A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

''Beira mar''



Tardinha. Á débil luz do sol que já declina
e se esconde por traz das montanhas distantes,
toda a linda avenida esplende e se ilumina
de estranhos, orientais, imprevistos cambiantes.

E é desde Botafogo, a indolente e divina,
e o Russel e o Flamengo em luzes cintilantes,
até onde a Avenida esplêndida termina,
todo um grande fulgor de apoteoses flamantes.

Pelos lindos jardins abrem-se as azáleas.
Começa a despontar a luz do luar medrosa....

E, ao crepúsculo triste, um som de piano evoca
tênues, meigas, subtis, inefáveis ideias,
como que, a me prender, feminina e amorosa,
a sedução sem fim desta terra carioca....


  José de Mesquita,
“Paisagens Cariocas”, Da Natureza - em "Poesias".
Cuiabá, 1919.

''Beira de rio''


Nunca me ha de esquecer a beleza, a poesia
dessa beira de rio, azul, ao sol radiante,
em que dias passei repletos de alegria,
na minha adolescência em flor, linda e distante!

A risonha sazão florigera corria.
Longe ia a cheia atroz ... Era pela vazante.
E a safra de um olor misterioso embebia
o ar todo a trescalar a mel puro e fragrante.

O “Morrinho” no azul seu vulto delineia,
e a praia é fulva, ao sol, e o canavial ondeia,
da várzea para além, num suave pendor...

E eis-me a ver, a alma inerte e lânguidos os músculos,
incendiarem o poente os rubidos crepúsculos
e baixar o luar do céu todo esplendor ...

  José de Mesquita,
‘Impressões e Paisagens, Mato--Grosso pinturesco’ -
em "Terra do Berço".

 Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927.

''Deslumbramento''


Há, na vida, por mais áspera, rude e escura,
horas que valem tudo e compensam as dores
que afligem, dia e noite, a pobre criatura,
neste vale em que há mais espinhos do que flores.

Quem não sentiu jamais essa hora de ventura,
Vaga entre-luz do céu, do averno entre os horrores,
sutil emanação do Amor, que, eterno, dura,
do qual são simples sombra, os mais belos amores ?

Essa Visão de Deus, Graça, Paz, Euforia,
ou nos vem, pela fé ao cérebro cansado,
ou, pelo Amor, nos desce à alma tediosa e fria.

E ficamos, assim, de olhar turvo e tremente,
sentindo esse fulgor do Ser iluminado,
tal como quem fitou o sol de frente a frente !

José de Mesquita
(Março 1938), em "Escada de Jacó".
Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1945.