A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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quinta-feira, 28 de maio de 2009

'MOSTRADOR'



O ponteiro grande
dá volta ao mundo
de hora em hora;
já o pequeno, não.
Parece-nos parado.
Parado entre o futuro
e o tempo ido.
Irmãos do desencontro:
Um, o ponteiro
da esperança, o outro
o do olvido.

O ponteiro grande
gorjeia de hora em hora.
O pequeno é silente:
Todas as coisas
que caminham pra não
voltar, caminham
assim: Imovelmente.

Horizonte. Atributo
do último minuto.

Cassiano Ricardo
in: Poemas Murais

quarta-feira, 11 de março de 2009

VIAGEM PERDIDA



Há um longínquo país que às vezes visitamos;
extasia-se o olhar que os recantos lhe sonde,
entre o suave frescor dos seus verdes recamos
e a luxúria pagã que envolve cada fronde ...

Essa é a pátria encantada e longe, que sonhamos
conquistar, algum dia, ao mistério que a esconde.
Oásis que nos estende a sombra dos seus ramos
e ao grito do viandante estremece e responde ...

Vós, que andais a sonhar, pela existência em fora,
esqueci, no passado, as ilusões sepultas,
ide a esse fim do mundo onde a Esperança mora.

Ide, mas não proveis dos frutos que colherdes,
nesse reino infeliz, de esmeraldas ocultas,
nesse estranho pomar que só dá frutos verdes ...

Cassiano Ricardo
in Antologia Poética

sexta-feira, 11 de julho de 2008

"Riso e lágima"




Há uma lágrima, sempre atenta, em nossos olhos.
'Luís Edmundo'



Morre na alma um sorriso e a lágrima, sentida,
surge, treme, de leve, e traz à vossa face
o signo natural da tristeza que nasce
e não pode viver tão secreta, escondida.

Muitas vezes, porém, nas horas em que a vida
alegre se vos faz, como se se ocultasse
viverá - quem o sabe? - inútil, esquecida.

E assim, quando esqueceis a vossa desventura
a tristeza se esvai e a lágrima procura
ocultar-se, qual flor que nasceu entre abrolhos.

No entanto, para mim, há destas variedades:
passo a vida a cantar para matar saudades,
vivo sempre a sorrir com lágrimas nos olhos...


Cassiano Ricardo
(Dentro da noite, 1915.)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

"A RUA"





Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.


A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.


Cassiano Ricardo