A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 12 de janeiro de 2014

'POEMA DO AMOR SEM EXAGERO'


Eu não te quero aqui por muitos anos
Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
Do teu corpo de nuvem.

Joaquim Cardozo
(Poemas, 1947)

[Painting by Willem Haenraets]

Poema


Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.



Joaquim Cardozo


 [Painting by Willem Haenraets]

'A tarde sobe'

Ao rés da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.

Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.

Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.

A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.

A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.

Joaquim Cardozo


[Fotografia de Fernando Campanella]

terça-feira, 9 de junho de 2009

CANTO DA LUZ NO POENTE



De cinza e de aura as nuvens param
No limite da tarde que se desfaz;
E da própria luz da tarde que anoitece
Que o escuro se realiza e se refaz.

Com o olhar profundo ausculto a noite
Quando há mistura entre cinza e aura;
- E do sol, muito longe, não se sabe
Por onde vai. A natureza canta em coro.

Joaquim Cardozo
In: Um Livro Aceso e Nove Canções Sombrias

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A ORQUESTRA INVISÍVEL


John Singer Sargent

Num liso papel assim tão próximo
Com a mão percorro a escuridão.
Vou tateando levemente os seus contrastes
Vou descobrindo formas e objetos,
Ou medindo os elementos escondidos
Na ordem sem sentido e tenebrosa.

A escuridão se quebra em teclas negras
Que se encadeiam, que se dispersam. . .
Surgem teclados de instrumentos raros
Cujo som perfeito não se sabe bem.

É um som apenas? É um canto claro?
De uma sinfonia ou de uma sonata?
Noturno de Chopin em sol maior?

Do outro lado há tímbales, tambores,
O branco aparece puro e consagrado,
Na sua alvura imaculada;
Há longos fagotes, há clarinetes,
Há flautas e oboés: escondidos
No escuro cantam violinos, violoncelos;
E a luz branca brilha eternamente
Nessa orquestra invisível e nihilsonora.

O som, o cântico, a música da esquecida orquestra
Estão no fim, estão no branco-luz constante e claro.

Joaquim Cardozo
in: Poesia Completa

Vida... Vida de Mim se Despedindo



Existe um EU dentro de mim
que não me pertence
não é meu.
Mas pode estar em mim;
Do outro lado de mim.
Lado que comigo não tem contato.
Um EU antagônico para o meu ser de agora
Agora e agônico.

O que faço está mais além desfeito:
É um fazer contrafeito que morre
E renasce, depois, no meu peito.

Nada me vem contra o que está dentro de mim vizinho
O que me vem é contra o que de eterno em mim me oprime

- Aquilo que está no que era de outra vez;
E que esteve noutro sentido e ainda perdura e se antepõe
E que me destrói, me impõe, me presume e suprime.

Todos os meus atos são atos reflexos
No projetivo espelho tempo/espaço, no fechado não denso.
Correspondência injetiva, deprimente, fria, de interno entorno.


Ouço a voz paralela a minha voz,
Ouço o canto que é um eco do que, outrora, foi meu.
em conflito com o que poderia ser silêncio
se este pudesse fluir lentamente como o tempo
e ser, se pudesse, confundidamente tempo-silêncio

No que aqui é doce, no paralelo é amargo
No que aqui é macio, no paralelo é áspero
Mundo paralelo!

Nele é que vou me apagar, me sumir, me perder,
Me esconder, para sempre, no esquecer.
Noitemente amanhecer.

Joaquim Cardozo
in: Poesias Completas

terça-feira, 2 de junho de 2009

"POESIA DA PRESENÇA INVISÍVEL"



Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
— Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
— Caminho com os pés descalços na areia.
Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as colinas
— A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.


Joaquim Cardozo
(Pernambuco)

A tarde sobe



Ao rés da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.

Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.

Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.

A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.

A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.


Joaquim Cardozo

Espumas do Mar


(Tela By Gary Benfield)



Cavalos ligeiros
De eriçadas crinas
Por que sobre as ondas
Passais sem parar?
Vencendo procelas,
Ressacas em flor,
Num fulgor de estrelas
A poeira das águas
Fazeis levantar.

Espumas do mar.

Nas serenas curvas
Da carne marinha
Há sopros, há fugas
De véus a ondular;
Vestidos de rendas...
Vestidos, mortalhas
De noivas morenas
Que em noites de lua
Virão se afogar.

Virão se afogar.

Se há fomes noturnas
Mordendo e chorando,
Lívidas, remotas
Fúrias soltas no ar,
Que os lábios do vento
Se abrindo devorem
A flor de farinha
Que as vagas maiores
Irão derramar.

Espumas do mar.

Nesse fogo verde
De cinza tão branca
Que se apure um mel

De brilho sem par;
Turbinas, moendas
No giro girando
E o açúcar nascendo
Na folha das ondas
Constante a rolar.

Constante a rolar.

Sobre os seios mansos
Das baías claras
Em puro abandono
Não hei de ficar;
Saudades das ilhas,
Amor dos navios,
Segredo das águas
Nas barras dos rios
Irei desvendar.

Espumas do mar.

Em mares incertos
Irei navegar;
E direi louvores
Às velas latinas
Por bem velejar;
Louvores direi
Aos lírios de sal
E às vozes dos búzios
Que sabem cantar.

Que sabem cantar.

Teu rosto esqueci,
Teus olhos? Não sei...
Da face marcada
O espelho quebrei
De muito sonhar;
Nos laços retidos
Das águas profundas
Tesouros perdidos
Quem há de encontrar?
Espumas do mar.


Joaquim Cardozo
(Pernambuco-1897-1978)