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segunda-feira, 6 de maio de 2013
''Litania das Horas Mortas''
Por estas horas de silêncio e solidão,
Eu gosto de ficar só com o meu coração.
É nestas horas de prazer quase divino
Que eu me sinto feliz com o meu próprio destino.
Por estas horas é que a cisma me conduz
Por estradas de treva e caminhos de luz.
É nestas horas, quando em êxtase medito,
Que sinto em mim a nostalgia do infinito.
Por estas horas, quando a sombra estende os véus,
A fé me leva além dos mais remotos céus.
É nestas horas de tristeza e de saudade
Que desperta em meu ser a ânsia da Eternidade.
Por estas horas, minhas naus ousam partir
Para Istambul, para Golconda, para Ofir...
É nestas horas, Noite amiga, em teu regaço,
Que eu me difundo pelo Tempo e pelo Espaço.
Por estas horas eu somente aspiro ao Bem,
Que em vida se tornou minha Jerusalém.
É nestas horas, quando o espírito descansa,
Que me depões na fronte o teu beijo, Esperança!
Por estas horas é que eu sinto florescer,
Como os astros no céu, o jardim do meu ser,
É nestas horas de quietude que deponho,
Ó Noite! em teu altar, minha lâmpada — o Sonho.
Por estas horas é que eu gosto de sonhar,
Para ter ilusões brancas como o luar.
É nestas horas de mistério e beatitude
Que a Glória me fascina e a Poesia me ilude.
Por estas horas de tranqüila e doce paz,
Quanta serenidade o espírito me traz!
É nestas horas, quando a treva se constela,
Que ouço o teu canto nas estrelas, Filomela!
Por estas horas, a minh'alma anseia por
Teu encanto, Ventura! e teu engano, Amor!
É nestas horas de tristeza e esquecimento
Que eu gosto de ficar só com o meu pensamento.
Por estas horas eu me julgo Parsifal
Para ir pela renúncia à conquista do Graal.
É nestas horas que, como um eco profundo,
Repercute no meu o coração do mundo.
Por estas horas transitórias e imortais
Se desvanecem minhas dúvidas fatais.
É nestas horas de harmonia indefinida
Que eu tento decifrar o teu enigma, Vida!
Por estas horas, meu instinto morre, com
A intenção de ser justo, o anseio de ser bom.
É nestas horas de fantástico transporte
Que eu busco interrogar a tua esfinge, Morte!
Por estas horas, eu me enlevo assim, porque
Vela no lodo humano a luz que tudo vê...
Por tuas horas silenciosas, benfazejas,
Deusa da Solidão, Noite! bendita sejas!
Da costa e Silva
Poesias Completas
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
A Vigília do Silêncio
Apraz-me ouvir, às horas vespertinas,
Quando o ocaso desmaia o azul sidéreo,
O longo cantochão das casuarinas
Na religiosa paz do cemitério.
As árvores, em múrmuras surdinas,
De um rumor elegíaco e funéreo,
Falam de coisas mortas e divinas,
Veladas pelas sombras do mistério.
A perscrutar as vozes do arvoredo,
Na ânsia inquietante e céptica do sábio,
Tento, ó Morte! saber o teu segredo.
Mas vejo, no alvo mármore das urnas,
O Silêncio com o dedo sobre o lábio,
Olhando as vagas solidões noturnas...
Da Costa e Silva*
*Antônio Francisco da Costa e Silva
nasceu em Amarante, no Piauí, em 29 de novembro de 1885.
Faleceu em 29 de junho de 1950.
Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas,
no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só na capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Recolheu-se ao silêncio, demente, em 1933.
terça-feira, 14 de julho de 2009
NATUREZA MISTERIOSA

(Photo by Fernando Campanella)
Essa voz interior, que sempre ouvimos,
Ainda dizer não pode o que nós somos:
Tudo o que em vão pensamos e sentimos
É a antítese talvez do que supomos.
No seio panteísta de onde vimos,
Árvores – mães de flores e de pomos,
Arbustos e ervaçais, musgos e limos,
Tem o mesmo poder do que dispomos.
Não logramos saber quanto sabemos:
Névoas volúveis, ilusórios fumos,
São as idéias que de tudo temos.
Vindos da mesma essência, do mesmo húmus,
Vivemos de contrastes e de extremos
Sem ter destino, por incertos rumos ...
Da Costa e Silva
in Poesias Completas
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Subia a Lua, Leve...

Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.
Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!
Da Costa e Silva
in: Poesias Completas
terça-feira, 31 de março de 2009
SOU COMO UM RIO MISTERIOSO ...
(Rio Lima-Portugal)
Sou como um rio que, de tanto
Refletir sombras, se tornou sombrio ...
Rio de dor, rio de pranto,
Ninguém sabe o mistério deste rio.
Rio de dor, rio de mágoas,
Ocultando as imagens que refletes,
Rola em meu ser as tuas águas,
Sob a treva e o silêncio, como o Lethes ...
Da Costa e Silva
in Poesias Completas
Breve relato sobre Lethes,(lenda) o rio do esquecimento:
Diz a lenda que no ano 135 A.C. as hostes romanas, comandadas por Décios Junos Brutos, atingiram as margens do rio Lima.(Portugal) Surpreendidos com a beleza do lugar, julgaram-se perante o lendário rio Lethes que apagava todas as memórias a quem o ousasse atravessar. O comandante, empunhando o estandarte das águias de Roma, atravessou-o e da outra margem chamou pelo nome, um a um, os seus soldados. Assim lhes provou que, apesar de deslumbrante, não era este o rio Lethes!!!
domingo, 11 de janeiro de 2009
SOMBRA E NÉVOA

Cai o crepúsculo. Chove.
Sobre a névoa ... A sombra desce ...
Como a tarde me entristece!
Como a chuva me comove!
Cai a tarde muda a calma ...
Cai a chuva fina e fria ...
Anda no ar a nostalgia,
Que é névoa e sombra em minh’alma.
Há não sei que afinidade
Entre mim e a natureza:
Cai a tarde ... Que tristeza!
Cai a chuva ... Que saudade!
Da Costa e Silva
in Poesias Completas
sábado, 7 de junho de 2008
Amada solidão, silêncio amigo,
Vosso convívio me é tão grato e ameno
Que, voluntariamente, me condeno
A viver só, para vos ter comigo.
Alheio ao mundo, como um poeta antigo,
Noto, isolado, que ao mais leve aceno,
Me vêm, em ronda, ao espírito sereno
As idéias e imagens que persigo...
Solidão! vem de ti o êxtase infindo
Em que sinto, em constantes primaveras,
Meu ser a natureza refletindo...
Silêncio! enchendo o espaço onde me esperas,
Sonho, como Pitágoras, ouvindo
A harmonia divina das esferas.
Da Costa e Silva
Piauí (1885-1950)
sexta-feira, 11 de abril de 2008
"Natureza Harmoniosa"

Pego de um búzio, levo-o aos meus ouvidos
E ponho-me a escutar, ouvido atento,
Nele os sons que murmuram confundidos
Com idéias ainda em pensamento.
Que serão esses sons indefinidos
De um vago e misterioso sentimento:
A voz da vaga, ou os cânticos do vento
Na saudade do mar reproduzidos?
Esses confusos, múrmuros rumores
serão os ecos das canções saudosas
Dos Marinheiros e dos pescadores?
Ou são vozes das ondas marulhosas,
Segredando os marítimos amores,
Remotas, abafadas, silenciosas? ...
Da Costa e Silva
in "Poesias Completas"
1885-1950
"NATUREZA MISTERIOSA"

Essa voz interior, que sempre ouvimos,
Ainda dizer não pode o que nós somos:
Tudo o que em vão pensamos e sentimos
É a antítese talvez do que supomos.
No seio panteísta de onde vimos,
Árvores – mães de flores e de pomos,
Arbustos e ervaçais, musgos e limos,
Tem o mesmo poder do que dispomos.
Não logramos saber quanto sabemos:
Névoas volúveis, ilusórios fumos,
São as idéias que de tudo temos.
Vindos da mesma essência, do mesmo húmus,
Vivemos de contrastes e de extremos
Sem ter destino, por incertos rumos ...
Da Costa e Silva
in "Poesias Completas"
sábado, 19 de janeiro de 2008
"AS HORAS"
"O HOMEM QUE VOLTA"

Quando fui, com o meu sonho ingênuo e lindo,
Pelas estradas amplas, luminosas,
Vinham as Graças desfolhando rosas.
Ergui os olhos para os céus, sorrindo,
A beleza da vida pressentindo...
Quando vim, com o meu tédio miserando,
Pelos estreitos e áridos caminhos,
Iam as Parcas espalhando espinhos...
Baixei o olhos para o chão, chorando,
E fiquei para sempre meditando...
Da Costa e Silva
quinta-feira, 21 de junho de 2007
'VELHA INTERROGAÇÃO'

Passa a vida? Continua...
Porque o tempo é que flutua,
como um rio de veludo,
sobre todos, sobre tudo...
À sua imagem sonhamos:
de onde vimos? aonde vamos?
E o destino indiferente:
vai impelindo a torrente...
Passa a vida? Continua...
Com o tempo quem passa é a gente.
Mas, vida, se nós passamos,
de onde vimos? aonde vamos?
Da Costa e Silva
in: 'Último Poema'
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