A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O SILENCIO


O silencio tem uma porta
que se abre
para um silencio maior:
antecâmara do ultimo,
que anuncia outro depois. 




Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida

(Tela de Maria Inês Carmona Ribeiro da Fonseca)

A ESPERANÇA


Folha caminhando
verde orvalhado que se distancia.
É a espera do que não se sabe
e reza. A que Deus?
Nosso olhar se acerca perguntando
de silencio é feita.
E juntas caminhamos
num percurso vago. 



Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida

quarta-feira, 15 de maio de 2013

''NOSTÁLGICA N.º1''


Lua de ausência
mar de amargura
só no abandono
da noite escura

sal e naufrágio
morte na areia
melancolia
triste sereia

vaga e apagada
casa que oscila
ai na minha alma
voz intranquila

teia de espera
pranto de espumas
longe a afogada
num mar de brumas

rosto de sombra
voz incorpórea
lábio cerrado
dor e memória

Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida


[Tela de Marieta Quesada]

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

AMORES


III

Não traçarei novos caminhos.
Entrelaçados, nascemos de raízes
mais fundas que saber.
És o que virá, se vieres.
E eu espero. Véspera da morte,
agora que o amor é mudo ou canta sem parar.
E o canto um silêncio parece
de tão fundo viver, que a vida já se despe
de si mesma, e avança sem andar:
bem longe
ou perto
aberto dom
de
amar.

IV

Não o que dizíamos
nem o que víamos,
mas o olhar desviado,
taça em demasia. E o que insistia:
os mesmos pórticos, a hora
na torre austera. E tudo fazíamos
para não ouvir, calado,
o passo do passado
e não olhar, à janela cega,
um vulto debruçado
o olhar isento
do amor que não se vê
e, em fuga, se extravia.


Dora Ferreira da Silva
Uma Via De Ver As Coisas
São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1973. 124 p.

sábado, 26 de março de 2011

Dora Ferreira da Silva

Ai, não ter a vida provas de revisão
para mudar-lhe as vírgulas, acrescentar-lhe
pontos de interrogação
e sobretudo passar a limpo dores e amores
arranjar vasos de flores, ter um gato de
estimação,
ouvir a rolinha a consolar-lhe a aflição...

Ai, não ter a vida provas de revisão
para endireitar-lhe as linhas, trocar palavras
e afinal arrancar as páginas todas do livro
e suprimir-lhe a edição.


Dora Ferreira da Silva
de JARDINS (esconderijos)
São Paulo: Edição da Autora, 1979. 125 p.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O VENTO


Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?


Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).


Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.


Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida
Jardins (esconderijos) 1979

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

VER



Essas portas do ver: nos olhos belos
pálpebras simulando pétalas
fechando escuras rosas.
Abertas – túneis de luz varando trevas
(tréguas de um passado horto
de um porto se afastando).
A nave se arrisca e já é mar
de pálpebras descidas.


O jardim gera rosas e o espinho ríspido.
O dom vem do profundo: calor do frio
filho calmo do espanto
flor da cicatriz.
Pelas portas do ver nada retenho
sem raiz.


Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida
Jardins (esconderijos) 1979

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

BEM-TE-VIS



Olhos de grafite
súbitos demoníacos estrídulos bem-te-vis.
Apregoam ao céu uma verdade morta.
Vista. Sem chama
(clara evidencia).


O jardim se esconde em desvãos e esconderijos.
O jardim não vê –
cresce calado. Os casulos não vêem –
viram borboletas.
Vêem os bem-te-vis
e passam ao dizer.



Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida
Jardins (esconderijos) 1979

A MAGNÓLIA



Sem paixão plantei-a no meio
do jardim. Pesado tributo
à insolvência dos dias.


Bandeiras de cor verde-ferrugem
transeunte natureza de amor desvelam
caravela de pássaros e o vento nas ramas
alegre o riso
na onda: o arco-íris.


(Comprei vestidos sem cor
e – pelo verão – esperei
as vergônteas da morte.
A água que bebi era de cinza.)


Nuvens se espedaçam
inflam botões
alvos
sorrisos na relva
e o chá vertido nas flores bebemos
da lembrança.


(Se nasceram luas apenas
é pétalas decepadas
acaso fui eu
acaso fui
eu?)



Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida
Jardins (esconderijos) 1979

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Os Jacintos



Os jacintos se entreolham
calados. Só o perfume
os une, alheados.
Sem dar nem receber
a mão vazia à outra se uniria.
Por que são os jacintos
o que seríamos?
Prediletos do ser.
Nem mesmo cuidaríamos
do passo que nos leva
sob a Ursa Maior
sob a Ursa Menor.
De olhos fechados despertaríamos
da confusa tristeza de
sermos dois e isolados
flutuando na alma do mundo
como peixes assustados.
Complexa é a vida
ao descer cada vez mais
até à charogne desintegrada
de uma superpopulação
de miasmas.
Quero uma só alma
é o bastante
para quem vive um breve instante.
Quando a plenitude do
UNO?
Simples inefável resumo.


Dora Ferreira da Silva
(Brasil)

domingo, 9 de agosto de 2009

AUTO-RETRATO



Foi sempre a distância mestra severa;
e o refúgio, nas árvores.
O Amor nas frondes, o abrigo no vento,
lentos remos sulcando espaços:
sua água, seu chão.
A modo de pássaro precário
sobreviveu à noite.
Partindo, completou-se.


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida
(São Paulo -1918-2006)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

"TANTA TRISTEZA NAS ÁGUAS ..."



Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Em que reino vive agora
a princesa que vivia
na infância sob amoreiras
acesas à luz do dia?

Onde o sol, onde o tumulto
de pombas no céu ardente
onde o frio da tarde morta
entre escombros do poente?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Onde a lua marinheira
no alto céu que surgia –
negro mar cheio de espantos
mordido de ventanias?

Onde o Rei do reino ausente
onde a fada que fazia
do mundo um sono profundo
e do sonho a luz do dia?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida

"NOSTÁLGICA N.º 2"



Esse tempo que passa como um vento brando
agitando um ramo desfolhando o aroma
esse tempo de asa entre flor e flor
que leva pólen e insetos embriagados
esse vento quase tristeza em meus lábios
que vai levando e me deixando a sós
fala da alma que me desabita
do meu corpo ausente quando não estás


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida

METAFÍSICA



Vai tempo onda marinha afogando teus mortos
rola na orla estreita búzios e medusas
põe no ouvido ávido dos vivos
a breve canção do invisível mar
canção de um longe que ressoa
vai tempo fantástica maré
anêmona vibrante
colhe em teu cerco o sorriso do homem
e o pólen dos séculos.

Voa pássaro marinho
semente viva entre rochedos
foge para as ilhas
à beira das águas taciturnas

Tempo
mar e marinheiros
barco e viagem
arrasta teus cansados velames e o vento que os impele
vai velho marujo
rumo aos horizontes incompletos


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida

Valsas de Esquina de Mignone



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.


Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.


Dora Ferreira da Silva
in "Poesia reunida"

"O VENTO"



Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?

Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).

Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.


Dora Ferreiora da Silva
in Jardins (Esconderijos) (1979)

sábado, 19 de janeiro de 2008

DESPEDIDA



Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada
à luz fosca desse dia abandonado.
Que severa parecias, longínqua e inviolada
flor deste inverno findando.
Recolhi-me entre os crisântemos
que te vestiam tristonhos:
tanto abandono querida uma parede tão dura
impermeável ao pranto à ternura
levados para te dar. Ao meu sim de desalento
nenhuma resposta ou lamento,
nada. Teu segredo, só ele persistia.
Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia.



Dora Ferreira da Silva
Cartografia do Imaginário , T.A. Queiroz, Editor, 1999

"VALSAS DE ESQUINA DE MIGNONE"



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.


Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.


Dora Ferreira da Silva
in "Poesia reunida"
Illustration
Jack Vettriano