sábado, 25 de fevereiro de 2012
NADA A DECLARAR*
(Tela de Paul Gauguin)
Pronto – você, a ler sem temor
sobre o mais amargo (sobre)Viver,
ou na juventude quer refugiar-se
para não tanto sobre a vida saber?
- Claro que sim! Há tanto a ser
descoberto, mastigado, distraído.
Porções infinitas a vislumbrar;
posições horizontais a desfrutar.
(A quem interessa desventuras ler?)
Prefere – você, albergar-se naquilo
que a idade esconsa lhe oferece, dá
e ilude, com miragens e promessas
solertes, em mítico fugaz calendário?
- Claro que sim! Há tanto a ser
venerado, traído, encoberto, revisto
(talvez até esquecido); ardis inéditos:
hidras num mar de segredos malditos.
(A quem interessa tais crimes saber?)
Assim, todo o mau, inaudito, reafirma
aquilo que nenhum poeta precisa mais
repetir: nada de novo há sobre a terra.
Tudo – um Mar de Sargaços infames;
o pântano das mais sórdidas verdades,
jaz, impune, sob a terra dos homens!
*Jairo De Britto, em “Dunas de Marfim”
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Jairo de Britto
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
ANATOMIA E BIOTERNURA*
Amar e ver o corpo requer
paciência de anos; um maior
e melhor alfabeto de séculos.
Amar o corpo exige delicado
observar das cicatrizes aflitas
que sua alma recebe e retém.
Amar e rever o corpo requer
passo de leão, um gesto de cor;
arguir a dor da coragem além.
Amar o corpo requer carinho,
clemência, entrega; caminhar
altivo em lúdico despojar-se.
Amar e sentir o corpo requer
a gramática das rugas abraçar,
a pedagogia do tempo aceitar.
Amar e explorar o corpo requer
ternura para cicatrizes examinar;
alegrias e dores reunir e abrigar.
Espiar e sorver a cara juventude,
expiar a velhice em qualquer idade:
Tudo requer um corpo inteiro nu!
E o resgate do amor infante...
*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"
(Tela de Eliana Bonini)
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Jairo de Britto
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
"EL CONDOR PASA"
Com dó maior, assisto
partir o grande pássaro.
Com alegria, vislumbro
um seu novo horizonte.
Com a enorme pena
dos humanos que não voam.
Com a imensa pena
dos que não o vêem,
escuto o vento roçar suas asas.
Com afoita clemência,
abrigo e misturo nossos olhos.
Com a enorme argúcia
dos que tanto sobrevoam;
Com a aurora e astúcia
dos que tanto despertam;
observo seu lento suave
planar sobre o vale.
Com dores e letras, desejo
partir soberano com o pássaro.
Com estranha mansidão,
grito e informo minhas penas:
Com a impávida altivez
e ousadia dos que suicidam
Com a tácita incerta alforria
dos que nos versos ressuscitam!
Ao fim e ao cabo de obscuras
esperanças, aprecio quando
El Condor Pasa e passeia
sua altivez - liberta e sagrada -
sobre os Andes Latinos!
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
"Confusão"
Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem na casa do Presente, quando deviam estar - como seria lógico - uma na casa de Passado e a outra na casa do Futuro.
_ Mas e o Presente, seu moço?
_ Ah, esse nunca está em casa.
Mario Quintana
In a cor do invisível
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Mario Quintana
O SILÊNCIO
Há um grande silêncio que está à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta...
e cala.
Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo
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Mario Quintana
Jardim Interior
Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.
Mário Quintana
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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
"UM SINAL"
(Tela de Luiza Cetano)
"Deixa-me um sinal
quando quiseres.
Uma pedra, uma estrela ou uma ave
um cheiro,
um aroma
ou um morango
Uma cruz
talhada na minha porta
Que o caminho eu acharei
encruzilhado
entre o gesto e o espanto
pressentido
entre o vácuo e o manto!
ou o mar !
ou o vento!
ou as velas do meu barco
parado algures
no inevitável
porto das esperas."
LuizaCaetano.
(Poetisa portuguesa.)
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Luiza Caetano
"À pancada da onda contra a pedra hostil"
À pancada da onda contra a pedra hostil
a claridade rebenta e decreta a sua rosa
e o círculo do mar reduz-se a um cacho,
a uma gota única de sal azul que tomba.
Oh radiante magnólia desatada na espuma,
magnética viageira cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal destruído, ofuscante agitação marinha.
Juntos, meu amor, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas estátuas perenes
e derruba as suas torres de êxtase e loucura,
porque na trama destes tecidos invisíveis
da água desenfreada, da incessante areia,
mantemos a perseguida e única ternura.
Pablo Neruda,
in "Cien Sonetos de Amor"
(tradução: José Bento)
(Imagem de Isla Negra Chile, onde poeta se encontra enterrado, e onde ele viveu por muito tempo)
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Pablo Neruda
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Autotomia
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
Wislawa Szymborska
(Tradução coletiva, publicado em 'Inimigo Rumor 10')
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Wislawa Szymborska
As três palavras mais estranhas
(Tela de Mary Cassatt)
Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.
Wislawa Szymbroska
Tradução: Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves
in: 'Alguns gostam de poesia'- Antologia- Czeslaw Milosz e Wislawa Szymbroska, Cavalo de Ferro, 2004
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
"VERDADE DE BRINQUEDO"
A minha verdade
é o Atlântico Amadeus Oceano:
uma saudade tão simples
que não alcanço ou espanto.
A minha verdade
é Flora pura, verbo Purim:
inteira Jazz; Moura
Paulo, Leonardo - princípio e fim.
A minha verdade
é feita de prima Vera: uma Itália
nortista, único Moai em Santiago;
esmeraldas na Serra da Mantiqueira.
A minha verdade
é tão infame quanto Rimbaud:
um espantalho, um alaúde,
“O Novo Arrabalde”: Vitória desnuda.
A minha verdade
é cigana como meus olhos e sonhos,
vã como Veneza; adora a vida em Milão:
é portuguesa como António, o Boto.
A minha verdade
é profana, sacra, rara, sacana:
é Adriana e Frida; passa por Bocage
e Camões, mas deságua seus mitos
na boca saúva da Cobra Norato.
A minha verdade
é longa e Londres, um sítio da City.
É vasta - mais que perfeita escuridão:
dela nada conheço; nela me refaço e fortaleço.
A minha verdade
foi parida em noite de Lua Cheia.
Tão urbana como minha vida em viés:
seleta e diversa como nuvens grávidas.
A minha verdade
é um pouco Dali, outro tanto daqui.
Chega de mansinho como um carinho
afoito e fortuito: um verso de areia.
A minha verdade
é benta, nada andarilha, nada Anchieta:
é como ruas vazias; crua como Alfabeto
Celta; Sevilha - Amsterdã adormecida e nua.
A minha verdade
só existe nas línguas, em todos os lábios:
é labareda Amazônica que afoga crenças
de outras eras; ressuscita tempestades.
A minha verdade
não é cômoda, nem alvo escuso:
é certeira como Jorge, reluz como
Lótus no pântano; gira sóis como Van Gogh.
A minha verdade
namora a madrugada; despeja letras
sobre folhas virgens: fatia pão e Pound,
dispensa Salomão - saúda Sandburg!
A minha verdade
é tão incerta como humanos dentes de marfim;
tão pretensa que uma criança pode imitá-la.
Mas é a minha, nem boa nem má:
apenas brinquedo, pura ilusão.
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
Painting by José Navarro Llorens
(Valencia, 1867-1923) foi um pintor espanhol.)
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Jairo de Britto
Fim da Tormenta
Parou a ventania.
As estrelas dormentes, fatigadas,
Cerram à luz do dia
As misteriosas pálpebras doiradas.
Vai despontando o rosicler da aurora;
O azul sereno e vasto
Empalidece e cora,
Como se Deus lhe desse
Um brando beijo luminoso e casto.
A estrela da manhã
Na altura resplandece;
E a cotovia, a sua linda irmã,
Vai pelo azul um cântico vibrando,
Tão límpido, tão alto, que parece
Que é a estrela no céu que está cantando.
Guerra Junqueiro
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Guerra Junqueiro
Manuel da Fonseca
"Amigo
antes da morte vir
nasce de vez para a vida."
Manuel da Fonseca
Escritor português, já falecido.
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Manuel da Fonseca
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
INSCRIÇÃO
A beleza do céu anda na terra...
No silêncio das árvores verdes,
no luxo
dos jardins de sombras onde passeiam
as aves ilustres
em torno aos lagos, que são taças de luar...
A beleza do céu anda na terra...
Onestaldo de Pennafort
Poesias (1957)
No silêncio das árvores verdes,
no luxo
dos jardins de sombras onde passeiam
as aves ilustres
em torno aos lagos, que são taças de luar...
A beleza do céu anda na terra...
Onestaldo de Pennafort
Poesias (1957)
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Onestaldo de Pennafort
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
''Sobre um mar de rosas que arde''
'
Sobre um mar de rosas que arde
Em ondas fulvas, distante,
Erram meus olhos, diamante,
Como as naus dentro da tarde.
Asas no azul, melodias,
E as horas são velas fluidas
Da nau em que, oh! alma, descuidas
das esperanças tardias.
Pedro Kilkerry
In: "Re-visão de Kilkerry "
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Pedro Kilkerry
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Quero apenas
Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.
Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.
Olga Savary
(Belém, 21 de maio de 1933)
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Olga Savary
Solidão
Quedamos sempre sozinhos
Em nossas horas maiores
A dor, veneno latente,
Corrói-nos a alma em segredo.
A mais gloriosa alegria
Floresce na solidão.
Helena Kolody
In: Correnteza
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Helena Kolody
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Rain Has Fallen All the Day
(James Joyce)
Rain has fallen all the day.
O come among the laden trees:
The leaves lie thick upon the way
Of memories.
Staying a little by the way
Of memories shall we depart.
Come, my beloved, where I may
Speak to your heart.
James Joyce
Todo el día ha llovido sin cesar.
Nos refugiará el denso árbol cargado
de hojas: no nos podrán aquí alcanzar
las aguas del pasado.
Es mejor alejarnos del lugar
donde habita el pasado insoportable.
Ven, así nos podemos acercar:
deja que mi alma te hable.
Tradução livre
James Augustine Aloysius Joyce (Dublin, 2 de fevereiro de 1882 — Zurique, 13 de janeiro de 1941) foi um romancista, contista e poeta irlandês expatriado. É amplamente considerado um dos autores de maior relevância do século XX. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses/Gente de Dublin (1914) e os romances Retrato do Artista Quando Jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939) - o que se poderia considerar um "cânone joyceano". Também participou dos primórdios do modernismo poético em língua inglesa, sendo considerado por Ezra Pound um dos mais iminentes poetas do imagismo.
Embora Joyce tenha vivido fora de seu país natal pela maior parte da vida adulta, suas experiências irlandesas são essenciais para sua obra e fornecem-lhe toda a ambientação e muito da temática. Seu universo ficcional enraíza-se fortemente em Dublin e reflete sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade. Desta forma, ele é ao mesmo tempo um dos mais cosmopolitas e um dos mais particularistas dos autores modernistas de língua inglesa.
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James Joyce
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
O Duplo
Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto
-que me alimenta a tristeza.
Debaixo de minha cama
tem sempre um fantasma vivo
-que perturba quem me ama.
Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
-pensando que eu sou ele.
Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
-e alguém calado que grita.
Affonso Romano de Sant'Anna
(Tela, autor desconhecido)
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Affonso Romano de Sant'Anna
Despedidas
Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm os que amando tudo o que perderam
já não mentem.
Affonso Romano de Sant'Anna
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Affonso Romano de Sant'Anna
'Crepusculando'
É inenarrável esse crepúsculo
em mim se desmaiando
essas cigarras acima do ruído urbano
essas flores no terraço cúmplices
me olhando.
É inenarrável esse céu
esse dia
em mim se desmanchando.
Ergo um brinde à luz
e sigo
crepusculando.
Affonso Romano de Sant'Anna
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domingo, 8 de janeiro de 2012
'CHANSON D'AUTOMNE'
Pela passagem dos 116 anos da morte do poeta francês, PAUL VERLAINE, um de seus poemas mais conhecidos;
'CHANSON D'AUTOMNE'
Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.
Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Paul Verlaine
''CANÇÃO DO OUTONO''
Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.
Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.
Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...
Paul Verlaine
Tradução: Alphonsus de Guimaraens
''CANÇÃO DO OUTONO''
Os longos sons
dos violões,
pelo outono,
me enchem de dor
e de um langor
de abandono.
E choro, quando
ouço, ofegando,
bater a hora,
lembrando os dias,
e as alegrias
e ais de outrora.
E vou-me ao vento
que, num tormento,
me transporta
de cá pra lá,
como faz à
folha morta.
Paul Verlaine
Tradução: Onestaldo de Pennafort
''CANÇÃO DE OUTONO''
Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.
E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.
E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.
Paul Verlaine
Tradução: Guilherme de Almeida
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
"Canção de outono"
Os soluços longos
dos violinos
pelo outono
Machucam meu coração
Em uma lânguida
Monotonia...
Todos os sufocantes
E pálidos, sons do tempo.
Quando
Lembro-me dos
Velhos tempos
E eu choro.
E eu vou,
Ao vento doente
Leva-me para
Aqui e acolá,
Como faz a
Folha morta.
Paul Verlaine
(Tradução sem pretensão)
Os soluços longos
dos violinos
pelo outono
Machucam meu coração
Em uma lânguida
Monotonia...
Todos os sufocantes
E pálidos, sons do tempo.
Quando
Lembro-me dos
Velhos tempos
E eu choro.
E eu vou,
Ao vento doente
Leva-me para
Aqui e acolá,
Como faz a
Folha morta.
Paul Verlaine
(Tradução sem pretensão)
Paul-Marie Verlaine nasceu em Metz, França, em 30 de março de 1844. Filho de um militar abastado, estudou no Liceu Bonaparte -- hoje Condorcet -- de Paris e mais tarde conciliou o trabalho numa companhia de seguros com a vida boêmia nos círculos literários parisienses. Em seus primeiros livros, Poèmes saturniens (1866; Poemas saturninos) e Fêtes galantes (1869; Festas galantes), ouvem-se ecos do romantismo e do parnasianismo.
Simbolista, seu lirismo musical abriu novos caminhos para a poesia na França.
O lirismo musical e evanescente de Verlaine exerceu influência decisiva no desenvolvimento do simbolismo e abriu novos caminhos para a poesia francesa. Com Mallarmé e Baudelaire, Verlaine compõe o grupo dos chamados poetas decadentes.
Os vários livros de poemas que se seguiram apenas ocasionalmente recuperaram a antiga magia, como Amour (1888).
Da produção posterior de Verlaine, o que mais se destaca são os textos em prosa, como o ensaio Les Poètes maudits (1884; Os poetas malditos), vital para o reconhecimento público de Rimbaud, Mallarmé e outros autores, e as atormentadas obras autobiográficas Mes hôpitaux (1892; Meus hospitais) e Mes prisons (1893; Minhas prisões).
Paul Verlaine morreu em Paris em 8 de janeiro de 1896.
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sábado, 7 de janeiro de 2012
''Amai-vos...''
Homenagem
Aniversário do nascimento de Gibran Kahlil Gibran ( جبران خليل جبران)
06 de janeiro de 1883, Bicharre, Líbia.
''Amai-vos...''
Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.
Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.
Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.
Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.
Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,
mas deixai
cada um de vós estar sozinho.
Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.
Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.
Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.
E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.
Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.
E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.
Gibran Kahlil Gibran
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Seu nome completo é Gibran Kahlil Gibran. Assim assinava em árabe. Em inglês, preferiu a forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. É mais comumente conhecido sob o simples nome de Gibran.
1883 - Nasceu em 6 de dezembro, em Bsharri, nas montanhas do Líbano, a uma pequena distância dos cedros milenares. Tinha oito anos quando, um dia, um temporal se abate sobre sua cidade. Gibran olha, fascinado, para a natureza em fúria e, estando sua mãe ocupada, abre a porta e sai a correr com os ventos.
Quando a mãe, apavorada, o alcança e repreende, ele lhe responde com todo o ardor de suas paixões nascentes: "Mas, mamãe, eu gosto das tempestades. Gosto delas. Gosto!" (Um de seus livros em árabe será intitulado Temporais).
1894 - Emigra para os Estados Unidos, com a mãe, o irmão Pedro e as duas irmãs Mariana e Sultane. Vão morar em Boston. O pai permanece em Bsharri.
1898/1902 - Vota ao Líbano para completar seus estudos árabes. Matricula-se no Colégio da Sabedoria, em Beirute. Ao diretor, que procura acalmar sua ambição impaciente, dizendo-lhe que uma escada deve ser galgada degrau por degrau, Gibran responde: "Mas as águias não usam escadas!"
1902/1908 - De novo em Boston. Sua mãe e seu irmão morrem em 1903. Gibran escreve poemas e meditações para Al-Muhajer (O Emigrante), jornal árabe publicado em Boston. Seu estilo novo, cheio de música, imagens e símbolos, atrai-lhe a atenção do Mundo Árabe. Desenha e pinta numa arte mística que lhe é própria. Uma exposição de seus primeiros quadros desperta o interesse de uma diretora de escola americana, Mary Haskell, que lhe oferece custear seus estudos artísticos em Paris.
1908/1910 - Em Paris. Estuda na Académie Julien. Trabalha freneticamente. Freqüenta museus, exposições, bibliotecas. Conhece Auguste Rodin. Uma de suas telas é escolhida para a Exposição das Belas-Artes de 1910. Nesse ínterim, morrem seu pai e sua irmã Sultane. 1910 - Volta a Boston e, no mesmo ano, muda-se para Nova York, onde permanecerá até o fim da vida. Mora só, num apartamento sóbrio que ele e seus amigos chamam As-Saumaa (O Eremitério). Mariana, sua irmã, permanece em Boston. Em Nova York, Gibran reúne em volta de si uma plêiade de escritores libaneses e sírios que, embora estabelecidos nos Estados Unidos, escrevem em árabe com idênticos anseios de renovação. O grupo forma uma academia literária que se intitula Ar-Rabita Al-Kalamia (A Liga Literária), e que muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Seus porta-vozes foram, sucessivamente, duas revistas árabes editadas em Nova York: Al-Funun (As Artes) e As-Saieh (O Errante).
1905/1920 - Gibran escreve quase que exclusivamente em árabe e publica sete livros nessa língua: 1905, A Música; 1906, As Ninfas do Vale; 1908, Espíritos Rebeldes; 1912, Asas Partidas; 1914, Uma Lágrima e um Sorriso; 1919, A Procissão; 1920, Temporais. (Após sua morte, será publicado u m oitavo livro, sob o título de Curiosidades e Belezas, composto de artigos e histórias já aparecidas em outros livros e de algumas páginas inéditas).
1918/1931 - Gibran deixa, pouco a pouco, de escrever em árabe e dedica-se ao inglês, no qual produz também oito livros: 1918, O Louco; 1920, O Precursor; 1923, O Profeta; 1927, Areia e Espuma; 1928, Jesus, o Filho do Homem; 1931, Os Deuses da Terra. (Após sua morte serão publicados mais dois: 1932, O Errante; 1933, O Jardim do Profeta.) Todos os livros em inglês de Gibran foram lançados por Alfred A. Knopf, dinâmico editor norte-americano com inclinação para descobrir e lançar novos talentos. Ao mesmo tempo em que escreve, Gibran se dedica a desenhar e pintar. Sua arte, inspirada pelo mesmo idealismo que lhe inspirou os livros, distingue-se pela beleza e a pureza das formas. Todos os seus livros em inglês foram por ele ilustrados com desenhos evocativos e místicos, de interpretação às vezes difícil, mas de profunda inspiração. Seus quadros foram expostos várias vezes com êxito em Boston e Nova York. Seus desenhos de personalidades históricas são também célebres.
1931 - Gibran morre em 10 de abril, no Hospital São Vicente, em Nova York, no decorrer de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.
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Gibran Kahlil Gibran
'SOFISMAS'
(Pintura de Anouk Lacasse)
Às vezes
eu sou chuva
e escorro pelas valas
da desilusão.
Às vezes
sou vento
e percorro alamedas
inutilmente.
Por que sou chuva?
Por que sou vento?
Por que reclamo poemas?
cânticos tão verdes?
se já sou inverno
a entoar hinos de hosana
entre folhas secas
pisadas
machucadas demais
para inventarmos outra igual.
Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo
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Alvina Nunes Tzovenos
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
OS HOMENS OCOS
Homenagem ao poeta estadunidense, T.S. Eliot, pela passagem dos 47 anos de sua morte.
(St. Louis, 26 de setembro de 1888 — Londres, 4 de janeiro de 1965)
(St. Louis, 26 de setembro de 1888 — Londres, 4 de janeiro de 1965)
OS HOMENS OCOS
"A penny for the Old Guy"
(Um pêni para o Velho Guy)
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Forma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
T S Eliot
Trad. Ivan Junqueira
The Hollow Men
Mistah Kurtz—he dead.
A penny for the Old Guy
I
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar
Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.
T. S. Eliot
Mistah Kurtz—he dead.
A penny for the Old Guy
I
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar
Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.
T. S. Eliot
'Los hombres huecos'
I
Somos los hombres huecos
Los hombres rellenos de aserrín
Que se apoyan unos contra otros
Con cabezas embutidas de paja. ¡Sea!
Ásperas nuestras voces, cuando
Susurramos juntos
Quedas, sin sentido
Como viento sobre hierba seca
O el trotar de ratas sobre vidrios rotos
En los sótanos secos
Contornos sin forma, sombras sin color,
Paralizada fuerza, ademán inmóvil;
Aquellos que han cruzado
Con los ojos fijos, al otro Reino de la muerte
Nos recuerdan -si acaso-
No como almas perdidas y violentas
Sino, tan sólo, como hombres huecos,
Hombres rellenos de aserrín.
1925
TS Eliot
Thomas Stearns Eliot
foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário inglês nascido nos Estados Unidos, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1948.
Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos, mudou-se para a Inglaterra em 1914 (então com 25 anos), tornando-se cidadão britânico em 1927, com 39 anos de idade. Sobre sua nacionalidade e sua influência na sua obra, T.S. Eliot disse:
"My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional springs, it comes from America."
T. S Eliot residia em Londres. Depois da guerra, nos anos vinte, ele passou muito tempo com outros grandes artistas na avenida Montparnasse, em Paris, onde foi fotografado por Man Ray. A poesia francesa exerceu grande influência na obra de Eliot, em particular o simbolista Charles Baudelaire, cujas imagens da vida em Paris serviram de modelo para a imagem de Londres pintada por Eliot. Ele começou então a estudar sânscrito e religiões orientais, chegando a ser aluno do renomado armênio G. I. Gurdjieff. A obra de Eliot, após a sua conversão ao cristianismo pela Igreja Anglicana, é frequentemente religiosa em sua natureza e tenta preservar o inglês arcaico e alguns valores europeus que ele julgava serem importantes. Publicou o poema The Waste Land em 1922; em 1927 obteve a nacionalidade britânica. Em 1928, Eliot resumiu suas crenças muito bem no prefácio de de seu livro "Para Lancelot Andrews": "O ponto de vista geral [dos assuntos do livro] pode ser descrito como classicista na literatura, monarquista na política e anglo-católico na religião." Essa fase inclui trabalhos poéticos como Ash Wednesday, The Journey of the Magi, e Four Quartets.
(Imagem de Ben Goossens.)
foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário inglês nascido nos Estados Unidos, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1948.
Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos, mudou-se para a Inglaterra em 1914 (então com 25 anos), tornando-se cidadão britânico em 1927, com 39 anos de idade. Sobre sua nacionalidade e sua influência na sua obra, T.S. Eliot disse:
"My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional springs, it comes from America."
T. S Eliot residia em Londres. Depois da guerra, nos anos vinte, ele passou muito tempo com outros grandes artistas na avenida Montparnasse, em Paris, onde foi fotografado por Man Ray. A poesia francesa exerceu grande influência na obra de Eliot, em particular o simbolista Charles Baudelaire, cujas imagens da vida em Paris serviram de modelo para a imagem de Londres pintada por Eliot. Ele começou então a estudar sânscrito e religiões orientais, chegando a ser aluno do renomado armênio G. I. Gurdjieff. A obra de Eliot, após a sua conversão ao cristianismo pela Igreja Anglicana, é frequentemente religiosa em sua natureza e tenta preservar o inglês arcaico e alguns valores europeus que ele julgava serem importantes. Publicou o poema The Waste Land em 1922; em 1927 obteve a nacionalidade britânica. Em 1928, Eliot resumiu suas crenças muito bem no prefácio de de seu livro "Para Lancelot Andrews": "O ponto de vista geral [dos assuntos do livro] pode ser descrito como classicista na literatura, monarquista na política e anglo-católico na religião." Essa fase inclui trabalhos poéticos como Ash Wednesday, The Journey of the Magi, e Four Quartets.
(Imagem de Ben Goossens.)
ESBOÇO
Antes, somos sedas a esmo
Projetos libélula, bichos voláteis.
Antes é o esboço, o mais raso ensaio.
O amor chega no remanso dos ventos,
No ressaca dos atos.
O amor vinga mais tarde.
Fernando Campanella
Do blog do poeta.
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''Minh'alma é triste''
Homenagem ao poeta Casimiro de Abreu, pela passagem de sues 176 anos.
(Silva Jardim, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860)
(Silva Jardim, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860)
Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.
E, como a rôla que perdeu o esposo,
Minh'alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.
E como notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.
Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minha'alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.
Dizem que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
— Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque — mas a minh'alma é triste!
II
Minh'alma é triste como a voz do sino
Carpindo o morto sobre a laje fria;
E doce e grave qual no templo um hino,
Ou como a prece ao desmaiar do dia.
Se passa um bote com as velas soltas,
Minh'ahna o segue n'amplidão dos mares;
E longas horas acompanha as voltas
Das andorinhas recortando os ares.
Às vezes, louca, num cismar perdida,
Minh'alma triste vai vagando à toa,
Bem como a folha que do sul batida
Bóia nas águas de gentil lagoa!
E como a rola que em sentida queixa
O bosque acorda desde o albor da aurora,
Minha'ahna em notas de chorosa endeixa
Lamenta os sonhos que já tive outrora.
Dizem que há gozos no correr dos anos!...
Só eu não sei em que o prazer consiste.
— Pobre ludíbrio de cruéis enganos,
Perdi os risos — a minh'alma é triste!
III
Minh'alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!
E como a flor que solitária pende
Sem ter carícias no voar da brisa,
Minh'alma murcha, mas ninguém entende
Que a pobrezinha só de amor precisa!
Amei outrora com amor bem santo
Os negros olhos de gentil donzela,
Mas dessa fronte de sublime encanto
Outro tirou a virginal capela.
Oh! quantas vezes a prendi nos braços!
Que o diga e fale o laranjal florido!
Se mão de ferro espedaçou dois laços
Ambos choramos mas num só gemido!
Dizem que há gozos no viver d'amores,
Só eu não sei em que o prazer consiste!
— Eu vejo o mundo na estação das flores
Tudo sorri — mas a minh'alma é triste!
IV
Minh'alma é triste como o grito agudo
Das arapongas no sertão deserto;
E como o nauta sobre o mar sanhudo,
Longe da praia que julgou tão perto!
A mocidade no sonhar florida
Em mim foi beijo de lasciva virgem:
— Pulava o sangue e me fervia a vida,
Ardendo a fronte em bacanal vertigem.
De tanto fogo tinha a mente cheia!...
No afã da glória me atirei com ânsia...
E, perto ou longe, quis beijar a s'reia
Que em doce canto me atraiu na infância.
Ai! loucos sonhos de mancebo ardente!
Esp'ranças altas... Ei-las já tão rasas!...
— Pombo selvagem, quis voar contente...
Feriu-me a bala no bater das asas!
Dizem que há gozos no correr da vida...
Só eu não sei em que o prazer consiste!
— No amor, na glória, na mundana lida,
Foram-se as flores — a minh'alma é triste!
Casimiro de Abreu
Casimiro José Marques de Abreu (Silva Jardim, 4 de janeiro de 1839 — Nova Friburgo, 18 de outubro de 1860) foi um poeta brasileiro da segunda geração romântica.
oi filho do abastado comerciante e fazendeiro português José Joaquim Marques de Abreu[ e de Luísa Joaquina das Neves, uma fazendeira de Silva Jardim (na época, Capivary), viúva do primeiro casamento. Com José Joaquim ela teve três filhos, embora nunca tenham sido oficialmente casados. Casimiro nasceu na Fazenda da Prata, em Casimiro de Abreu, propriedade herdada por sua mãe em decorrência da morte do seu primeiro marido, de quem não teve filhos.[1]
A localidade onde viveu parte de sua vida, Barra de São João, é hoje distrito do município que leva seu nome, e também chamada "Casimiro de Abreu", em sua homenagem. Recebeu apenas a instrução primária no Instituto Freeze, dos onze aos treze anos, em Nova Friburgo, então cidade de maior porte da região serrana do estado do Rio de Janeiro, e para onde convergiam, à época, os adolescentes induzidos pelos pais a se aplicarem aos estudos.
Aos treze anos transferiu-se para o Rio de Janeiro para trabalhar com o pai no comércio. Com ele, embarcou para Portugal em 1853, onde entrou em contato com o meio intelectual e escreveu a maior parte de sua obra. O seu sentimento nativista e as saudades da família escreve: "estando a minha casa à hora da refeição, pareceu-me escutar risadas infantis da minha mana pequena. As lágrimas brotavam e fiz os primeiros versos de minha vida, que teve o título de Ave Maria".
Em Lisboa, foi representado seu drama Camões e o Jau em 1856, que foi publicado logo depois.
Seus versos mais famosos do poema Meus oito anos: Oh! Que saudades que tenho/da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/naquelas tardes fagueiras,/ à sombra das bananeiras,/ debaixo dos laranjais!
Em 1857 retornou ao Brasil para trabalhar no armazém de seu pai. Isso, no entanto, não o afastou da vida boêmia. Escreveu para alguns jornais e fez amizade com Machado de Assis. Escolhido para a recém fundada Academia Brasileira de Letras, tornou-se patrono da cadeira número seis.
Tuberculoso, retirou-se para a fazenda de seu pai, Indaiaçu, hoje sede do município que recebeu o nome do poeta, onde inutilmente buscou uma recuperação do estado de saúde, vindo ali a falecer. Foi sepultado conforme seu desejo em Barra de São João, estando sua lápide no cemitério da secular Capela de São João Batista, junto ao túmulo de seu pai. Em 1859 editou as suas poesias reunidas sob o título de Primaveras.
Espontâneo e ingênuo, de linguagem simples, tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no Brasil. Seu sucesso literário, no entanto, deu-se somente depois de sua morte, com numerosas edições de seus poemas, tanto no Brasil, quanto em Portugal. Deixou uma obra cujos temas abordavam a casa paterna, a saudade da terra natal, e o amor (mas este tratado sem a complexidade e a profundidade tão caras a outros poetas românticos). A despeito da popularidade alcançada pelos livros do poeta, sua mãe, e herdeira necessária, morreu em 1859 na mais absoluta pobreza, não tendo recebido um tostão sequer em termos de direitos autorais, fossem do Brasil, fossem de Portugal.
oi filho do abastado comerciante e fazendeiro português José Joaquim Marques de Abreu[ e de Luísa Joaquina das Neves, uma fazendeira de Silva Jardim (na época, Capivary), viúva do primeiro casamento. Com José Joaquim ela teve três filhos, embora nunca tenham sido oficialmente casados. Casimiro nasceu na Fazenda da Prata, em Casimiro de Abreu, propriedade herdada por sua mãe em decorrência da morte do seu primeiro marido, de quem não teve filhos.[1]
A localidade onde viveu parte de sua vida, Barra de São João, é hoje distrito do município que leva seu nome, e também chamada "Casimiro de Abreu", em sua homenagem. Recebeu apenas a instrução primária no Instituto Freeze, dos onze aos treze anos, em Nova Friburgo, então cidade de maior porte da região serrana do estado do Rio de Janeiro, e para onde convergiam, à época, os adolescentes induzidos pelos pais a se aplicarem aos estudos.
Aos treze anos transferiu-se para o Rio de Janeiro para trabalhar com o pai no comércio. Com ele, embarcou para Portugal em 1853, onde entrou em contato com o meio intelectual e escreveu a maior parte de sua obra. O seu sentimento nativista e as saudades da família escreve: "estando a minha casa à hora da refeição, pareceu-me escutar risadas infantis da minha mana pequena. As lágrimas brotavam e fiz os primeiros versos de minha vida, que teve o título de Ave Maria".
Em Lisboa, foi representado seu drama Camões e o Jau em 1856, que foi publicado logo depois.
Seus versos mais famosos do poema Meus oito anos: Oh! Que saudades que tenho/da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/naquelas tardes fagueiras,/ à sombra das bananeiras,/ debaixo dos laranjais!
Em 1857 retornou ao Brasil para trabalhar no armazém de seu pai. Isso, no entanto, não o afastou da vida boêmia. Escreveu para alguns jornais e fez amizade com Machado de Assis. Escolhido para a recém fundada Academia Brasileira de Letras, tornou-se patrono da cadeira número seis.
Tuberculoso, retirou-se para a fazenda de seu pai, Indaiaçu, hoje sede do município que recebeu o nome do poeta, onde inutilmente buscou uma recuperação do estado de saúde, vindo ali a falecer. Foi sepultado conforme seu desejo em Barra de São João, estando sua lápide no cemitério da secular Capela de São João Batista, junto ao túmulo de seu pai. Em 1859 editou as suas poesias reunidas sob o título de Primaveras.
Espontâneo e ingênuo, de linguagem simples, tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no Brasil. Seu sucesso literário, no entanto, deu-se somente depois de sua morte, com numerosas edições de seus poemas, tanto no Brasil, quanto em Portugal. Deixou uma obra cujos temas abordavam a casa paterna, a saudade da terra natal, e o amor (mas este tratado sem a complexidade e a profundidade tão caras a outros poetas românticos). A despeito da popularidade alcançada pelos livros do poeta, sua mãe, e herdeira necessária, morreu em 1859 na mais absoluta pobreza, não tendo recebido um tostão sequer em termos de direitos autorais, fossem do Brasil, fossem de Portugal.
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domingo, 1 de janeiro de 2012
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
O cisne
Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.
E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águas
que mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;
então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.
Rainer Maria Rilke
Tradução de Dora Ferreira da Silva
'The Swan''
This laboring through what is still undone,
as though, legs bound, we hobbled along the way,
is like the akward walking of the swan.
And dying-to let go, no longer feel
the solid ground we stand on every day-
is like anxious letting himself fall
into waters, which receive him gently
and which, as though with reverence and joy,
draw back past him in streams on either side;
while, infinitely silent and aware,
in his full majesty and ever more
indifferent, he condescends to glide.
Rainer Maria Rlke
Translated by Stephen Mitchel
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Wolga
WolgaBist Du auch fern:
ich schaue Dich doch an,Bist Du auch fern:
mir bleibst Du doch gegeben ---
Wie eine Gegenwart, die nicht verblassen kann.
Wie meine Landschaft liegst
Du um mein Leben.
Hätt ich an Deinen Ufern nie geruht:
Mir ist, als wüsst ich doch um Deine Weiten,
Als landete mich jede Traumesflut
An Deinen ungeheuren Eisamkeiten.
Rainer Maria Rilke
Volga
Por longe que estejas: posso ainda te ver,
Por longe que estejas: tu permanecerás
Qual presença que não pode empalidecer,
Qual paisagem, a mim sempre contornarás.
Se tuas margens eu jamais tivesse tocado,
Mesmo assim saberia tua imensidão:
Ondas de meus sonhos me teriam levado
À beira de tua infindável solidão
Rainer Maria Rilke
Photography :
The Volga (Russian: Во́лга; [ˈvolɡə] ( listen)) is the largest river in Europe in terms of length, discharge, and watershed. It flows through central Russia, and is widely viewed as the national river of Russia. Out of the twenty largest cities of Russia, eleven, including the capital Moscow, are situated in the Volga's drainage basin. Some of the largest reservoirs in the world can be found along the Volga. The river has a symbolic meaning in Russian culture and is often referred to as Volga-Matushka (Volga-mother) in Russian literature and folklore.
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