A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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quinta-feira, 30 de abril de 2015

SUBSTANTIVOS QUASE ABSTRATOS



I

Carinho
é um pássaro lazo e azul:
sublime, arisco e raro,
precisa de paz, luz e ninho. 


II

Ternura
é uma nuvem de verde cura:
precisa de abrigo
no coração da aventura.

III

Afeto
é tudo que ofertamos às almas
de mãos postas e peito aberto:
precisa de amores (di)versos.

IV

Gratidão
é um sentimento cúmplice:
precisa de coragem e culto diário
para voraz atropelar a escuridão!


Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

SUBSTANTIVO INTRANSFERÍVEL*


O abandono não tem tempo
nem dono; não tem face:
não há ventania que o disfarce.

O abandono não tem o Tempo
como senhor; ignora a dor:
não diferencia alma ou cor.

O abandono não tem tempo
a perder; parece saber tudo:
o corpo que fere, o quê torna
o próximo espírito mudo!

O abandono não tem o Tempo
da Infância; cedo aprendeu dela
a exata e definitiva distância.

O abandono não tem o tempo
manifesto de forma clara: engana
sem mais saber; de ninguém tem rol
ou dó: falta-lhe um simples farol.

O abandono é substantivo, solitário,
vítima do assédio infante e vário:
só toma consciência do outro,
quando sob a terra já o tem morto!

*Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

'Vãs confissões'


Não quero ou pretendo mais nada.
Tive, na minha idade, o suficiente
de alegria, decepção, dor e perdas.

Só gostaria de mais árvores, flores
e alvoradas.
E, se possível, um mundo menos
inclemente.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

NADA A DECLARAR*

(Tela de Paul Gauguin)


Pronto – você, a ler sem temor
sobre o mais amargo (sobre)Viver,
ou na juventude quer refugiar-se
para não tanto sobre a vida saber?

- Claro que sim! Há tanto a ser
descoberto, mastigado, distraído.
Porções infinitas a vislumbrar;
posições horizontais a desfrutar.

(A quem interessa desventuras ler?)

Prefere – você, albergar-se naquilo
que a idade esconsa lhe oferece, dá
e ilude, com miragens e promessas
solertes, em mítico fugaz calendário?

- Claro que sim! Há tanto a ser
venerado, traído, encoberto, revisto
(talvez até esquecido); ardis inéditos:
hidras num mar de segredos malditos.

(A quem interessa tais crimes saber?)

Assim, todo o mau, inaudito, reafirma
aquilo que nenhum poeta precisa mais
repetir: nada de novo há sobre a terra.

Tudo – um Mar de Sargaços infames;
o pântano das mais sórdidas verdades,
jaz, impune, sob a terra dos homens!


*Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

ANATOMIA E BIOTERNURA*

Amar e ver o corpo requer
paciência de anos; um maior
e melhor alfabeto de séculos.

Amar o corpo exige delicado
observar das cicatrizes aflitas
que sua alma recebe e retém.

Amar e rever o corpo requer
passo de leão, um gesto de cor;
arguir a dor da coragem além.

Amar o corpo requer carinho,
clemência, entrega; caminhar
altivo em lúdico despojar-se.

Amar e sentir o corpo requer
a gramática das rugas abraçar,
a pedagogia do tempo aceitar.

Amar e explorar o corpo requer
ternura para cicatrizes examinar;
alegrias e dores reunir e abrigar.

Espiar e sorver a cara juventude,
expiar a velhice em qualquer idade:

Tudo requer um corpo inteiro nu!
E o resgate do amor infante...

*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"

(Tela de Eliana Bonini)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

"EL CONDOR PASA"


Com dó maior, assisto
partir o grande pássaro.

Com alegria, vislumbro
um seu novo horizonte.
Com a enorme pena
dos humanos que não voam.

Com a imensa pena
dos que não o vêem,
escuto o vento roçar suas asas.

Com afoita clemência,
abrigo e misturo nossos olhos.

Com a enorme argúcia
dos que tanto sobrevoam;

Com a aurora e astúcia
dos que tanto despertam;
observo seu lento suave
planar sobre o vale.

Com dores e letras, desejo
partir soberano com o pássaro.

Com estranha mansidão,
grito e informo minhas penas:

Com a impávida altivez
e ousadia dos que suicidam

Com a tácita incerta alforria
dos que nos versos ressuscitam!

Ao fim e ao cabo de obscuras
esperanças, aprecio quando
El Condor Pasa e passeia
sua altivez - liberta e sagrada -
sobre os Andes Latinos!


*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"VERDADE DE BRINQUEDO"


A minha verdade
é o Atlântico Amadeus Oceano:
uma saudade tão simples
que não alcanço ou espanto.

A minha verdade
é Flora pura, verbo Purim:
inteira Jazz; Moura
Paulo, Leonardo - princípio e fim.

A minha verdade
é feita de prima Vera: uma Itália
nortista, único Moai em Santiago;
esmeraldas na Serra da Mantiqueira.

A minha verdade
é tão infame quanto Rimbaud:
um espantalho, um alaúde,
“O Novo Arrabalde”: Vitória desnuda.

A minha verdade
é cigana como meus olhos e sonhos,
vã como Veneza; adora a vida em Milão:
é portuguesa como António, o Boto.

A minha verdade
é profana, sacra, rara, sacana:
é Adriana e Frida; passa por Bocage
e Camões, mas deságua seus mitos
na boca saúva da Cobra Norato.

A minha verdade
é longa e Londres, um sítio da City.
É vasta - mais que perfeita escuridão:
dela nada conheço; nela me refaço e fortaleço.

A minha verdade
foi parida em noite de Lua Cheia.
Tão urbana como minha vida em viés:
seleta e diversa como nuvens grávidas.

A minha verdade
é um pouco Dali, outro tanto daqui.
Chega de mansinho como um carinho
afoito e fortuito: um verso de areia.

A minha verdade
é benta, nada andarilha, nada Anchieta:
é como ruas vazias; crua como Alfabeto
Celta; Sevilha - Amsterdã adormecida e nua.

A minha verdade
só existe nas línguas, em todos os lábios:
é labareda Amazônica que afoga crenças
de outras eras; ressuscita tempestades.

A minha verdade
não é cômoda, nem alvo escuso:
é certeira como Jorge, reluz como
Lótus no pântano; gira sóis como Van Gogh.

A minha verdade
namora a madrugada; despeja letras
sobre folhas virgens: fatia pão e Pound,
dispensa Salomão - saúda Sandburg!

A minha verdade
é tão incerta como humanos dentes de marfim;
tão pretensa que uma criança pode imitá-la.
Mas é a minha, nem boa nem má:
apenas brinquedo, pura ilusão.


*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

Painting by José Navarro Llorens
(Valencia, 1867-1923) foi um pintor espanhol.)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ELA, SOB ÁRDEGO E CARO SUPLÍCIO

Vem, atrela, alavanca e mais ordena.
Encanta, sua, assanha, sobrenada.

Solta o verbo; profere a sagrada
E profana ordenha. Nada quero à toa.

Diz para, como quer, e a que veio:
Com a Voz que me alimenta e creio.

Sobe, monta, morde e crava alvos
Dentes de marfim sobre cada seio.

Escava, finca, amolda, avilta meu Ser.
Dispa-me; grita como quer e devo ceder.

Na ponta e pente da Língua, mata:
A sede, com força e flauta de seda.

Ata-me em visgo e sal ao céu em cio:
Resgata da morte aquele infinito rio.

Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

ALVA PAISAGEM


Sim, na Espanha dos teus olhos
Debrucei meus lábios cansados:
Sol e sede me fizeram avesso,
Lento ao reconhecer o alimento.

Sim, na França da tua boina inclinada
Descobri outra vida, outros hábitos:
Lua e mar me conferem o desvelo,
Estranhos rios do país que desejo.

Sim, no amanhecer do teu corpo
Apreendi inteira farmácia do amor:
Ervas em brava salmoura, alguidares
de prazer e pavor; ternura e outra cor.

Sim, na arena dos teus atos mais simples,
Avistei caravelas; na algazarra, a calmaria:
Sargaços rompidos, novo olhar sobre a dor
- perfume. Lá fora, os fantasmas da maresia.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

CLARAS CRUZADAS


Alva - clara,
a palavra das horas
lavra o tempo vivido.

Alva - clara,
a palavra triste
lava os olhos do esquecido.

Alva - clara,
a palavra insiste:
larva sob o vento transido.

Alva - clara,
a palavra marota
capina savana enluarada.

Alva- clara,
a palavra afoita
cavalga amante ensandecida.

Alva - clara,
a palavra servil
escava a alma perdida.

Alva - clara,
a palavra ardente
trava o sumário da vida.


*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

domingo, 12 de junho de 2011

Segunda Opção


Domingos são dias iguais
e tão diferentes,
que não merecem
a tensão da gente.

Domingos são dias iguais
e tão distantes,
que não merecem
a aflição do crente.

Domingos são dias iguais
e tão dolentes,
que não merecem
a curtição da gente.

Melhor roubar e gozar
o cio da segunda-feira.


Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

SOB O ATLÂNTICO*

Espantar,
enquanto possível,
os olhos
da própria morte.

Lamber,
ainda que azedos,
os frutos
da própria sorte.

Distribuir
abraços pesados,
recolher
os fardos do incrível.

Não é um dever
menor que o ser:

Há sempre a certeza,
Plácida, permanente certeza,
de encontrar a paz.

(Nos braços verdes do Atlântico)


*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim".

terça-feira, 15 de março de 2011

O SOM DAS ÁGUAS DOCES

Fazer feito o fiel verdureiro:
equilibrar nos ombros largos
dois cestos; ambulante resoluto -
presença diária no pequeno mundo
da enorme fome dos homens simples.

Conferir, compete ao aventureiro:
cada conta pendurar no avental
de quantos aventam saltar,
de inteiro corpo, na tempestade
da afoita vida dos homens simples.

Atentar, cabe àqueles que expiam
tantas perdas; que sonham oceanos
de inéditos pecados ao pé do altar.
Do profano ao sagrado, cabe àqueles
espionar a fantasia dos homens simples.

Avançar, confere venturas a quantos,
atrevidos, gravam nos seixos dos rios
o inominável, o índigo, o quieto Quasar,
e o som dos espíritos das águas doces -
que banha a vida dos homens simples.


Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

À NOITE, EM TRIESTE


Na Argélia, sentiu-se o amargo “estrangeiro”:
sol a pino queimando a sua vereda morena.

Em Berlim, como em Turim, o frio augusto:
tantos graus abaixo de tristes zeros.

Tudo tão distante estava daquilo
que um dia chamara de sua "pátria"...

Na cara nevasca da sua atroz solidão,
só três perguntas ele se permitia fazer,
olhar pousado sobre a Pietà em Milão:

1. Será que a mulher provara, ou desconfiara,
d'algo além das suas palavras mais cruas;
ditas quando envoltos em lençóis de luas?

2. Será que a mulher sabia que ser o rei
tessálico era só ventura de pura fantasia?

3. Será que a mulher percebia, ou vislumbrara,
que repousava nele o ser inverso; outro e mesmo
- capaz de dizer-lhe tudo... Que suado soava,
de um jeito diverso – maroto, sublime e suave?

Nisso pensava o homem desperto, alerta
e sem rumo, dentro daquela noite em Trieste.

Nisso pensava o homem sedento, exilado,
ao mergulhar à noite, incauto, no Mar Adriático.

Tudo sentia, na boca e na alma, ao nadar
em águas itálicas: a dúvida e o estranho
gosto da sorte lançada na ardósia da plaza.

Tudo pretendia, da cabeça ao ventre, estender.

Não queria que ela, por entre outras pegadas,
confundisse seus passos-palavras com algo
menos sublime que sua mais íntima forma de ser.


*Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

TOPOGRAFIA*

Nas mãos,
a planta aflita
da cidade.

Nas mãos,
em concha,
o homem
acolhe da vida:

O alarido
dos bares,
os cantos e sinais,
as danças circulares.

Os sinais de sereno
embalam
sua vida insone.

Nas mãos,
a boca e línguas
da sua idade.

As vozes, luzes,
esquinas, escolas,
parques, mercados,
feiras, infância e infâmia:

Acasos e ocasos
que aviltam
seus sonhos e olhos
sem qualquer cerimônia.


*Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ata-me - Jairo de Britto-



ATA-ME

I

Quanto custa tanto dizer
eu te avisto, mastigo e amo?
(Sei que sabes a polvo e povo)


II


Quando ofereço tanto querer,
eu te alcanço, arremesso e abraço?


III


Quão feliz, vil ou viril
eu te faço, afirmo ou pareço?

IV


Quando a rosa é a rosa e a roupa,
eu te oferto alvoroço e apreço.

V


Quando sinto o vento que fala;
que, so far, farfalha
e brinca com a roupa da casa,
eu te entrego meu corpo cortina.


VI

Através dos anos, cuidas de atar-me.
Tal cortinado afeito a grandes olhos:
como língua e léguas de Espanha;
tal Península em púrpura Ibérica chama.



VIII

Ata-me à tua pele branca, calcinada,
como Almodóvar às suas cores cheias
de furiosa algazarra e pagã harmonia.


IX


Aos três anos, ata-me como Rivera:
imantado; encantado pelas cores,
sonhos, dramas e dores de Frida.


X

Quantos anos achas que tenho?
A idade da pedra, do coração domado?
A idade infeliz dos que se despedem?


XI

Encontro, em teus cabelos de fogo,
a materna fúria e o profano sacrifício.
Portanto, aprendo a rir e a sonhar...
E, como rio, uma grande serpente imitar!


*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

domingo, 28 de novembro de 2010

SOBRE NOSSA COTIDIANA E INFAME SABEDORIA*


Sabemos que não se recupera a palavra atirada, nem o maldito gesto ou sobressalto, libertos em seu próprio espaço.

Sabemos que nossos amigos, amigas ou amantes, às vezes, se revelam quais serpentes cobertas por múltiplos sagrados mantos e mantras.

Sabemos que em torno, e no passado distante, escondem-se muitos dos nossos mais perversos medos - dormentes quietos em travesseiros de paina.

Sabemos que, não raro, somos irresponsáveis e intolerantes para com as pessoas que amamos. Mas, de soslaio olhando, esperamos permanecer.

Sabemos que nossas orações são da boca pra dentro de outras bocas, e de ouvidos fingimos nem delas precisar na hora precisa.

Sabemos, ou pretendemos crer, que deuses ou semideuses nos espreitam.

Mas caminhamos por trilhas fáceis e familiares, na direção de abismos já conhecidos.

Sabemos que somos capazes de ferir. Portanto, ferimos com o mesmo ferro com
que nos ferem, como se aí houvesse algo de bendito ou original.

Sabemos que nossos dias são ainda mais curtos do que nossa vã auto-imagem,
ou ação, nos faz crer. Mas nosso apetite desperta miragens travessas.

Sabemos que o sol nem sempre se levanta pra todos; nem para milhões tão bem disposto.
Mas alardeamos uma igualdade de ser que não somos ou vemos.

Sabemos que amanhã será outro dia (!?). Quando muitas, e tantas vezes, apenas desconfiamos que assim venha a ser...

Sabemos que “Amor” é uma palavra; como “Rosa” é uma cor, uma flor e outra palavra.
Mas vestimos palavras com verdades, males e matizes que pouco, muito pouco, conhecemos.

Sabemos que “Querer” é um verbo voraz e insaciável. Mas pretendemos que sobre ele possamos fazer algo: talvez toureá-lo, mantendo-o sob severo controle.

Sabemos que uma linha, que sequer suporta a palavra “Tênue”, separa a Vida da Morte.

Mas, noite e dia, fazemos de conta que há um cabo de aço aonde existe somente um fiapo de fé.

Sabemos tanto que, quase nunca, queremos tentar saber aquilo que o Outro sabe ou vive: tropeçamos no alheio sentir como em pedras soltas num beco escuro.

Sabemos que sabemos e nada mais queremos saber.

E esta meia verdade se impõe como um juiz vulgar que avalia nossa partida perdida.

Sabemos que erramos. E quietos aguardamos um xeque mate - como se de nós ele não dependesse; como se fôssemos só filhos ou frutos de casos ou acasos.

Sabemos que buscamos, aqui e alhures, aquele ou aquela que Bem nos quer.

Mas nunca aceitamos como fácil tal e tão bem-querer.

Sabemos que o mundo em torno, os vizinhos ou algumas visitas, pouco se importam com nosso mal-estar.

Mas “fazemos a sala”; construímos o túmulo que outras culpas nos ditam.

Sabemos que é chegada a hora de ficar ou ir embora. Mas esperamos para ver como, afinal, tudo vai ,talvez, amanhã estar. E quase nunca, verdadeiramente, estamos ou ficamos.

Sabemos que ninguém vai viver ou por nós morrer. Mas insistimos em acreditar que outras formas de ser ou amar irão nos salvar. Nem mesmo o universo noutra “casca de noz” nos apraz ou satisfaz.

Sabemos que foi ontem e pensamos que será amanhã.

Mas nos ilude a certeza de poder vir a ser tudo o quê simplesmente não podemos ou, de fato, queremos ser.

Sabemos que viver sem certezas é mais saudável.

Mas queremos que pedra sobre pedra seja pedra sobre pedra e não, pelo menos às vezes, pão sobre pão; talvez até pão de queijo ou... Pó de arroz integral!

Sabemos, sabemos, e tanto sabemos que parece nem mais haja, para duvidar, um pequeno espaço ou lugar comum: como um canteiro, um jardim, a beira de um caminho, as margens de rios e laudas; um quintal, o inverso de uma esquina, ou nuvens grávidas sobre um lago azul.

Sabemos, sabemos, e tanto sabemos que claro nos parece nem mais preciso perguntar:
Para quê, afinal, faz-se necessário tanto saber?



*Jairo De Britto.
São Paulo,Capital
- 23.Janeiro.2008 -

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"Inutilidades"


Pouco adianta
escrever:
quando
a chuva e o frio
embala
corpos vazios.

Pouco adianta
prever:
quando
a profecia é pública
e notório
é o deserto de rios.

Pouco adianta
querer:
quando,
da antiga nascente,
já não brota
a palavra querida.

Pouco adianta
correr:
quando chegar
antecipa saber
que de tanto querer
já não mais se quer.


Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim” 

domingo, 17 de outubro de 2010

RARA TEXTURA

Solidão e silêncio
permitem o encontro
que espelha,
no chão do meu rosto,
o Tempo,
o lamento das perdas,
o afago das mãos
que amarram,
presente e passado
em único cesto.

Solidão e silêncio
afligem o vento
que enreda
o vão do meu corpo.

O vento, o alento dos versos,
a alvorada das horas:
presente e futuro
em perene segundo texto.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PASSEIO DO OLHAR

Pouso meu olhar sobre teu rosto
como a mirar safiras outras,
que buscam melhor conhecer-me
para maior sabor deliciar.

Pouso meu olhar sobre teu corpo
como a trafegar estradas neutras,
que buscam melhor conduzir-me
para maior ardor propiciar.

Pouso meu olhar sobre teu corpo
como a festejar caravelas aflitas,
que buscam melhor atrair-me
para maior Atlântico navegar.

Pouso meu olhar sobre teu corpo
como a espargir letras benditas,
que buscam melhor distrair-me
para maior alfabeto cantar.

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"