A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 28 de dezembro de 2014

'XII'


Dezembro acende as luzes
em ricos pinheiros de natal.
Mas é naquela árvore
solitária nas grotas
ou à beira da estrada
que se agregam bem-te-vis
e tagarelam maritacas.
Mangueira, Santa Bárbara,
Pata-de-vaca
- ao pássaro tanto faz:
folhagens são mimos anônimos.


Eu insisto em um Deus
que se projeta em tronco
e esparrama os braços
para acolher os seus.


Fernando Campanella
Poema da série 'Efemérides'

quarta-feira, 5 de março de 2014

''XVIII''


O que bate assim
à minha janela?
Que ecos por dentro
me sopram?
É um nada,
é uma noite em símbolos
constelada.
Visto-me das carapuças
que me servem,

atento ouvidos
ao que se esquece.



Fernando Campanella
da série 'O Eu confesso'

'V'


No jardim do recolhimento
versos são também pássaros
que às vezes vêm bicar
minha solidão povoada.


Fernando Campanella
 Da série 'O Eu confesso'

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

 
porto é lugar da memória
atrelemos o desejo às ondas -

somos barcos, frágeis barcos
sobre as horas

Fernando Campanella

Do álbum: MINAS EM GROTAS

segunda-feira, 29 de julho de 2013

'DE VENTOS'


(Bouquet of spring flowers, Renoir)

Tua beleza, inconsciente de si,
Me puxa em seus encantos
Para o seu leito.
Mas o que fazer de tua beleza
Senão armá-la em vaso
Para nutrir a mesa?

(Senão sofrer/gozá-la em doses
de solidão noturna e densa?)

Como um jardineiro de ventos
Prefiro ver-te
Hera galgando muros
Erva tecendo pastos
Ou aérea flor da memória.

Amar tua beleza , não mais,
Como cor que não apreendo
Rio que não estanco
e que passa.


(F.Campanella)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

''ITINERÁRIO DAS URZES''





"...Não tenha rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo."
(Parte final de suposta inscrição na tumba de Ciro, o Grande, rei da antiga Pérsia, em Pasárgada)


Quando eu me sentir triste,
triste de doer, da dor barroca,
ou imemorial, inominável,
sem fundo, sem alças,
triste das coisas cridas,
dos impérios que inventei
ou do que nem senti nascer -
triste da palavra em mortal ferida -
serás meu fiel retorno,
capelinha das urzes, à beira da estrada,
meu cavalo sem peias, minha jornada de ossos -
minha Ítaca, minha Pasárgada.

Fernando Campanella

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"DÚBIO"


Um dia, alma criança,
do vento indaguei a idade
e foi o tempo de meu pensamento
o que obtive como verdade.
Do sol, a mesma questão lançada,
Como solução veio-me o tempo
de meus olhos, de minha pele
disposta à luz em seu furor
ou em seus toques mais delicados.
Estranhas, dúbias respostas:
o universo a um seco estalar
de minha finitude
então se desmancha, e passa?
Ou trago , dos cumes da criação,
em tudo que brota, rebrota,
a mais irrestrita ,
a mais eterna proposta?

(Fernando Campanella)

[Painting by Michael Cheval]

''AO VENTO"




Fica comigo, mas não posso pedir ao vento
que sopre ao alcance de meu ouvido,
ou à terra que abençoe nossos longos segredos
-nem mesmo da luz querer ouso
que se demore em meu abrigo.
Quando os dados lançados e até meu silêncio
contra toda certeza parecem que conspiram
- e caso os dedos do mundo
em suas recurvas unhas nos firam -
releva, e fica comigo, os anjos sabem mais alto
daquilo em que insisto, do que preciso.

(Fernando Campanella)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

"LIMBO"

  
 
 
...E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca...
(T. S. Eliot, “A terra desolada”,
tradução de Ivan Junqueira)
 
E quando dei por mim
vi um molusco
arrastando nos ombros
o tempo da casa.

Vi um monge rondando em ócio
– o hábito
a chama
e a mariposa alucinada

folhas caducas
espectros
(os ecos, os ecos)
a roda tocada à memória.

Vi a turbulências das moscas
a lava
e a concha sonhando a asa.

Quando cheguei ao limbo de mim
e o vento seguiu
senti um abandono
na distância sem-fim.

Pesei o silêncio
e o mundo certo
que perdi –

vi a pedra chamando a água.


Fernando Campanella

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

''Ponto de fuga''


Fitam-me olhos de folhagens
molhados de chuva no jardim.
Não sei se me dizem algo
ou se trago carências de um sim.

Se imagem é degredo, ignoro –
tão míope o infinito
onde paralelas haverão de se unir.

Fernando Campanella

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

''AO SAL''


 
 "Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria."
(Pablo Neruda)

Nega-me tua alma –
esta alma, mesma, que me furtas

e é ao degredo irremediável
que me remetes.

Nega-me tua chama
que arde no delírio dos deuses,
teu anjo, que ressona na fluidez dos lagos,
tuas asas desdobradas,

nega-me, nega-me tua espuma
que regurgita no sonho das aves
(eu sou o teu infante pássaro)

e é sem minhas fontes que me deixas,
sem meu ar extasiado.

Nega-me teu mar, tua tempestade,
o sonho e a fantasia,
e me deixas ao relento, ao sal amargo
de cada dia.

Nega-me teu olhos e já não me atento

que a felicidade embora utopia das sombras
é também certa luz incidente
que só de teu olhar
meus olhos como cúmplices pressentem.

Fernando Campanella

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

''AERODINÂMICA''

A tarde às vezes me convida
para um exílio nos campos

entre contornos de montes
ante o silêncio de uma ermida.

A uma luz inclinada
por um certo sopro de outono
às vezes a tarde me quer voo
em transparências de azul
por entre as nuvens à deriva.

A tarde, soberana, irreverente,
se esquece às vezes
que não tenho o descompromisso
das aves, que sou gente.

(Fernando Campanella

''MEMORIAL''


 Aqueles túmulos me contam
que meus mortos vivem comigo,
que apenas deixaram invólucros
por algum tronco, suas vestes
ao esquecimento da estrada.

Um dia cantaremos também,
na memória, como as cigarras.

  Fernando Campanella

(Fotografia de Fernando Campanella)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

''MÍNIMOS''



"um sopro
ninguém viu
de onde vem
ninguém sabe
aonde vai"

um vírus
quase
nada

um
ponto
na
enseada

um quantum
envieza o olhar


uma artéria
e Minas não tem bocas
e Inês é folha morta

um dedo de luz
na chuva oblíqua
um arco de cores
instala

um vôo desanda a rota

ninhos desovam

um triz
frio polar
oceanos que resvalam

torres se movem
pés desarvoram

espelhos que descamam
não consigo me achar

um mínimo
e já não me sou

de repente
algo me sonha

(Fernando Campanella)

domingo, 9 de setembro de 2012

"Olhos"

Dois pássaros voam,
de um leve azul inebriados.
De onde os vejo
Só há o espelho quieto de um lago.
E já não sei o que é mais visível
se o que enxergo, as aves,
com meus olhos,
ou se aquelas flautas moventes
sincronizadas,
que sonho
com os olhos quietos do lago.

Fernando Campanella

domingo, 26 de agosto de 2012

''JUBILAÇÃO''


(Painting by Alfred Gockel)


Deus me deu um amor na madureza...
(Carlos Drummond de Andrade)

Concedeu-me Deus um amor aos cinquenta
quando Eros põe as barbas de molho
já transposto o vale das primícias
e das tormentas;

estendeu-me para leito o alvo linho,
acercou-me dos anjos de Jó,
deu-me calhas, de anteparo, para a tempestade.

Coroou-me de alvíssaras, no retorno,
e de minhas cismas fez um Éden redivivo -

pôs a arder em mim a chama mesma
dos que não tomam o santo nome do tempo
em vão.

Para o gozo deu-me romã e serpente,
e a vontade infinda, a fome grata de menino.

Fernando Campanella

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"A tarde me convida..."


A tarde às vezes me convida
para um exílio nos campos
entre contornos de montes
ante o silêncio de uma ermida.

A uma luz inclinada
por um certo sopro de outono
às vezes a tarde me quer voo
em transparências de azul
por entre as nuvens à deriva.

A tarde, soberana, irreverente,
se esquece às vezes
que não tenho o descompromisso
das aves, que sou gente.

Fernando Campanella

terça-feira, 31 de julho de 2012

''VIII''


Trânsfuga de agosto –
um prurido rouco –
tanto de mim
em ipês amarelos e roxos.

Fernando Campanella
Poema da série 'Efemérides"
(Atualizado)

domingo, 27 de maio de 2012

''CÂNTICOS''


Certos cantares são quase eternos,
nascem uns que vieram de outros
que beberam às fontes,
aos fundamentos do ar.

Certas canções, as trazemos do berço
ou de antes dos salmos,
as entoamos de cor
anônimas, acéfalas,
um só coraçõe pulsante
de lágrimas e pétalas.

Priscos diamantes -
cantigas, idílios ou cânticos -
certos cantares seriam eternos
(os anjos não considerados)
não fosse o princípio,
e desde o princípio
é o verbo em glória.
(Amar).

(Fernando Campanella)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

''XXXIV''


Esta chuva tem uma melancolia
de úmidas árvores, de pálidas luas,
de aromas sonâmbulos no tempo.
Um frêmito perpassa os ruídos
e bate à porta de meu silêncio
e entra.

Algo em mim, eu sinto,
chama as almas
que de outros reinos
isentas de voz me chegam.
(Eu sou o dócil instrumento
daquelas naturezas dormentes
que eu sei
agora me são algo de dentro)

Fernando Campanella
Da série 'O EU confesso'