A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

domingo, 12 de abril de 2015

Milagre


De tempos em tempos, necessita-se um milagre
Algo a ser visto, mostrado, não por sobrenatural,
mas por algo que toque e desvele a natureza mesma,
por onde ela se esconde na miséria de sua invenção


De tempos em tempos, um milagre:
um gesto, humano e natural que seja,
que resgate, por um instante,
( que embale a eternidade)
um corpo que cai em irreal realidade

De tempos em tempos, um milagre que nos veja
e acaricie os olhos vedados
de nossa cega mortalidade

Em tempo, um milagre,
para que enfim se veja
que milagre é todo tempo
que esculpe uma verdade

Milagre que revele
nossa transcendente humanidade.

Adrilles Jorge.

-Paint by  -Vladimir Kush-

Falta


Quem sentirá tua falta quando faltares?
Importa a ti a tua falta
quando aqui não mais te achares?
Que falta faz a falta a si
quando a falta a ela mesma se torna presente?



Tu, que de ti nunca te ausentas
que de ti sempre te escondes
sabes bem
que tudo sobra
porque sempre falta algo que se ausenta,
desde antes que te abandonaram à vida,
quando nasceste
E até sempre
quando tu também
te encontrares na memória do que falta.


Adrilles Jorge.

-Paint by  Christian Schloe-

Na treva


Na treva, desenhamos o esboço da luz
para que nossa criação nos ilumine

Na treva, tateamos a voz mais próxima
que ecoa o calor de um corpo
que aquecerá
a multidão de nossas solidões entrelaçadas

Abrimos os olhos
e enxergamos com nitidez
a escura salvação que nos cega

Fechamos os olhos novamente
a fim de nos libertar
da cegueira que nos conduz
e tocamos nossa nudez desamparada
invisível a olhos sempre vestidos
por uma sempre clara ilusão.


Adrilles Jorge.
[Poeta belo-horizontino]

sexta-feira, 27 de março de 2015


...Lutar em segredo, fechado no quarto, sem que ninguém saiba. Para os outros, mostrar só o melhor de si, a face mais luminosa...

Caio Fernando Abreu
O desejo mergulha na luz,
de: Pequenas epifanias
 
...Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras — e por tudo isso, ando cada vez mais só. É como me sinto melhor. ..


Caio Fernando Abreu
(Carta a Guilherme de Almeida Prado)

ENTRE O PÁSSARO E O AZUL


Verde, vermelho, azul e novamente
verde. A cor é um murmúrio da paisagem.
Na forma mais sutil de cada imagem
a terra é sempre a mesma e diferente.


Entre o pássaro e o azul a circunstância
é o rumor de asas. Entre folha e vento
a nuance é o voo. Entre o céu e o mar intenso
o mar é apenas líquida distância.

Em som e cor o mundo nos penetra
e sendo humano é um só. Para que habite
em tudo a voz profunda que interpreta

surge a palavra em densas sutilezas
composta a desdobrada sem limites
como se inventa em si a natureza.


Lupe Cotrim
in Encontro

TEMPO DE AMOR


A chuva de outono molha
o peso de minha altura
e tal rosa que desfolha
tenho pétalas na figura.


Por entre árvore e deserto
eu danço minha existência
de tudo longe e tão perto,
numa presença de ausência.

Irei por tudo que for;
Nessa posse do universo
carrego um tempo de amor
pelas tardes do meu verso.


Lupe Cotrim
in Encontro

Qualificação



Não venham com razões
e palavras estreitas.

O que sou sustenta
o que não sou.
Por mais grave a doença,
a dor já me curou.

E levo no bordão,
o campo, a cerca,
as passadas que vão,
o rosto que se acerca
na rudeza do chão.

O que sou
é dar socos
contra facas quotidianas.
E é pouco.


Carlos Nejar


“Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”

Clarice Lispector

[Clarice escreveu o seu último bilhete no leito no Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro, no dia 7 de Dezembro de 1977.]

A SOLIDÃO E SUA PORTA

 
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.


Carlos Pena Filho
In 'Livro Geral'

abstração*




minhas léguas de sonho são medidas
sem precisar do espaço do universo.
são imensas distâncias percorridas
no curto itinerário do meu verso.

minhas horas por milhas estendidas
são séculos sem data em que ando imerso
pois não as conta o tempo atroz e adverso
que faz a sucessão das outras vidas.
espaço e tempo, deles já liberto,
ageométricas órbitas percorro
do meu destino estando longe e perto.
livre de mim, de nada me socorro,
o povoado do mundo é meu deserto
e isso não me faz crer se vivo ou morro.


Paulo Fénder
In: Bengala Branca

deus*




deus: grandeza infinita ! paz fecunda
que frutifica o bem no amor que enflora !
deus-milênio ! deus-século ! deus-hora !
deus: tempo e espaço. luz que nos circunda.

é em vão que a inteligência se aprofunda
em desvendá-lo pelos céus afora.
sente-se deus num êxtase que inunda
a alma na própria fé que a revigora.
não procuremos deus no raciocínio.
o segredo talvez do seu fascínio
é que ele paira acima da razão.
prossiga o homem na faina das jornadas !
-deus é um desdobramento de alvoradas
pela estrada sem fim da perfeição !


Paulo Fénder
In: Bengala Branca

O vôo



Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas tempo e vento
desabam no abismo.

Que sabes tu do fim ?

Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre para o mais alto.

No deslumbramento da ascensão
se pressentires amanhã estarás mudo
esgota, como um pássaro, as canções que tem na garganta.

Canta. Canta para conversar uma ilusão de festa e de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que num voo no tempo.
Rumo do céu ?

Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.



 Menotti Del Picchia

INQUIETUDE


Ouço-te silêncio.
Diz-me o que sinto
O que anseio
O que me sufoca!


Esta inquietude permanente
Sem razão aparente de ser
O vazio profundo
Do querer e não querer.
Estou aqui
Vou, não sei onde
De onde venho, não recordo!

Nas horas aladas do desencontro
Fecho as pálpebras da vida
Perfumo de tomilho a alma
E parto, nas pétalas dos lírios brancos.


Cecília Vilas Boas
de 'O eco do Silencio"

CESTA DE PÁSSAROS


A manhã é uma cesta trançada
com fios de luz.
Nota por nota,
o canto dos pássaros
constrói a cidade sonhada.


Caminharemos todos,
como se pisássemos
em uma sonata azul,
e nossas mãos inventarão
novos gestos, novos mapas
onde o amor será sempre possível.

Nenhum homem matará outro homem.
Então a terra sairá
de sua órbita bem comportada
e, livres da força da gravidade,
seremos ao mesmo tempo
gente e pássaro.


Roseana Murray

segunda-feira, 2 de março de 2015

Poema de Domingo

 

Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.


Antônio Gedeão,
de "Novos poemas póstumos", (Sá da Costa Ed., 1990),

O Lago


Um pouco d’água só, e, ao fundo, areia ou lama.
Um pouco d’água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o voo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.


Água que se transmuta em reluzente prata,
Quando, do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da Noite a sua luz desata.

Poeta, como esse lago adormecido e mudo,
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório e passageiro é tudo,

Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês apenas refletida
A tua alma, onde o sonho astros de oiro semeia.


Júlia Cortines
de Vibrações- 1905

O Coração



Que importa? Dês que em mim, ao golpe inopinado,
Como um leito de rio às súbitas cavado,
O sulco largo e fundo a desventura abriu,
Onde o rio do pranto, em torrentes, fluiu,
Uma treva mais densa ainda do que a treva
Que, em paredes de bronze, a escura noite eleva,
Sobre mim se fechou como um sepulcro, e a não
Iluminou sequer instantâneo clarão.



Júlia Cortines
de Versos - 1894 -

Terra Ideal


Como um pássaro, abrir na amplidão do horizonte
As asas eu quisera, e a uma terra voar
Que existe para além do píncaro do monte
E para além da toalha infinita do mar.


Terra onde o pálio azul das auroras se estende,
Sem nuvens, tinto de oiro o límpido fulgor,
Por sobre um solo verde e viçoso em que esplende
A água viva, a cantar entre margens em flor;

Onde os nimbos jamais, fustigados do açoite
Dos ventos, pelos céus rolam em turbilhões,
E onde o amplo manto arrasta a tenebrosa noite
De planetas broslado e de constelações;

E que do liminar de minha adolescência,
Entre sombras, a furto e a distância, entrevi,
E que em pleno verão e em plena florescência
Da raia do horizonte ainda me sorri...

E para onde eu estendo avidamente os braços,
E para onde se lança, atraído, o meu ser,
Vendo-a sempre, através de infinitos espaços,
De meus braços fugir, de minha alma correr...


Júlia Cortines
de Vibrações - 1905-

DURAÇÃO


Toda vida é breve
por mais que ela dure
entre a areia e o vento.

Todo amor é leve
mais leve que a neve
que cai sobre a relva.

Toda vida é treva
por mais que a ilumine
a luz de cem velas.

Todo fruto é amargo:
morde-o a morte com
seu único dente.

Toda eternidade
não dura um minuto
na manhã serena.

Lêdo Ivo
De Curral de Peixe (1991-1995)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sombras sonoras




Numa tarde de abril, serena e lânguida,
eu me entretinha absorto a imaginar.
Como flores de calêndula no ar
a minha tarde se fazia cândida –
os amarelos eram parte grande da
cor que inundava a tarde no lagar.
Enquanto eu me inclinava a meditar,
o pôr-do-sol ia buscar o sangue da
aura pra tingir o céu aberto,
tremeluzindo o sol, quase encoberto,
a rendilhar o outono tropical.
E as borboletas, palpitando cores,
vão da calêndula beijando as flores
em um silencioso carnaval.

Ildásio Tavares 
Excerto do Livro -  Sombras Sonoras

domingo, 1 de fevereiro de 2015

""Children of the nigth""


(A los niños de Irak, Sudán, Kosovo, 
Colombia)

(Español & Português)


Bárbara es la hora
en que los niños se adormecen
con lágrimas ya secas.
Surcos sin memoria
en el infierno atravesado sus rostros.

Caminan como abandonando
callan como un siglo sin palabras
se muerden los labios
esperando que el verbo se convierta en pan
y les calme un hambre interminable
Cuando hablan si es que lo hacen
un puñal les sale de la boca
un odio agrio les parte la garganta en mil pedazos
y ya no les sale sangre
apenas preguntas que lanzan al aire como pelotas filosas
para seguir andando
para curtir abismo
para fluir de piedra
salen en las fotografías de los periodistas
y su mirada de huérfanos eternos nos resulta demasiado
Niños del desierto o del mar distante
un continente los escupe para que otro los rechace
Sin honor sin patria alguna vez madre
Niños sin nadie sin nada flotando
vida que terminará antes de lo probable
por su previo veneno
Apenas la cerca o la bandera rota
Recuerdos mutilados de noche perpetua
Por una maquinaria de horrores
Y su artillería infame
Para ellos no hay esperanza
Que nadie se engañe.



Consuelo Tomás Fitzgerald
(1957, Bocas del Toro, Panamá).



¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
"Children of the nigth"

(Ás ciranças do Iraque, do Sudão, Kosovo, Colombia) 



Bárbara é esta hora
em que os meninos adormecem
com lágrimas já secas.
Sulcos sem memória
no inferno atravessado seus rostos.

Caminham como-que abandonando
calam como um século sem palabras
esperando que o verbo se transforme em pão
e acalme a forme interminável

Quando falam se é que o fazem
um punhal sai da boca
um ódio ácido rompe a garganta em pedaçõs
e já não lhes escorre sangue
apenas perguntas que lançam no ar como bolas afiadas
para seguirem andando
para curtirem abismo
para fluirem da pedra

saem nas fotografías dos jornais
com a mirada de órfãos eternos parece excessivo
Meninos do deserto ou do mar distante
um continente cospe-os para que outros os rechacem
Sem honra sem pátria alguma vez mãe
Meninos sem ninguém sem nada flutuando
vida que terminará antes do provável
por seu veneno antecipado

Apenas a cerca ou a bandeira rota
Lembranças mutiladas de noite perpétua
Por uma engrenagem de horrores
E sua artilharia infame
Para eles não resta esperança
Que ninguém se engane. 



Consuelo Tomás
Tradução de Antônio Miranda

''Viver''



Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?

O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?


Carlos Drummond de Andrade,
in 'As Impurezas do Branco'

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O SILENCIO


O silencio tem uma porta
que se abre
para um silencio maior:
antecâmara do ultimo,
que anuncia outro depois. 




Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida

(Tela de Maria Inês Carmona Ribeiro da Fonseca)


Só em frente ao mar
posso inquirir e afirmar
ao mesmo tempo a lonjura
da enchente que começa
na cavidade do olhar
e se faz linguagem líquida
a inundar todas as mágoas.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014
 

 Olho demoradamente as coisas
que me rodeiam.
Elas aí estão, paradas, em seu esplendor
de existir
no seu tempo de lugar absoluto.
Mas apenas consomem o tempo,
o meu questionar
no seu esplendor parado,
como um poema escrito
e nunca verdadeiramente entendido.

Vieira Calado
em As Noite e os Dias,
 ed. Litoral. 2013

Falai de Deus com a clareza




Falai de Deus com a clareza
da verdade e da certeza:
com um poder

de corpo e alma que não possa
ninguém, à passagem vossa,
não o entender.

Falai de Deus brandamente,
que o mundo se pôs dolente,
tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
que é difícil ser criatura:
bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
que por Ele o mundo todo
tenha amor

à vida e à morte, e, de vê-Lo,
O escolha como modelo
superior.

Com voz, pensamentos e atos
representai tão exatos
os reinos seus

que todos vão livremente
para esse encontro excelente.
Falai de Deus.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)

A ESPERANÇA


Folha caminhando
verde orvalhado que se distancia.
É a espera do que não se sabe
e reza. A que Deus?
Nosso olhar se acerca perguntando
de silencio é feita.
E juntas caminhamos
num percurso vago. 



Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

REINAUGURAÇÃO

  
Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade — velho ou moço — pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza, a
exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os
descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.



Carlos Drummond de Andrade

[Fotografia de Antônio Carlos Januário MG]

Salmo à Vida



Não me faleis, em enlutados versos,
Que um sonho vazio seja a vida!
Pois morta é a alma que adormece
E as aparências enganosas são.


Genuína, a vida! Vida, coisa séria!
O fim último o túmulo não é;
“Sois pó e ao pó retornais”,
Assertiva não condizente à alma.

Nem só de alegrias ou de tristezas
Se traçam nossos destinos
Mas de atos cumpridos a fim de que cada amanhã
Um passo melhor do que hoje seja.

Longa é a tarefa e fugaz é o Tempo,
Nosso corações, posto fortes e valentes,
Como tambores surdos ainda tocam
Marchas fúnebres a caminho do túmulo.

Que no amplo campo de batalhas do mundo
No bivaque da vida,
Não sejais gado inerte e submisso!
Um herói sede na luta!

Ainda que promissor, no Futuro não confieis!
Deixai que o Passado morto os que se foram sepulte!
Agi – no Presente em vida, agi!
Com o coração aberto e com Deus no Alto!

Recordar nos fazem todos os grandes homens
Que podemos tornar sublimes nossas vidas;
E, na despedida, deixar devemos
Nas areias do tempo nossas marcas –
Marcas que, quiçá, um outro ser,
Da vida velejando sobre o mar solene,
Um irmão, náufrago à deriva,
Avistando-as, a esperança há de reaver.
Em alerta e em ação permaneçamos sempre.

Com o coração a qualquer situação pronto
Alcançar procurando, perseguindo sempre,
A lutar e a esperar aprendei.


Henry Longfellow
(Tradução de Cunha e Silva Filho)

[Arte: Morgaine lefee]

domingo, 28 de dezembro de 2014

FELIZ ANO NOVO


Ano novo deve ser apenas um novo ano
daquele velho motivo que todos os anos
faz a gente pensar que este ano vai ser
feliz... Mas ainda é o velho tema...


Apenas sensação de permitir que sonhos
mortos enterrem os seus sonhos mortos,
enquanto a gente desperta antigas rosas
das que ainda permanecem adormecidas
nas páginas jamais abertas do jardim...

E nada de brincar de novos sofrimentos.
Ainda há muita amargura que necessita
de um funeral compatível com a liturgia
da cura pelos perdões não concedidos...

Então, depois de removida tanta pedra
desses túmulos todo ano reinventados,
a gente deseja apenas que o ano velho
acompanhe este ano novo no momento
de entrar pelas soleiras do coração...

Sementes de amor numa das mãos
e uma flor despojada dos espinhos
na outra mão...

Afonso Estebanez

BASTA...


basta
nada quero mais da morte
nada quero mais da dor ou sombras basta
meu coração é esplêndido como uma palavra

meu coração se tornou belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é desde cedo um passarinho
e depois é o teu nome
teu nome se eleva todas as manhãs
esquenta o mundo e declina
solitário em meu coração
sol em meu coração.


Juan Gelman
(Poeta cubano)
Trad.:Antônio Miranda.


poema XXXIII

basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como la palabra

mi corazón se ha vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre

tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón


 Juan Gelman

''Dá-me tua mão''


Dá-me a tua mão e dançaremos;
dá-me tua mão e me amarás.
Como única flor seremos,
Como uma flor e nada mais…

O mesmo verso cantaremos,
E ao mesmo passo bailarás.
Como uma espiga ondularemos,
Como uma espiga e nada mais.
Te chamas Rosa e eu Esperança,
mas teu nome esquecerás,
porque seremos uma dança
na colina e nada mais…


Gabriela Mistral
Escritora Chilena,
Premio Nobel de Literatura de 1945


''Dame la mano''


Dame la mano y danzaremos;
dame la mano y me amarás.
Como una sola flor seremos,
como una flor, y nada más...

El mismo verso cantaremos,
al mismo paso bailarás.
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.

Te llamas Rosa y yo Esperanza;
pero tu nombre olvidarás,
porque seremos una danza
en la colina y nada más...


Gabriela Mistral

CAPÍTULO 4 - O ETERNO RETORNO: PROVA MAIOR



Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser.
Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser.
Tudo se desfaz, tudo é refeito; eternamente constrói-se a mesma casa do ser.
Tudo se separa, tudo volta a se encontrar;
eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser.
Em cada instante começa o ser; em torno de todo o "aqui " rola a bola "acolá ".
O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade.



FRIEDRICH NIETZSCHE, ''Assim falou Zaratustra''
Do livro: Nietzsche: a vida como valor maior, Alfredo Naffah Neto,
FTD, São Paulo, 1996, p. 76-83

QUINTA MEDITAÇÃO


Amém e adeus
São palavras do princípio e do fim.
Amém para que tudo se consume um dia
Segundo foi prometido e está escrito.
Amém da manifestação concreta do mistério,
Amém para o recém nascido e para o recém morto,
Que tudo se inscreva no amém.


Adeus tanto ao partir como ao chegar,
Adeus para aceitar antecipadamente
Que Delícia e Prazer
Sejam anulados amanhã,
Adeus inscrito em letras de pastores no topo do berço,
Adeus ao universo que desde já se descola,
Adeus ao irreversível jasmim de amor,
Adeus a todos que nos precederam
E àqueles mesmos que virão depois,
Adeus e amém.

Adeus, palavra da intimidade da desolação,
Amém, palavra da intimidade do juramento e da promessa,
Amém para transformação do símbolo em realidade,
Amém e adeus da luz branca,
Amém do olhar funerário e ressurgido,
Amém e adeus, palavras do infinito íntimo
Que também se manifesta
Em núcleos de letras mínimas e de som,
Adeus dos sinos e da fonte oculta,
Adeus da asa do pássaro e da vela,
Adeus e amém.


Murilo Mendes
In Dispersos/ O Infinito Íntimo

'XII'


Dezembro acende as luzes
em ricos pinheiros de natal.
Mas é naquela árvore
solitária nas grotas
ou à beira da estrada
que se agregam bem-te-vis
e tagarelam maritacas.
Mangueira, Santa Bárbara,
Pata-de-vaca
- ao pássaro tanto faz:
folhagens são mimos anônimos.


Eu insisto em um Deus
que se projeta em tronco
e esparrama os braços
para acolher os seus.


Fernando Campanella
Poema da série 'Efemérides'

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VIVER

 
Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!


Mario Quintana
In: Baú de espantos

domingo, 30 de novembro de 2014

''A VIDA É SONHO''



É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.


Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

Pedro Calderón de La Barca

De 'Solilóquio de Segismundo'
 - Tradução de Renata Pallotini

terça-feira, 25 de novembro de 2014



As estrelas
fazem riscos fundos nos céus
Ficam rastos intocáveis
que só agarramos
quando Deus
chega mais perto de nós. 



Maximina Girão
in Pétalas de Sol

[Arte; Roberto Weigand]

Soneto


 
Eu preciso de música que flua
nas pontas finas, frágeis dos meus dedos,
nos meus lábios amargos de segredos,
com melodia líquida e nua.


Ah, a antiga ginga sã e crua
de uma canção que aos mortos dê guarida,
água que me cai sobre a testa erguida,
o corpo febril, um brilho de Lua!


A melodia pode enfeitiçar:
magia calma, respiração pura,
um coração que afunda no abandono

da mansa, escura imensidão do mar
e flutua pra sempre na verdura,
amparado no ritmo e no sono.


Elizabeth Bishop.
tradução, Jorge Pontual

A VERDADE




A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.


E sua segunda metade
voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade.
 (do livro "O corpo", editora Record)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

HÁBITO ADQUIRIDO

 

Meus dias têm o hábito
de caminhar pela alameda sem dar conta de mim.
Um hábito que as tardes me ensinaram generosamente.
Os bolsos cheios de nada e as mãos vazias de tudo...
De volta, o portão de casa entreabre os braços secos
e me convida para entrar...

E vem aquela sensação de que esqueci
de me lembrar do que o dia indiferente não contou...
Retorno em busca da lembrança do sorriso de amizade,
do cântico de um pássaro, de um beijo que me deu a brisa...
E só então percebo que minhas mãos vadias
– não sabendo uma o que a outra anda fazendo –
já me haviam tocado o coração secretamente
com o encanto que as idas e vindas pela vida
acabavam de me dar...

Entro afinal, e num cantinho da memória
um sorriso de criança acende a luz
da minha alma...

Como se alguma flor esquecida
estivesse me estendendo a mão...
... a mão do aroma de rosas
que ainda me acompanha...

Afonso Estebanez

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

'AVE DE EMIGRAÇÃO'


Minha vida é o impulso da certeza
de um pássaro que emigra do deserto
e traça o voo noturno de uma estrela
pelos mares de luzes do universo...


Pensarão que minha alma é suscetível
de um breve pouso n’algum porto adverso
onde ancoram os restos impossíveis
da loucura intangível que professo...

Mas os meus rios rolarão sem trégua
até que a paz consuma os seus vestígios
e os ventos se apascentem sobre as águas
e o mar se acalme sobre meus sentidos...

Nenhum rumor se elevará da noite
nem mesmo um sopro escapará da brisa
por onde o corpo durma e a alma escute
uma canção que nunca foi ouvida...

Serei a luz da sombra fugidia
alma emigrada de minh’alma afim...
E todos pensarão que é agonia
a exaltação do amor dentro de mim!


Afonso Estebanez Stael

'AVISO'



Não demoro, favor aguardar...
Necessidade extrema de saber
onde minha alma está.

Não haverá tempo de sentir
saudade, pois devo voltar pouco
tempo depois que terminar
a eternidade...

Então, eu não estou aflito.
Estou só de coração sentado
na pedra bruta de minha vida
onde jaz calada – no meu grito
cúbico de súbito abafado – a alma
sem liberdade de ficar perdida.

Rogo não interromper a pressa
nem irritar a paz do meu conflito.
Quem me encontrar primeiro,
devolva-me com toda a urgência:
minha alma vai necessitar do amor
que dê conforto ao meu espírito...

Não demoro, favor aguardar...
Necessidade extrema de saber
onde todos um dia vão perder
a irrecuperável oportunidade
de se reencontrar!

Julis Calderon d'Estéfan
(Heterônimo de Afonso Estebanez)

domingo, 9 de novembro de 2014

ROSAS DO SUL



Repousei minhas rosas andarilhas
numa ilha de agaves sem encanto
um deserto enfeitado de gravilhas
em vias de morrer de desencanto.

Com amor infinito a flor-do-campo
abraçou minhas rosas como filhas
do pólen que gerou o terno canto
do pranto ritmado em redondilhas.

Enquanto havia pausa obrigatória,
julgava que estivesse na memória
esse destino de seguir em frente.

Não só! Eu sou o espírito da rosa
que exalta essa paixão misteriosa
que por amor revive para sempre!


Afonso Estebanez – 03.11.2014
(Dedicado a Maria Madalena Cigarán – a Dama das Rosas
tintas de vinho e sangue da extrema liberdade concebida!).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

IRMÃOS DE SANGUE



Há uma tristeza imensa
no fundo de meu coração.

Há um coração imenso
no fundo de minha tristeza.


Oswaldo Antônio Begiato

COVARDIA



Meus olhos perscrutaram a extensão desconhecida
Da senda acidentada e inquietadora:
Era tão estranha,tão sinuosa
A estrada da vida!


Meus pés sentiram um medo misterioso
De palmilhar o mais antigo dos caminhos:
Medo do pó , medo das pedras, medo dos espinhos,
Receio daquelas sombras estranhas
que subiam dos abismos e desciam das montanhas.

Covarde, circundei minh'alma de penumbra.

Encontrei mãos que se estenderam, tão amigas,
Oferecendo amparo certo na jornada.
Eu, porém, não confiei no auxílio de outra mão.

E fiquei isolada, fiquei esquecida
À margem do agitado caminho da vida.


Helena Kolody,
Viagem no Espelho.

[Arte: Dima Dmitrievi]

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

ACRÓSTICO


Maria Madalena
Ainda que os poetas ficassem lacônicos
Rimas não te faltariam, porque a poesia está intrínseca em ti
Iriam as noves filhas de Zeus, fomentar inspirações, não esquecendo de ti
A tua sensibilidade, é aproveitar o tempo, nenhum dia sem linhas

Musa na sentença gravada do destino, terás sempre a deleite das letras
A magia de sonhos diferentes, não para a primavera que perfuma lembranças
De reminiscência agradável de quem foi,e daquele amor que ainda conserva em ti
Amante das artes, tem no mecenas a congruência da alma de cetim
Louva o sabor da existência a metáfora onde cantam as letras sob mãos tranquilas
Eloquente na ternura que umedece lábios de mel, afastando a treva vaga
Não podem tirar de ti os olhos de tua alma onde sonhas,discorrendo na essência.
Ainda que os poetas ficassem taciturnos, a poesia continuaria a falar em ti.


Walder Maia
15/10/2014

Agradecimentos eternos...

Noroeste...


O vento sopra
A porta fecha
Em outro outono
Eu, da janela
Absorto, voo junto
Com as folhas...



Jefferson Dieckmann
De Lentes em Versos (2014)

Bonança...


Abre os teus olhos
A tempestade passou
A calma já reina
Tudo mudou...

Menos trevas, mais luz
Vida nova à frente
Passada a dor
O sorriso é presente...
Iça as tuas velas
O tempo é menino
Firma o olhar
Horizonte é destino...

22/09/2011
01h 35min

Jefferson Dieckmann