terça-feira, 30 de agosto de 2011
2° MADRIGAL
Quis dar em versos
a dor da tua ausência;
mas depois vi que vivias dentro de mim
eu é que tinha partido.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Eu morrerei.
E nos outros serei a recordação
dum grande pássaro selvagem
que bateu as asas
longamente. . .
longamente. . .
Enquanto se ouvir
o eco das minhas asas,
terei a vida das aves.
Isabel Meyrelles
Palavras Noturnas & Outros Poemas
terça-feira, 23 de agosto de 2011
CANÇÃO DO INVERNO
Faz tempo que cai
a chuva cinzenta
no longo vazio
da rua onde, lenta,
minha alma vai
como nevoenta
brisa em que se embala
a chuva cinzenta.
E faz-se a canção
do inverno assim:
com as cinzas da chuva
e o frio de mim.
Ruy Espinheira Filho
In Sob o Céu de Samarcanda
Isabel Meyrelles
Os meus olhos
olham os meus olhos,
para lá da janela
há sombras
suspiros
árvores e rosas.
Dentro da janela,
Só os meus olhos
Olhando outros olhos encobertos.
... ...
O silêncio pesa.
Isabel Meyrelles
In ‘Palavras Noturnas e Outros Poemas’
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Palavras na Penumbra (7)
Há um silêncio leve sobre as ruas.
Esconde-se em sua tênue vaidade.
Ninguém o escuta. Vai pela cidade
compondo um vento de palavras nuas.
Foge do tempo, foge dessa urgência
de dizer tanto, e tudo, e não ser nada,
e encolhe-se no oco de uma ausência,
como uma ave oculta a face alada.
Há um silêncio vivo como a pele,
que pulsa sob um têxtil desatino,
disposto a seduzir o que o impele
ao devaneio. E o impulso vence-o
e abre uma outra face em seu destino:
pois dentro do silêncio há outro silêncio
Renato Tapado
(Porto Alegre 1962, escritor gaúcho, radicado em Florianópolis desde 1974.)
Só Agora
Só agora é que compreendo haver inventado
tantas maneiras de não ser,
ou de ser, dividido,
disperso.
Ah, vida simplesmente pensada
e não apenas vivida, ou se sonhando entre mil fogos,
e por isso despida
de seu dom de unidade ou de sua própria essência!
Colado à sombra das coisas, viajo desesperadamente,
dividido, disperso.
Onde estou, não sou.
Nunca sou totalmente.
E é um ficar, sem deter-me, e um partir, sem levar-me.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Entre o Real e a Fabula
Gênese
Há sempre uma hora,
uma hora densa,
uma hora inesperada,
em que a paisagem mais inocente
tem o fulgor de um fiat.
O tempo sonha que é espaço,
o espaço sonha que é tempo,
a realidade se compenetra de sua irrealidade.
O homem repensa o mundo
O mundo se recompõe em sua nostalgia de Deus.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Entre o Real e a Fabula
sexta-feira, 29 de julho de 2011
TÃO CÚMPLICES AS PALAVRAS
Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.
GRAÇA PIRES
De O silêncio: lugar habitado, 2009
quinta-feira, 28 de julho de 2011
CLARAS CRUZADAS
Alva - clara,
a palavra das horas
lavra o tempo vivido.
Alva - clara,
a palavra triste
lava os olhos do esquecido.
Alva - clara,
a palavra insiste:
larva sob o vento transido.
Alva - clara,
a palavra marota
capina savana enluarada.
Alva- clara,
a palavra afoita
cavalga amante ensandecida.
Alva - clara,
a palavra servil
escava a alma perdida.
Alva - clara,
a palavra ardente
trava o sumário da vida.
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quarta-feira, 20 de julho de 2011
O Solitário
Não: uma torre se erguerá do fundo
Do coração e eu estarei à borda:
Onde não há mais nada, ainda acorda
O indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
Das coisas, e uma luz depois do escuro,
Um rosto extremo do desejo obscuro
Exilado em um nunca-apaziguar,
Ainda um rosto de pedra, que só sente
A gravidade interna, de tão denso:
As distâncias que o extinguem lentamente
Tornam seu júbilo ainda mais intenso.
Rainer Maria Rilke,
Tradução Augusto de Campos
sexta-feira, 15 de julho de 2011
'Neblina'
Estranho é caminhar na densa névoa:
Solitária esta cada planta ou pedra,
Nenhum arbusto enxerga o seu vizinho,
Cada um está só.
Cheio de amigos era, para mim, o mundo
Quando luminosa ‘inda era minha vida;
Agora que a névoa caiu,
Ninguém mais é visível.
Não é deveras um sábio
Quem não conhece a escuridão
Que, suavemente, nos separa
De tudo inexorável.
Estranho é caminhar na densa névoa:
Viver é estar solitário
Entre gente que se ignora.
Todos estamos sós!
Hermann Hesse
“Este Lado da Vida”,
Que diferença faz as flores
Que diferença faz às flores
se por um segundo as contemplo?
Nem sei se algo no mundo
precisa de meu olhar assim atento.
Se me procuras, em teu espelho
por um tempo me reflito.
Depois ao cálice de mim retrocedo.
Eu sou o velho vinho que me bebo
de minha embriaguês me contento.
Fernando Campanella,
de 'O Eu Confesso', XXX.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
DESPERDÍCIO
Pelos penhascos das horas,
A vida se precipita.
Célere, transpõe os anos.
Que aluvião de banalidade
Arrastam essas águas tumultuosas
Em sua trajetória efêmera!
Helena Kolody
In: Correnteza
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Poema III
Hoje não vou colher
nem laranjas, nem flores, nem amoras.
Vou ver crescer o dia
no redondo das frutas,
e ouvir sem pressa o canto destas aves.
Serão as mesmas de ontem?
Um dia a mais que fez de mim, que faz?
E as aves que cantavam,
se não são estas, onde
estão? O canto apenas se repete?
Aquela que ontem via
o que ora vejo, não é mais em mim?
Então eu me renovo
como as águas e as plantas?
Sou outra, ou me acrescento ao que já sou?
No entanto, é tudo igual,
embora eu saiba que só na aparência;
e meu prazer me vem
de estar sentada aqui,
detendo um tempo que se não detém.
Marly de Oliveira
(Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo 1935 — Rio de Janeiro, 1 de junho de 2007)
sexta-feira, 8 de julho de 2011
EM ALGUM LUGAR
No deserto da vida eu erro e ardo
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.
Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão à espera o sono, a noite e as estrelas.
Hermann Hesse
In Andares
Tradução Geir Campos
segunda-feira, 4 de julho de 2011
LIVRO ABERTO
A rua é um livro aberto.
O olho minúsculo de um pássaro
é um livro aberto.
A porta fechada de um quarto
é um livro deserto.
Tenho escrito palavras
de muitos livros refeitos
que, surdos e quietos,
tecem límpidos e claros
os seus herméticos enredos.
Na rua leio o que soletro.
No minúsculo olho de um pássaro
não leio o que vejo,
embora pássaros e ruas
me ensinem o que percebo.
Me ensinam, por exemplo,
o desterro aberto e refeito
de todo livro relido,
se atrás da porta fechada,
refaço o seu silêncio desfeito,
releio o meu silêncio perdido.
Mário Chamie
(1933-2011)
Um dos poemas inéditos em livro que Mário Chamie preparava para editar e que foi publicado pelo "Estado" em dezembro do ano passado.
domingo, 26 de junho de 2011
O homem de neve
É preciso ter uma mente de inverno
Para observar a geada e os ramos
Dos pinheiros de neve encobertos:
E ter estado frio por um longo tempo
Para contemplar os zimbros densos de gelo,
Os abetos ásperos no brilho longínquo
Do sol de janeiro; e não pensar
Em aflição alguma ao som do vento,
Ao som das folhas escassas
Que é o som da terra
Repleta do mesmo vento que sopra
naquelas mesmas regiões desfolhadas
para o que escuta, o que escuta na neve,
e, nada em si próprio, nada contempla
que lá não se ache, mirando o nada que lá está.
Wallace Stevens
Tradução de Fernando Campanella
The Snow Man
One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;
And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter
Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,
Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place
For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.
Wallace Stevens
(October 2, 1879 – August 2, 1955) was a major American Modernist poet. He was born in Reading, Pennsylvania, educated at Harvard and then New York Law School, and spent most of his life working as a lawyer for the Hartford insurance company in Connecticut.
His best-known poems include "Anecdote of the Jar", "Disillusionment of Ten O'Clock", "The Emperor of Ice-Cream", "The Idea of Order at Key West", "Sunday Morning", "The Snow Man", and "Thirteen Ways of Looking at a Blackbird", all of which appear in his Collected Poems for which he won the Pulitzer Prize for Poetry in 1955.
His best-known poems include "Anecdote of the Jar", "Disillusionment of Ten O'Clock", "The Emperor of Ice-Cream", "The Idea of Order at Key West", "Sunday Morning", "The Snow Man", and "Thirteen Ways of Looking at a Blackbird", all of which appear in his Collected Poems for which he won the Pulitzer Prize for Poetry in 1955.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
O vento move-se
Assim se move o vento :
como os pensamentos de um velho humano
que ainda pensa com fúria
e avidez.
Assim se move o vento :
como um humano sem ilusões
que ainda sente coisas irracionais dentro dela.
Assim se move o vento :
como humanos que orgulhosos se aproximam,
como humanos que em fúria se aproximam.
Assim se move o vento :
pesado e pesado, como um humano
que não se importa.
Wallace Stevens in. "Antologia " relógio d'água
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Infinito
Tu te refletes em mim,
eu me reflito em ti
(espelhos paralelos)
e entre nós dois
o estado normal:
vazio impaciente
á espera de uma alegria ou de uma tristeza
que
multiplicada por si mesma
venha encher a galeria incomensuravel
de nossas vidas face a face.
Felipe de Oliveira
Em: Bazar, ano 1, n.4, nov.1931.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
DREAMS IN THE DUSK
(Fotografia de Fernando CampanellaDreams in the dusk,
Only dreams closing the day
And with the day's close going back
To the gray things, to the dark things,
The far, deep things of dreamland.
Dreams, only dreams in the dusk,
Only the old remembered pictures
Of lost days when the day's loss
Wrote in tears the heart's loss.
Tears and loss and broken dreams
May find your heart at dusk.
(Carl Sandburg)
SONHOS NO CREPÚSCULO
Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.
Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.
Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.
Carl Sandburg
Tradução de Fernando Campanella
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Carl Sandburg,
Fernando Campanella
domingo, 12 de junho de 2011
Segunda Opção

Domingos são dias iguais
e tão diferentes,
que não merecem
a tensão da gente.
Domingos são dias iguais
e tão distantes,
que não merecem
a aflição do crente.
Domingos são dias iguais
e tão dolentes,
que não merecem
a curtição da gente.
Melhor roubar e gozar
o cio da segunda-feira.
Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”.
e tão diferentes,
que não merecem
a tensão da gente.
Domingos são dias iguais
e tão distantes,
que não merecem
a aflição do crente.
Domingos são dias iguais
e tão dolentes,
que não merecem
a curtição da gente.
Melhor roubar e gozar
o cio da segunda-feira.
Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Inquietação

I
Dentro da tarde, de quando em quando,
há um ligeiro rumor de asa frágeis e lentas,
de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asas me comovem?
Dentro da noite, de quando em quando,
esse mesmo rumor continua, lá fora,
rumor de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asa me inquietam?
II
Alma, errante,
eu vi a sombra traiçoeira
descer, rápido, e cair pesadamente sobre as grandes arvores retorcidas.
Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
Alma errante, alma errante:
eu ouvi o choro da terra.
O frio, o desesperado
choro da terra
- Oh, a voz milenária do vento
que ulula na sombra.
Alma errante:
tu não vês, não ouves?
É a grande sombra, há qualquer coisa na sombra.
- Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
III
Nesta noite tão cheia de rumores vagos,
(o vento brame, lá fora, agita-se... Que terá o vento?)
como esta voz, cá dentro, é profética e triste.
Vento frio da noite,
vento inquieto da noite!
Pensar que todas as raízes serão arrancadas, algum dia,
E que então não haverá mais desejo sobre desejo,
Numa noite que será também cheia de rumores vagos.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Dentro da tarde, de quando em quando,
há um ligeiro rumor de asa frágeis e lentas,
de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asas me comovem?
Dentro da noite, de quando em quando,
esse mesmo rumor continua, lá fora,
rumor de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asa me inquietam?
II
Alma, errante,
eu vi a sombra traiçoeira
descer, rápido, e cair pesadamente sobre as grandes arvores retorcidas.
Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
Alma errante, alma errante:
eu ouvi o choro da terra.
O frio, o desesperado
choro da terra
- Oh, a voz milenária do vento
que ulula na sombra.
Alma errante:
tu não vês, não ouves?
É a grande sombra, há qualquer coisa na sombra.
- Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
III
Nesta noite tão cheia de rumores vagos,
(o vento brame, lá fora, agita-se... Que terá o vento?)
como esta voz, cá dentro, é profética e triste.
Vento frio da noite,
vento inquieto da noite!
Pensar que todas as raízes serão arrancadas, algum dia,
E que então não haverá mais desejo sobre desejo,
Numa noite que será também cheia de rumores vagos.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
terça-feira, 7 de junho de 2011
A Água

Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
Paulo Bomfim
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
Paulo Bomfim
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Rios que Choram

Choras a dor da morte,
embalas os soluços da destruição,
cantas teu pranto silencioso
de um tempo de mansidão
Caminhas a ermo,
munido de cores estrelares
entregue a pouca liberdade,
alimentando a seca da tua alma
Rios que saboreiam a terra
libertos, conscientes e despertos,
caminho melódico que sacia e alimenta
o clamor disparado da fúria
Conceição Bentes
05/06/2011
domingo, 5 de junho de 2011
CANÇÃO NA JANELA
Há pouco emergida mornidão do sono.
Pensei flutuar:
onde termina minha vida
e começa o mar?
Tudo ao meu redor são dois
cristais reverberando.
Meu destino me contempla
indagador:
nesta imensidão
sou um capim perfumado
que balança, a um tempo
susto e chamamento
-pronta para me desfazer
em outra alma.
Lya Luft
In: Secreta Mirada
INFÂNCIA

Névoa encostada na janela,
qualquer coisa roçando o telhado:
o medo me contornava
- talvez simplesmente o vento.
A escada da sombra, a aventura
dos degraus, na curva de madeira
os passos de quem não vinha
- ou de um coração atento.
Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos;
alguém arranhando a parede
- ou eram apenas lembranças?
Algo sempre em movimento:
a vida arrastando as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?
Lya Luft
PARA NÃO DIZER ADEUS
qualquer coisa roçando o telhado:
o medo me contornava
- talvez simplesmente o vento.
A escada da sombra, a aventura
dos degraus, na curva de madeira
os passos de quem não vinha
- ou de um coração atento.
Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos;
alguém arranhando a parede
- ou eram apenas lembranças?
Algo sempre em movimento:
a vida arrastando as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?
Lya Luft
PARA NÃO DIZER ADEUS
FLORESTA

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor
Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas
Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue
Na floresta não há crítico nem sensor
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: ‘Que estranho’
Sábio entre nós é aquele que julga estranho
apenas o que é estranho
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais
Na floresta não existem homens livres ou escravos
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: ‘Ele é desprezível e eu sou um grande senhor’
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil
Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem: ‘Ele é temível’
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis
Na floresta não há morte nem apuros
A alegria não morre quando se vai a primavera
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência
Gibran Khalil Gibran
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor
Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas
Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue
Na floresta não há crítico nem sensor
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: ‘Que estranho’
Sábio entre nós é aquele que julga estranho
apenas o que é estranho
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais
Na floresta não existem homens livres ou escravos
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: ‘Ele é desprezível e eu sou um grande senhor’
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil
Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem: ‘Ele é temível’
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis
Na floresta não há morte nem apuros
A alegria não morre quando se vai a primavera
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência
Gibran Khalil Gibran
terça-feira, 31 de maio de 2011
NAVEGANDO . . .

E na busca dos astros
nebulosa minha alma
traz luzeiros aromas.
. . . nuvens espirais
em rompimento de auroras
a caminhos estivais.
E entre poentes dormidos,
os olhos a vagar
águas quietas sem prantos,
debruçam-se a sonhar. . .
Será pecado ou delírio,
envolta em beijos de seus
sobraçar caminhos lírios.
Tocar aos astros como anjos?
E ao desigual dos infinitos,
. . . abraço frio das realidades.
Sonho ainda! ... à luz das tempestades.
Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos
nebulosa minha alma
traz luzeiros aromas.
. . . nuvens espirais
em rompimento de auroras
a caminhos estivais.
E entre poentes dormidos,
os olhos a vagar
águas quietas sem prantos,
debruçam-se a sonhar. . .
Será pecado ou delírio,
envolta em beijos de seus
sobraçar caminhos lírios.
Tocar aos astros como anjos?
E ao desigual dos infinitos,
. . . abraço frio das realidades.
Sonho ainda! ... à luz das tempestades.
Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos
quinta-feira, 26 de maio de 2011
SOB O ATLÂNTICO*
Espantar,enquanto possível,
os olhos
da própria morte.
Lamber,
ainda que azedos,
os frutos
da própria sorte.
Distribuir
abraços pesados,
recolher
os fardos do incrível.
Não é um dever
menor que o ser:
Há sempre a certeza,
Plácida, permanente certeza,
de encontrar a paz.
(Nos braços verdes do Atlântico)
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim".
segunda-feira, 23 de maio de 2011
DE UM ANDAR NOTURNO

Tempestade, chuva oblíqua,
negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.
De um vão entre escuras nuvens
súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.
Límpidas ilhas do céu,
estrelas sóbrias saúdam;
ao luar, fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.
Alma, prepara-te, alma!
Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.
Alma, responde ao sinal:
banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.
Hermann Hesse
In Andares
negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.
De um vão entre escuras nuvens
súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.
Límpidas ilhas do céu,
estrelas sóbrias saúdam;
ao luar, fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.
Alma, prepara-te, alma!
Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.
Alma, responde ao sinal:
banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.
Hermann Hesse
In Andares
LAMENTO

Não nos é dado Ser. Águas de rio,
a toda forma dóceis nos prestamos:
dia ou noite, caverna ou catedral,
a tudo nos impele a ânsia de Ser.
Forma após forma enchemos sem descanso:
nenhuma nos faz falta nem é pátria
ou sorte.Hóspedes sempre, sempre em trânsito,
terra e arado e pão nunca nossos.
Um dia endurecer em pedra! Um dia
durar! - É disso que temos vontade,
mas o que fica sempre é um arrepio
de medo, sem pausa na caminhada.
Hermann Hesse
In Andares
Tradução de Geir Campos
a toda forma dóceis nos prestamos:
dia ou noite, caverna ou catedral,
a tudo nos impele a ânsia de Ser.
Forma após forma enchemos sem descanso:
nenhuma nos faz falta nem é pátria
ou sorte.Hóspedes sempre, sempre em trânsito,
terra e arado e pão nunca nossos.
Um dia endurecer em pedra! Um dia
durar! - É disso que temos vontade,
mas o que fica sempre é um arrepio
de medo, sem pausa na caminhada.
Hermann Hesse
In Andares
Tradução de Geir Campos
EM ALGUM LUGAR

No deserto da vida eu erro e ardo
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.
Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão à espera o sono, a noite e as estrelas.
Hermann Hesse
In Andares
Tradução Geir Campos
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.
Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão à espera o sono, a noite e as estrelas.
Hermann Hesse
In Andares
Tradução Geir Campos
sábado, 21 de maio de 2011
LABIRINTO
. . . nesse emaranhado de asas partidassente-se a dor dos afogados
um quebrar-se de ossos frágeis
e um estalido de cristal partido.
. . . entre névoas de solidões
pressente-se o beijo das coisas mortas
o nunca regresso de um anjo que se exilou
quando a hora gemia em dores
no seu crepúsculo cismarento.
. . . as cores se confundem como confetes
de um carnaval sem música
os adeuses perdem sua expressão
os loucos adquirem sensatez
(a sensatez das coisas banais).
No labirinto da vida
encontro o carrossel de todas as vidas.
Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo
TRANSIÇÕES

Mastigando raízes de eternidade
adentro-me pelas colinas dos céus
onde Deus é meu relógio.
E buscando sabedoria
não me torno deserto e nem ausência.
Recolho em minha solidão
muralhas de calmaria
sem gemido de dor ou morte.
Em meus redemoinhos
viajo entre cansaços de séculos
adornada de crisântemos amarelos.
Em minha ausente juventude
não há abismos em voragem.
Trigo, fonte e pombas
ornamentam minhas varandas.
A noite ajoelhada soluça
em seu tapete e entre velas.
O tempo que é túnel
fala das estações
derramando chuva de invernos
até às eternidades.
Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo
adentro-me pelas colinas dos céus
onde Deus é meu relógio.
E buscando sabedoria
não me torno deserto e nem ausência.
Recolho em minha solidão
muralhas de calmaria
sem gemido de dor ou morte.
Em meus redemoinhos
viajo entre cansaços de séculos
adornada de crisântemos amarelos.
Em minha ausente juventude
não há abismos em voragem.
Trigo, fonte e pombas
ornamentam minhas varandas.
A noite ajoelhada soluça
em seu tapete e entre velas.
O tempo que é túnel
fala das estações
derramando chuva de invernos
até às eternidades.
Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Rubem Alves

O que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem.
—Rubem Alves, 2002
—Rubem Alves, 2002
terça-feira, 17 de maio de 2011
DESILUSÃO

As estrelas aparecem
Mostrando a noite.
Os sonhos que não fenecem
Surgem em procissões.
Como terrível açoite
Vêm cantando as lembranças
Entoam velhas,
esquecidas confissões,
Antigas e novas promessas.
A insônia feiticeira,
Abre o cofre das grandes recordações.
Mostra imensas ternuras
Registros escritos ontem
No mar das ilusões.
Na falsa areia perdida
Desenhos de corações
E a lágrima
Não contida
Cai no chão,
Convertida.
Desilusão,
Só.
Apolônia Gastaldi
de 'A ilha' Suplemento Literário
Mostrando a noite.
Os sonhos que não fenecem
Surgem em procissões.
Como terrível açoite
Vêm cantando as lembranças
Entoam velhas,
esquecidas confissões,
Antigas e novas promessas.
A insônia feiticeira,
Abre o cofre das grandes recordações.
Mostra imensas ternuras
Registros escritos ontem
No mar das ilusões.
Na falsa areia perdida
Desenhos de corações
E a lágrima
Não contida
Cai no chão,
Convertida.
Desilusão,
Só.
Apolônia Gastaldi
de 'A ilha' Suplemento Literário
COMO ESTAS FOLHAS MORTAS. . .

Como estas folhas mortas, ressequidas,
Que rolam lentamente pelo chão,
As minhas esperanças fementidas
Voaram aos ventos da desilusão!
A arvore das minhas crenças fenecidas,
Agigantou-se para a imensidão,
Soltando as folhas já descoloridas
No triste descampado da ilusão!
A luz que outrora no meu ser fulgia,
Não brilha mais! . . . seu termino anuncia
A derrocada bárbara do fim!
- Outra luz no meu ser fulgura e cresce!
É a luz da Fé! A luz que não perece!
Luz que Deus acendeu dentro de mim!
Jansen Filho
In: Obras Completas
Que rolam lentamente pelo chão,
As minhas esperanças fementidas
Voaram aos ventos da desilusão!
A arvore das minhas crenças fenecidas,
Agigantou-se para a imensidão,
Soltando as folhas já descoloridas
No triste descampado da ilusão!
A luz que outrora no meu ser fulgia,
Não brilha mais! . . . seu termino anuncia
A derrocada bárbara do fim!
- Outra luz no meu ser fulgura e cresce!
É a luz da Fé! A luz que não perece!
Luz que Deus acendeu dentro de mim!
Jansen Filho
In: Obras Completas
O ESPELHO

Efêmero, não sei se neste espelho
terei repetição do meu contorno,
ou se já erguida a mão se esboça o torno
onde serei refeito. Amplo conselho
talvez disseque meu findar-se morno,
e o Artífice me aguarde, ileso e velho,
pondo-me paternal sobre o joelho
à espera do devido e exato forno.
Depois, Pai tão maior, de amor ferido,
de um barro tão mais rubro há de engendrar-me
para dar-me feliz ao chão do olvido.
Mas sempre num espelho irei achar-me
noutro chão, noutra vida, em barro ou vidro
onde me outorguem tempo de sonhar-me.
Walmir Ayala — Poemas
“in” Poesia Revisada
terei repetição do meu contorno,
ou se já erguida a mão se esboça o torno
onde serei refeito. Amplo conselho
talvez disseque meu findar-se morno,
e o Artífice me aguarde, ileso e velho,
pondo-me paternal sobre o joelho
à espera do devido e exato forno.
Depois, Pai tão maior, de amor ferido,
de um barro tão mais rubro há de engendrar-me
para dar-me feliz ao chão do olvido.
Mas sempre num espelho irei achar-me
noutro chão, noutra vida, em barro ou vidro
onde me outorguem tempo de sonhar-me.
Walmir Ayala — Poemas
“in” Poesia Revisada
sexta-feira, 13 de maio de 2011
SOMBRAS

A meio desta vida continua a ser
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.
Calmamente sentado num sofá,
começas a entender, de vez em quando
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro, onde vão desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a angústia e estupidez do mundo.
As pessoas – tu sabes – as pessoas são feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pela morte que repete os mesmos gestos
quando o crepúsculo fica a sós conosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.
A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as intenções que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo há muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre tão vazia, sem abrigo
para corpo nenhum.
Fernando Pinto do Amaral
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.
Calmamente sentado num sofá,
começas a entender, de vez em quando
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro, onde vão desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a angústia e estupidez do mundo.
As pessoas – tu sabes – as pessoas são feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pela morte que repete os mesmos gestos
quando o crepúsculo fica a sós conosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.
A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as intenções que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo há muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre tão vazia, sem abrigo
para corpo nenhum.
Fernando Pinto do Amaral
in Pena Suspensa.
Recebido da querida amiga Dione Coppi.
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Fernando Pinto do Amaral
quinta-feira, 12 de maio de 2011
O ÁUGURE

Sou um prisma às avessas
as cores em mim se confundem
sou um tapete de ecos
uma cachoeira de gritos
uma cordoalha de muitos tempos
A esfera de lantejoulas
- passado presente futuro -
roda refletindo mil sóis
Sou essa colméia de incêndios
essa assembléia de sinais
esse rumor insone
Rio, 26/5/80
Helio Pellegrino
in Minérios Domados
as cores em mim se confundem
sou um tapete de ecos
uma cachoeira de gritos
uma cordoalha de muitos tempos
A esfera de lantejoulas
- passado presente futuro -
roda refletindo mil sóis
Sou essa colméia de incêndios
essa assembléia de sinais
esse rumor insone
Rio, 26/5/80
Helio Pellegrino
in Minérios Domados
terça-feira, 10 de maio de 2011
Frutos da Terra

Benditos os filhos do ventre da terra
que o sol desperta tão cedo
que o trigo e a uva aguardam no campo
para o mágico processo do pão e do vinho.
Benditos os frutos da terra
que se abrem à manhã
em silêncios e cantos
que se mesclam no ar
e os filhos da paz
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
dele retirando sustento e eternidade.
Abençoados os que bendizem,
os que curam, os que a dor amenizam
e que por via da tolerância se entendem.
Benditos os que domam a cólera
e se transformam no amor,
amor que bebe da vida em identidade.
Bendito o sol
que amadurece os frutos da terra.
Mais bendita a luz
por que anseia a 'noite escura da alma'.
Fernando Campanella, poema escrito em 1984.
Retirado do Blog do poeta, Palavreares
que o sol desperta tão cedo
que o trigo e a uva aguardam no campo
para o mágico processo do pão e do vinho.
Benditos os frutos da terra
que se abrem à manhã
em silêncios e cantos
que se mesclam no ar
e os filhos da paz
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
dele retirando sustento e eternidade.
Abençoados os que bendizem,
os que curam, os que a dor amenizam
e que por via da tolerância se entendem.
Benditos os que domam a cólera
e se transformam no amor,
amor que bebe da vida em identidade.
Bendito o sol
que amadurece os frutos da terra.
Mais bendita a luz
por que anseia a 'noite escura da alma'.
Fernando Campanella, poema escrito em 1984.
Retirado do Blog do poeta, Palavreares
'É MAIS FÁCIL PARTIR QUANDO O SILÊNCIO'

É mais fácil partir quando o silêncio
transpõe a tua voz.
Mais simples celebrar a tão efémera
certeza de estares vivo.
A música do ar esvai-se nas sombras,
tu sabes que é assim,
que os dias correm céleres, não tentes
perseguir o seu rasto - repara
como em abril as aves são tão felizes.
Sê como elas: não perguntes nada,
deixa que o sol responda à flor da tarde
e esquece-te do mundo.
Fernando Pinto do Amaral
In' Eco de Acédia'
transpõe a tua voz.
Mais simples celebrar a tão efémera
certeza de estares vivo.
A música do ar esvai-se nas sombras,
tu sabes que é assim,
que os dias correm céleres, não tentes
perseguir o seu rasto - repara
como em abril as aves são tão felizes.
Sê como elas: não perguntes nada,
deixa que o sol responda à flor da tarde
e esquece-te do mundo.
Fernando Pinto do Amaral
In' Eco de Acédia'
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domingo, 8 de maio de 2011
Poema de Graça Pires

Torna-se nítida a textura das conchas
esboçadas em areias onde a lua se despenha
quando o momento é propicio ao silencio das águas.
Um denso azul cresce em espuma
sobre os lábios inacessíveis à passagem
dos mastros assombrados.
Procuro o teu corpo.
Um percurso de repteis contaminou-me o ventre.
Para resistir à morte rastejo pela noite
em busca das sombras que se transfiguram em aves.
Procuro o teu abraço.
Graça Pires
In: A incidência da luz
esboçadas em areias onde a lua se despenha
quando o momento é propicio ao silencio das águas.
Um denso azul cresce em espuma
sobre os lábios inacessíveis à passagem
dos mastros assombrados.
Procuro o teu corpo.
Um percurso de repteis contaminou-me o ventre.
Para resistir à morte rastejo pela noite
em busca das sombras que se transfiguram em aves.
Procuro o teu abraço.
Graça Pires
In: A incidência da luz
ARTE POÉTICA

Palavras,
só palavras, nada mais
que a vã matéria, o seu sentido
eco de muitos ecos, repetido
reflexo de poderes tão irreais
como essas emoções graças às quais
terei de vez em quando pretendido
dizer um só segredo a um só ouvido
ciente de que nunca são iguais
os segredos e ouvidos que procuro
às cegas neste mar sempre obscuro
onde a voz desagua como um rio
sem nascente nem foz - apenas uma
incerta confidencia que se esfuma
e só foi minha enquanto me fugiu.
Fernando Pinto do Amaral
(Portugal)
só palavras, nada mais
que a vã matéria, o seu sentido
eco de muitos ecos, repetido
reflexo de poderes tão irreais
como essas emoções graças às quais
terei de vez em quando pretendido
dizer um só segredo a um só ouvido
ciente de que nunca são iguais
os segredos e ouvidos que procuro
às cegas neste mar sempre obscuro
onde a voz desagua como um rio
sem nascente nem foz - apenas uma
incerta confidencia que se esfuma
e só foi minha enquanto me fugiu.
Fernando Pinto do Amaral
(Portugal)
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sábado, 7 de maio de 2011
Lamento da mãe órfã

Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!
Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.
Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.
Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!
Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, - em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.
Cecília Meireles
In: Mar absoluto -1945-
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!
Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.
Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.
Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!
Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, - em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.
Cecília Meireles
In: Mar absoluto -1945-
quinta-feira, 5 de maio de 2011
O Dom de Ouvir
terça-feira, 3 de maio de 2011
AMOR...
quinta-feira, 28 de abril de 2011
terça-feira, 26 de abril de 2011
E POR QUE NÓS?
Dentro de todos nós
há uma casa vazia
escura ou clara
translúcida de vida e morte
cheirando memórias de tempo.
Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .
de pranto e de paz e de luz
de risos e de tardes plenas de azul.
Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .
quando os braços da noite
dizem das coisas vividas e
falam com olhos de menino travesso
como se caracóis e caretas de palhaço
enfeitassem nossos desenganos.
Dentre de todos nós
há sempre uma casa vazia . . .
Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo
há uma casa vazia
escura ou clara
translúcida de vida e morte
cheirando memórias de tempo.
Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .
de pranto e de paz e de luz
de risos e de tardes plenas de azul.
Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .
quando os braços da noite
dizem das coisas vividas e
falam com olhos de menino travesso
como se caracóis e caretas de palhaço
enfeitassem nossos desenganos.
Dentre de todos nós
há sempre uma casa vazia . . .
Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo
sexta-feira, 22 de abril de 2011
À Noite
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