"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares


"(...) And again I belive that we don't really lose anything that is important. We only deceive ourselves, thinking that we own things, the instants, the others. Along with me go all the dead people I loved, every friend that step away, every happy days meanwhile gone. I didn't lose anything, only the illusion that everything could be mine forever."

Miguel Sousa Tavares

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

''LEMBRETE''


Autora: FLORA FIGUEIREDO

Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.


Flora Figueiredo
in: Calçada de Verão,
Editora Nova Fronteira
Rio de Janeiro, 1989

quarta-feira, 16 de abril de 2014

'Nocturno'

 

À noite vou por aí,
ociosamente.
Percorro um ritual lilás
feito de violetas de pedra
e traço cada pausa
no retorno da lua inicial.
Aqui a memória é lenta
como as angústias.
Muitas vezes vejo árvores
com frutos azuis,
ou animais em nudez perfeita
respirando o vento.
A escuridão é o subterfúgio
inesperado do coração
quando o olhar aquece
e o orvalho é de cetim.
Há máscaras de búzios e limos
na cara de quem passa.
Nas suas vozes ouço o itinerário
das manhãs siderais
e nasce nos meus passos
o rumo da via láctea.
Ninguém me conhece.
Venho do arco-íris
e trago nos dedos
o ângulo transparente da noite.

Graça Pires,
“Poemas Escolhidos''
1990-2011″ Ed. da Autora)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

'DA SOLIDÃO'



Prove a solidão que cura,

Aplauda a solidão que inventa,

Escute a solidão que diz:
-Aquela é pra ti, aquela não é

Sinta a solidão dos seres,
Por um instante,
Firme o olhar nas estrelas
E então, apregoe a solidão dos astros

Banhe os olhos nas águas solitárias
Da Baía perdida

Alguém poderá escrever que um dia te
Viu ali
Banhando-te sozinho na solidão dos outros.
Experimente então a solidão que afaga,
que minimiza a mágoa
e recupera os ouvidos do coração

Faça apenas da solidão que muda
Que transforma tua alma translúcida
em paciência e compreensão.

Mas não precipite as coisas
Não preencha a solidão com mapas

Fite a solidão que ilumina
E lá do fim do arco-íris observe a solidão a
navegar

A solidão que se esquece aos olhos da
viração.

Marcos André Carvalho Lins

quarta-feira, 26 de março de 2014

''SORTILÉGIO''


Há um pensamento chorando dentro da noite erma.
Há um pensamento virgem, solitário,
apalpando a floresta,
roçando no rio largo,
por onde bóia, em cada estirão,
o sortilégio da mãe-d’água.

O jurutai canta para a lua cheia,
Os grilos arremedam o assobio do vento,
As nuvens sacodem chuva e tristeza
só porque eu quero luar nos meus pés.

E vem lá de dentro da mata,
lá de onde eu não sei como está,
a voz rouca do silêncio amazônico
consolando as umbaubeiras perdidas
que a trovoada vergou.

Há um pensamento chorando dentro da noite esquecida…
Descendo pela correnteza,

pedindo a mão das estrelas…
Há um pensamento com sono e sem poder dormir…
Marinheiro, vê se tu podes compreender
esse pensamento de mulher.

Adalcinda Camarão
Poesia do Grão-Pará, 2001(Seleção e notas Olga Savary)

[Arte: Pássaro, Jurutai ou Urutao, pássaro muito raro, ave noturna de canto melancólico.]

terça-feira, 25 de março de 2014

''Nudez Dos Dias''



São palavras leves
Sem peso que saem d´alma
Na nudez de meus dias
Esvaziando meu Eu.

Não sentes os apelos
Meus olhares de puro zelo
Brilhando iluminando
Teus olhos de melancolia.

Sentes apenas o cheiro
Da mata de cada dia
Ilusões perdidas sim
Horas de mergulho e de vias.

Vany Campos

''Outono''


O relógio destila as horas
O tempo célere vai embora
Escondemos nossos medos
Escondidos nos sigilos
Imaginando que ninguém os sabe

Depois como âncoras
Poderemos sentar no mirante
Sentir o amanhecer
As miríades de estrelas
Em noites-dias sem extremos.

No sorriso da paz e do amor
Vencemos as tribulações
As curvas das searas que se põem
Recolhidas nos domingos
De prados verdejantes do outono.

Vany Campos
23-5-2013

''Estado d'Alma''



São minhas ternuras meus encantos
Eu feliz entre elas nesta hora
De loucura que cristaliza
Enlaço-me em moções
Nesta sala de irradiações
No som dos relógios no ar
Desde o canto dos rouxinóis
No anúncio da hora do amor
Deixa-me um pouco sem jeito.

Se durmo não sonho
A alma voa à cata de magia
No desespero dos olhares o meu
No esplendor da luz
Busca o teu na sombra
Que refletem-se e desfolham
Este coração de meu ainda
Corpo que anda pelas ondas
Na procura do que não encontrei.

Iara Pacini
03/06/2011


[Arte: Dorina Costras]

O mundo lá fora...



Resguardei meus sonhos em trincheiras
Como se alí estivessem em segurança.
Não imaginei suas pretensões aventureiras
Desejo e liberdade em íntima aliança.

Pelas frestas agitam-se, pássaros frementes
Ante o mundo que proclama interação.
Encho o peito e num suspiro condescendente
Abro a guarda e solto-os sem direção.

Helena Frontini

[Arte:Andrew Ferez]
 
o percurso
põe-me
na permanência
de colher solidão:
inconformidades

é um espaço opaco
embalsamado pelas perspectivas
indecifradas

o ato de tecer as horas
não permanece
no meu jeito de fazer silêncios

enclausurado busco
o modo de retecer
o passado longínquo

sou evidências
e nada além de travessia.

Airton Souza
Marabá - Pará

Últimos dias de fevereiro

[Arte: Helena Nelson Reed]

''Seivas da alvorada''


Tenho uma rosa suspensa na memória
É uma flor de amor
Onde um rio escorrendo molha a sombra
O tempo deitou raízes na água
Meus olhos assistem comovidos
Meu canto se afoga em borboletas
De que plaga se alça uma flor liberta
Na larguesa de vôos incontidos
A que espumas transidas remonta
Que céus que sonhos sempre a espera
No recesso azul de uma rosa?
Pérola de foco de meus versos
Meu coração se esconde numa sombra
Vestido de palavras
No meu corpo sensível
Pingam gotas de orvalho
Molhando a madrugada
Alimento-me com as seivas da alvorada
Ébrias de estradas.

Vany Campos

'VARIANTES'




As palavras da noite
Fazem esta noite fria
Na tristeza do silêncio
Da minha alma vazia.
Abro as portas do passado
Para ouvir a voz do tempo
Na música do vento
Canções ainda acordadas.
No umbral de meu templo
Quase me perco de mim
Ou qualquer coisa assim
Que em silêncio contemplo.


Vany Campos

''Coroa de Rosas''


Coroem-me de rosas
Entre folhas breves
Que se desfolhem
E desapareçam
Antes que eu veja
Sua peleja pela vida
Ao anoitecer
Molhadas de estrelas
Que descem do céu
Para entretê-las
Não quero um lírio
Agonizando de frio
Prefiro rosas que perfumem
Meu jardim,
Rosas de folhas breves
Que se desfolhem diante de mim
E exalem seu perfume
Mesmo entre jasmins.

Vany Campos.
19/08/2008

[Arte: Pierre-Auguste Renoir]

domingo, 16 de março de 2014

'PASSO A PASSO'




Os passos são andaimes interiores
Com que construo a habitação da espera.
Chovem horas em volta até que um dia
Alguém descobre infiltrações no tempo.

Tudo está só. Tudo são passos sós;
Eles que vivem soterrando as asas.
Por isso os dias doem por entre as rosas
Que afasto em busca de uma dor sem flores.

Depois (pobre depois – nome de um nome;
Coisa que é coisa porque as coisas partem
Envelhecendo a infância do futuro)...

Os passos são fraturas no meu voo;
Oprimidos retalhos do infinito;
Portos viajando no porão de um barco.

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

[Arte: Leszek Sokól]


quinta-feira, 13 de março de 2014

''Canção''


Quero um dia para chorar.
Mas a vida vai tão depressa!
- e é preciso deixar contida
a tristeza, para que a vida,
que acaba quando mal começa,
tenha tempo, de se acabar.

Não quero amor, não quero amar…
Não quero nenhuma promessa
nem mesmo para ser cumprida.
Não quero a esperança partida,
nem nada de quanto regressa.
Quero um dia para chorar.

Quero um dia para chorar.
Dia de desprender-me dessa
aventura mal entendida.
sobre os espelhos sem saída
em que jaz minha face impressa.
Chorar sem protesto. Chorar.

Cecília Meireles
de Retrato natural.

[Arte:Ann Marie Bone]

''LEVEZA''


Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

Cecília Meireles.
de Metal Rosicler

[Arte: Marie Gauthonnet ]

''VARAL DAS ILUSÕES''


Penduramos nossos sonhos
No varal das ilusões em vão
Quando nossos corações
Choram baixinho em canção.

Pensamos em não desistir
Tentar melhorar nos calarmos
Recolher com carinho os afetos
Para revivermos a maior emoção.

Queremos por vezes uma mágica
Uma nova alma e realização
Porque sabemos os sonhos serão
O caminho do não morrer.

E aí no varal colocaremos
Quem sabe um espírito novo
A resplandecência desaparecida
Apenas um amor renascido.

Vany Campos.

'Eu queria chorar pelos que não choram'



Eu queria chorar pelos que não choram. 
 Eu queria chorar pelos olhos secos,
Pelos olhos que são fontes
Onde as mágoas se purificam e se libertam.

Eu queria chorar pelos corações feridos
E que sangram obscura e silenciosamente.
Eu queria chorar pelas almas mártires
Que estão invisivelmente entre nós.

Eu queria chorar pelos indiferentes
E pelos que escondem num sorriso
As decepções de uma incompreendida bondade.

Eu queria chorar pelas almas fechadas,
Pelas almas que são como os desertos
E que não conhecem a libertação das lágrimas!

.
Augusto Frederico Schmidt

quarta-feira, 5 de março de 2014

'ROTAÇÃO'


Roda mundo, roda vida, roda vento.
Passa tudo, passa tanto, passa tempo.
Rodopiam as cores
na eterna reticência do momento.
Entre uma volta e outra do destino,
continuo apenas um menino
a soprar meu gira-sonho como um catavento.


Flora Figueiredo
In 'O Trem Que Traz a Noite', 2000

‘Poema’


Neste recanto, onde o sol parece brilhar,
com uma tamanha intensidade,
existem quimeras do passado,
que a cada vislumbrar de horas,
ficamos imaginando no amor
onde por instantes somos apenas amantes.

Pressinto que esse recanto está dentro de mim,
em um latejar desesperador,
se há solidão por onde caminho?
não sou capaz de discernir.
Sei que contemplo imagens que fazem de mim,
um mundo de imaginações.
Foi quem sabe o recanto que me transformou,
nesses versos desconexos,
deludido ao longo dessas horas.

Airton Souza
De Revoada Poética

’Colorida Poesia''


Nas rotas infinitas é o universo
Nas fantasias viaja o fogo sinuoso
De paixão a boemia quem sabe
Seja o secreto desejo
Nas estrelas que acendem
Tons vermelhos que habitam
Neste fascínio o clímax
O etéreo regresso neste
Coração que vive de brisas
Perfumadas e íntimas nuvens
Profunda é colorida a poesia.

Iara Pacini

‘’Caminhantes’’


Vivemos com em grandes reflexos
No movimento de ondas flutuantes
Seguindo em direção dos andamentos
Por vezes fios de grandes sentimentos.

Uma só gota de orvalho no embebeda
Um raio de sol coroa nossas frontes
Tudo o que vemos está atrás
Dos caminhantes à procura de horizontes.

Nossos olhares procuram imagens
Tem o orgulho das corolas vazias
Dos livros postos sobre a mesa
Alegria da vida que nos faz contentes.

Vany Campos

***



"A saudade não está na distância das coisas, mas numa súbita fratura de nós, num quebrar de alma em que todas as coisas se afundam."

Vergílio Ferreira.

[Arte by Catrin Welz Stein]

''XVIII''


O que bate assim
à minha janela?
Que ecos por dentro
me sopram?
É um nada,
é uma noite em símbolos
constelada.
Visto-me das carapuças
que me servem,

atento ouvidos
ao que se esquece.



Fernando Campanella
da série 'O Eu confesso'

''FANTASIAS''


Guardo em mim
uma colcha de esperas.
Um querer feito
de silêncios
alimentado de orvalhos.
Guardo nos bolsos
retalhos de manhãs
que recolho
na vã ilusão
de viver um dia.
Carrego na alma
palavras inaudíveis
que talvez
nunca sejam ditas.
Trago nas mãos
gestos tão ternos
impossíveis
de serem traduzidos.



Miriam Portela

'V'


No jardim do recolhimento
versos são também pássaros
que às vezes vêm bicar
minha solidão povoada.


Fernando Campanella
 Da série 'O Eu confesso'

***

 
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!"

Florbela Espanca
de 'Correspondência' (1930)

[Arte by Christian Schloe]

AS TARDES SABEM


As tardes são
manhãs envelhecidas.
Como senhoras maduras
trocamos confidências.
De mãos dadas,
caminhamos.
Elas me ajudam
a carregar a solidão.
Eu as ajudo
a enfrentar o medo da morte.
As tardes sabem
da sua finitude.


Miriam Portela

domingo, 2 de março de 2014

''SONETO''


A uma réstia de sonho chamam vida.
A uma sombra maior chamam-lhe morte.
Vida e morte, não mais, pouso e suporte,
sopro de permanência e despedida.

Uma treva febril noite é chamada.
A uma luz mais febril chamam-lhe dia.
E entre elas se põe a estrela fria
que irrompe como flor da madrugada.

Paira em tudo um silêncio que anoitece,
que amanhece, e que vence todo ruído,
e como sol não visto num perdido
horizonte se esfaz e se retece.

Tudo é longe demais, por demais perto.
E a alma, que faz neste feroz deserto?

Alphonsus de Guimaraens Filho

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

''FLORES DE OUTONO''


Agora vou reclinando o corpo
entre a terra e as estrelas.

O espaço é breve
para a brisa do mar
que ainda soa.

E no entanto,
adormeço
no meu sonho,
sereno de harmonias

incendiando o fino pó
da terra
com estas flores violentas,
exíguas, do outono.

Vieira Calado
Portugal

[Arte: Catrin Welz- Stein]

"Noturna"


o percurso
põe-me
na permanência
de colher solidão:
inconformidades

é um espaço opaco
embalsamado pelas perspectivas
indecifradas

o ato de tecer as horas
não permanece
no meu jeito de fazer silêncios

enclausurado busco
o modo de retecer
o passado longínquo

sou evidências
e nada além de travessia.


Airton Souza
Marabá - Pará

Últimos dias de fevereiro. 2014


[Arte: Catrin Welz-Stein]

''CARNAVAL''



vista tua fantasia
que lhe serve
só nesse momento
de disfarces
chamado carna l
va

enfeitado
pensando esquecer das realidades

vista tua fantasia
disfarce os risos
colorindo as ruas
e acenando pro desconhecido
suas inverdades

vista tua fantasia
mas
não esqueça
que o amanhã
é um novo dia de sempre
com as mesmas coisas de antes

vista tua fantasia
pra viver esse instante
de pura ilusão
só não esquece
que a consciência
te cobrar um eu de ti
que não é nós.


Airton Souza
Marabá - Pará

Fevereiro de 2014


[Arte: Dorina Costras]



Minha vida quem sabe
daria um versinho
se não fosse essa rua sem
t e t o
em que resido em meus
últimos dias. 



Airton Souza
Marabá -Pará.


[Arte: Dorina Costras]

''Migração''


Migro, sem asas e sem canto,
Sem símbolos enigmáticos, só lembranças.
Estamos fartos do silêncio
Que nos examina facilmente.
Há sim algo de grave em nós,
Não se tem mais geração!
O mundo são dias que seguem normais,
Entre os muros, paredes e telhas,
Entre horas e minutos faceiros.

Migro, sem rumo certo,
Ouço, mas finjo não ouvir.

Nossos pensamentos não cabe mais em nós,
Da vida faceira, sorrisos emoldurados,
De um momento breve e passado,
De um amor que não cabe nos jarros,
Onde as flores morrem enfeitando ilusão.

Migro sem canto, rumo e coração!


Airton Souza
de 'O CAIR DAS HORAS'


[Arte: John Blak]

''Versos do silêncio''


Versos do silêncio
Apaixonado pelo vento
Cala o céu
Revela-se em ilusão.

Águas de meus versos
Profundas revelam paixão
Descarregam emoção
Nas ondas azuis.

A chuva de meu coração
Culpa a natureza ousada
Que escorrega fios de prata
Hoje adormecidos pela solidão.


Iara Pacini
19/06/2009


[Arte: Dorina Costras]

''Enigma''


Confusa penetro
No eterno silêncio
Escrava me faço
Margarida delicada
Fechada na gaveta.

Dormem os dias
Sem ser flamante
Agonizo sem sono
Entre primas efêmeras
Dúvidas algozes
Voam sagazes.

Despercebida pela vida
Finjo não ver o tempo
Momento à-toa
Atormentam-me os fatos
Nas asas da esperança
Desprendo-me enigma
Existo sem nada entender.




Iara Pacini
16/05/2009


[Arte: Dorina Costras]

Epílogo


Nunca estive antes tão velho.
Giram relógios na alma
e dessangram-se ampulhetas
- como a esperança e a calma.

Cai a tarde, indiferente,
sobre os muros e o jardim.
Nunca me senti tão vasto
na história contada em mim.

Ruy Espinheira Filho

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

'DECISÃO'


Não traço planos.
Amanhã cada minuto será transitório.
Todos os pormenores que me são próprios
terão a precisão das cordas do alaúde
em dedos sensíveis.
Serei nómada e levarei comigo
a máscara do veneno junto à boca.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

''Alheia à engrenagem''


Exponho-me na versão insensata de qualquer episódio.
Misturo as datas dos factos primordiais,
dos ritos de passagem,
do solstício, da lua nova.
Morro e nasço.
Desdobro atitudes,
evocando arautos de estranhas profecias,
alheia à engrenagem
montada por artífices de paradoxos e de teias.

Graça Pires
De Conjugar afectos, 1977,

[Tela de Rafal Olbinski]

"Morte"



Esgotaram-se as palavras que repetiam
os nomes e os rostos onde repousava a luz.
Essa luz tão precária que se dissipa
quando a terra se faz túmulo no luto do olhar.
Já não indagamos as datas cobertas de cinza
por sabermos que o enredo da vida
não se deixa em testamento.

Graça Pires
De Caderno de Significados, 2013


[Tela de Rafal Oblbinski]

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

''Solidão''

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!

Juan Ramón Jiménez,
in "Diario de Un Poeta Reciencasado"
Tradução de José Bento

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

'SONETO DO SILENCIO'


Fantástico silencio! Nele existe
um clarão momentâneo: e tudo dorme.
Ai! que a noite irreal, cega e disforme,
ainda o faz mais pungente e amargo e triste!

Fantástico silencio moribundo
aos meus olhos aceso como velas
que iluminassem becos e vielas
pelas cidades pálidas do mundo...

Lá o vejo pender, fruto caído,
lá o vejo soprar contra as muralhas
e recobrir – silencio envelhecido –

o que a noite ocultou, e está perdido...
Lá o vejo oscilar nas cordoalhas
de algum veleiro desaparecido.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In: 'Só a Noite é que Amanhece'

''Recado aos Amigos Distantes''


Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.

Cecília Meireles,
de Dispersos (1951)
'Poesia Completa' Vol II pg. 1697

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O retrato não diz mais...

 
O retrato não diz mais
- Bom dia -
ou então - Boa noite -
leves sonhos
até o amanhecer.

Não, não diz nada
é só um retrato
onde, ao invés de reflexivo olhar
deita-se impune
a poeira dos dias.

E de quem, no excessivo encanto
de o ver e ouvir
se perdia a enlouquecer
hoje, nele não mais se reconhece.

Maior que o amor é o Tempo.

Margarida Finkel
de 'No tear dos ventos"
 
Há na tristeza vadia
que brinca na minha rua
dia e noite, noite e dia,
uma tal melancolia
que não sei se é minha ou tua
essa tristeza vadia
que brinca na minha rua.

Há na tristeza vadia
que brinca pela calçada
uma lágrima suspensa
que fica parada e fria
e se desfaz entre os dedos
das sombras de Ave Maria.

Nestes doridos momentos
todos os meus pensamentos
dentro de mim eu silencio,
lanceada pela saudade
que martiriza e extenua
sinto a tristeza vadia
que brinca na minha rua.
E fico de alma vazia,
sem saber se é minha ou tua
essa tristeza vadia
que brinca na minha rua.

Margarida Finkel

No tear dos Ventos

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

''Epitafio''

Un pájaro vivía en mí.
Una flor viajaba en mi sangre.
Mi corazón era un violín.

Quise o no quise. Pero a veces
me quisieron. También a mí
me alegraban: la primavera,
las manos juntas, lo feliz.

¡Digo que el hombre debe serlo!

(Aquí yace un pájaro.
Una flor.
Un violín.)

 Juan Gelman

'Muere el poeta argentino Juan Gelman.'

 - 3 de mayo de 1930, Buenos Aires, Argentina,14 de enero de 2014, Cuidad de México, México -

El escritor argentino Juan Gelman, ganador del Premio Cervantes y un superviviente del exilio, que buscó desesperadamente y encontró en Uruguay a su nieta desaparecida, ha muerto en Ciudad de México a los 83 años.

El Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Conaculta) confirmó a dpa la muerte del poeta, ganador del Premio Nacional de Poesía en Argentina (1997), el Juan Rulfo de Literatura Latinoamericana y del Caribe (2000), el Iberoamericano de Poesía Ramón López Velarde (2004), el Reina Sofía de Poesía (2005) y el Cervantes (2007).

"Juan Gelman, poeta del alma mexicana, poeta mayor, ha muerto. Mi pésame a sus deudos", escribió en su cuenta de Twitter el presidente de Conaculta, Rafael Tovar.

Gelman nació el 3 de mayo de 1930 en Buenos Aires y se exilió en Italia, Francia y finalmente México por la persecución de la dictadura militar argentina (1976-1983).

La dictadura le arrebató a su hijo Marcelo y a su nuera, la española Claudia García, embarazada de siete meses. A pesar de que ambos formaron parte de la larga lista de desaparecidos, el poeta pudo encontrar a su nieta Macarena hace un par de años. Su vida estuvo marcada por ese dolor.

"Hay recuerdos que no necesitan ser llamados y siempre están ahí y muestran su rostro sin descanso. Es el rostro de los seres amados que las dictaduras militares desaparecieron", señaló Gelman al recibir el Cervantes.
(El Mundo)

domingo, 12 de janeiro de 2014

'POEMA DO AMOR SEM EXAGERO'


Eu não te quero aqui por muitos anos
Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
Do teu corpo de nuvem.

Joaquim Cardozo
(Poemas, 1947)

[Painting by Willem Haenraets]

Poema


Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.



Joaquim Cardozo


 [Painting by Willem Haenraets]

'A tarde sobe'

Ao rés da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.

Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.

Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.

A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.

A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.

Joaquim Cardozo


[Fotografia de Fernando Campanella]

'Atônita"


Olho pro céu
nada vejo.
Olhos pros lados
ninguém.
Olho pra baixo
abismos
olho pra trás
nem um passo
olho além
muito além
é lá
que eu quero
estar.!


 Miriam Portela

do blogger da autora.