quarta-feira, 16 de novembro de 2011
A flor
Penso que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai.
Cada ferida — perfeita —,
fecha-se numa minúscula imperceptível pétala,
causando dor.
Dor é uma flor como aquela,
como esta,
como aquela,
como esta.
Robert Creeley
(tradução: Régis Bonvicino)
The Flower
I think I grow tensions
like flowers
in a wood where
nobody goes.
Each wound is perfect,
encloses itself in a tiny
imperceptible blossom,
making pain.
Pain is a flower like that one,
like this one,
like that one,
like this one.
Robert Creeley
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Esboço de Cantiga
Subo e desço noite e dia,
noite dia subo e desço
por mil escadas de nuvens
no castelo em que padeço.
Subo com ramos de flores,
e a água dos jarros esqueço,
há mil escadas de nuvens
no trabalho que ofereço.
Ai, que trabalho tão grande
nas nuvens que subo e desço
não só por águas e flores,
mas recados de mais preço,
que me mandam, que me chamam,
neste sem fim nem começo,
castelo entre a vida e a morte
de um dono que não conheço.
Subo e desço noite e dia,
gasto-me e desapareço...
Ai que castelo tão alto,
tão alto e sem endereço!
1961
Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Dispersos (1918-1964)
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
SOLIDÃO
A SOLIDÃO É COMO CHUVA
Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.
Goteja na hora dúbia, quando os becos
anseiam longamente pela aurora,
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...
Rainer Maria Rilke
In o livro das imagens, 1902
Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.
Goteja na hora dúbia, quando os becos
anseiam longamente pela aurora,
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...
Rainer Maria Rilke
In o livro das imagens, 1902
Solidão (outra tradução)
A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...
©Rainer Maria Rilke
Tradução de Maria João Costa Pereira
TAL É A NOSTALGIA
Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.
Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.
Rainer Maria Rilke
Tradução de Antônio Roberto de Paula Leite
In Antologia Poética
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
CHAFARIZ (Sob primaveras)
O chafariz do largo da praça tem lá sua história oficial , porém, no percurso de seu silêncio, foram guardando suas conchas um acervo humano que sua placa-epitáfio não diz. Assim estórias anônimas: lutos de amor, antigos carnavais, serenatas, burricos de carga (quem sabe a poesia sob aquelas luas tintas, abissais).
Aquelas bacias sob primaveras lavaram a roupa da plebe ; aplacaram aquelas taças a sede da imperatriz.
Secaram as pias , passaram conselheiros e generais, mas resistiram o granito e a pedra de cantaria .
Aqui, sob esta árvore-orquídea, no banco de ferro forjado, diante de sua muda memória me sento...
Minguaram as bicas, impunemente, mas de outras intrínsicas águas eu bebo. Rega-me o chafariz por dentro.
(Fernando Campanella , texto inspirado pelo chafariz da cidade sul-mineira de Cristina, topônimo em homenagem à imperatriz Dona Teresa Cristina, esposa de
Dom Pedro II)
terça-feira, 1 de novembro de 2011
SINA
(Fotografia de Fernando Campanella)
Sempre ouvi dizer que poetas
têm um solitário destino.
(A solidão ora enlouquece
ora floresce.)
Não sei: ser poeta é minha sina
ou busco a poesia
que a solidão me atina.
Fernando Campanella, 1993.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Vandalismo
(Ogiva da Basílica de Saint-Denis, Paris)
Meu coração tem catedrais imensas,
Meu coração tem catedrais imensas,
templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos templários medievais,
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
Augusto dos Anjos
do Livro 'Eu'
PAZ
Vamos hacia los árboles... el sueño
Se hará en nosotros por virtud celeste.
Vamos hacia los árboles; la noche
Nos será blanda, la tristeza leve.
Vamos hacia los árboles, el alma
Adormecida de perfume agreste.
Pero calla, no hables, sé piadoso;
No despiertes los pájaros que duermen.
Alfonsina Storni
PAZ
Caminhemos até as árvores... o sonho
Se fará em nós por virtude celeste.
Caminhemos até as árvores; a noite
Nos será branda, a tristeza leve.
Caminhemos até ás árvores, a alma
Adormecida de perfume agreste.
Cala-te, porém, sê piedoso, não fales;
Não despertes os pássaros que dormem.
Alfonsina Storni
(Livre tradução de Fernando Campanella)
Se hará en nosotros por virtud celeste.
Vamos hacia los árboles; la noche
Nos será blanda, la tristeza leve.
Vamos hacia los árboles, el alma
Adormecida de perfume agreste.
Pero calla, no hables, sé piadoso;
No despiertes los pájaros que duermen.
Alfonsina Storni
PAZ
Caminhemos até as árvores... o sonho
Se fará em nós por virtude celeste.
Caminhemos até as árvores; a noite
Nos será branda, a tristeza leve.
Caminhemos até ás árvores, a alma
Adormecida de perfume agreste.
Cala-te, porém, sê piedoso, não fales;
Não despertes os pássaros que dormem.
Alfonsina Storni
(Livre tradução de Fernando Campanella)
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
ALVA PAISAGEM
Sim, na Espanha dos teus olhos
Debrucei meus lábios cansados:
Sol e sede me fizeram avesso,
Lento ao reconhecer o alimento.
Sim, na França da tua boina inclinada
Descobri outra vida, outros hábitos:
Lua e mar me conferem o desvelo,
Estranhos rios do país que desejo.
Sim, no amanhecer do teu corpo
Apreendi inteira farmácia do amor:
Ervas em brava salmoura, alguidares
de prazer e pavor; ternura e outra cor.
Sim, na arena dos teus atos mais simples,
Avistei caravelas; na algazarra, a calmaria:
Sargaços rompidos, novo olhar sobre a dor
- perfume. Lá fora, os fantasmas da maresia.
Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
AVARENTAMENTE
Avarentamente
a vida nega, a vida
se retrai, se esquiva.
Quem pudera em frente
ver a luz perdida
onde, em recidiva,
tudo se renova
para novamente
murchecer, cair
no que a vida prova
ser o que há de vir,
mas sustém-se ausente.
A luz nunca tida...
Nunca tido encanto...
Avarentamente
se retrai a vida
prometendo tanto
lá bem longe, em frente,
que no ser cansado
de uma espera aflita
há um sol frustrado,
uma luz que grita,
um doer pungente,
infinitamente...
Alphonus de Guimaraens Filho
In: O tecelão do Assombro
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Alphonsus de Guimaraes Filho
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Feliz Ano-Novo Judaico,Shaná Tová 5772 -שנה טובה
Um sorriso se faz
olha lá os passos de luz vindo
te abraçar feito azul,
na tua estrada,
tua história,
tua memória,
teu coração.
Bem Vindo
doce abraço
aromas de mel
e maçã.
e o que passou deixa ir
feliz ou não.
Vai nascer um big bang
momento virgem
sair do mar
o sol
a vida
o alimento,
na alma
uma estrela
brilhando
ano novo
chegando.
Aharon
מל
חיוך גורם
נראה במורד המדרגות של אור מגיע
אני מחבק אותך כמו האור,
הדרך שלך,
הסיפור שלך,
הזיכרון שלך,
הלב שלך.
רצוי
מתוקה חיבוק
ארומות של דבש
וגם תפוח.
ומה להרפות עכשיו
מאושר או לא.
ייוולד המפץ הגדול
בתולה רגע
מן הים
השמש
חיים
אוכל,
נשמה
כוכב
מבריק
ראש השנה
הקרובים.
אהרון
—
honey
A smile makes
looks down the steps of light coming
hold you done blue
in your road
your story,
your memory,
your heart.
Welcome
sweet embrace
flavor of honey
and apple.
what happened and let it go
happy or not.
Will be born a big bang
moment virgin
out of the sea
the sun
life
food,
soul
a star
shining
new Year
coming.
Aharon
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Prece
dá-me a lucidez das
correntezas para que eu descubra
entre as tristezas que se
avolumam algum
sorriso mesmo
que não seja para mim
dá-me a serenidade de uma
estrela para que eu imagine
entre as lágrimas que não
me deixam qualquer
paz ainda
que breve
dá-me a claridade das
luas cheias para que eu invente
entre as angústias que se
esparramam um
horizonte mesmo
que se transmude em ilusão
dá-me a esperança das
árvores para que eu teça
entre as ausências que se
imensificam uma sanidade ainda
que estofada de
delírios
Adair Carvalhais Júnior
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Adair Carvalhais Jùnior
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
FUNERAL COTIDIANO
são 24
as covas
que cavo
no solo de sal
& ossos
do quarto
e sobre cada
cadáver meu
que deponho
ergo a lápide
de um sonho
Adriano Wintter
ANTOLOGIA
(Paint, 'Skrik' by Edvard Munch)
assim como espera
da flor
a esfera
triunfal do fruto
o mundo empurra
o eu
do poeta
para
o abismo
e vós
que mordeis
a polpa
macia
nem mesmo
sabeis
que o verso
é um compêndio
de quedas e gritos
Adriano Wintter
(Porto Alegre - RS )
sábado, 24 de setembro de 2011
'Outono'
Alheia à continuidade das manhãs
fixo um encontro comigo
para a hora em que a terra se deixa amar sem cólera.
Tudo converge no sombreado das árvores
chorando as folhas.
Sento-me na esplanada dos prodígios
e abro um bloco pautado
para fixar a voz daqueles que ninguém ouve.
Ao mesmo tempo, apanho do chão
as memórias desta cidade
onde todos os sinais de vida
se conjugam com o verbo esperar
e todos os odores são uma mistura de fumo,
de fadiga, de suor e de solidão.
Tudo se passa, simultaneamente,
como uma despedida e um reencontro.
Graça Pires
-Portugal-
Livro dos Desejos
Não consigo superar as colinas
O sistema foi abaixo
Vivo de comprimidos
Coisa que agradeço a D--s
Segui o trajecto
Do caos à arte
Desejo o cavalo
Depressão a carruagem
Naveguei como um cisne
Afundei-me como uma rocha
Mas o tempo passou há muito
Pelas minhas reservas de riso
A minha página era demasiado
branca
A minha tinta era demasiado fina
O dia não quis escrever
Aquilo que a noite rabiscara
O meu animal uiva
O meu anjo aborreceu-se
Mas não me é permitida
Uma réstia de remorso
Pois alguém há-de utilizar
Aquilo que eu não soube ser
O meu coração será dela
De uma forma impessoal
Ela pisará o caminho
Perceberá a minha intenção
A minha vontade partida em duas
E a liberdade pelo meio
Por menos de um segundo
As nossas vidas colidirão
O interminável suspenso
A porta de par em par
Então ela há-de nascer
Para alguém como tu
O que nunca ninguém fez
Ela continuará a fazer
Sei que ela vem aí
Sei que ela irá olhar
E esse é o desejo
E este é o livro
Leonard Cohen - Livro do Desejo
tradução de Vasco Gato
(Montreal, 21 de setembro de 1934) é um cantor, compositor, poeta e escritor canadense.
Embora seja mais conhecido por suas canções, que alcançaram notoriedade tanto em sua voz quanto na de outros intérpretes, Cohen passou a se dedicar à música apenas depois dos 30 anos, já consagrado como autor de romances e livros de poesia.
..........
Leonard Cohen nasceu em Montreal, província de Quebec, Canadá, de uma família judia de origem polonesa (polaca). A sua infância foi marcada pela morte de seu pai quando Cohen tinha apenas 9 anos, fato que seria determinante para o desenvolvimento de uma depressão que o acompanharia durante boa parte da vida.
Aos 17 anos, ingressa na Universidade McGill e forma um trio de música country. Paralelamente, passa a escrever seus primeiros poemas, inspirado por autores como García Lorca.
.........
Em 1994, consolidando a sua aproximação com o budismo, Cohen passa a viver no mosteiro de Mount Baldy Zen Center, próximo de Los Angeles. Em 1996, seria ordenado monge zen, e ganharia o nome Dharma de Jikan ("silencioso").
Nesse meio-tempo é lançado, em 1995, um outro disco-tributo, Tower of Songs, dessa vez com nomes mais conhecidos, como Elton John, Bono e Willie Nelson.
No mesmo ano é lançado o livro Dance Me to the End of Love, onde poesias suas são mescladas com pinturas do francês Henri Matisse.
Sua experiência no mosteiro iria até o ano de 1999, quando voltaria a morar em Los Angeles. Apesar disso, Cohen ainda se considera judeu, ressaltando que não procura "por uma nova religião".
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BALÉ ESPACIAL
Seremos eternos?
Sucessões
esféricas
no tempo.
Dentro de mim
não há
nada.
Dentro de mim,
o mundo.
Simples,
breve,
leve,
caminho sobre esferas
- degraus? -que me conduzem
ao extrato universal.
A leveza sutil
do planeta em rotação
eleva-se num balé essencial:
a dança fantástica de astros
improváveis.
Deus meu!
Quero navegar no rastro
de um astrolábio na segurança de seu passo,
dançarino encantado
do eterno suceder,
com a respiração mais elevada.
Sou de sempre,
miríades esféricas do instante.
Seremos eternos?
Onévio Zabot
In Arco de Pedra
Do blog de minha amiga Dione.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Arco-íris
A Pedro Nava
O coração se aperta.
Nem sabe se foi a lembrança de certo cair de tarde
que a memória subtraiu ao tempo, ou um reviver de luzes
entre horizonte e nada.
O coração se volta, há luzes ao longe, uma cidade aparece,
some-se, já é outra cidade.
Em qual delas habita e se redescobre o menino?
Em qual delas a vida se multiplica, as manhãs renascem,
os caminhos se desenvolvem num atlas inexistente e a imaginação arma
o seu mundo de mágicos? Em qual delas
a luz é luz, a sombra é sombra?
Não sabe.
Tantas coisas já se misturaram, ou se confundiram no tempo.
Algumas realmente vistas.
Outras apenas sonhadas, ou imaginadas. E como agora todas
a distancia se ordenam,
entrelaçam-se, formam,
fundidas, transfiguradas,
um só arco-íris!
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Olhar concebido
Disneylândia girando nos olhos distraídos
desbotando retratos, palavras expostas.
Fita embalada enfeita o mundo complexo.
(perfeito laço
com grandes lapsos)
Estante congestionada de livros lidos por olhos famintos.
Nada entendeu
repensou a modernidade
envenenada
reverso maldito somente
mal dito
pelo silencio em tributo.
Conversão de sonhos espalhados em alguma alma
(êxtase antigo)
entender é o machado decepando
prazeres.
Nada de novo nem por instantes, mas repare
ao menos em tudo
o florescimento constante das flores.
Montes, campos, concretos.
Farol de sementes
para canteiros certeiros
vento chora
naufrágio imaginário
no presente.
Corte rente....
Tudo pode estar oculto da razão
que sonha com a vastidão em palavras,
meras palavras criadas.
Correntes.
Nascente floral
mais que os olhos podem conceber.
Aharon
terça-feira, 20 de setembro de 2011
INICIAÇÃO
São as horas paradas
Cada uma do ano atalho
Em hera entrelaçadas
Cobertas de esplendido orvalho.
É a fala infantil
Que sua voz na flauta ensaia
A replica sutil
Coro de mata e vento e praia.
É a primeira pena
Pois o sonho em palavras mente
E a longe altiva rena
Confinada tomba demente.
É o inicial mosto
E saudade e só submissão
O Maldito indisposto
Que inspira comiseração.
É ainda na Camena
Que hesita pálida e se insurge
Com os seus sons acena
E assusta-se com o que surge...
Tal qual uva azedia
Que lenta perfuma e colora
Da folhagem sombria
Se alça a cotovia na aurora.
Stefan George
In: Crepúsculo
domingo, 18 de setembro de 2011
PRIMAVERA
Em crepusculares criptas
eu longamente sonhei
com teus ares azuis e árvores,
com teus perfumes e cantos de pássaros.
Agora toda te abres
em glorioso resplendor, assim
inundada de luz
como um prodígio diante de mim.
De novo me reconheces e com ternura me tentas:
vibra ao longo de todos os meus membros
tua alegre presença.
Hermann Hesse
in 'Andares'.
Recebido da amiga Dione Eller
terça-feira, 30 de agosto de 2011
2° MADRIGAL
Quis dar em versos
a dor da tua ausência;
mas depois vi que vivias dentro de mim
eu é que tinha partido.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Eu morrerei.
E nos outros serei a recordação
dum grande pássaro selvagem
que bateu as asas
longamente. . .
longamente. . .
Enquanto se ouvir
o eco das minhas asas,
terei a vida das aves.
Isabel Meyrelles
Palavras Noturnas & Outros Poemas
terça-feira, 23 de agosto de 2011
CANÇÃO DO INVERNO
Faz tempo que cai
a chuva cinzenta
no longo vazio
da rua onde, lenta,
minha alma vai
como nevoenta
brisa em que se embala
a chuva cinzenta.
E faz-se a canção
do inverno assim:
com as cinzas da chuva
e o frio de mim.
Ruy Espinheira Filho
In Sob o Céu de Samarcanda
Isabel Meyrelles
Os meus olhos
olham os meus olhos,
para lá da janela
há sombras
suspiros
árvores e rosas.
Dentro da janela,
Só os meus olhos
Olhando outros olhos encobertos.
... ...
O silêncio pesa.
Isabel Meyrelles
In ‘Palavras Noturnas e Outros Poemas’
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Palavras na Penumbra (7)
Há um silêncio leve sobre as ruas.
Esconde-se em sua tênue vaidade.
Ninguém o escuta. Vai pela cidade
compondo um vento de palavras nuas.
Foge do tempo, foge dessa urgência
de dizer tanto, e tudo, e não ser nada,
e encolhe-se no oco de uma ausência,
como uma ave oculta a face alada.
Há um silêncio vivo como a pele,
que pulsa sob um têxtil desatino,
disposto a seduzir o que o impele
ao devaneio. E o impulso vence-o
e abre uma outra face em seu destino:
pois dentro do silêncio há outro silêncio
Renato Tapado
(Porto Alegre 1962, escritor gaúcho, radicado em Florianópolis desde 1974.)
Só Agora
Só agora é que compreendo haver inventado
tantas maneiras de não ser,
ou de ser, dividido,
disperso.
Ah, vida simplesmente pensada
e não apenas vivida, ou se sonhando entre mil fogos,
e por isso despida
de seu dom de unidade ou de sua própria essência!
Colado à sombra das coisas, viajo desesperadamente,
dividido, disperso.
Onde estou, não sou.
Nunca sou totalmente.
E é um ficar, sem deter-me, e um partir, sem levar-me.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Entre o Real e a Fabula
Gênese
Há sempre uma hora,
uma hora densa,
uma hora inesperada,
em que a paisagem mais inocente
tem o fulgor de um fiat.
O tempo sonha que é espaço,
o espaço sonha que é tempo,
a realidade se compenetra de sua irrealidade.
O homem repensa o mundo
O mundo se recompõe em sua nostalgia de Deus.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Entre o Real e a Fabula
sexta-feira, 29 de julho de 2011
TÃO CÚMPLICES AS PALAVRAS
Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.
GRAÇA PIRES
De O silêncio: lugar habitado, 2009
quinta-feira, 28 de julho de 2011
CLARAS CRUZADAS
Alva - clara,
a palavra das horas
lavra o tempo vivido.
Alva - clara,
a palavra triste
lava os olhos do esquecido.
Alva - clara,
a palavra insiste:
larva sob o vento transido.
Alva - clara,
a palavra marota
capina savana enluarada.
Alva- clara,
a palavra afoita
cavalga amante ensandecida.
Alva - clara,
a palavra servil
escava a alma perdida.
Alva - clara,
a palavra ardente
trava o sumário da vida.
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quarta-feira, 20 de julho de 2011
O Solitário
Não: uma torre se erguerá do fundo
Do coração e eu estarei à borda:
Onde não há mais nada, ainda acorda
O indizível, a dor, de novo o mundo.
Ainda uma coisa, só, no imenso mar
Das coisas, e uma luz depois do escuro,
Um rosto extremo do desejo obscuro
Exilado em um nunca-apaziguar,
Ainda um rosto de pedra, que só sente
A gravidade interna, de tão denso:
As distâncias que o extinguem lentamente
Tornam seu júbilo ainda mais intenso.
Rainer Maria Rilke,
Tradução Augusto de Campos
sexta-feira, 15 de julho de 2011
'Neblina'
Estranho é caminhar na densa névoa:
Solitária esta cada planta ou pedra,
Nenhum arbusto enxerga o seu vizinho,
Cada um está só.
Cheio de amigos era, para mim, o mundo
Quando luminosa ‘inda era minha vida;
Agora que a névoa caiu,
Ninguém mais é visível.
Não é deveras um sábio
Quem não conhece a escuridão
Que, suavemente, nos separa
De tudo inexorável.
Estranho é caminhar na densa névoa:
Viver é estar solitário
Entre gente que se ignora.
Todos estamos sós!
Hermann Hesse
“Este Lado da Vida”,
Que diferença faz as flores
Que diferença faz às flores
se por um segundo as contemplo?
Nem sei se algo no mundo
precisa de meu olhar assim atento.
Se me procuras, em teu espelho
por um tempo me reflito.
Depois ao cálice de mim retrocedo.
Eu sou o velho vinho que me bebo
de minha embriaguês me contento.
Fernando Campanella,
de 'O Eu Confesso', XXX.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
DESPERDÍCIO
Pelos penhascos das horas,
A vida se precipita.
Célere, transpõe os anos.
Que aluvião de banalidade
Arrastam essas águas tumultuosas
Em sua trajetória efêmera!
Helena Kolody
In: Correnteza
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Poema III
Hoje não vou colher
nem laranjas, nem flores, nem amoras.
Vou ver crescer o dia
no redondo das frutas,
e ouvir sem pressa o canto destas aves.
Serão as mesmas de ontem?
Um dia a mais que fez de mim, que faz?
E as aves que cantavam,
se não são estas, onde
estão? O canto apenas se repete?
Aquela que ontem via
o que ora vejo, não é mais em mim?
Então eu me renovo
como as águas e as plantas?
Sou outra, ou me acrescento ao que já sou?
No entanto, é tudo igual,
embora eu saiba que só na aparência;
e meu prazer me vem
de estar sentada aqui,
detendo um tempo que se não detém.
Marly de Oliveira
(Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo 1935 — Rio de Janeiro, 1 de junho de 2007)
sexta-feira, 8 de julho de 2011
EM ALGUM LUGAR
No deserto da vida eu erro e ardo
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.
Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão à espera o sono, a noite e as estrelas.
Hermann Hesse
In Andares
Tradução Geir Campos
segunda-feira, 4 de julho de 2011
LIVRO ABERTO
A rua é um livro aberto.
O olho minúsculo de um pássaro
é um livro aberto.
A porta fechada de um quarto
é um livro deserto.
Tenho escrito palavras
de muitos livros refeitos
que, surdos e quietos,
tecem límpidos e claros
os seus herméticos enredos.
Na rua leio o que soletro.
No minúsculo olho de um pássaro
não leio o que vejo,
embora pássaros e ruas
me ensinem o que percebo.
Me ensinam, por exemplo,
o desterro aberto e refeito
de todo livro relido,
se atrás da porta fechada,
refaço o seu silêncio desfeito,
releio o meu silêncio perdido.
Mário Chamie
(1933-2011)
Um dos poemas inéditos em livro que Mário Chamie preparava para editar e que foi publicado pelo "Estado" em dezembro do ano passado.
domingo, 26 de junho de 2011
O homem de neve
É preciso ter uma mente de inverno
Para observar a geada e os ramos
Dos pinheiros de neve encobertos:
E ter estado frio por um longo tempo
Para contemplar os zimbros densos de gelo,
Os abetos ásperos no brilho longínquo
Do sol de janeiro; e não pensar
Em aflição alguma ao som do vento,
Ao som das folhas escassas
Que é o som da terra
Repleta do mesmo vento que sopra
naquelas mesmas regiões desfolhadas
para o que escuta, o que escuta na neve,
e, nada em si próprio, nada contempla
que lá não se ache, mirando o nada que lá está.
Wallace Stevens
Tradução de Fernando Campanella
The Snow Man
One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;
And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter
Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,
Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place
For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.
Wallace Stevens
(October 2, 1879 – August 2, 1955) was a major American Modernist poet. He was born in Reading, Pennsylvania, educated at Harvard and then New York Law School, and spent most of his life working as a lawyer for the Hartford insurance company in Connecticut.
His best-known poems include "Anecdote of the Jar", "Disillusionment of Ten O'Clock", "The Emperor of Ice-Cream", "The Idea of Order at Key West", "Sunday Morning", "The Snow Man", and "Thirteen Ways of Looking at a Blackbird", all of which appear in his Collected Poems for which he won the Pulitzer Prize for Poetry in 1955.
His best-known poems include "Anecdote of the Jar", "Disillusionment of Ten O'Clock", "The Emperor of Ice-Cream", "The Idea of Order at Key West", "Sunday Morning", "The Snow Man", and "Thirteen Ways of Looking at a Blackbird", all of which appear in his Collected Poems for which he won the Pulitzer Prize for Poetry in 1955.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
O vento move-se
Assim se move o vento :
como os pensamentos de um velho humano
que ainda pensa com fúria
e avidez.
Assim se move o vento :
como um humano sem ilusões
que ainda sente coisas irracionais dentro dela.
Assim se move o vento :
como humanos que orgulhosos se aproximam,
como humanos que em fúria se aproximam.
Assim se move o vento :
pesado e pesado, como um humano
que não se importa.
Wallace Stevens in. "Antologia " relógio d'água
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Infinito
Tu te refletes em mim,
eu me reflito em ti
(espelhos paralelos)
e entre nós dois
o estado normal:
vazio impaciente
á espera de uma alegria ou de uma tristeza
que
multiplicada por si mesma
venha encher a galeria incomensuravel
de nossas vidas face a face.
Felipe de Oliveira
Em: Bazar, ano 1, n.4, nov.1931.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
DREAMS IN THE DUSK
(Fotografia de Fernando CampanellaDreams in the dusk,
Only dreams closing the day
And with the day's close going back
To the gray things, to the dark things,
The far, deep things of dreamland.
Dreams, only dreams in the dusk,
Only the old remembered pictures
Of lost days when the day's loss
Wrote in tears the heart's loss.
Tears and loss and broken dreams
May find your heart at dusk.
(Carl Sandburg)
SONHOS NO CREPÚSCULO
Sonhos no crepúsculo,
Apenas sonhos encerrando o dia,
Retornando-o com tal desfecho,
Aos tons cinza, escurecidos,
Às coisas fundas e longínquas
Do território dos sonhos.
Sonhos, apenas sonhos no crepúsculo,
Apenas as rotas imagens lembradas
Dos tempos idos, quando o ocaso de cada dia
Escrevia em prantos as perdas da afeição.
Lágrimas e perdas e sonhos desfeitos
Talvez acolham teu coração
ao anoitecer.
Carl Sandburg
Tradução de Fernando Campanella
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Fernando Campanella
domingo, 12 de junho de 2011
Segunda Opção

Domingos são dias iguais
e tão diferentes,
que não merecem
a tensão da gente.
Domingos são dias iguais
e tão distantes,
que não merecem
a aflição do crente.
Domingos são dias iguais
e tão dolentes,
que não merecem
a curtição da gente.
Melhor roubar e gozar
o cio da segunda-feira.
Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”.
e tão diferentes,
que não merecem
a tensão da gente.
Domingos são dias iguais
e tão distantes,
que não merecem
a aflição do crente.
Domingos são dias iguais
e tão dolentes,
que não merecem
a curtição da gente.
Melhor roubar e gozar
o cio da segunda-feira.
Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Inquietação

I
Dentro da tarde, de quando em quando,
há um ligeiro rumor de asa frágeis e lentas,
de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asas me comovem?
Dentro da noite, de quando em quando,
esse mesmo rumor continua, lá fora,
rumor de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asa me inquietam?
II
Alma, errante,
eu vi a sombra traiçoeira
descer, rápido, e cair pesadamente sobre as grandes arvores retorcidas.
Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
Alma errante, alma errante:
eu ouvi o choro da terra.
O frio, o desesperado
choro da terra
- Oh, a voz milenária do vento
que ulula na sombra.
Alma errante:
tu não vês, não ouves?
É a grande sombra, há qualquer coisa na sombra.
- Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
III
Nesta noite tão cheia de rumores vagos,
(o vento brame, lá fora, agita-se... Que terá o vento?)
como esta voz, cá dentro, é profética e triste.
Vento frio da noite,
vento inquieto da noite!
Pensar que todas as raízes serão arrancadas, algum dia,
E que então não haverá mais desejo sobre desejo,
Numa noite que será também cheia de rumores vagos.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Dentro da tarde, de quando em quando,
há um ligeiro rumor de asa frágeis e lentas,
de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asas me comovem?
Dentro da noite, de quando em quando,
esse mesmo rumor continua, lá fora,
rumor de asas que estão cansadas.
Por que será que aquelas asa me inquietam?
II
Alma, errante,
eu vi a sombra traiçoeira
descer, rápido, e cair pesadamente sobre as grandes arvores retorcidas.
Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
Alma errante, alma errante:
eu ouvi o choro da terra.
O frio, o desesperado
choro da terra
- Oh, a voz milenária do vento
que ulula na sombra.
Alma errante:
tu não vês, não ouves?
É a grande sombra, há qualquer coisa na sombra.
- Oh, o ruflar aflito das asas
mergulhadas na sombra.
III
Nesta noite tão cheia de rumores vagos,
(o vento brame, lá fora, agita-se... Que terá o vento?)
como esta voz, cá dentro, é profética e triste.
Vento frio da noite,
vento inquieto da noite!
Pensar que todas as raízes serão arrancadas, algum dia,
E que então não haverá mais desejo sobre desejo,
Numa noite que será também cheia de rumores vagos.
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
terça-feira, 7 de junho de 2011
A Água

Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
Paulo Bomfim
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
Paulo Bomfim
Publicado no livro Quinze Anos de Poesia (1958).
In: BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.7
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Rios que Choram

Choras a dor da morte,
embalas os soluços da destruição,
cantas teu pranto silencioso
de um tempo de mansidão
Caminhas a ermo,
munido de cores estrelares
entregue a pouca liberdade,
alimentando a seca da tua alma
Rios que saboreiam a terra
libertos, conscientes e despertos,
caminho melódico que sacia e alimenta
o clamor disparado da fúria
Conceição Bentes
05/06/2011
domingo, 5 de junho de 2011
CANÇÃO NA JANELA
Há pouco emergida mornidão do sono.
Pensei flutuar:
onde termina minha vida
e começa o mar?
Tudo ao meu redor são dois
cristais reverberando.
Meu destino me contempla
indagador:
nesta imensidão
sou um capim perfumado
que balança, a um tempo
susto e chamamento
-pronta para me desfazer
em outra alma.
Lya Luft
In: Secreta Mirada
INFÂNCIA

Névoa encostada na janela,
qualquer coisa roçando o telhado:
o medo me contornava
- talvez simplesmente o vento.
A escada da sombra, a aventura
dos degraus, na curva de madeira
os passos de quem não vinha
- ou de um coração atento.
Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos;
alguém arranhando a parede
- ou eram apenas lembranças?
Algo sempre em movimento:
a vida arrastando as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?
Lya Luft
PARA NÃO DIZER ADEUS
qualquer coisa roçando o telhado:
o medo me contornava
- talvez simplesmente o vento.
A escada da sombra, a aventura
dos degraus, na curva de madeira
os passos de quem não vinha
- ou de um coração atento.
Longas rosas de longa paciência,
os silêncios e os prantos;
alguém arranhando a parede
- ou eram apenas lembranças?
Algo sempre em movimento:
a vida arrastando as pantufas
nos corredores do tempo
- fiquei esquecida num canto?
Lya Luft
PARA NÃO DIZER ADEUS
FLORESTA

Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor
Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas
Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue
Na floresta não há crítico nem sensor
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: ‘Que estranho’
Sábio entre nós é aquele que julga estranho
apenas o que é estranho
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais
Na floresta não existem homens livres ou escravos
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: ‘Ele é desprezível e eu sou um grande senhor’
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil
Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem: ‘Ele é temível’
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis
Na floresta não há morte nem apuros
A alegria não morre quando se vai a primavera
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência
Gibran Khalil Gibran
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor
Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber,
e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas
Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram,
seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue
Na floresta não há crítico nem sensor
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: ‘Que estranho’
Sábio entre nós é aquele que julga estranho
apenas o que é estranho
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais
Na floresta não existem homens livres ou escravos
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro,
não diz: ‘Ele é desprezível e eu sou um grande senhor’
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica,
e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil
Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem: ‘Ele é temível’
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento,
e o direito dos homens fenece como folhas de outono
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito,
e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis
Na floresta não há morte nem apuros
A alegria não morre quando se vai a primavera
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna,
e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência
Gibran Khalil Gibran
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