A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.
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quarta-feira, 11 de abril de 2012

LIII


Aspiro a eternidade neste vento.
que entra pela janela, de surpresa.
Ah! pudesse eu saber se o pensamento
é uma emanação da natureza...

Onestaldo de Pennafort
In: Poesia

COMBOIO


Por sobre as águas cismam os ventos,
cismam os ventos sobre as águas.
Os navios sonolentos
lá vão sobre as águas...


À proa levam esperanças,
na popa pressentimentos.
O mar desfia ondas mansas,
enquanto cismam os ventos.


A água leva e traz os navios
e os pensamentos...
A viagem é dos navios,
mas quem comanda são os ventos.


Onestaldo de Pennafort
In: Poesia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INSCRIÇÃO


A beleza do céu anda na terra...

No silêncio das árvores verdes,
no luxo
dos jardins de sombras onde passeiam
as aves ilustres
em torno aos lagos, que são taças de luar...

A beleza do céu anda na terra...

Onestaldo de Pennafort
Poesias (1957)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

...





Sob o céu tão azul que se espiritualiza,
o jardim vai fechar as pétalas das rosas
como alguém que cerrasse as pálpebras medrosas
para ver o que só no sonho se divisa.

Tudo adormece em torno... E a paisagem, mais lisa
que um esmalte, desfaz-se em sombras vaporosas...
Nascem apenas no ar, vêm das moitas cheirosas
arabescos de sons de flauta, pela brisa...

A sombra desce e abranda as cores... E do luxo
do jardim silencioso, onde as luzes se enfeixam,
subsiste só o esguicho esvelto do repuxo.

E, sob o céu que foge em tons de anoitecer,
fecham-se as flores, como os olhos que se fecham
para ver o que só no sonho podem ver.



Onestaldo de Pennafort-Brasil-
- Interior - Poesia

AUSÊNCIA





I


Para atenuar esta saudade longa,
acendo o aroma de um cigarro inglês.
Pelo ar, a noite longa se prolonga
com a paciência doentia de um chinês...

II

Que saudade de ti, que estás distante,
tão distante, mas tanto, que parece
que estás doente, quase agonizante...

E, porque estás agonizante,
minha saudade toma a forma de uma prece...

III

Fecha os teus olhos tristes, para que eu
não chore ao vê-los! Não desejo vê-los!
Cobre-os na noite azul dos teus cabelos...
Apaga o olhar... pensa que ele morreu...

Fecha os teus olhos e olha para dentro
de ti mesma... Que vês? Ninguém? – Ninguém.
Mas ai de mim, que nunca me concentro,
para não ver, dentro de mim, alguém...



Onestaldo de Pennafort-Brasil-

domingo, 2 de setembro de 2007

"VESPERAL"





Dentro do véu da tarde silenciosa,
os jardins adormecem a sonhar...
Choram, sonhando, a sorte de uma rosa
que vai morrer nos braços do luar.

Dentro do véu da tarde silenciosa,
alguém soluça, erguendo os braços no ar,
uma velha balada dolorosa
de um grande amor que ninguém soube amar...

Pela tristeza de um longínquo olhar,
dentro do véu da tarde silenciosa,
beijo uma sombra que me faz chorar.

Canta um repuxo na hora vaporosa...
Quantas flores ainda vão tombar
dentro do véu da tarde silenciosa...



Onestaldo Pennafort-Rio de Janeiro-Brasil

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

"À ENTRADA DO INVERNO"



As cigarras, que andavam alegrando
a minha grande solidão aqui,
fugiram, tontas, como folhas, quando
viram que eu ia perguntar por ti.

E o mar, esse estendal de águas imenso
que vai e vem a marulhar – o mar
levou bem longe o seu clamor suspenso,
quando os lábios abri para falar.

Também o sol, esse operário antigo
que lança bênçãos pela sua luz,
negou-me o seu calor lúcido e amigo,
mal o teu nome a murmurar me pus.

Só a saudade, a tua irmã, chorando
ao ver a minha solidão aqui,
me abriu os braços amorosos, quando
sentiu que eu ia perguntar por ti.


Onestaldo de Pennafort
in Escombros Floridos

terça-feira, 17 de julho de 2007

ARTE POÉTICA



Da janela de onde olha a paisagem lá fora,
a escutar o fluir da água que canta e chora,
por sob a ponte, sempre em mesmo diapasão,
como se o rio fosse a música do chão,
o poeta sonha...

Desce a sombra nas calçadas.
Alguém passa assobiando umas notas trinadas.
O ar amortece ...A brisa é terna como um beijo
nos olhos...E, ao sabor da brisa, sem desejo,
sem ânsias e sem pressa, erra o seu pensamento,
vadiamente, como um pássaro ao relento...

Pouco a pouco, porém, a doçura da tarde
que os contornos suaviza e que as folhas encarde,
e esse esparso langor da hora crepuscular
em que tudo parece estático, a cismar,
despertam na sua alma ignota melodia.

Memória... exaltação... delícia...nostalgia...
Silêncio. A natureza arfa e se exaure, lassa.
Fechar de asas e sons e ruídos em que passa
a eterna indagação do crepúsculo... E quando
no céu amplo e disperso
nasce a primeira estrela cintilando,
nasce o primeiro verso...


Onestaldo de Pennafort
In: Poesia

À ENTRADA DO INVERNO



As cigarras, que andavam alegrando
a minha grande solidão aqui,
fugiram tontas, como folhas, quando
viram que eu ia perguntar por ti.

E o mar, esse estendal de águas imenso
que vai e vem a marulhar - o mar
levou bem longe o seu clamor suspenso,
quando os lábios abri para falar.

Também o sol, esse operário antigo
que lança bênçãos pela sua luz,
negou-me o seu calor lúcido e amigo,
mal o teu nome a murmurar me pus.

Só a saudade, a tua irmã, chorando
ao ver a minha solidão,
me abriu os braços amorosos, quando
sentiu que ia perguntar por ti.


Onestaldo de Pennafort
- In Poesia

VESPERAL




Dentro do véu da tarde silenciosa,
os jardins adormecem a sonhar...
Choram, sonhando, a sorte de uma rosa
que vai morrer nos braços do luar.

Dentro do véu da a tarde silenciosa,
alguém soluça, erguendo os braços no ar,
uma velha balada dolorosa
de um grande amor que ninguém soube amar...

Pela tristeza de um longínquo olhar,
dentro do véu da tarde silenciosa,
beijo uma sombra que me faz chorar.

Canta um repuxo na hora vaporosa...
Quantas flores ainda vão tombar
dentro do véu da tarde silenciosa...


Onestaldo de Pennafort
- In Poesia

domingo, 15 de julho de 2007

"PREDILEÇÃO"




Amo os gestos estáticos, plasmados
numa atitude lenta de abandono;
certos olhares bêbedos de sono
e a poesia dos muros desbotados...

Amo as nuvens longínquas... o reflexo
na água dos foscos lampiões...as pontes...
a sufocação ríspida das fontes
e as palavras poéticas sem nexo.

Mas, sobretudo, eu amo esses instantes
em que, como dois presos foragidos,
os meus olhos se embrenham, distraídos,
na natureza - como dois amantes...


Onestaldo de Pennafort
- Recapitulações - In Poesia

'II'



Tristeza de ficar sob a lâmpada amiga
revivendo o passado ou recordando alguém
que já foi nossa amiga e hoje é nossa inimiga,
que hoje nos quer tão mal e já nos quis tão bem.

Remorso de evocar uma afeição antiga
que a gente desprezou à toa, como quem
se satura de ser feliz e se fatiga,
afinal, de tornar a outrem feliz também.

Doçura de pensar que em nossos dias ainda
existe alguém, alguém que é mais suave e linda
de todas, a mais bela, alguém que é o próprio amor,

que as nossas emoções, já mortas, de vividas,
de novo acordar, para dar-lhes mil vidas,
pela voz do prazer ou pela mão da dor.


Onestaldo de Pennafort
- Interior - In Poesia

'V III'




Suavemente, mansamente, docemente,
como se levantasse uma alma de criança,
como se segurasse um coração doente,
tomei-lhe o rosto para olhar seus olhos, mansa,

suavemente, docemente, tristemente...
E, fitando-a no olhar, eu lhe disse: " Descansa.
Eu saberei te amar como a uma amiga ausente
que passou e ficou apenas na lembrança.

Tu partirás e eu ficarei na noite calma,
só, com a minha tristeza e a dor de que me inundo
com amor, como quem chega a conhecer sua alma.

Que é na dor, como ao fundo de um espelho fundo,
aberto um dia ao nosso olhar como uma palma,
que a gente se conhece e acorda para o mundo."


Onestaldo de Pennafort
- Interior - In Poesia

segunda-feira, 9 de julho de 2007

'PREDILEÇÃO'




Amo os gestos estáticos, plasmados
numa atitude lenta de abandono;
certos olhares bêbedos de sono
e a poesia dos muros desbotados...

Amo as nuvens longínquas... o reflexo
na água dos foscos lampiões...as pontes...
a sufocação ríspida das fontes
e as palavras poéticas sem nexo.

Mas, sobretudo, eu amo esses instantes
em que, como dois presos foragidos,
os meus olhos se embrenham, distraídos,
na natureza - como dois amantes...

Onestaldo de Pennafort
In 'Poesia'

'O ÚLTIMO PERFUME'



Foi o passado, foi, que veio
a mim, como um amigo ausente,
só porque ouvi, no ambiente cheio
de um perfume de antigamente,

Aquele Noturno dolente
que punha um susto no teu seio
e que eu ouvia atentamente,
como ora, em êxtase, escutei-o.

Foi o passado, a instante mágoa
da fonte em seu cântico de água
rindo e chorando no jardim...

Foi toda a história de uma vida,
de um lento acorde ressurgida
a um vago aroma de jasmim.

Onestaldo de Pennafort
- Recapitulações - In Poesia

sábado, 7 de julho de 2007

'XV'



Sob o consentimento das estrelas,
nós dois, repletos do silêncio antigo
que os que vivem a amar trazem consigo,
nos amaremos ternamente,pelas

noites de calma e de luar profundo
em que as almas, dos olhos que se abordam,
em gotas de água trêmula transbordam,
como a água que enche o olhar do lago fundo...

E se um dia sentirmos que se finda
o amor, mais triste do que a morte, ainda
tentaremos uma última ternura

para que o nosso amor morra a viver,
como uma nota de órgão que pendura,
como as chamas sonâmbulas que acordam

e ardem mais alto, no ar, para morrer...


Onestaldo de Pennafort
- Interior - In Poesia

'Soneto"I"



Sob o céu tão azul que se espiritualiza,
o jardim vai fechar as pétalas das rosas
como alguém que cerrasse as pálpebras medrosas
para ver o que só no sonho se divisa.

Tudo adormece em torno... E a paisagem, mais lisa
que um esmalte, desfaz-se em sombras vaporosas...
Nascem apenas no ar, vêm das moitas cheirosas
arabescos de sons de flauta, pela brisa...

A sombra desce e abranda as cores... E do luxo
do jardim silencioso, onde as luzes se enfeixam,
subsiste só o esguicho esvelto do repuxo.

E, sob o céu que foge em tons de anoitecer,
fecham-se as flores, como os olhos que se fecham
para ver o que só no sonho podem ver.


Onestaldo de Pennafort
- Interior -in "Poesia

"ROMANCE"



Subiam do silêncio do jardim,
para a janela aberta do aposento,
perfumes brancos, de jasmim...
Dentro, num ritmo sonolento,
alguém abria o luar de um noturno nevoento
sobre o teclado de marfim.

Depois, um beijo alto e violento...
E houve por tudo um estremecimento,
uma angústia de fim...
E o beijo, num momento,
misturou-se ao perfume do jasmim
e ao noturno nevoento
que ressoava no aposento...

Hoje, para evocar o que passou, assim
como tudo que passa ao vento,
alguém acorda no teclado de marfim
um noturno nevoento...
E, da janela do aposento
sobre o siêncio do aposento
sobre o silêncio do jardim,
procura aquele beijo violento
num perfume de jasmim...

Onestaldo de Pennafort - In Poesias
Photo -Jamim de Madagascar.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

CAVALEIRO ANDANTE



Se vais em busca da Fortuna, pára:
nem dês um passo de onde estás. . . Mais certo
é que ela venha ter ao teu deserto,
que vás achá-la em sua verde seara.

Se em busca vais do Amor, volta e repara
como é enganoso aquele céu aberto:
mais longe está, quando parece perto,
e faz a noite da manhã mais clara.

Deixa a Fortuna, que te está distante,
e deixa o Amor, que teu olhar persegue
como perdido pássaro sem ninho.

... Porém, ó negro cavaleiro andante,
se vais em busca da Tristeza, segue,
que hás de encontrá-la pelo teu caminho!

Onestaldo de Pennafort Caldas

A CANÇÃO DA FELICIDADE




Não foste para mim, Felicidade!
O sorriso que levas a outras bocas
e que as enche das ilusões mais loucas,
vem a mim sob a forma de saudade.

Saudade do que nunca tive, da ventura
que todos conseguiram, menos eu.
Saudade de uma estranha criatura
que devia ser minha e já morreu.

Nunca pensei que a vida fosse assim,
Tão vazia, tão áspera e tão triste!
Será verdade que o prazer existe?
Felicidade, não tens nada para mim?

Será possível que na tua taça
nem ao menos reste um pouco desse vinho
que dás aos outros a beber, pelo caminho
onde minh’alma, quase morta, passa?

Ai, vinho que embriagas mais que tudo!
Ai, lábios de mulher que eu não beije!
Mãos amorosas, mãos macias de veludo
que me espancaram quando desejei!

Felicidade! Sonho azul da mocidade!
Ânfora cheia do perfume de mil bocas,
perfume cheio de carícias loucas,
eu só conheço a tua irmã Saudade.

Não foste feita para mim, Felicidade!


Onestaldo de Pennafort