quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Para mim mesma



Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem belezas mansas de brumas,
Que na penumbra se evaporarem...


Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem doçuras de auras e plumas...


E as noites mudas de desencanto
Se constelarem, se iluminarem
Com os astros mortos que vêm no pranto...


As noites mudas de desencanto...
Para os meus olhos, quando chorarem...


Para os meus olhos, quando chorarem,
Terem divinas solicitudes
Pelos que mais os sacrificarem...


Para os meus olhos, quando chorarem,
Verterem flores sobre os paludes...


Para que os olhos dos pecadores
Que os humilharem, que os maltratarem,
Tenham carinhos consoladores.


Se, em qualquer noite de ânsias e dores,
Os olhos tristes dos pecadores
Para os meus olhos se levantarem...



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Elegia



Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária
E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite
Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas
E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,
De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,
Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos
Eu te acompanho pelo céu escuro
Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncias.
Tu que de um tempo longo ergues teus olhos sobre o tempo
E apenas náufragos aportam a esse país estranho em que tu vives.
Ouço tua voz cair no mar da madrugada
Para que o céu se deite sobre ti como um sepulcro
E as estrelas brilhem nesta noite escura como incêndios.


Paulo Plínio Abreu
In: Poesia
(Belém do Pará -1921-1959)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DÁ-ME A FESTA MÁGICA



DEUS – e de onde é que tiras para acender o céu
este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.

Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.

Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
para que eu seja o óleo de tua luz suprema.

E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingênuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.


Pablo Neruda
Tradução: José Eduardo Degrazia
(Chile)

Alice in Wonderland



Se esse mundo fosse só meu,
tudo nele era diferente!
Nada era o que é porque tudo era o que não é
E também tudo que é, por sua vez, não seria.
E o que não fosse, seria.
Não é?
No meu mundo você não diria: miau
Diria: Sim Dona Alice!
Ó, mas é verdade!
Você seria como nós Dinah
Os animais falariam.
Ó, no meu mundo...

Meu gatinho ia ter um lindo castelinho
Ia andar todo bem vestidinho
Nesse mundo só meu.

Minhas flores
Quanta coisa eu não diria as flores
Contaria histórias para as flores
Se eu vivesse nesse mundo só meu.

Passarinhos
Como vão vocês, meus passarinhos?!
Vocês iam ter milhões de ninhos
Nesse meu mundo só meu.

Poderia num regato a rir, poder cantar uma canção sem
fim
Quem me dera que ele fosse assim
Maravilhosamente só pra mim!

de "Alice no país das maravilhas"

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Hoje, confesso, acordei com vontade de ser feliz



Hoje, confesso, acordei com vontade de ser feliz.
Amarrei, até, no pulso o amor-perfeito
que foi secando no meu peito e retomei a velha máxima:
não deixar que qualquer angústia atinja o coração.
Um castelo de areia, é tudo quanto quero
para acostar o meu barco de papel.

Aproxima os olhos da vertigem e estremece
com a luz espessa, que brilha nos teus ombros.
No céu do teu país, as estrelas podem ser barcos,
se quiseres sulcar os mares do coração em desordem.


Graça Pires
(Portugal)

OS CAMPOS



Campos por onde nunca passarei
no céu esverdeado deste agosto
- que me importa o que serei
se meu ser é um sol já posto.

Findo talvez – e todo branco
envolto em terra, escuro mosto.
Onde imaginar o que é franco
senão na limpidez só deste rosto ?

Se morre agosto, outro tempo
sucede imutável ao próprio vento.
Campos sei, tão cheios de encantos

e tão devastados no momento
que são Campos e campos
ofertados a todos os espantos.


Lúcio Cardoso
in Poemas Inéditos
(Brasil)

Retomo ao Ponto de Partida



Retomo, pois, ao ponto de partida
como um presente, o ponto de chegada.
Entre um começo e outro não há nada
Excepto o nada da vida vivida.

Desgaste, corrosão do que de novo
em velho se mudou antes de o ser,
etc.


Vergílio Ferreira,
in 'Conta-Corrente 1'
(Portugal)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

NÃO MORRERAM, PARTIRAM PRIMEIRO



Choras os teus mortos com tanto desalento
que parece até que és eterno

Eles não morreram, apenas partiram primeiro.

Como lobo faminto, te agitas impaciente, na ansiedade de desvendar os mistérios que poderão ser simples, transparentes e brilhantes aos quais terás acesso quando tu mesmo morreres.

Eles não morreram, apenas partiram primeiro, diz sabiamente o provérbio inglês.

Eles partiram antes... Por que insistis em questionar o porque?

Deixa-os sacudir o pó da estrada.

Deixa-os curar no colo do Pai os pés feridos da longa caminhada.

Deixa-os descansarem os olhos nos verdes pastos da paz.

Antes, preparas a tua bagagem, pois o comboio te espera.

E essa sim, é uma tarefa prática e eficiente.

Verás os teus mortos, e isso é um fato próximo e inevitável. Então não tenhas a menor pressa em alterar as poucas horas do teu descanso.

Eles, num impulso quebraram as barreiras do tempo e te esperam pacientemente.

Apenas foram num comboio anterior.

A morte é uma alegria, e esse conhecimento é dado por Deus aos que se aproximam dela, e oculto aos que ainda irão percorrer longa etapa de vida, para que sigam naturalmente o caminho.

Amado Nervo
(Tepic,México- 27 de agosto de 1870 — Montevidéu,Uruguay-24 de maio de 1919)
Tradução livre por Regina Helena e Maria Madalena

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O C I S N E



Este sacrifício de avançar
pelos feixes do irrealizado
lembra um cisne, altivo a caminhar.


E a morte – esse nada mais buscar
do chão diariamente repisado –
lembra a sua angustia de pousar


sobre as águas que o recebem mansas
e cedem sob ele, em suaves tranças
de marolas que cercá-lo vem;
enquanto ele, calmo e independente,
segue sempre majestosamente
como ao seu capricho lhe convém.



Rainer Maria Rilke
In: Poemas
Tradução: Geir Campos
(Editora José Olympio)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

o sol do meio dia



o sol do meio dia
não veio nos visitar
meu anjo
não guardou
o lugar na primeira fila
o filme está prestes a começar

guerreiros inflamados
desnutridos de cultura
com armas em punho
espumam líquido rubro
conspiram contra almas
(ainda inocentes)

o sorriso
uma uzi
me faz de alvo
de repente
vi meu escalpo
sangrar
feliz
em suas mãos

herói sem nome
frente ao espelho
diz;
- olá!

bússola sem controle
faz o caminho correto
leva
a lugar nenhum

seres devassos
sussurram preces bucólicas
um cai
outro levanta
traz migalhas de carinho

minha metade homem
sente saudade
a outra
sonha ainda te encontrar

lobos
(os donos da noite)
querem acabar com
a solidão

frestas de desejo
(suave toque)
comandado pelo
derradeiro sopro da vida

maltrapilhos
famintos
cobiçam o beijo do luar
a mão que acaricia
o amor

o grande pano
dá seu último cochilo
fico sentado
impaciente

aguardo uma
continuação



José Geraldo Neres
(São Paulo 04-12/1966)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cair da noite


Cai a noite a mudar devagar os vestidos
que uma franja de árvores velhas lhe segura;
olhas: e separam-se de ti as terras:
uma que vai para o céu, outra que cai;

e deixam-te, sem pertenceres de todo a qualquer delas,
não tão escuro como a casa silenciosa,
não tão seguro a evocar o eterno
como a que cada noite se faz estrela e sobe;

e deixam-te (indizível de desenredar!)
a tua vida, angustiada, gigantesca, a amadurar, tal
que, ora limitada ora compreensiva,
alterna em ti - ou pedra ou astro.

Rainer Maria Rilke

Magia das cores



De quando em quando um sopro divino,
Céu em cima, céu no fundo,
Mil canções canta a luz,
No multicolor Deus se fez mundo.


Branco para o preto, quente para o frio
Sentem-se sempre atraídos.
Do eterno turbilhar desse caótico rio
Filtra-se novo o arco-íris.


Pela nossa alma assim se transforma mil vezes em
tortura e encontro
A luz de Deus criada, forma
E como sol a enaltecemos.



Hermann Hesse
In: Caminhada

domingo, 25 de outubro de 2009

TO THE SUPREME BEING



The prayers I make will then be sweet indeed,
If Thou the spirit give by which I pray:
My unassisted heart is barren clay,
Which of its native self can nothing feed:
Of good and pious works Thou art the seed,
Which quickens only where Thou say'st it may;
Unless Thou show to us Thine own true way,
No man can find it: Father! Thou must lead.
Do Thou, then, breathe those thoughts into my mind
By which such virtue may in me be bred
That in Thy holy footsteps I may tread;
The fetters of my tongue do Thou unbind,
That I may have the power to sing of Thee,
And sound Thy praises everlastingly.

Michelangelo
translated into English by William Wordsworth

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

SOBREVIVENCIA


(Kamilk)


Imagens fulgidas bailam no segredo das horas
brincam de luas
redemoinham emoções em espirais de fogo.


Imagens secas ou desfolhadas
manchadas de luz severa
não vestem intenções.


Revoltas em cinzas
brincam de quimeras.


Imagens crianças
risonhas prometem céus.


Imagens esperanças
gritantes
imitam o marulhar das águas.


Imagens retalhos vermelhos
prometem auroras
na crença de todas as horas.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Spring



Spring is again returned. The Earth
is like a child, that knows poems,
many, o many . . . . For the rigor
of such long learning she receives the prize.

Strict was her teacher. We appreciate the white
in the old man's beard.
Now, what to name green, or blue,
we may not ask: she knows, she knows!

Earth, now free, you happy one, play
now with the children. We want to catch you,
joyful Earth. Only the joyful are able.

O, what the teacher taught her, such plenteousness,
and that which is pressed in roots and long
heavy trunks: she sings, she sings!


by Rainer Maria Rilke
from Die Sonette an Orpheus 1, no. 21


XXI

Eis outra vez a Primavera. A Terra
é um menino que sabe dizer versos;
tantos, oh tantos... Por aquele esforço
de longo estudo vai receber um prémio.

Severo foi o mestre. Nós gostávamos
da brancura da barba daquele velho.
Agora podemos perguntar o nome
do verde, o azul: ela sabe, ela sabe!

Terra feliz, em férias, brinca agora
co'as crianças. Queremos agarrar-te,
Terra alegre. A mais jovial consegue-o.

Oh, o muito em que o mestre as instruiu
e o impresso nas raízes e nos longos
troncos difíceis: ela o canta, canta!


Rainer Maria Rilke
de 'Sonetos a Orfeu'
tradução de Paulo Quintela

DE UM ANDAR NOTURNO



Tempestade, chuva oblíqua,
negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.


De um vão entre escuras nuvens
súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.


Límpidas ilhas do céu,
estrelas sóbrias saúdam;
ao luar, fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.


Alma, prepara-te, alma!
Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.


Alma, responde ao sinal:
banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.



Hermann Hesse
In: Andares

MONTANHAS DENTRO DA NOITE



O lago está apagado,
escuro dorme o canavial
a resmungar em sonho.
Espalham-se terríveis sobre a terra
as longas ameaças das montanhas:
elas não tem descanso,
respiram fundo e ficam
umas de encontro às outras apertadas,
num surdo respirar,
carregadas de forças abafadas
sem remissão numa paixão insaciada.


Hermann Hesse
In: Andares
Tradução; Geir Campos

A UMA FLOR


(Photography by Antônio Carlos Januário)

Hoje é dia de fotos.
Oh, delicada, universal vaidade,
seria impressão ou recolhes as pétalas
ocultando alguma ruga que desponta?

Mas não me respondas.
Alguns segredos melhor se guardam
no faz-de-conta.


Fernando Campanella


TO A FLOWER

It's photo's day.
Is it impression
or recoil you thy petals
concealing some wrinkle
you've relieved?

But don't respond.
Some secrets are better kept
on the make-believe.

Fernando Campanella

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Solidão



A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke,
in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

DO AZUL, NUM SONETO



Verificar o azul nem sempre é puro.
Melhor será revê-lo entre as ramadas
e os altos frutos de um pomar escuro
- azul de tênues bocas desoladas.


Melhor será sonhá-lo em madrugadas,
fresco, inconstante azul sempre imaturo,
azul de claridades sufocadas
latejando nas pedras – nascituro.


Não este azul, mas outro e dolorido,
evanescente azul que na orvalhada
ficou, pétala ingênua, torturada.


Recupero-o, sem ter, e ei-lo perdido,
azul de voz, de sombra envenenada,
que em nós se esvai sem nunca ter vivido.



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Antologia Poética

SONETO



Vínhamos de ontem como quem da sorte,
embora finda a vaza, não se olvida
e a quer de novo, quando novas cartas
tem entre as mãos, como nos têm os dias.


Os naipes jogo sobre a mesa. Espero
que cada lance nunca se repita,
mas possa ver o céu que amanhecia
outrora, no que vai surgir da noite


aberta inteira sobre o verde. E quero
que seja agora meu o haver passado
como as tardes se foram, mas as somos.


Incerto, ganho. Pois em nós o tempo
refaz de claridade o que perdemos
e repõe no universo o que foi sonho.



Alberto da Costa e Silva
In: As Linhas da Mão (1978)

sábado, 10 de outubro de 2009

GÔNDOLA



No alto, o azul e o fogacho do sol;
em baixo, o rio eternamente calmo;
sobre a quilha ligeira e graciosa,
coisas de amor e instrumentos de cordas.


Recatados e escuros são teus bordos,
mas com doçura o momento se curte;
estranho e doce é o sonho da morte,
do fim do amor e da juventude.


Rumo a desconhecidos objetivos
meus jovens anos deslizando vão
-como tu, leve e graciosa gôndola,
por luminosa e amável amplidão.



Hermann Hesse
In: Andares
Tradução: Geir Campos

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

L’Ange Du Méridien



Na tormenta que ronda a catedral
Como um contestador que o seu juízo
Mói e remói, é um bálsamo , afinal,
Ser-se atraído pelo teu sorriso:

Anjo ridente, amável monumento,
Com uma boca de cem bocas:não
Te ocorre vislumbrar por um momento
O quanto as nossas horas já se vão

Do teu relógio, onde a soma do dia
É sempre igual, em nítida harmonia,
Como se as nossas horas fossem plenas.

Pétreo, como saber das nossas penas?
Acaso teu sorriso é mais risonho
À noite, quando expões a pedra em sonho?

Rainer Maria Rilke,
Tradução: Augusto de Campos

NO BOSQUE DE FAIAS



Andas fundo sobre o chão dourado dos mares.
Insonoro ascendem, em raios, grisalhos corais,
Fogos fosfóreos fluindo de verdes cristais,
Pérolas afundam no solo murcho-marrom.

Lá fora, das margens argênteas do sol
Pendem as flores-de-sino,
Seduzindo com cálices azuis
O fundo esmeralda.

Max Dauthendey
(1867-1918)
Tradução:André Vallias


IM BUCHENWALD

Du gehst tief auf dem goldenen Grunde der Seen.
Lautlos steigen in Strahlen graue Korallen,
Fließen Phosphorfeuer von grünen Kristallen,
Sinken Perlen auf den braunwelken Grund.

Draußen von silbernen Sonnenufern
Neigen sich Glocken
Und locken mit blauen Kelchen
Die smaragdene Tiefe.

Max Dauthendey

SOMBRA DE NUVENS



Negras rastejam as ondas de hera
Sobre pérgulas de laca dourada.
Nas areias faiscantes, fumegam
Nascentes cálido-violetas.

Borboletas de cinza oscilam e caem
Por entre o éter ressonante.
Os cânticos dos lírios
Inclinam-se e suplicam.


Max Dauthendey
in : Ultra Violett
(Alemanha -1867-1918)
Tradução:André Vallias


WOLKENSCHATTEN

Schwarz schleichen Efeuwellen
Über Goldlackranken.
Im Glimmersande rauchen
Violenschwüle Quellen.

Aschenfalter wehen und tauchen
Durch den klingenden Äther.
Die Gesänge der Lilien
Wanken und flehen.

Max Dauthendey
(Germany -1867-1918)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Razões adicionais para os poetas mentirem"



Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
"Sou um desesperado".
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
"Estou morrendo"
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.


Hans Magnus Enzensberger
(Alemanha- 1929)
Antologia Bilíngue - Tradução Kurt Scharf e Armindo Trevisan

terça-feira, 29 de setembro de 2009

*****


(Tereza Zafon)

E agora
já é ontem,
o ainda agora
cinza rapsódia
fundo soturno das
imagens encantadas.

Roubar do infinito
as palavras ditas
pretensão do sim.

Meus desejos,
ilusões deste mundo
que reza a solidão.

As letras das canções
que se separam e se
juntam,
numa insuportável,
interminável serenata
em despedida

Pode você enxergar
tudo que se foi
e ouvir?

Lembre-se daquele telhado
no subúrbio, atravessado
pelo trem da memória.


Jacob Pinheiro Goldberg

FANTASMAS



Lívidos fantasmas deslizam nas horas perdidas
Chegam à minha alma
E como sombras da noite
Levantam os meus ímpetos mortos
Desatando as ligaduras do tempo.
O luar da madrugada fria cai no meu rosto
E ilumina com branda amargura
O meu espírito que espera a hora insolúvel.
Os caminhos cobrem-se de homens que dormem na morte
E cresce no meu coração um desejo incontido
Para uma união mais forte, mais intensa e mais perfeita.
A minha pupila é banhada pela enorme lágrima
Que umedecerá o solo castigado.
A lágrima que levará ternura às existências sofridas,
A lágrima que se mudará em sangue,
Que levantará a vida morta do universo!


Nova York, 1944
Adalgisa NeryIn
in: Cantos da Angústia

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Chuva



Chuva morna, chuva de verão
Borbulha de arvores e arbustos.
Oh! Como é bom e cheio de benção
Uma vez mais sonhar de verdade!


Quanto tempo fiquei aqui fora,
Quão estranha essa sensação:
Habitar a própria alma,
O estranho, sem atração.


Nada quero, nada peço.
Baixinho cantarolo sons de criança,
E, surpreso, chego ao berço
Dos sonhos quentes de folgança.


Coração, como estás machucado
Porem feliz, remexendo cegamente,
Nada pensar, nada saber,
Respirar e sentir, somente.



Hermann Hesse
In: Caminhada

sábado, 26 de setembro de 2009

POÇAS D’ÁGUA



. . . poesia dançando nos campos da alma
na evocação da presença lagrima
a dormir na prece do vento irrequieto.


. . . murmúrio do amor que se deitou sozinho
na cama fria da desesperança
com saudade do abraço que aquece os corpos
do beijo a sussurrar promessas presença.


. . . procissão de vozes a se fazerem mar verde
de versos que o vento beija sem chorar
de ilhas virgens a não se deixarem tocar.


Poças d’agua
em meus olhos pisados de paisagens alagadas
inundados de todas as vivencias
vivencias de meus horizontes timidos
a repousarem sobre estradas gritantes.


Alvina Nunes Tzovenos
In: 'Palavras ao Tempo'
(Rio Grande do Sul-1927)