A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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terça-feira, 14 de outubro de 2008

'SONHOS MORTOS'




Tive sonhos azuis, na mocidade,
Que vinham, como pássaros em festa,
Encher-me o seio – um canto de floresta –
De gratos sons, de viva alacridade.

Mas um dia a cruel realidade
Pôs-lhes em cima a rude mão funesta
E exterminou-os... Nenhum mais me resta
Na minha negra e triste soledade.

Hoje o meu seio inerte, mudo e frio,
Se converte em túmulo sombrio
Por sobre o qual gementes e tristonhos,

Alvejantes fantasmas se debruçam:
São as meigas saudades que soluçam
Sobre o jazigo eterno dos meus sonhos.


Pe Antonio Thomaz
in ‘Sonetos”
(1.868-1.941)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

'Contraste'



Quando partimos no verdor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, célebres, ufanos,
Vamos marchando descuidosamente;
Eis que chega a velhice, de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos.

Então, nós enxergamos claramente
Como a existência é rápida e falaz,
E vemos que sucede, exatamente,

O contrário dos tempos de rapaz:
– Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás.

Pe Antônio Thomaz

'LACRIMAE RERUM'



Ouço-as gemer em convulsões estranhas
As árvores senis; choram os ventos,
Corre o pranto dos rios alvacentos
Pelas rugosas faces das montanhas.

O mar, fervendo em mal contidas sanhas,
Povoa o ar de queixas e lamentos;
Pelos vulcões, em vômitos sangrentos,
Expele a terra as cálidas entranhas.

No ocaso expira o sol todos os dias,
E se veste de luto pelo morto
O lago, o bosque, o vale, as serranias.

E à noite vem, com toda a mágoa sua,
Sobre as mágoas da terra sem conforto,
Velar, chorando, a compassiva lua.


Pe Antônio Thomaz
in 'Sonetos'
(1868-1941)

domingo, 15 de julho de 2007

CONTRASTES



Quando partimos, no vigor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente,
E vão ficando atrás os desenganos.

Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando, descuidosamente...
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos!

E é só então que vemos claramente
Quanto a existência é rápida e fugaz!
E vemos que sucede exatamente

O contrário dos tempos de rapaz:
— Os desenganos vão conosco à frente,
E as esperanças vão ficando atrás!

Padre Antônio Tomás

segunda-feira, 9 de julho de 2007

'SONHOS MORTOS'



Tive sonhos azuis na mocidade
que vinham, como pássaros em festa
encher-me o peito - um canto de floresta –
de gratos sons, de viva alacridade.

Mas um dia a cruel realidade
pôs em cima a rude mão funesta
e exterminou-os... Nenhum mais me resta
na minha negra e triste soledade.

Hoje o meu peito inerte, mudo e frio,
se converteu num túmulo sombrio
por sobre o qual, gementes e tristonhos

alvejantes fantasmas se debruam:
- são as meigas saudades que soluçam
sobre o jazigo eterno dos meus sonhos!


Padre Antōnio Tomás