"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares


"(...) And again I belive that we don't really lose anything that is important. We only deceive ourselves, thinking that we own things, the instants, the others. Along with me go all the dead people I loved, every friend that step away, every happy days meanwhile gone. I didn't lose anything, only the illusion that everything could be mine forever."

Miguel Sousa Tavares

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

SONETO DE AMOR BUCÓLICO


Aqui me tenho só entre infinitos lados
de verdes vales entre rosas renascidas,
das horas idas dos amores já passados
quebrei o cálice das mágoas e feridas.

Leguei às aves entoar minhas cantigas
nos arvoredos sobre o rio debruçados,
nas águas atirei as vestes mais antigas
desse crepúsculo de sonhos fatigados.

Muitas vezes adormeci mirando a lua
adernando no céu como uma caravela
destinada a ancorar na minha solidão.

E hoje hei crido que o luar é uma rua
de onde vem a lua abrir minha janela
para ficar com meu amor no coração.

Afonso Estebanez.

[Arte: Christian Schloe]

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

TEMPO DE ESQUECER


Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;

Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;

Sabes que sou como o ar, destinado
ao voo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:

Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.

Eduardo Carranza

IMAGEM QUASE PERDIDA


És como a luz alta e delgada.
Como o vento és clara sem o saber.
Vacila tua atitude como a tarde
suavemente inclinada sobre o mundo

És feita de sonhos esquecidos
e te esqueço logo, como a um sonho;
meu coração te busca como a fumaça
busca a altura e nela morre.

Como uma trepida flor te leva o dia
Presa entre seus lábios. És alta,
azul, delgada e reta como um silvo.
Recordo-te, de imediato, como a um sonho.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

domingo, 7 de setembro de 2014

À MELANCOLIA

No vinho ou entre amigos, de ti eu fugia,
pois do teu olho escuro eu sentia pavor:
ingrato filho teu, assim eu te esquecia
ao toque do alaúde e nos braços do amor.

Com toda a discrição, no entanto, me seguias:
sempre estavas no vinho que eu tonto bebia
e no mormaço das minhas noites de amor
e no desdém com que eu a ti me referia.

Agora me refrescas os membros cansados
e tens minha cabeça em teu colo macio,
para o regresso das minhas longas viagens
- pois a ti me traziam todos os meus desvios.

Hermann Hesse
In: Andares Antologia Poética
Tradução: Geir Campos

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CANTIGA I



Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda.

Há tanto silêncio,
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavravida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
-Alguém docemente
pensará na vida.

Gilberto Mendonça Teles
 
[Arte de Karina Lergo]

CANÇÃO DA TARDE NO CAMPO


Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

(Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.)

Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

(Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.)

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo
minha alma é a sombra da tua.

(Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.)

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

(Eu ando sozinha,
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.)

Cecília Meireles
In Obra Poética

SONHOS


mergulha nos sonhos
ou um lema pode ser teu alimento
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas para trás andem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e esgota no bailado
deste casamento a tua morte)

não te importes com o mundo
com quem faz a paz e a guerra
(pois deus gosta de raparigas
e do amanhã e da terra)


 e.e. cummings

'A miragem no caminho'


Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

'Águia'


Voar, pensava então,
como se num bater de asas se elevasse o
mundo,
como se a primavera rasgasse para sempre
a nuvem escura,
e sobre os meses não caíssem as penas,
como se as minhas garras sustentassem o
cordeiro ou a estrela
e mais para cima o meu bico cansado
levasse o teu coração.

José Agostinho Baptista
in: 'Agora e na Hora da Nossa Morte'

A tarde cai lentamente



Como quem olha pela última vez o destino
das sombras, a tarde cai, lentamente,
retomando aromas e sons
que a claridade do dia preteriu.
É, então, que ressaltam as emoções,
desordenadamente guardadas no peito
e os pássaros voam, quase loucos,
à procura do sol.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

CANÇÃO DA ALMA MEDITATIVA


O vento sopra nas telhas
lembranças de um vento antigo.
Há um frio de horas velhas
na alma que se medita.

Sopra o vento, sopra o tempo
- e o que se medita a alma?
Não diz. Mas, seja o que for,
será, como tudo, nada.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outros Poemas

Divergência


O sol acordou amanheceu
Pássaros gorjearam, alvoreceu
Um verde sonho ficou em mim
Em ondas de sons breves

A madrugada encoberta
Versos atravessam minha mente
Se espalham pelo sem fim
Por tantas janelas abertas

Há vários trovões feridos
Na noite de meus dedos
Querência tantas esquecidas
Vou avivar o tempo... COM JEITO!

Vany Campos

COISAS DO CORAÇÃO


Se as pedras não sabem do instinto da flor
que sabem as sombras do instinto de mim
se pedras não guardam memória de amor
nem guardam princípios ou meios do fim?

Quem tem a certeza de algum porventura
se a brisa nem diz quando vem ao jardim,
se cá dentro d’alma há essa doce ternura
de guizos ou mantras ou sons de flautim?

Se eu mesmo não sei o que foi a ventura
dos tempos perdidos do amor em motim,
que entendem os dias de minha aventura
se a aurora só chega em finais de festim?

Se a água das nuvens não sabe da altura
e cai como o arco-íris do céu de carmim,
que sabe o teu pranto da minha candura
que cai das alturas bem dentro de mim?

Afonso Estebanez

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O TEMPO EXISTE


Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
Existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.

Francisco Miguel de Moura
de Sonetos Escolhidos

domingo, 6 de julho de 2014

QUANDO AS FOLHAS CAÍREM



Quando as folhas caírem, e tu fores
Procurar minha cruz no campo-santo,
Hás de encontrá-la, meu amor, num canto,
Circundado de flores.

Colhe, então, para os teus lindos cabelos,
Cada flor que do peito meu florisse!

São versos que pensei sem escrevê-los,
São palavras de amor que não te disse...

Lorenzo Stecchetti
(Trad. de Alphonsus de Guimaraens)

O HOMEM QUE CONTEMPLA


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens",
(1902).. [tradução Maria João Costa Pereira]

SOLIDÃO


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens", (1902)..
[tradução Maria João Costa Pereira

O HOMEM QUE LÊ



Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens", (1902)..
[tradução Maria João Costa Pereira].

[Tela by Edgar Degas]

VIDA



Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas
de um álbum de imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!

Mario Quintana,
in Esconderijos do tempo

DA MINHA JANELA



Desta janela aberta aos eflúvios de abril,
Vendo os que vão e vêem, a alma sonha e medita:
- “Pela vida a lutar nesta faina febril,
Este e aquele aonde vão? de onde vêem nesta grita?”

O que se ama ou se odeia ou se busca ou se evita,
Tudo se cruza aqui numa trama sutil.
- Quantos a morte leva ou seja nobre ou vil,
Enquanto em pleno sol o vivente se agita? –

E penso então que desde o tempo mais distante
A rua vê correr a humana vaga, e nela
Nada mudar da vida o drama palpitante.

E que outras ondas sempre aqui virão rolar...
Sempre as mesmas! Porém, desta minha janela,
Outros – não eu! – virão vê-las ir e voltar...

Joséphin Soulary
(Trad. de Emilio de Menezes)

SEJA LEVE



Isso de ler e escrever
é por amor ao estudo.
Marx e a vida são breves!
Pode-se querer tudo
desde que seja leve.

Rubens Rodrigues Torres Filho.

'NA HORA DE DORMIR'


Depois que o dia exausto me deixou,
amavelmente a noite constelada
há de acolher meu ardente desejo
como a uma criança fatigada.

Mãos, esquecei todos os afazeres!
Rosto, deixa o pensar ao abandono!
Agora todos os sentidos meus
querem afundar no sono.

A alma, sem ter quem tome conta dela,
em vôos libérrimos quer flutuar
e no circulo mágico da noite
a vida de mil formas esgotar.

Hermann Hesse
In: Andares Antologia Poética
Tradução: Geir Campos

DA BREVIDADE



Nas coisas breves
Da eternidade.

Coisas da vida...
Vida, quem há de

Ser infinito
Pela metade?

Homero Frei
In: Lado Alado

quinta-feira, 12 de junho de 2014

MELANCOLIA


Porque trouxeste as horas já vividas
Para, neste momento, recordar?
Porque notaste as lágrimas caídas,
Que jamais tornaremos a chorar?

A vida não tem páginas relidas,
Tudo nela é constante renovar,
E nós somos as folhas ressequidas
Dum poema que o Outono vai rasgar...

Folhas mortas, que ficam sossegadas,
Deixai-as para sempre nas estradas...
Para que levantá-las, Ventania?

Antes de morrer na paz do esquecimento,
Do que ser arrastada pelo vento,
Em hora de cruel melancolia...

Maria de Santa Isabel
In Flor de Esteva


[Poema que me foi enviado pela amiga Dione]

quinta-feira, 22 de maio de 2014

SONETO PARA NAVEGAR...


Há um tempo na vida que supomos
ter vencido sem trauma nem feridas
olvidando o sangrar das despedidas
sofridas nos poentes dos outonos...

E há um tempo de rosas renascidas
dos áridos desertos que nós somos
não obstante o estio vão os pomos
adoçando o penar de nossas vidas!

Ainda há um tempo que a saudade
como um rio que chora de piedade
nosso pranto carrega para o mar...

E vai além o nosso amor profundo
cantando no crepúsculo do mundo
a canção que a razão faz navegar!

Afonso Estebanez – 13.05.2014
(Composição dedicada à gentil amiga
Professora Nídia Horta, com carinho)

domingo, 4 de maio de 2014

Onde o outono não é um cenário sossegado


Olho o rosto dos homens
onde o outono não é um cenário sossegado,
porque lhes sobe até à boca
um vulcão de espanto,
a rir na minha própria cara.
Então, um súbito amor a saber a sangue
dramatiza a voz dos disfarces
no interior de mim mesma,
como se desse conta do lodo
que me cobre os olhos
e, de repente,um rio
me corresse na alma sobressaltado.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

[Arte: Ben Rotman]

Silêncios


Talvez um golpe mudo
construa a cegueira dos açudes
talhados pelo vento
no rastilho das noites,
ou na corrente de um rio insubmisso.
Talvez o silêncio seja a voz
que sufoca o medo quando as aves
começam a calar-se em nossas bocas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

[Arte: Edward Robert Hughes]

Lentamente


Lentamente.
Como se fossem intermináveis os dias e as luas.
Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse.
Como se cavássemos no coração
o milagre das manhãs.
Como se a terra fosse um espelho
de água ou um coração solar.
Lentamente. Muito lentamente.
Porque basta a urgência de um grito
sem contornos para que a pétala mais ilesa
se corrompa, para sempre, em jardins moribundos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Synphony of love, of Ben Weisman by Ray Conniff.

Agradeço de coração esse maravilhoso vídeo, que reúne fotografias de várias fases de meus filhos, marido e eu. Presente de aniversário de minha querida irmã e cunhada, dama Cearense Regina Helena Bezerra Paiva.28/04/2014

quarta-feira, 23 de abril de 2014

EM VÃO


Estou a falar
aos ventos
a desfiar
palavras
vão esforço
de tecer
caminhos.
Estou
a gastar-me
inutilmente.
Quem me ouve?

Miriam Portela

[Arte: Cathy Delanssay]


Estou perdidamente emaranhada
em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo

Flora Figueiredo
Amor a Céu Aberto
Editora Nova Fronteira, 1992 - Rio de Janeiro, Brasil

''LEMBRANÇA''



Hoje a infância voltou com a chuva.
Rosto colado à vidraça, vi pequenos rios
arrastando folhas e formigas
rumo ao desconhecido de sempre.

Ricardo Augusto dos Anjos
de 'Agrolírica'


[Formatação da querida amiga Amália Catarina.]

DOS SILÊNCIOS


As vozes da multidão soam
Sussurram silêncios longos
Lembranças de um passado
Por onde se andasse alado
Imagens atravessam as paredes
Sorrisos disfarçados escondidos
Deleitando saudade no relógio
Na sobrevida das memórias.

O pensamento lastima-se
Nos hiatos da hora insistem
Nas lembranças das eras
Recordações de emoções passadas.

Acordam as manhãs do tempo
Dormidas nos corações dos homens
Onde existe um sopro de primavera
Que afaga os cabelos da aurora.

Vany Campos
In Poemas à Flor da Pele
Pag. 157

quinta-feira, 17 de abril de 2014

''LEMBRETE''


Autora: FLORA FIGUEIREDO

Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.


Flora Figueiredo
in: Calçada de Verão,
Editora Nova Fronteira
Rio de Janeiro, 1989

quarta-feira, 16 de abril de 2014

'Nocturno'

 

À noite vou por aí,
ociosamente.
Percorro um ritual lilás
feito de violetas de pedra
e traço cada pausa
no retorno da lua inicial.
Aqui a memória é lenta
como as angústias.
Muitas vezes vejo árvores
com frutos azuis,
ou animais em nudez perfeita
respirando o vento.
A escuridão é o subterfúgio
inesperado do coração
quando o olhar aquece
e o orvalho é de cetim.
Há máscaras de búzios e limos
na cara de quem passa.
Nas suas vozes ouço o itinerário
das manhãs siderais
e nasce nos meus passos
o rumo da via láctea.
Ninguém me conhece.
Venho do arco-íris
e trago nos dedos
o ângulo transparente da noite.

Graça Pires,
“Poemas Escolhidos''
1990-2011″ Ed. da Autora)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

'DA SOLIDÃO'



Prove a solidão que cura,

Aplauda a solidão que inventa,

Escute a solidão que diz:
-Aquela é pra ti, aquela não é

Sinta a solidão dos seres,
Por um instante,
Firme o olhar nas estrelas
E então, apregoe a solidão dos astros

Banhe os olhos nas águas solitárias
Da Baía perdida

Alguém poderá escrever que um dia te
Viu ali
Banhando-te sozinho na solidão dos outros.
Experimente então a solidão que afaga,
que minimiza a mágoa
e recupera os ouvidos do coração

Faça apenas da solidão que muda
Que transforma tua alma translúcida
em paciência e compreensão.

Mas não precipite as coisas
Não preencha a solidão com mapas

Fite a solidão que ilumina
E lá do fim do arco-íris observe a solidão a
navegar

A solidão que se esquece aos olhos da
viração.

Marcos André Carvalho Lins

quarta-feira, 26 de março de 2014

''SORTILÉGIO''


Há um pensamento chorando dentro da noite erma.
Há um pensamento virgem, solitário,
apalpando a floresta,
roçando no rio largo,
por onde bóia, em cada estirão,
o sortilégio da mãe-d’água.

O jurutai canta para a lua cheia,
Os grilos arremedam o assobio do vento,
As nuvens sacodem chuva e tristeza
só porque eu quero luar nos meus pés.

E vem lá de dentro da mata,
lá de onde eu não sei como está,
a voz rouca do silêncio amazônico
consolando as umbaubeiras perdidas
que a trovoada vergou.

Há um pensamento chorando dentro da noite esquecida…
Descendo pela correnteza,

pedindo a mão das estrelas…
Há um pensamento com sono e sem poder dormir…
Marinheiro, vê se tu podes compreender
esse pensamento de mulher.

Adalcinda Camarão
Poesia do Grão-Pará, 2001(Seleção e notas Olga Savary)

[Arte: Pássaro, Jurutai ou Urutao, pássaro muito raro, ave noturna de canto melancólico.]

terça-feira, 25 de março de 2014

''Nudez Dos Dias''



São palavras leves
Sem peso que saem d´alma
Na nudez de meus dias
Esvaziando meu Eu.

Não sentes os apelos
Meus olhares de puro zelo
Brilhando iluminando
Teus olhos de melancolia.

Sentes apenas o cheiro
Da mata de cada dia
Ilusões perdidas sim
Horas de mergulho e de vias.

Vany Campos

''Outono''


O relógio destila as horas
O tempo célere vai embora
Escondemos nossos medos
Escondidos nos sigilos
Imaginando que ninguém os sabe

Depois como âncoras
Poderemos sentar no mirante
Sentir o amanhecer
As miríades de estrelas
Em noites-dias sem extremos.

No sorriso da paz e do amor
Vencemos as tribulações
As curvas das searas que se põem
Recolhidas nos domingos
De prados verdejantes do outono.

Vany Campos
23-5-2013

''Estado d'Alma''



São minhas ternuras meus encantos
Eu feliz entre elas nesta hora
De loucura que cristaliza
Enlaço-me em moções
Nesta sala de irradiações
No som dos relógios no ar
Desde o canto dos rouxinóis
No anúncio da hora do amor
Deixa-me um pouco sem jeito.

Se durmo não sonho
A alma voa à cata de magia
No desespero dos olhares o meu
No esplendor da luz
Busca o teu na sombra
Que refletem-se e desfolham
Este coração de meu ainda
Corpo que anda pelas ondas
Na procura do que não encontrei.

Iara Pacini
03/06/2011


[Arte: Dorina Costras]

O mundo lá fora...



Resguardei meus sonhos em trincheiras
Como se alí estivessem em segurança.
Não imaginei suas pretensões aventureiras
Desejo e liberdade em íntima aliança.

Pelas frestas agitam-se, pássaros frementes
Ante o mundo que proclama interação.
Encho o peito e num suspiro condescendente
Abro a guarda e solto-os sem direção.

Helena Frontini

[Arte:Andrew Ferez]
 
o percurso
põe-me
na permanência
de colher solidão:
inconformidades

é um espaço opaco
embalsamado pelas perspectivas
indecifradas

o ato de tecer as horas
não permanece
no meu jeito de fazer silêncios

enclausurado busco
o modo de retecer
o passado longínquo

sou evidências
e nada além de travessia.

Airton Souza
Marabá - Pará

Últimos dias de fevereiro

[Arte: Helena Nelson Reed]

''Seivas da alvorada''


Tenho uma rosa suspensa na memória
É uma flor de amor
Onde um rio escorrendo molha a sombra
O tempo deitou raízes na água
Meus olhos assistem comovidos
Meu canto se afoga em borboletas
De que plaga se alça uma flor liberta
Na larguesa de vôos incontidos
A que espumas transidas remonta
Que céus que sonhos sempre a espera
No recesso azul de uma rosa?
Pérola de foco de meus versos
Meu coração se esconde numa sombra
Vestido de palavras
No meu corpo sensível
Pingam gotas de orvalho
Molhando a madrugada
Alimento-me com as seivas da alvorada
Ébrias de estradas.

Vany Campos

'VARIANTES'




As palavras da noite
Fazem esta noite fria
Na tristeza do silêncio
Da minha alma vazia.
Abro as portas do passado
Para ouvir a voz do tempo
Na música do vento
Canções ainda acordadas.
No umbral de meu templo
Quase me perco de mim
Ou qualquer coisa assim
Que em silêncio contemplo.


Vany Campos

''Coroa de Rosas''


Coroem-me de rosas
Entre folhas breves
Que se desfolhem
E desapareçam
Antes que eu veja
Sua peleja pela vida
Ao anoitecer
Molhadas de estrelas
Que descem do céu
Para entretê-las
Não quero um lírio
Agonizando de frio
Prefiro rosas que perfumem
Meu jardim,
Rosas de folhas breves
Que se desfolhem diante de mim
E exalem seu perfume
Mesmo entre jasmins.

Vany Campos.
19/08/2008

[Arte: Pierre-Auguste Renoir]

domingo, 16 de março de 2014

'PASSO A PASSO'




Os passos são andaimes interiores
Com que construo a habitação da espera.
Chovem horas em volta até que um dia
Alguém descobre infiltrações no tempo.

Tudo está só. Tudo são passos sós;
Eles que vivem soterrando as asas.
Por isso os dias doem por entre as rosas
Que afasto em busca de uma dor sem flores.

Depois (pobre depois – nome de um nome;
Coisa que é coisa porque as coisas partem
Envelhecendo a infância do futuro)...

Os passos são fraturas no meu voo;
Oprimidos retalhos do infinito;
Portos viajando no porão de um barco.

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

[Arte: Leszek Sokól]


quinta-feira, 13 de março de 2014

''Canção''


Quero um dia para chorar.
Mas a vida vai tão depressa!
- e é preciso deixar contida
a tristeza, para que a vida,
que acaba quando mal começa,
tenha tempo, de se acabar.

Não quero amor, não quero amar…
Não quero nenhuma promessa
nem mesmo para ser cumprida.
Não quero a esperança partida,
nem nada de quanto regressa.
Quero um dia para chorar.

Quero um dia para chorar.
Dia de desprender-me dessa
aventura mal entendida.
sobre os espelhos sem saída
em que jaz minha face impressa.
Chorar sem protesto. Chorar.

Cecília Meireles
de Retrato natural.

[Arte:Ann Marie Bone]

''LEVEZA''


Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

Cecília Meireles.
de Metal Rosicler

[Arte: Marie Gauthonnet ]

''VARAL DAS ILUSÕES''


Penduramos nossos sonhos
No varal das ilusões em vão
Quando nossos corações
Choram baixinho em canção.

Pensamos em não desistir
Tentar melhorar nos calarmos
Recolher com carinho os afetos
Para revivermos a maior emoção.

Queremos por vezes uma mágica
Uma nova alma e realização
Porque sabemos os sonhos serão
O caminho do não morrer.

E aí no varal colocaremos
Quem sabe um espírito novo
A resplandecência desaparecida
Apenas um amor renascido.

Vany Campos.