A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

"OUVE O TEU CORAÇÃO"




Não esperes achar compensações na terra:
Se fizeres o bem, prêmio nenhum terás.
Os que sobem contigo os aclives da serra
Não te virão valer, se ficares atrás.

Aconselha-te alguém? É aquele que mais erra;
Ensina-te a verdade? É o mais falso e mendaz.
E o que, violento e hostil, te excita e incita à guerra
É o mesmo que desfruta as delícias da paz.

Mas não culpes ninguém. É a vida. Aceita a vida...
Como sofres, também os outros sofrerão,
Que há na maior ventura uma dor escondida.

Teu cérebro consulta, ouve o teu coração,
E, em ti mesmo, acharás a energia perdida,
A censura, o aplauso, o castigo, o perdão.

Bastos Tigre

segunda-feira, 30 de julho de 2007

'ENVELHECER...'



Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...


Bastos Tigre

Photo Old woman. Woman with a red shawl tied under the chin. (Reims. Marl. France. April 5th, 1917).

'LUTA'



A vida afronta, face a face, e luta!
Do inimigo o vigor não te intimide;
De firme braço e de alma resoluta,
Antes que sejas agredido, agride!

Afronta, a frio, calmo, a força bruta;
Nunca deixes insulto sem revide.
E fraco, embora, no calor da luta,
Não mostres, nunca, que tens medo à lide.

Vencer ou ser vencido — eis o dilema
Na existência — do instante da partida
Até chegar da estrada à meta extrema.

Não te humilha a batalha, por perdida;
"Lutar ainda!" eis, do homem forte, o lema,
Pois a vida sem luta é a morte em vida!


Bastos Tigre

'FELICIDADE'



Feliz do que foi sempre desgraçado,
E só viu, na existência, a desventura,
Pois, este, nem por sonhos, conjetura
No que consiste ser-se afortunado.

Se não teve prazeres no passado,
Reviver o passado não procura;
Que a vida é sempre má se lhe afigura.
E, sem consolo, vive consolado.

Triste é os tempos vividos, venturosos,
Comparar às agruras do presente;
Que mágoas só as tem quem teve gozos.

O mal é nada mais que o bem perdido;
Não dói tanto a desdita permanente
Como o não ser feliz, já o tendo sido.


Bastos Tigre
in 'Poesia Completa.'

'CRER'




Entre o crer e o não crer o homem vacila;
E vacila e duvida porque pensa.
Não pode a mente repousar, tranqüila,
Nem mesmo na certeza da descrença.

Ora, na Fé, o espírito se asila;
Crê. Da Razão as deduções dispensa...
Ora, analisa, decompõe, destila
E, da ciência ao crisol, exclui a crença.

Mas a crença subsiste, onipresente;
Argumentos aos mil o sábio emprega
E, afirmando o "não crer", é, em suma, um crente.

Deus, como a luz do sol, deslumbra e cega;
E, por querer fitá-lo frente a frente,
O ateu se ofusca, fecha os olhos — nega.


Bastos Tigre

'ETERNA INCÓGNITA'



Não sei quem sou nem sei por que motivo
Vim ao mundo e o que nele vim fazer.
Sei que penso e, portanto, sei que vivo,
Neste anseio instintivo de viver.

Porque procedo do homem primitivo,
Há rugidos de fera no meu ser.
Bom e mau, triste e alegre, humilde e altivo,
Não me posso, a mim mesmo, compreender.

Pois se, de mim, não sei causa e destino,
Que dos outros, do mundo, saberei?
Que definir, se a mim não me defino?

E sigo, ao léu da vida, a ignota lei,
Descrendo das verdades que imagino
E acreditando em tudo o que não sei.


Bastos Tigre

'ENVELHECER... (II)'



Boa noite, velhice, vens tão cedo!
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo...

Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo;
Nos teus cabelos como a prata é linda!
Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda!
Fica à vontade. Não me fazes medo.

E ela assim me falou, em tom amigo:
— Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.

Mas, da vida na estúrdia alacridade,
Não me viste viver, seguir contigo...
Eu sou, amigo, a tua mocidade.


Bastos Tigre

'VITA BREVIS'



"A vida — dizes tu — tão curta é a vida!
Setenta anos... oitenta... e é a morte, é o nada!
Não vale a pena tão penosa lida
Para tão breve e rápida jornada"...

É que medes a vida mal medida,
Aos teus cinco sentidos limitada,
Entre um tálamo e um túmulo vivida,
Pela ambição e o egoísmo partilhada.

Mas vive além da tua natureza,
Foge à matéria e o espírito exercita
Em ações de Bondade e de Beleza;

Belo e útil faze quanto em ti palpita
E sentirás, com glória e com surpresa,
Como a vida é imortal, indefinida...


Bastos Tigre

'É TARDE'




De erro em erro transcorre a mocidade:
É o erro o nosso pão de cada dia;
E, quando o acerto alheio se copia,
Longe se está do acerto e da verdade.

Vão-se os deuses de nossa idolatria;
Vêm as traições do amor e as da amizade;
Uma boca, mentindo, nos persuade,
E num olhar que ilude se confia.

Novas lições aprendem-se, contudo,
Neste, da vida, prolongado estudo
Em que a luz, pouco a pouco, se revela.

Erros... lições... E escoa-se a existência...
Vem-nos, enfim, com os anos, a experiência,
Porém, já agora, que faremos dela?


Bastos Tigre

'MISTÉRIO DA VIDA'




Procuras desvendar, cérebro humano,
O segredo das outras existências;
Com as teses e as hipóteses das ciências
Penetras do mistério o fundo arcano.

Mostra-te o acerto erradas conseqüências;
Novo engano corrige o velho engano;
Mas não recuas e, em labor insano,
Sondas almas, espíritos, consciências.

E estudas e investigas, de tal sorte
Que, transpondo a amplidão indefinida,
Em demanda do caos traças o norte.

Descobres, entre as sombras escondida,
A morte e quanto vem após a morte.
E da vida? E que sabes tu, da vida?


Bastos Tigre

EGOÍSMO



É por meu próprio bem que eu quero o bem alheio;
Porque busco ser bom é que me torno egoísta,
Pois, a todo momento, olhando o mundo, anseio
Transformar em prazer o que me passa à vista.

O pranto me horroriza, os lamentos odeio,
Apavora-me a dor que os corações contrista;
Quanto o prazer é belo, o sofrimento é feio,
À luz espiritual do meu senso de artista.

E jamais direi "não" a quem meu "sim" procura;
Compelido a julgar, prefiro ser mau juiz,
A criar com o castigo uma nova amargura.

E se a alguém já fiz mal, a mim mesmo é que o fiz;
Pois é, do meu egoísmo, a suprema ventura
Ver, em redor de mim, todo mundo feliz.


Bastos Tigre

"LUTA INTERIOR"



Quem vive dentro em mim que ruge e clama
Ou murmura, em soluços, uma prece?
Que, ora, nas fráguas do prazer se inflama,
Ora torturas infernais padece?

E em mim, urdindo das paixões a trama,
Tece intrigas de amor e de ódio as tece.
Não sei se me quer mal, não sei se me ama;
Sei que a minha vontade lhe obedece.

É um ser somente? Serão dois? suponho
Ver e ouvir entre as brumas de um mau sonho.
Peleja singular, áspera e bruta.

E imagino, em presença desta cena,
Que sou a arena e nada mais que a arena.


Bastos Tigre

O EXCELSO INVENTO



Homem! Venceste a terra, o ar e o oceano;
Dominaste a água, o fogo, a luz, o vento,
Puseste asas no corpo: — o aeroplano;
Fizeste o rádio: — asas do pensamento.

Foste da ameba ao sol: de arcano a arcano,
Traçaste as leis do etéreo movimento,
Homem divino, ou semideus humano,
Corrigiste a Criação com o teu Invento!

Mas, ai das tuas invenções supernas!
Vivemos como os homens das cavernas,
De morte e roubo, corruções e engodos.

Quando farás com que da terra farta,
Tudo fraternalmente se reparta
E o que a terra produz seja de todos?

Bastos Tigre

'DEUS HUMANO'




Assusta-me este Deus de barba imensa,
Pai severo e tirano à moda antiga,
Que com o fogo do inferno os maus castiga
Porém, na terra, os bons não recompensa.

Este Deus que a adorá-lo nos obriga,
Mas que só ama a quem o adula e incensa
Nunca há de ser o Deus da minha crença
Que eu venere e entre cânticos bendiga.

O Jeová que no Antigo Testamento
Os profetas nos pintam, truculento,
É um velho Deus, motivo de pavor.

Moço é o meu Deus, de eterna juventude:
Perdoa. Todo o mal muda em virtude.
De tão humano, é quase um pecador.

Bastos Tigre

'SUBCONSCIÊNCIA'




Existe em nós um grande amor adormecido
Que sentimos vibrar dentro do nosso eu;
Será recordação de um afeto perdido
Que tivemos um dia e desapareceu?

Penso, às vezes, ouvir, num murmúrio dorido,
A voz de um velho amor, muito meu, todo meu,
Sem me lembrar, sequer, que ele tenha existido,
Mas saudoso de um bem que ele jamais me deu.

Terá vivido em mim numa pregressa vida,
E é, hoje, qual o aroma, a essência de uma flor,
Como num vaso, na minha alma recolhida?


Bastos Tigre

domingo, 15 de julho de 2007

'ETERNA INCÓGNITA'


(Claude Théberge)

Não sei quem sou nem sei por que motivo
Vim ao mundo e o que nele vim fazer.
Sei que penso e, portanto, sei que vivo,
Neste anseio instintivo de viver.

Porque procedo do homem primitivo,
Há rugidos de fera no meu ser.
Bom e mau, triste e alegre, humilde e altivo,
Não me posso, a mim mesmo, compreender.

Pois se, de mim, não sei causa e destino,
Que dos outros, do mundo, saberei?
Que definir, se a mim não me defino?

E sigo, ao léu da vida, a ignota lei,
Descrendo das verdades que imagino
E acreditando em tudo o que não sei.

Bastos Tigre