A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

'SONETO DA MEMÓRIA'



Umbral de sóis: de súbito, incendido
risco no azul. Sob o silêncio arfante,
a alma submersa em mar desconhecido,
dardo de adeus cortando o céu ressoante.

Nos sonhos da memória o dolorido
rol de presenças. Sono murmurante
do tempo ambíguo em sombra percorrido:
passos descompassados de passante

pelas trilhas de cinza, ou nas estradas
já imunes ao lume da esperança.
(Mas nas sendas da noite soam os

ecos das vozes tímidas e amadas,
e as cirandas redançam sua dança
quando as boninas dormem nos chãos nus.)


Waldemar Lopes
In: Cinza de Estrelas

domingo, 1 de junho de 2008

"Soneto da esperança"



Tempo de azul e não. Desencantado
reino do que não foi, mundo postiço,
ontem feito de agora, hoje passado:
na essência do não-ser o instante omisso.

(Margaridas da tarde, onde o seu viço?
Choro de água nos ares, lento e alado
caminho cor de sonhos? Insubmisso
mar sem datas, desfeito e recriado?

Suaves rechãs por onde a mão do vento
esculpia no verde a sombra exata
e as imagens que o olhar já não alcança.

Aventuras tão-só do pensamento:
arco de azul, a tarde era fragata
supérflua, para o exílio na esperança.)


Waldemar Lopes
in "Sonetos do Tempo Perdido"

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

"SONETO DAS IMAGENS INTERIORES"



Mistério das imagens interiores.
Imersas nestes mares de abandono
as sementes de fogo geram flores:
rosas de pó nas lâminas do outono.

Transfigurada, a fria luz de sono
vela de cinza a face dos pastores,
e os súditos do tempo, e os reis sem trono,
sob o mudo legado de outras dores.

Na áspera latitude um rio corre
branco de eternidade. As nebulosas
vão-se formando, enquanto o sonho morre.

Há pássaros absortos na obcecada
cisma da solidão; e mãos ansiosas
abrem portas de sombra para o nada.


Waldemar Lopes
1911-2006
Pernambuco

"SONETO DA CONTEMPLAÇÃO"





Claro espasmo de ritmos e de cores.
Branco esplendor da força, desatada
nos cânticos, nos prantos, nos clamores
da imensa arquitetura instável. Cada

síntese dos abismos são rumores
de líquido tropel. Desordenada,
a memória das águas: estertores
escachoantes na terra violentada.

A consciência do ser tímida e atônita
no pânico suicida, pobre presa
de íntima pequenez, mágoa recôndita.

De súbito, a emoção do êxtase alado:
paira pairando, a límpida beleza
do vôo azul de um pássaro calado.


Waldemar Lopes

"SONETO DA NOITE BRANCA"




No insólito do azul é melodia
a paz dos claros céus. Lua madura
modela imagens sobre a serrania,
e flui o tempo em lírica doçura

nas almas e nos sonhos. Noite pura
de silêncio esplendor, magma do dia.
(Antes que no torpor da angústia escura
brilhe a estrela da morte em fronte fria,

o tumulto das ânsias se asserena
e o coração aquieta a face nua,
pois, se pensa, também está sentindo;

é que não há, Pessoa, alma pequena
sob a noite solar: carne de lua
transluminosamente azuluzindo.)


Waldemar Lopes

"Soneto das nuvens e da brisa"



Os pássaros nostálgicos... Errantes
mágicos do crepúsculo, soprando
das longas asas trêmulas o brando
vento da tarde; e logo, em céus cambiantes,

alvos blocos de pluma vão distantes
e efêmeras imagens modelando:
sereias e hipocampos, entre o bando
de carneiros, e rosas, e elefantes,

cães e estrelas, dragões, ou aguçadas
torres, na superfície roseoviva
por onde voga, acesa, a caravela

e as longas asas captam, retesadas,
a poesia da tarde, fugitiva,
mas eterna no instante em que foi bela.


Waldemar Lopes

"SONETO DA ESPERANÇA"




Tempo de azul e não. Desencantado
reino do que não foi, mundo postiço,
ontem feito de agora, hoje passado:
na essência do não-ser o instante omisso.

(Margaridas da tarde, onde o seu viço?
Choro de água nos ares, lento e alado
caminho cor de sonhos? Insubmisso
mar sem datas, desfeito e recriado?)

Suaves rechãs por onde a mão do vento
esculpia no verde a sombra exata
e as imagens que o olhar já não alcança.

Aventuras tão-só do pensamento:
arco de azul, a tarde era a fragata
supérflua, para o exílio da esperança.)


Waldemar Lopes

"SONETO DOS VAGA-LUMES"




Era o impúbere céu, era a anteaurora
translúcida. Na meia-luz contida
de súbito se abria, aura sonora,
a flor do canto, logo emurchecida.

Mas no chão da memória surge agora,
de matérias do tempo concebida,
visão morta da noite feita aurora
(e uma vida fundida noutra vida).

Chispas de azul verdefosforescendo
trazem à solidão da terra acesa
o secreto esplendor da alma apagada.

Ritmo de lume e cor, nascem morrendo,
enquanto cresce –tensa de beleza,
madura de silêncio – a madrugada.


Waldemar Lopes

"Soneto do Efêmero"



Sangram os mulungus no ermo encantado
frágeis flores de brasa. O canto insone
- pobre pássaro rouco no ar crispado –
voa da concha azul do gramofone.

Sobre a face das almas desce o cone
de sombras, antes que, no ilimitado
reino interdito, a vida se abandone
à lógica do tempo. E lado a lado

o homem e as coisas: a arca subjetiva
1. onde se funde o dúplice lamento,
2. onde tudo ao mudável se reduz

e os ontens e amanhãs, matéria viva
dos seres, desintegram-se no vento
como as almas, o canto, os mulungus.


Waldemar Lopes
in "Sonetos do Tempo Perdido"

"SONETO DA CASA MORTA"




Rubra, a data sangrando no vazio
da casa morta, sonho prisioneiro,
e eco do tempo longe o vozerio
das cirandas em flor, quando o primeiro

sangue do luar cavava o seu macio
poço. (Depois, o triste companheiro
das sombras ia amar a noite e o rio,
e a leve brisa abria no canteiro

papoulas encarnadas.) As perdidas
bandeiras reflorindo naus de ausência
nessas rotas de cinza consumidas.

Na casa morta, vozes não ouvidas:
luz do silêncio, música da essência
de coisas mais sonhadas que vividas.


Waldemar Lopes

"SONETO DA INSÔNIA"




Na emanação da noite o leve peso
das sombras ancestrais. Vozes tardias
em vago marulhar, talvez desprezo
às turvas ambições, seiva dos dias.

E sobre o ser profundo, vivo-aceso,
o lume das vigílias. (Nas sombrias
urnas do tempo há de ficar defeso
o enigma das mortais mitologias

imunes à esperança.) Agora é essa
onipresença onírica, ou apenas
a ácida indiferença à vã promessa:

em seu ambíguo reino indefinido
a consciência noturna sofre as penas
da vida, o rude esforço sem sentido.


Waldemar Lopes

"SONETO DO EXÍLIO"



Mais além, leve e alada, a imaginária
arquitetura irreal, sombra a crescer
sobre a terra dos mortos, solitária.
Na falsa noite não deixou de ser

ouvida a melodia perdulária.
Se acaso o húmus da vida fez nascer
luz esquiva na angústia milenária,
é chegado o momento de esquecer


as obscuras heranças desvividas
por desamor e amor: frágil reinado
em manhãs de magia, pressentidas

além de tempo e espaço. (E, roto o manto,
na torre enoitecida um exilado
rei de si mesmo. Que lhe resta? O canto.)



Waldemar Lopes
De Sonetos do Tempo Perdido

"SONETO DE JANEIRO"




Os cânticos, as vozes, a memória
do futuro. No efêmero da aliança
entre o amanhã e o agora se relança a
frágil rede de equívocos. A glória,

o amor, o tédio, a ira, a insegurança:
ó matéria do ser, breve e incorpórea!
Nas almas fustigadas de esperança
a atônita alegria, transitória

dádiva do mistério: ínfimo instante =
sopro de eternidade no ar perplexo.
Sobre os doze degraus do calendário

urde-se a trama: côncavo/convexo
é o caminho de espelhos, posto diante
do homem, para o imprevisto itinerário.


Waldemar Lopes

"SONETO DOS SÍMBOLOS EFÊMEROS"




Os símbolos efêmeros: memento
da vida breve: música secreta
– do tempo, a se esvair na asa do vento,
– do sonho, a esmaecer a chama inquieta.

Cresça no céu de pedra o véu nevoento;
junto às nuvens se perca a doida seta
rumo ao não e ao talvez: o sentimento
atrela-se a uma estrela, e essa incompleta

visão apaziguante é misteriosa
luz transcendência: rútila persiste,
seiva do ser, essência poderosa,

pois se foi dito o quanto a carne é triste,
arde em perfume o espírito da rosa
e é mais belo o que só no sonho existe.


Waldemar Lopes