A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 28 de novembro de 2010

SOBRE NOSSA COTIDIANA E INFAME SABEDORIA*


Sabemos que não se recupera a palavra atirada, nem o maldito gesto ou sobressalto, libertos em seu próprio espaço.

Sabemos que nossos amigos, amigas ou amantes, às vezes, se revelam quais serpentes cobertas por múltiplos sagrados mantos e mantras.

Sabemos que em torno, e no passado distante, escondem-se muitos dos nossos mais perversos medos - dormentes quietos em travesseiros de paina.

Sabemos que, não raro, somos irresponsáveis e intolerantes para com as pessoas que amamos. Mas, de soslaio olhando, esperamos permanecer.

Sabemos que nossas orações são da boca pra dentro de outras bocas, e de ouvidos fingimos nem delas precisar na hora precisa.

Sabemos, ou pretendemos crer, que deuses ou semideuses nos espreitam.

Mas caminhamos por trilhas fáceis e familiares, na direção de abismos já conhecidos.

Sabemos que somos capazes de ferir. Portanto, ferimos com o mesmo ferro com
que nos ferem, como se aí houvesse algo de bendito ou original.

Sabemos que nossos dias são ainda mais curtos do que nossa vã auto-imagem,
ou ação, nos faz crer. Mas nosso apetite desperta miragens travessas.

Sabemos que o sol nem sempre se levanta pra todos; nem para milhões tão bem disposto.
Mas alardeamos uma igualdade de ser que não somos ou vemos.

Sabemos que amanhã será outro dia (!?). Quando muitas, e tantas vezes, apenas desconfiamos que assim venha a ser...

Sabemos que “Amor” é uma palavra; como “Rosa” é uma cor, uma flor e outra palavra.
Mas vestimos palavras com verdades, males e matizes que pouco, muito pouco, conhecemos.

Sabemos que “Querer” é um verbo voraz e insaciável. Mas pretendemos que sobre ele possamos fazer algo: talvez toureá-lo, mantendo-o sob severo controle.

Sabemos que uma linha, que sequer suporta a palavra “Tênue”, separa a Vida da Morte.

Mas, noite e dia, fazemos de conta que há um cabo de aço aonde existe somente um fiapo de fé.

Sabemos tanto que, quase nunca, queremos tentar saber aquilo que o Outro sabe ou vive: tropeçamos no alheio sentir como em pedras soltas num beco escuro.

Sabemos que sabemos e nada mais queremos saber.

E esta meia verdade se impõe como um juiz vulgar que avalia nossa partida perdida.

Sabemos que erramos. E quietos aguardamos um xeque mate - como se de nós ele não dependesse; como se fôssemos só filhos ou frutos de casos ou acasos.

Sabemos que buscamos, aqui e alhures, aquele ou aquela que Bem nos quer.

Mas nunca aceitamos como fácil tal e tão bem-querer.

Sabemos que o mundo em torno, os vizinhos ou algumas visitas, pouco se importam com nosso mal-estar.

Mas “fazemos a sala”; construímos o túmulo que outras culpas nos ditam.

Sabemos que é chegada a hora de ficar ou ir embora. Mas esperamos para ver como, afinal, tudo vai ,talvez, amanhã estar. E quase nunca, verdadeiramente, estamos ou ficamos.

Sabemos que ninguém vai viver ou por nós morrer. Mas insistimos em acreditar que outras formas de ser ou amar irão nos salvar. Nem mesmo o universo noutra “casca de noz” nos apraz ou satisfaz.

Sabemos que foi ontem e pensamos que será amanhã.

Mas nos ilude a certeza de poder vir a ser tudo o quê simplesmente não podemos ou, de fato, queremos ser.

Sabemos que viver sem certezas é mais saudável.

Mas queremos que pedra sobre pedra seja pedra sobre pedra e não, pelo menos às vezes, pão sobre pão; talvez até pão de queijo ou... Pó de arroz integral!

Sabemos, sabemos, e tanto sabemos que parece nem mais haja, para duvidar, um pequeno espaço ou lugar comum: como um canteiro, um jardim, a beira de um caminho, as margens de rios e laudas; um quintal, o inverso de uma esquina, ou nuvens grávidas sobre um lago azul.

Sabemos, sabemos, e tanto sabemos que claro nos parece nem mais preciso perguntar:
Para quê, afinal, faz-se necessário tanto saber?



*Jairo De Britto.
São Paulo,Capital
- 23.Janeiro.2008 -

Um comentário:

Amália Catarina Wichert Grande disse...

Mesmo relendo esta crônica do Jairo
ela me parece nova.
Quanta verdade!
Profunda e inquietante realidade!