A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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terça-feira, 31 de março de 2009

SAUDADE




Saudade! A alma curou-se da ferida:
Mas quantas cicatrizes na lembrança!
Passa no ar uma queixa dolorida
E há um véu por tudo quanto a vista alcança.

Horas de sombras: o cortejo avança ...
Saudade! Filigrana entretecida
Com fios de ouro e prata, que a esperança
Deixa por todos os sarçais da vida.

Longe, no campanário abandonado,
O sino dobra, lúgubre. Uma prece
Sobe do coração para o passado.

A tarde morre, misteriosa e calma.
Vão-se as últimas asas. Anoitece.
O sino cala-se. Anoitece a alma ...


Heitor Lima
in Primeiros Poemas

AO VENTO



Foi para te colher neste ocaso tristonho,
Fruto do sofrimento,
Que eu, cantando, plantei a árvore do meu sonho,
Agora desfolhada pelo vento.

Uma vela, afrontando as surpresas do abismo,
Desaparece ao largo ...
asas fogem no azul ... a noite desce ... eu cismo ...
Como trava o teu sumo, fruto amargo!

Afinal, que ficou do indizível encanto
Dessas horas felizes ?
Luto no coração, na fronte vincos, pranto
Nos olhos, e no peito cicatrizes.

Quanto padecimento injusto a vida esconde
Nas suas emboscadas!
Nunca mais ouvirei os pássaros na fronde,
Ao clarear das auroras perfumadas ...

Da árvore que plantei só tu me restas, fruto!
E sorvo o teu veneno,
Sem uma hesitação no braço resoluto,
sem um tremor no coração sereno.

Ilusões de ternura e de felicidade,
O turbilhão vos leva ...
Vida, eu te desejei com toda a claridade:
Aceito-te, porém, com todas a treva.


Heitor Lima
in Primeiros Poemas

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

'ESPERANÇA'



Eis a aliada do amor, que volta, verde e mansa,
Mal a um sonho que morre ouve o extremo queixume:
E não tarda que da alma em cinzas, e esta aliança,
Nova Phenix, um novo Ideal surja e se emplume.

Desejo! Que te baste apenas o perfume
Das flores da ilusão que o braço não alcança.
Esperar! Quantos bens a esperança presume!
Esperança ... Derrota ... Ironia ... Esperança ...

E em vão, para imergi-la, o mar brame e retumba:
Nuvem sempre distante, ela acompanha a vida,
Do sorriso do berço à lagrima da tumba.

E quando a alma, afinal, triste e desiludida,
Treme, no horror do mundo ao qual o corpo a chumba,
A suprema esperança arma o braço ao suicida.


Heitor Lima
in 'Primeiros Poemas'

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

'Vida"



Esperança ... Depois, um peito que suspira,
Um grito, o desengano e o silêncio polar ...
Subir, para abater de mentira em mentira,
De terror em terror, de pesar em pesar!

Lá foge a última nau sobre o mar de saphira ...
Vasqueja, na expressão de um desvairado olhar,
Uma visão de amor: mas o tempo lhe atira
A derradeira pá de cal que a vai cegar.

Hesita o coração, na extrema escaramuça;
Vem, não se sabe de onde, uma surdina de ais;
Sobre a orla do passado a alma, então, se debruça.

E, no estranho pavor dos destroços finais,
Somem-se as ilusões, a saudade soluça
E a voz da Eternidade exclama: - nunca mais ! ...


Heitor Lima
in 'Primeiros Poemas'

"Cinzas"



A última brasa ardeu na cinza adusta:
Tudo passou, tudo se fez em poeira...
E na minha alma, que o abandono assusta,
Morre a luz da esperança derradeira.

O amor mais casto, a aspiração mais justa
Têm a desilusão para fronteira...
Um momento de sonho às vezes custa
O sacrifício da existência inteira!

Chama efêmera, o amor! Baldado surto,
A glória! Ah! coração mesquinho e raso...
Ah! pensamento presumido e curto...

E o amor, que arrasta, e a glória, que fascina,
— Tudo se perderá no mesmo ocaso
E se confundirá na mesma ruína.


Heitor Lima
in "Primeiros Poemas", s/ editora, 1915, RJ

terça-feira, 16 de setembro de 2008

" ASAS "



O que torna mais triste o céu sangrento
ao pôr-do-sol, são as partidas, são
os adeuses dos pássaros ao vento,
numa incerta e fugaz palpitação.

Ah! Quantas vezes, no apressado ou lento
voejar de aves que vêm e aves que vão,
tocam-se duas asas um momento
e afastam-se em contrária direção . . .

Também os nossos corações, um dia,
se encontraram: no ocaso rubro ardia
o incêndio dos amores imortais.

E - asas, na tela acesa do sol poente -
um no outro eles roçaram levemente,
para não se encontrarem nunca mais!


Heitor Lima,
São Paulo de Muriaé,Estado de Minas.
(1887-1945 )