quem brinca
de esconder quando relembro
o muro caiado, a rua esquecida?

O que não vejo, pressinto:
existe mesmo ou é extinto
para mim, ignorado
como esse beco aonde nunca fui?


Fernando Py
in '70 Poemas Escolhidos'

domingo, 6 de setembro de 2009



Os seres amados multiplicaram-se
e cobriram-me a vida como estrelas num céu próximo.

E vivi deslumbrado
longamente.

Mas tinha cada um o seu destino,
tinha cada um o seu caminho diferente.

Os seres amados dispersaram-se,
perderam-se nas distâncias enormes.
E eu fiquei triste e pobre,
sentindo vagamente
na minha solidão
sua profunda pulsação longínqua.

Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


Os seres amados são sombras que se apagam,
são sombras de um jardim, no entardecer.

Nós tínhamos no olhar o encantamento
dos lúcidos recortes,
dos arabescos harmoniosos
desenhados no chão.

Mas um por um diluiram-se os desenhos
numa sombra maior ...

Os seres amados são sombras,
são sombras de um jardim, no entardecer ...


Tasso da Silveira
in Poemas

FUNERAL BLUES



Stop all the clocks, cut off the telephone,
prevent the dog from barking with a juicy bone,
silence the pianos and, with muffled drums,
bring out the coffin, let the mourners come.

Let airplanes circle moaning overhead
scribbling on the sky the message: he's dead.
Put crepe-bows round the white necks of the public doves,
let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
my working week, my Sunday rest,
my noon, my midnight, my talk, my song.
I thought that love would last forever; I was wrong.

The stars are not wanted now, put out every one.
Pack up the moon, dismantle the sun.
Pull away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.


W.H. Auden
Wystan Hugh Auden
(England 1907-1973)



Blues Fúnebres


Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

Tradução de Nelson Ascher
do livro "Poesia Alheia" 1.998

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Prayer



Great God, I ask for no meaner pelf
Than that I may not disappoint myself,
That in my action I may soar as high
As I can now discern with this clear eye.

And next in value, which thy kindness lends,
That I may greatly disappoint my friends,
Howe'er they think or hope that it may be,
They may not dream how thou'st distinguished me.

That my weak hand may equal my firm faith
And my life practice what my tongue saith
That my low conduct may not show
Nor my relenting lines
That I thy purpose did not know
Or overrated thy designs.


Henry David Thoreau
(1817-1862- Massachusetts-EUA)

Anoitecer




Amiúdam-se as partidas...
Também morremos um pouco
No amargor das despedidas.

Cais deserto, anoitecemos
Enluarados de ausência.

Helena Kolody
(Paraná- 1912-2004)

ACORDE





seja a canção comum à voz e ao vento
dentro de um homem


e dentro dele sempre diferente
do próprio nome


na diferença mesma é que se casam
a voz e o vento


o que lá fora é folha de outro rosto
dance dentro



Alcides Villaça
In: Viagem De Trem
(São Paulo- 1946)

TUMULTO



Tempestade. O desgrenhamento
Das ramagens ... O choro vão
Da água triste, do longo vento,
Vem morrer-me no coração.

A água triste cai como um sonho,
Sonho velho que se esqueceu ...
(quando virás, ó meu tristonho
Poeta, ó doce troveiro meu! ...)
.....................................................
E minha alma, sem luz nem tenda,
Passa errante, na noite má,
À procura de quem me entenda
E de quem me consolará ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas (1923)

domingo, 30 de agosto de 2009

AQUARELA POÉTICA


(Paint by Joaão Barcelos)


no criar
artífice do verso sem dor ou não
declina-se num gesto materno demais.


círculos de brisa outonal
descrevem seus deuses em canto
em oração vigília
em abandono de paz.


no criar
alarga-se todos os azuis
e as estrelas custam a acordar
as pedras começam a falar
e o homem adquire alma.


arco-iris de todos os verbos
na beleza da fragilidade flor
a aquarela poética, geração-fruto
veste regatos sem a angustia dos tristes.


não há secos lagos
nem mortes desejando perfumes
nem manhãs sem ausência de estórias
nem fealdade na vida
porque o artista criou sem sombras.


Ele desenhou seus painéis sem falsidade
na crença de suas aquarelas fieis
na concordância de seus mares
sem mascara de mistérios libertos
na intenção das brisas sem disfarces.



Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo
(Porto Alegre- RS- 1929)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

DESTINAÇÃO EM DÓ MAIS OU MENOS




E assim morre, um dia, outro dia, a face da lembrança.
Fantasia, desliza o presente para o limbo, jamais.
Estreita recordação sepulta o paraíso.
Herói, santo, feto, fato.
Flamboyant, vinil e couro, um murro no além.
Com os pedaços dos sonhos se criam sonos, sombras
e pérfidas interrogações


Jacob Pinheiro Goldberg
Do livro: "Ritual de Clivagem", Massao Ohno Editora, 1989, SP


E agora
já é ontem,
o ainda agora
cinza rapsódia
fundo soturno das
imagens encantadas.

Roubar do infinito
as palavras ditas
pretensão do sim.

Meus desejos,
ilusões deste mundo
que reza a solidão.

As letras das canções
que se separam e se
juntam,
numa insuportável,
interminável serenata
em despedida

Pode você enxergar
tudo que se foi
e ouvir?

Lembre-se daquele telhado
no subúrbio, atravessado
pelo trem da memória.


Jacob Pinheiro Goldberg
Minas Gerais -1.933-

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

RECOMEÇAR



Prontos para fazer novo começo
assim como o bom dia novamente
sai do sol sem a névoa, seu avesso,
busquemos claridades displicentes.

O teu mundo não é maior que o meu
nem o meu choro é pouco do teu muito;
a pedra que me cabe nesse intuito
também te servirá no apogeu.

Todas as paixões passam num circuito
do Malecón de Cuba ao coliseu
no bem viver da vida e o seu minuto

O recomeço pousa nas pegadas
no desafio de verbo fortuito
de ressaltar as sombras salteadas.


Aníbal Beça
(13/09/46 - 25/08/2009)

CONTEMPLAÇÃO


(Photo by Wojtek Kwiatkowski)

Nas crinas de cavalos reclinados
penteia o vento nuvens retorcidas
enquanto a sombra cai do céu calado
na relva da campina amanhecida.

Passeia o sol as hastes sublevadas
dos girassóis lambidos no rocio
que vaidosos se alçam na mirada
narcisos desse espelho em seu feitio.

A calma da manhã veste amarelo
e despe toda angústia na brandura
das cores desse dia sem duelo.

Sendo o perdido me acho sem procura
sofrendo tenho sido meu flagelo
mas esse olhar agora me inaugura.

Anibal Beça

ESPELHO




O que sobrou de mim são essas sombras
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
Que me alimenta os ossos da memória.

Nessa voragem vaga, um mar de calma
Lambendo vem a pressa em que me aposto
Na duração que escorre nessa arena.

Do fim regresso fera não domada
Ao mesmo pouso de ave renascida
Para o sol da surpresa nas janelas
Escancarando um solo transmutado.

De baixo para cima é que renovo
As vestes da sintaxe que componho
Clara inversão da jaula das palavras
Para fechar sem chave a minha sina.

Para fechar sem chave a minha sina
Clara inversão da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.

Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera não domada.

Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto.
Nessa voragem, vaga um mar de calma

Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim são essas sombras.


Aníbal Beça
( 13de setembro de1946 - 25de agosto de 2.009)
Deixamos aqui nossa homenagem ao poeta amazonense ontem falecido.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os Jacintos



Os jacintos se entreolham
calados. Só o perfume
os une, alheados.
Sem dar nem receber
a mão vazia à outra se uniria.
Por que são os jacintos
o que seríamos?
Prediletos do ser.
Nem mesmo cuidaríamos
do passo que nos leva
sob a Ursa Maior
sob a Ursa Menor.
De olhos fechados despertaríamos
da confusa tristeza de
sermos dois e isolados
flutuando na alma do mundo
como peixes assustados.
Complexa é a vida
ao descer cada vez mais
até à charogne desintegrada
de uma superpopulação
de miasmas.
Quero uma só alma
é o bastante
para quem vive um breve instante.
Quando a plenitude do
UNO?
Simples inefável resumo.


Dora Ferreira da Silva
(Brasil)

Rumor



Como é forte o rumor da madrugada!
Feito de coisas mais que de pessoas.
Precede-o às vezes um sibilo breve,
alegre voz que ao dia desafia.
Depois, tudo é submerso na cidade.
E a minha estrela é aquela estrela pálida
da morte devagar, sem desespero.


Sandro Penna,
in poesia do século XX
trad. de Jorge de Sena (Portugal)
(Itália -1906-1977)

domingo, 23 de agosto de 2009

NO METRO, DEPOIS DA ESTAÇÃO DO OESTE



Próximo já do subúrbio os passageiros envelhecem,
sua face reflecte-se nas janelas sem paisagens.
São estranhos, ainda que de alguma maneira se conheçam,
como essa mulher que subiu na praça do mercado,
com os sacos de compras transbordantes de salsa
por pouco se escapa do abrigo o seu corpo magro,
é como se vestisse roupas alheias,
quiçá não me tenha visto, quiçá eu tampouco quisesse
que me cumprimentasse; assim nos recolhemos numa imaginária
indiferença, como um casal desavindo.

Estrangeiros, ainda que de alguma maneira conhecidos
são aqueles também; como se nada tivesse acontecido,
entraram desde cima — atravessando a terra —
no comboio em marcha, com calças
de linho branco e blusa estampada.
E nós, nessa meia-luz subterrânea
não compreendemos o seu resplandecente ser,
preferiríamos recolhermo-nos, se houvesse para onde,
apertando-nos, negro contra negro, esperando
o fulgor da chegada, enquanto
olhamos o nosso tempo em relógios de pulso alheios.

Já faz tempo que ultrapassaram os sessenta.
Então, esse túnel ainda não se tinha construído;
mas estes dois não se incomodam com tais bagatelas,
é como se ainda fossem a uma borga,
bebem, despem-se antecipando-se, abraçam-se
atravessando as capas das roupas e dos corpos,
e nós, que para sobreviver renunciamos
à nossa juventude, buscamos temerosos
nossa face de antigamente em seu rosto;
essa ligeira liberdade, que desperdiçamos
juntamente com o nosso charme.


István Ágh
Tradução de Juan Carlos Mellidez
(Hungria- 1938)

sábado, 22 de agosto de 2009

M.B.



Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruisse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia - de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

Joseph Brodsky
in “Paisagem Com Inundação”,
traduzido por Carlos Leite (Portugal) - Edições Cotovia, em 2001

(Iosif Aleksandrovich Brodsky- Leningrado, Russia 24 de maio de 1940 — Nova Iorque, 28 de janeiro de 1996 -Nobel de Literatura, em 1987)

Sometimes with one I love



Sometimes with one I love I fill myself with rage for fear I effuse unreturned love.
But now I think there is no such thing as unreturned love; the pay is certain
one way or another.
(I loved a certain person ardently and my love was unreturned,
Yet out of my love have I written these songs.)


Walt Whitman
By "Leaves of Grass."
Rees Welsh & Co., Philadelphia.