"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares


"(...) And again I belive that we don't really lose anything that is important. We only deceive ourselves, thinking that we own things, the instants, the others. Along with me go all the dead people I loved, every friend that step away, every happy days meanwhile gone. I didn't lose anything, only the illusion that everything could be mine forever."

Miguel Sousa Tavares

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

VIVER

 
Quem nunca quis morrer
Não sabe o que é viver
Não sabe que viver é abrir uma janela
E pássaros pássaros sairão por ela
E hipocampos fosforescentes
Medusas translúcidas
Radiadas
Estrelas-do-mar... Ah,
Viver é sair de repente
Do fundo do mar
E voar...
e voar...
cada vez para mais alto
Como depois de se morrer!


Mario Quintana
In: Baú de espantos

domingo, 30 de novembro de 2014

''A VIDA É SONHO''



É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.


Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

Pedro Calderón de La Barca

De 'Solilóquio de Segismundo'
 - Tradução de Renata Pallotini

terça-feira, 25 de novembro de 2014



As estrelas
fazem riscos fundos nos céus
Ficam rastos intocáveis
que só agarramos
quando Deus
chega mais perto de nós. 



Maximina Girão
in Pétalas de Sol

[Arte; Roberto Weigand]

Soneto


 
Eu preciso de música que flua
nas pontas finas, frágeis dos meus dedos,
nos meus lábios amargos de segredos,
com melodia líquida e nua.


Ah, a antiga ginga sã e crua
de uma canção que aos mortos dê guarida,
água que me cai sobre a testa erguida,
o corpo febril, um brilho de Lua!


A melodia pode enfeitiçar:
magia calma, respiração pura,
um coração que afunda no abandono

da mansa, escura imensidão do mar
e flutua pra sempre na verdura,
amparado no ritmo e no sono.


Elizabeth Bishop.
tradução, Jorge Pontual

A VERDADE




A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.


E sua segunda metade
voltava igualmente com o mesmo perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade.
 (do livro "O corpo", editora Record)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

HÁBITO ADQUIRIDO

 

Meus dias têm o hábito
de caminhar pela alameda sem dar conta de mim.
Um hábito que as tardes me ensinaram generosamente.
Os bolsos cheios de nada e as mãos vazias de tudo...
De volta, o portão de casa entreabre os braços secos
e me convida para entrar...

E vem aquela sensação de que esqueci
de me lembrar do que o dia indiferente não contou...
Retorno em busca da lembrança do sorriso de amizade,
do cântico de um pássaro, de um beijo que me deu a brisa...
E só então percebo que minhas mãos vadias
– não sabendo uma o que a outra anda fazendo –
já me haviam tocado o coração secretamente
com o encanto que as idas e vindas pela vida
acabavam de me dar...

Entro afinal, e num cantinho da memória
um sorriso de criança acende a luz
da minha alma...

Como se alguma flor esquecida
estivesse me estendendo a mão...
... a mão do aroma de rosas
que ainda me acompanha...

Afonso Estebanez

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

'AVE DE EMIGRAÇÃO'


Minha vida é o impulso da certeza
de um pássaro que emigra do deserto
e traça o voo noturno de uma estrela
pelos mares de luzes do universo...


Pensarão que minha alma é suscetível
de um breve pouso n’algum porto adverso
onde ancoram os restos impossíveis
da loucura intangível que professo...

Mas os meus rios rolarão sem trégua
até que a paz consuma os seus vestígios
e os ventos se apascentem sobre as águas
e o mar se acalme sobre meus sentidos...

Nenhum rumor se elevará da noite
nem mesmo um sopro escapará da brisa
por onde o corpo durma e a alma escute
uma canção que nunca foi ouvida...

Serei a luz da sombra fugidia
alma emigrada de minh’alma afim...
E todos pensarão que é agonia
a exaltação do amor dentro de mim!


Afonso Estebanez Stael

'AVISO'



Não demoro, favor aguardar...
Necessidade extrema de saber
onde minha alma está.

Não haverá tempo de sentir
saudade, pois devo voltar pouco
tempo depois que terminar
a eternidade...

Então, eu não estou aflito.
Estou só de coração sentado
na pedra bruta de minha vida
onde jaz calada – no meu grito
cúbico de súbito abafado – a alma
sem liberdade de ficar perdida.

Rogo não interromper a pressa
nem irritar a paz do meu conflito.
Quem me encontrar primeiro,
devolva-me com toda a urgência:
minha alma vai necessitar do amor
que dê conforto ao meu espírito...

Não demoro, favor aguardar...
Necessidade extrema de saber
onde todos um dia vão perder
a irrecuperável oportunidade
de se reencontrar!

Julis Calderon d'Estéfan
(Heterônimo de Afonso Estebanez)

domingo, 9 de novembro de 2014

ROSAS DO SUL



Repousei minhas rosas andarilhas
numa ilha de agaves sem encanto
um deserto enfeitado de gravilhas
em vias de morrer de desencanto.

Com amor infinito a flor-do-campo
abraçou minhas rosas como filhas
do pólen que gerou o terno canto
do pranto ritmado em redondilhas.

Enquanto havia pausa obrigatória,
julgava que estivesse na memória
esse destino de seguir em frente.

Não só! Eu sou o espírito da rosa
que exalta essa paixão misteriosa
que por amor revive para sempre!


Afonso Estebanez – 03.11.2014
(Dedicado a Maria Madalena Cigarán – a Dama das Rosas
tintas de vinho e sangue da extrema liberdade concebida!).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

IRMÃOS DE SANGUE



Há uma tristeza imensa
no fundo de meu coração.

Há um coração imenso
no fundo de minha tristeza.


Oswaldo Antônio Begiato

COVARDIA



Meus olhos perscrutaram a extensão desconhecida
Da senda acidentada e inquietadora:
Era tão estranha,tão sinuosa
A estrada da vida!


Meus pés sentiram um medo misterioso
De palmilhar o mais antigo dos caminhos:
Medo do pó , medo das pedras, medo dos espinhos,
Receio daquelas sombras estranhas
que subiam dos abismos e desciam das montanhas.

Covarde, circundei minh'alma de penumbra.

Encontrei mãos que se estenderam, tão amigas,
Oferecendo amparo certo na jornada.
Eu, porém, não confiei no auxílio de outra mão.

E fiquei isolada, fiquei esquecida
À margem do agitado caminho da vida.


Helena Kolody,
Viagem no Espelho.

[Arte: Dima Dmitrievi]

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

ACRÓSTICO


Maria Madalena
Ainda que os poetas ficassem lacônicos
Rimas não te faltariam, porque a poesia está intrínseca em ti
Iriam as noves filhas de Zeus, fomentar inspirações, não esquecendo de ti
A tua sensibilidade, é aproveitar o tempo, nenhum dia sem linhas

Musa na sentença gravada do destino, terás sempre a deleite das letras
A magia de sonhos diferentes, não para a primavera que perfuma lembranças
De reminiscência agradável de quem foi,e daquele amor que ainda conserva em ti
Amante das artes, tem no mecenas a congruência da alma de cetim
Louva o sabor da existência a metáfora onde cantam as letras sob mãos tranquilas
Eloquente na ternura que umedece lábios de mel, afastando a treva vaga
Não podem tirar de ti os olhos de tua alma onde sonhas,discorrendo na essência.
Ainda que os poetas ficassem taciturnos, a poesia continuaria a falar em ti.


Walder Maia
15/10/2014

Agradecimentos eternos...

Noroeste...


O vento sopra
A porta fecha
Em outro outono
Eu, da janela
Absorto, voo junto
Com as folhas...



Jefferson Dieckmann
De Lentes em Versos (2014)

Bonança...


Abre os teus olhos
A tempestade passou
A calma já reina
Tudo mudou...

Menos trevas, mais luz
Vida nova à frente
Passada a dor
O sorriso é presente...
Iça as tuas velas
O tempo é menino
Firma o olhar
Horizonte é destino...

22/09/2011
01h 35min

Jefferson Dieckmann

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

***


"Para cada alma há uma ideia que lhe corresponde e que é como a sua fórmula; e andam as almas e as ideias procurando-se umas às outras."


- Miguel de Unamuno,
em "Ensaios: O segredo da vida".


[Arte; Claude Théberge]


"Os homens vivem juntos, porém cada um morre sozinho e a morte é a suprema solidão."


- Miguel de Unamuno,
em "O sentimento trágico da vida".


[Arte:Franck Hérété]


***


"É preciso esquecer para viver; a vida é esquecimento; cumpre abrir espaço para o que está por vir."

- Miguel de Unamuno

CIRCUNFERÊNCIAS



Vinte mil léguas
submarinos
vinte mil passos
subterrâneos
vinte mil ventos
redemoinhos
vinte mil vidas
e a vaga impressão
de ter andado em círculos.


Miriam Portela
do livro
No fundo dos Olhos

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DE REPENTE



De repente, sentimo-nos antigos,
recua o tempo, a vida se dissolve.
Nem resta à nossa vista outro horizonte
que a linha do horizonte que não temos.


Que sonho foi mais sonho? Que tristeza
foi a tristeza vã do que não vimos?
Houve tempo de ser. Ah, nesse tempo,
que alma foi nossa, que outras nos legaram?

De repente, sentimo-nos pequenos,
a vida cala, em tempo nos tornamos,
feitos de pura ausência e de distancia.

A mente se interroga, a alma se escuta:
o que não houve é tudo o que perdura
e nada mais transcende o que nos resta.

Emílio Moura
In: Intinerário Poético

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

SONETO DE AMOR BUCÓLICO


Aqui me tenho só entre infinitos lados
de verdes vales entre rosas renascidas,
das horas idas dos amores já passados
quebrei o cálice das mágoas e feridas.

Leguei às aves entoar minhas cantigas
nos arvoredos sobre o rio debruçados,
nas águas atirei as vestes mais antigas
desse crepúsculo de sonhos fatigados.

Muitas vezes adormeci mirando a lua
adernando no céu como uma caravela
destinada a ancorar na minha solidão.

E hoje hei crido que o luar é uma rua
de onde vem a lua abrir minha janela
para ficar com meu amor no coração.

Afonso Estebanez.

[Arte: Christian Schloe]

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

TEMPO DE ESQUECER


Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;

Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;

Sabes que sou como o ar, destinado
ao voo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:

Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.

Eduardo Carranza

IMAGEM QUASE PERDIDA


És como a luz alta e delgada.
Como o vento és clara sem o saber.
Vacila tua atitude como a tarde
suavemente inclinada sobre o mundo

És feita de sonhos esquecidos
e te esqueço logo, como a um sonho;
meu coração te busca como a fumaça
busca a altura e nela morre.

Como uma trepida flor te leva o dia
Presa entre seus lábios. És alta,
azul, delgada e reta como um silvo.
Recordo-te, de imediato, como a um sonho.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

domingo, 7 de setembro de 2014

À MELANCOLIA

No vinho ou entre amigos, de ti eu fugia,
pois do teu olho escuro eu sentia pavor:
ingrato filho teu, assim eu te esquecia
ao toque do alaúde e nos braços do amor.

Com toda a discrição, no entanto, me seguias:
sempre estavas no vinho que eu tonto bebia
e no mormaço das minhas noites de amor
e no desdém com que eu a ti me referia.

Agora me refrescas os membros cansados
e tens minha cabeça em teu colo macio,
para o regresso das minhas longas viagens
- pois a ti me traziam todos os meus desvios.

Hermann Hesse
In: Andares Antologia Poética
Tradução: Geir Campos

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CANTIGA I



Não quebres o encanto
da palavra vida.
Deixa que a palavra
role assim perdida
como a própria sombra
dessa coisa-vida.

Deixa que seu canto
se prolongue ainda
sobre os mil segredos
desta tarde linda,
sobre o mar sereno,
sobre a praia infinda.

Há tanto silêncio,
tanta paz na vida
que nem mesmo o tempo
com sua arte erguida
roubará o encanto
da palavravida.

Deixa que a palavra
ande assim perdida...
-Alguém docemente
pensará na vida.

Gilberto Mendonça Teles
 
[Arte de Karina Lergo]

CANÇÃO DA TARDE NO CAMPO


Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

(Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.)

Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

(Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.)

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo
minha alma é a sombra da tua.

(Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.)

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

(Eu ando sozinha,
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.)

Cecília Meireles
In Obra Poética

SONHOS


mergulha nos sonhos
ou um lema pode ser teu alimento
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas para trás andem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e esgota no bailado
deste casamento a tua morte)

não te importes com o mundo
com quem faz a paz e a guerra
(pois deus gosta de raparigas
e do amanhã e da terra)


 e.e. cummings

'A miragem no caminho'


Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho).

Helena Kolody
In: Poemas do Amor Impossível

'Águia'


Voar, pensava então,
como se num bater de asas se elevasse o
mundo,
como se a primavera rasgasse para sempre
a nuvem escura,
e sobre os meses não caíssem as penas,
como se as minhas garras sustentassem o
cordeiro ou a estrela
e mais para cima o meu bico cansado
levasse o teu coração.

José Agostinho Baptista
in: 'Agora e na Hora da Nossa Morte'

A tarde cai lentamente



Como quem olha pela última vez o destino
das sombras, a tarde cai, lentamente,
retomando aromas e sons
que a claridade do dia preteriu.
É, então, que ressaltam as emoções,
desordenadamente guardadas no peito
e os pássaros voam, quase loucos,
à procura do sol.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

CANÇÃO DA ALMA MEDITATIVA


O vento sopra nas telhas
lembranças de um vento antigo.
Há um frio de horas velhas
na alma que se medita.

Sopra o vento, sopra o tempo
- e o que se medita a alma?
Não diz. Mas, seja o que for,
será, como tudo, nada.

Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outros Poemas

Divergência


O sol acordou amanheceu
Pássaros gorjearam, alvoreceu
Um verde sonho ficou em mim
Em ondas de sons breves

A madrugada encoberta
Versos atravessam minha mente
Se espalham pelo sem fim
Por tantas janelas abertas

Há vários trovões feridos
Na noite de meus dedos
Querência tantas esquecidas
Vou avivar o tempo... COM JEITO!

Vany Campos

COISAS DO CORAÇÃO


Se as pedras não sabem do instinto da flor
que sabem as sombras do instinto de mim
se pedras não guardam memória de amor
nem guardam princípios ou meios do fim?

Quem tem a certeza de algum porventura
se a brisa nem diz quando vem ao jardim,
se cá dentro d’alma há essa doce ternura
de guizos ou mantras ou sons de flautim?

Se eu mesmo não sei o que foi a ventura
dos tempos perdidos do amor em motim,
que entendem os dias de minha aventura
se a aurora só chega em finais de festim?

Se a água das nuvens não sabe da altura
e cai como o arco-íris do céu de carmim,
que sabe o teu pranto da minha candura
que cai das alturas bem dentro de mim?

Afonso Estebanez

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O TEMPO EXISTE


Existe um tempo que sequer sentimos,
existe um tempo que sequer pensou-se,
Existe um tempo que o tempo não trouxe,
existe um tempo que sequer medimos.

Existe mais: um tempo em que sorrimos,
diferente do tempo em que chorou-se,
e um tempo neutro: nem amaro ou doce.
Tempos alheios, nem sequer são primos!

Existe um tempo pior do que ruim
e um tempo amado e um tempo de canção,
existe um tempo de pensar que é o fim.

Tempo é o que bate em nosso coração:
um tempo acumulado em tempo-sim,
e um tempo esvaziado em tempo-não.

Francisco Miguel de Moura
de Sonetos Escolhidos

domingo, 6 de julho de 2014

QUANDO AS FOLHAS CAÍREM



Quando as folhas caírem, e tu fores
Procurar minha cruz no campo-santo,
Hás de encontrá-la, meu amor, num canto,
Circundado de flores.

Colhe, então, para os teus lindos cabelos,
Cada flor que do peito meu florisse!

São versos que pensei sem escrevê-los,
São palavras de amor que não te disse...

Lorenzo Stecchetti
(Trad. de Alphonsus de Guimaraens)

O HOMEM QUE CONTEMPLA


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens",
(1902).. [tradução Maria João Costa Pereira]

SOLIDÃO


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens", (1902)..
[tradução Maria João Costa Pereira

O HOMEM QUE LÊ



Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens", (1902)..
[tradução Maria João Costa Pereira].

[Tela by Edgar Degas]

VIDA



Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas
de um álbum de imagens:

aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!

Mario Quintana,
in Esconderijos do tempo

DA MINHA JANELA



Desta janela aberta aos eflúvios de abril,
Vendo os que vão e vêem, a alma sonha e medita:
- “Pela vida a lutar nesta faina febril,
Este e aquele aonde vão? de onde vêem nesta grita?”

O que se ama ou se odeia ou se busca ou se evita,
Tudo se cruza aqui numa trama sutil.
- Quantos a morte leva ou seja nobre ou vil,
Enquanto em pleno sol o vivente se agita? –

E penso então que desde o tempo mais distante
A rua vê correr a humana vaga, e nela
Nada mudar da vida o drama palpitante.

E que outras ondas sempre aqui virão rolar...
Sempre as mesmas! Porém, desta minha janela,
Outros – não eu! – virão vê-las ir e voltar...

Joséphin Soulary
(Trad. de Emilio de Menezes)

SEJA LEVE



Isso de ler e escrever
é por amor ao estudo.
Marx e a vida são breves!
Pode-se querer tudo
desde que seja leve.

Rubens Rodrigues Torres Filho.

'NA HORA DE DORMIR'


Depois que o dia exausto me deixou,
amavelmente a noite constelada
há de acolher meu ardente desejo
como a uma criança fatigada.

Mãos, esquecei todos os afazeres!
Rosto, deixa o pensar ao abandono!
Agora todos os sentidos meus
querem afundar no sono.

A alma, sem ter quem tome conta dela,
em vôos libérrimos quer flutuar
e no circulo mágico da noite
a vida de mil formas esgotar.

Hermann Hesse
In: Andares Antologia Poética
Tradução: Geir Campos

DA BREVIDADE



Nas coisas breves
Da eternidade.

Coisas da vida...
Vida, quem há de

Ser infinito
Pela metade?

Homero Frei
In: Lado Alado

quinta-feira, 12 de junho de 2014

MELANCOLIA


Porque trouxeste as horas já vividas
Para, neste momento, recordar?
Porque notaste as lágrimas caídas,
Que jamais tornaremos a chorar?

A vida não tem páginas relidas,
Tudo nela é constante renovar,
E nós somos as folhas ressequidas
Dum poema que o Outono vai rasgar...

Folhas mortas, que ficam sossegadas,
Deixai-as para sempre nas estradas...
Para que levantá-las, Ventania?

Antes de morrer na paz do esquecimento,
Do que ser arrastada pelo vento,
Em hora de cruel melancolia...

Maria de Santa Isabel
In Flor de Esteva


[Poema que me foi enviado pela amiga Dione]

quinta-feira, 22 de maio de 2014

SONETO PARA NAVEGAR...


Há um tempo na vida que supomos
ter vencido sem trauma nem feridas
olvidando o sangrar das despedidas
sofridas nos poentes dos outonos...

E há um tempo de rosas renascidas
dos áridos desertos que nós somos
não obstante o estio vão os pomos
adoçando o penar de nossas vidas!

Ainda há um tempo que a saudade
como um rio que chora de piedade
nosso pranto carrega para o mar...

E vai além o nosso amor profundo
cantando no crepúsculo do mundo
a canção que a razão faz navegar!

Afonso Estebanez – 13.05.2014
(Composição dedicada à gentil amiga
Professora Nídia Horta, com carinho)

domingo, 4 de maio de 2014

Onde o outono não é um cenário sossegado


Olho o rosto dos homens
onde o outono não é um cenário sossegado,
porque lhes sobe até à boca
um vulcão de espanto,
a rir na minha própria cara.
Então, um súbito amor a saber a sangue
dramatiza a voz dos disfarces
no interior de mim mesma,
como se desse conta do lodo
que me cobre os olhos
e, de repente,um rio
me corresse na alma sobressaltado.

Graça Pires
De Outono: lugar frágil, 1994

[Arte: Ben Rotman]

Silêncios


Talvez um golpe mudo
construa a cegueira dos açudes
talhados pelo vento
no rastilho das noites,
ou na corrente de um rio insubmisso.
Talvez o silêncio seja a voz
que sufoca o medo quando as aves
começam a calar-se em nossas bocas.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

[Arte: Edward Robert Hughes]

Lentamente


Lentamente.
Como se fossem intermináveis os dias e as luas.
Como se o sedentarismo dos antigos nos habitasse.
Como se cavássemos no coração
o milagre das manhãs.
Como se a terra fosse um espelho
de água ou um coração solar.
Lentamente. Muito lentamente.
Porque basta a urgência de um grito
sem contornos para que a pétala mais ilesa
se corrompa, para sempre, em jardins moribundos.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Synphony of love, of Ben Weisman by Ray Conniff.

Agradeço de coração esse maravilhoso vídeo, que reúne fotografias de várias fases de meus filhos, marido e eu. Presente de aniversário de minha querida irmã e cunhada, dama Cearense Regina Helena Bezerra Paiva.28/04/2014

quarta-feira, 23 de abril de 2014

EM VÃO


Estou a falar
aos ventos
a desfiar
palavras
vão esforço
de tecer
caminhos.
Estou
a gastar-me
inutilmente.
Quem me ouve?

Miriam Portela

[Arte: Cathy Delanssay]