A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

terça-feira, 28 de maio de 2013

''CADA UM EM SEU MAR''




Cada um se desmembra em seu mar
e veleja para longe.Cada um ama
seu momento de ternura - e concebe
(faz) doçura e solidão.

Cada um leva seu recado
em si. Cada um se perde
em seu mar.Cada um é
de nascença (sem jeito) só.

Cada um morre em seu mar
deslumbra e vagalumbra, voga
em si.Cada um veleja
em sua carne - e colhe a flor
de pátina (nuvem) sideral.
Cada um sofre - e é seu mar
azulcomposto imensos sais
e clarabóia.

Cada um colhe (em seu mar)
embarcações - e segue
sua rota, seu ritmo, seu rincão.

Cada um se despedaça em seu mar
e morre naufragado.Cada um
se perde em um só mar
múltiplo de si (na) solidão.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas

''ESPELHO''





Do outro lado do espelho existe tanto
-rosto impassível – quando me imagino,
que o mito da existência desencanto
compondo silencioso o meu destino.


Do outro lado do espelho escuto o canto
que é um eco da cantiga do menino.
E a lâmina entre nós cai como um manto
que isola a sombra de seu figurino.


Mas através do vidro – vã imagem –
percebo a solidez do corpo, a vida,
nos olhos transbordantes de paisagem.


Existimos à parte, independentes,
e a gargalhada que nos intimda
nem sequer utiliza os mesmos dentes.

1951



Lago Burnett
In: Estrela do Céu Perdido

[Painting By Thomas Wilmer Dewing]

''ATUALIDADE DO AZUL''


Uso a palavra azul como quem ousa
usar a asas do pássaro e reduzo
o símbolo da cor a qualquer cousa
tornada conivente pelo uso.

Sem asa e azul o pássaro não pousa
nas nuvens do real, como me escuso
de inscrever a palavra numa lousa
ou de enterrá-la como um parafuso.

Mas o azul não incide nos meus atos
nem o vôo do pássaro me oprime
a ponto de frear os meus sapatos.

Uso azul quando azul em terra escôo,
mesmo porque não configura crime
falar de céu quando o assunto é vôo.

1963

Lago Burnett
In: Estrela do Céu Perdido

''O Nosso''


Amamos o que não conhecemos, o já perdido.
O bairro que já foi arredores
Os antigos que não nos decepcionaram mais
porque são mito e esplendor.
Os seis volumes de Schopenhauer que jamais terminamos de ler.
A saudade, não a leitura, da segunda parte do Quixote.
O oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro.
Os mais velhos com quem não conseguiríamos
conversar durante um quarto de hora.
As mutantes formas da memória, que está feita do esquecido.
Os idiomas que mal deciframos.
Um ou outro verso latino ou saxão que não é mais do que um hábito.
Os amigos que não podem faltar porque já morreram.
O ilimitado nome de Shakespeare.
A mulher que está a nosso lado e que é tão diversa.
O xadrez e a álgebra, que não sei.

Jorge Luis Borges
Tradução de Cleber Teixeira, Walter Costa e Raúl Antelo

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"DÚBIO"


Um dia, alma criança,
do vento indaguei a idade
e foi o tempo de meu pensamento
o que obtive como verdade.
Do sol, a mesma questão lançada,
Como solução veio-me o tempo
de meus olhos, de minha pele
disposta à luz em seu furor
ou em seus toques mais delicados.
Estranhas, dúbias respostas:
o universo a um seco estalar
de minha finitude
então se desmancha, e passa?
Ou trago , dos cumes da criação,
em tudo que brota, rebrota,
a mais irrestrita ,
a mais eterna proposta?

(Fernando Campanella)

[Painting by Michael Cheval]

''AO VENTO"




Fica comigo, mas não posso pedir ao vento
que sopre ao alcance de meu ouvido,
ou à terra que abençoe nossos longos segredos
-nem mesmo da luz querer ouso
que se demore em meu abrigo.
Quando os dados lançados e até meu silêncio
contra toda certeza parecem que conspiram
- e caso os dedos do mundo
em suas recurvas unhas nos firam -
releva, e fica comigo, os anjos sabem mais alto
daquilo em que insisto, do que preciso.

(Fernando Campanella)

"Telas vivas"


Emoções são como tintas
em telas distintas
coloridas ou não,
imaginadas na mente,
em forças cadentes
impressas no coração.

Warllem Silva
In: Infinitude da Graça

Warllem Silva



“Há um poder de silêncio,
 transform’a dor
 Em cada barulho interior.”

 Warllem Silva

quarta-feira, 15 de maio de 2013

*****

 




Não sou ninguém !
Quem é você ?
Ninguém - Também ?
Então somos um par ?

 
Emily Dickinson,
(1830-1886) Poetisa americana, cuja morte completa hoje 127 anos.








"... Que sei eu?! Não desejo mais que perguntar, que alimentar de dúvidas mais este esforço pela esperança – afinal, a luz voltou, por quanto tempo? Não deixo de estar onde me deixei, donde me expus à maré, para ficar, ou partir, ou regressar! As aves, essas vão e vêm até que os ventos as deixem ficar, ou partir, ou regressar! As flores, essas abrem, ou fecham, ficam ou transcendem-se, até não voltarem! As árvores, essas, morrem de pé, depois de muito persistirem, vestidas ou despidas pelas estações! (...)"

Joaquim do Carmo (a publicar)
© (direitos reservados)
 
Devagarinho, a luz estende seus braços ao longe, até onde os olhos, ainda meio adormecidos, conseguem enxergar. É de sonhos que despertam as árvores, as flores, as aves! É de viagens por mundos impossíveis que arribam as maravilhas desta realidade, tão improvável como certa, tão imprevisível como esperada, acessível como a utopia, desafio, jogo de contingências, porém, promessa de imortalidades! (...)

Joaquim do Carmo
(in "Alvorada")

''DOR OCULTA''


Quando uma nuvem nômade destila
gotas, roçando a crista azul da serra,
umas brincam na relva; outras, tranqüila,
serenamente entranham-se na terra.


E a gente fala da gotinha que erra
de folha em folha e, tremula cintila,
mas nem se lembra da que o solo encerra,
da que ficou no coração da argila.


Quanta gente, que zomba do desgosto
mudo, da angustia que não molha o rosto
e que não tomba em gotas pelo chão,


havia de chorar se adivinhasse
que há lagrimas que ocorrem pela face
e outras que rolam pelo coração!


Guilherme de Almeida
In: Os Sonetos

''NOSTÁLGICA N.º1''


Lua de ausência
mar de amargura
só no abandono
da noite escura

sal e naufrágio
morte na areia
melancolia
triste sereia

vaga e apagada
casa que oscila
ai na minha alma
voz intranquila

teia de espera
pranto de espumas
longe a afogada
num mar de brumas

rosto de sombra
voz incorpórea
lábio cerrado
dor e memória

Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida


[Tela de Marieta Quesada]

quarta-feira, 8 de maio de 2013

''Canção azul''


O tempo chegará
da palavra invisível
transformada em pássaro
e que acorde lembranças
há muito esquecidas
no coração sepulto.
O tempo afinal virá
o tempo sem limites
em que os enforcados
mortos e vivos
e uma lua romântica
das noites da infância
voltem a dançar
no ar da manhã.

Paulo Plínio Abreu
de 'Poesia"

''MONÓLOGO''


Há restos de tempos. . .
folhas soltas aos ventos
aos luares despertos.


Há restos de tempos. . .
noites lúgubres.
. . . momentos aos cantares da vida.


Há restos de tempos. . .
perdidos nos templos
das memórias aos sonhos.


Há restos de tempos.
em mim,
desfolhados, molhados.
. . . céus de chuvas sobre folhas
amarelas, esquecidas deformadas.



Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

"LIMBO"

  
 
 
...E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca...
(T. S. Eliot, “A terra desolada”,
tradução de Ivan Junqueira)
 
E quando dei por mim
vi um molusco
arrastando nos ombros
o tempo da casa.

Vi um monge rondando em ócio
– o hábito
a chama
e a mariposa alucinada

folhas caducas
espectros
(os ecos, os ecos)
a roda tocada à memória.

Vi a turbulências das moscas
a lava
e a concha sonhando a asa.

Quando cheguei ao limbo de mim
e o vento seguiu
senti um abandono
na distância sem-fim.

Pesei o silêncio
e o mundo certo
que perdi –

vi a pedra chamando a água.


Fernando Campanella

segunda-feira, 6 de maio de 2013

''Litania das Horas Mortas''


Por estas horas de silêncio e solidão,
Eu gosto de ficar só com o meu coração.

É nestas horas de prazer quase divino
Que eu me sinto feliz com o meu próprio destino.

Por estas horas é que a cisma me conduz
Por estradas de treva e caminhos de luz.

É nestas horas, quando em êxtase medito,
Que sinto em mim a nostalgia do infinito.

Por estas horas, quando a sombra estende os véus,
A fé me leva além dos mais remotos céus.

É nestas horas de tristeza e de saudade
Que desperta em meu ser a ânsia da Eternidade.

Por estas horas, minhas naus ousam partir
Para Istambul, para Golconda, para Ofir...

É nestas horas, Noite amiga, em teu regaço,
Que eu me difundo pelo Tempo e pelo Espaço.

Por estas horas eu somente aspiro ao Bem,
Que em vida se tornou minha Jerusalém.

É nestas horas, quando o espírito descansa,
Que me depões na fronte o teu beijo, Esperança!

Por estas horas é que eu sinto florescer,
Como os astros no céu, o jardim do meu ser,

É nestas horas de quietude que deponho,
Ó Noite! em teu altar, minha lâmpada — o Sonho.

Por estas horas é que eu gosto de sonhar,
Para ter ilusões brancas como o luar.

É nestas horas de mistério e beatitude
Que a Glória me fascina e a Poesia me ilude.

Por estas horas de tranqüila e doce paz,
Quanta serenidade o espírito me traz!

É nestas horas, quando a treva se constela,
Que ouço o teu canto nas estrelas, Filomela!

Por estas horas, a minh'alma anseia por
Teu encanto, Ventura! e teu engano, Amor!

É nestas horas de tristeza e esquecimento
Que eu gosto de ficar só com o meu pensamento.

Por estas horas eu me julgo Parsifal
Para ir pela renúncia à conquista do Graal.

É nestas horas que, como um eco profundo,
Repercute no meu o coração do mundo.

Por estas horas transitórias e imortais
Se desvanecem minhas dúvidas fatais.

É nestas horas de harmonia indefinida
Que eu tento decifrar o teu enigma, Vida!

Por estas horas, meu instinto morre, com
A intenção de ser justo, o anseio de ser bom.

É nestas horas de fantástico transporte
Que eu busco interrogar a tua esfinge, Morte!

Por estas horas, eu me enlevo assim, porque
Vela no lodo humano a luz que tudo vê...

Por tuas horas silenciosas, benfazejas,
Deusa da Solidão, Noite! bendita sejas!

Da costa e Silva
Poesias Completas

sexta-feira, 3 de maio de 2013

''NEM TUDO É FÁCIL''



É difícil fazer alguém feliz,
Assim como é fácil fazer triste.

É difícil dizer eu te amo,
Assim como é fácil não dizer nada.

É difícil ser fiel,
Assim como é fácil se aventurar.

É difícil valorizar um amor,
Assim como é fácil perdê-lo para sempre.

É difícil agradecer por hoje,
Assim como é fácil viver mais um dia.

É difícil abrir os olhos e enxergar o que de bom
a vida te deu,
Assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.

É difícil se convencer de que se é feliz,
Assim como é fácil achar que sempre falta algo.

É difícil fazer alguém sorrir,
Assim como é fácil fazer chorar.

É difícil se pôr no lugar de alguém,
Assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.

Se você errou, peça desculpas...
É difícil pedir perdão?
Mas quem disse que é fácil ser perdoado?!

Se alguém errou com você, perdoa-o...
É difícil perdoar?
Mas quem disse que é fácil se arrepender?!

Se você sente algo, diga...
É difícil se abrir?
Mas quem disse que é fácil encontrar alguém
que queira escutar?!

Se alguém reclama de você, ouça...
É difícil ouvir certas coisas?
Mas quem disse que é fácil ouvir você?!

Se alguém te ama, ame-o...
É difícil se entregar?
Mas quem disse que é fácil ser feliz?!

Nem tudo é fácil na vida...
Mas, com certeza, nada é impossível...

Precisamos acreditar, ter fé
E lutar para que não apenas sonhemos,
Mas também tornemos
todos estes Sonhos, Realidade...!

GLÁCIA DAIBERT
RESPEITE OS DIREITOS AUTORAIS - 1988
Escritora de Uberlândia /MG

''MOMENTO''


O misso ao riso, cansada
e só na vida
do lar perdido
distante a paz do céu
sinto-me fraca
ninguém me vê tão nula
pois, lá na rua
os meus amigos alegres
não sabem que
meu Ser é um deserto
onde agonizam as esperanças
o que sou ora
não fui outrora
mas há no êrmo
a cor opaca do lar
que esquecida
não para de chorar...

GLÁCIA DAIBERT

''POEMA COMUM''



"A moça do sim entrou no bar
olhou em volta, o coração em flor
enfeitava-lhe os cabelos
cuspiu semente de noites pelos olhos
e preparou a boca ardentemente
para os beijos mudos.

Desapareceu na noite
gargalhou a madrugada
e voltou sozinha na manhã

Tentou encarar seu destino
no ralo da pia
mas o peso da lágrima
foi mais forte
transfigurada
recolheu o coração
murcho de engano
fugiu no sono
e sonhou que vivia."

Maria das Graças Pinheiro Gonçalves Vilhena

Graça Vilhena (Teresina) é uma poetisa brasileira, participante da “Geração Mimeógrafo” ou “Geração 70", escritora participante dos movimentos culturais dos anos 70 à atualidade.

Maria das Graças Pinheiro Gonçalves Vilhena é formada em Letras pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), tem especialização em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica, PUC/SP. É Professora de Língua Portuguesa. Atualmente, dá aulas no Instituto Dom Barreto, lecionando Literatura Clássica, conhecida por seu rigor e avaliações de alto nível de dificuldade.


Algumas Obras:


Passo a Pássaro (em parceria com William Melo Soares)

Em Todo Canto (1997)

Antologia de Poetas Piauienses e Cearenses (obra coletiva)

Baião de Todos (obra coletiva – 1996)

O Jornaleiro de Gesso (2002)

terça-feira, 30 de abril de 2013

''ANIVERSÁRIO''






Que a felicidade e a poesia sejam plenas neste novo ano de vida que inicias!
Deixo meu abraço e um poema-presente:


o brinde
da vida
aflora em festa

já borbulha
na borda
da manhã que começa

tim-tim, minha carne:
reacorda!

tim-tim, minha alma:
fica ébria!

Adriano Wintter
28/04/20013

quinta-feira, 25 de abril de 2013

''Ser, parecer''


Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos

Mia Couto

[Photography by Cindy Grundsten]

''A OUTRA VOZ''



Presente em tudo e sempre oculto, serpente
verde e imóvel entre a folhagem, imagem

que não se vê nem ouve-se mas sente-se
perpassar todas as formas que armam

nosso breve arco riscado à giz de nuvem
sobre a impalpável escuridão do mundo

Enigma, da superfície ao fundo, vulto
transparente atravessando o véu do tempo,

reunindo, em sua única voz todas as vozes
do vento, céu vazio, rio sem foz e nascimento,

círculo invisível em volta de seu próprio
mistério – eterno, terreno, intocável, aéreo,

o silêncio, Deus da poesia, diz mais um dia

Antônio Moura

*Antônio Moura nasceu em Belém do Pará, em 1964. Publicou, em 1996, o livro "Dez", selecionado pela Universidade de Madri - Departamento de Filologia, para integrar a antologia internacional de poesia e crítica "Serta", reunindo poetas de línguas ibero-românicas, entre eles o poeta, tradutor e crítico literário Haroldo de Campos.[...]

domingo, 21 de abril de 2013

"Para minha filha"



[...]
Porém, quando eu me for, filha adorada,
esquece a dor, que por ventura te visite, e pensa
que desta minha vida descompensada
tu foste a glória e foste a recompensa!

Quando chegaste ao meu caminho tão sombrio,
teu raio de sol que tudo aclara ...
Por quem eu não temi o céu vazio,
por quem eu não maldisse a estranha sorte.

Que foste a estrela e foste a flor mais pura
que eu vi desabrochar sob o meu teto;
que, linda me tornaste a desventura
e graças deste à cruz do meu afeto!

Ide Schlönbach Blumenschein
in Lampião de Gás

[Modificado, mantida as partes principais]

"O verbo"




 

“Quod non mortalia pectora coges, auri sacra fames!”
Virgílio (Eneida, 3. 56-57)*


Esfera azul, jóia imensa,
solitária Terra-Mar,
até quando irás girar?
Um verme voraz te permeia
e a febre que desencadeia
está por te devorar.

Circula nas veias do homem,
mina-lhe os campos da paz.
O verbo vil da avareza
cria esse verme voraz.

Quem poderá salvar-nos
desse mal que nos infesta?
Ah, ânsia de ter e mais ter -
febre funesta -
que apenas no homem
se manifesta!...

Sérgio Sersank
de "Estado de Espírito"
 

* Execrável fome de ouro, a que desgraças conduzes os peitos mortais!

[Ilustração retirada do Google Imagens]

sábado, 20 de abril de 2013

"Entre as árvores"





 

Aqui eu sinto a Vida em ímpetos sonoros
devassando-me a luz de seus grandes arcanos
e esta seiva febril me infiltra pelos poros
o sangue matinal de meus primeiros anos.

Fascina-me o verdor primaveril das plantas;
não sei que magnetismo oculto as ervas têm,
que eu julgo, ó Natureza, em tuas pomas santas
beber tragos de luz e néctares do Bem.
[...]
Num turbilhão sonoro, as aves de mil cores
enchem a imensidão de límpidas risadas,
enquanto Flora anseia em convulsões de flores
na nítida beleza azul das alvoradas.
[...]
Como um cactus ao sol, minha alma desabrocha,
e os perfumes do canto entorno, afrouxo, no ar...
Depois, escuto o vento, e fito a árida rocha
e as aves sobre mim que passam a cantar.

O azul do espaço desce em gotas cintilantes
o seio a fecundar das trêmulas boninas,
e, numa inundação de vagas de brilhantes,
a luz serena banha as longínquas campinas.
[...]
Na natureza. a alma harmônica das coisas,
complexa, se derrama em formas multicolores,
ora na robustez das árvores frondosas,
ora na muda voz colorida das flores.

Em teu seio, é Floresta, onde o Belo descansa,
ao rebentar da Vida a torrente sonora,
ouço dentro de mim o canto da Esperança,
como um clarim vibrante ao despontar da aurora.

Augusto de Lima
in Poesias (Excertos escolhidos por mim)
(1859-1934)

domingo, 7 de abril de 2013

''Há oásis''


nos desertos
procuram-se oásis

ficam por lá as marcas
de viajantes…
… e de camelos

há vidas desertas
pés escaldados sonhando oásis

há vidas,
oásis em alguns desertos

… há viajantes

Joaquim do Carmo (a publicar)
© (direitos reservados)

''Dia-a-dia''


os dias são sempre depois dos dias
e, entre eles, as noites, os sonhos, o acordar!
e a esperança!
e o acreditar que amanhã também vai ser dia!
e a vida…

… que não pare em qualquer beco
sem saída!

a vida,
os dias,
as noites,
os sonhos...

... os dias, cada dia, ao acordar!

Joaquim do Carmo (a publicar)
© (direitos reservados)

''Duas palavras''


Longe…
palavra que os lábios
do coração
gritam…!

Perto…
o paradoxo distância
na vida
vivida…!

Joaquim do Carmo (a publicar)
© (direitos reservados)

''Ecos'




De mim inseparável
Em momentos de verdade,
De paragens que renovam o tempo do “eu”,
Em mágicas viagens
A recônditos espaços do universo,
Que alongam os segundos do hoje
Ou se propagam,
Quais ecos de amanhãs talvez já vividos,
Fonte inesgotável de energia e vivacidade,
Íntimo da relação entre mim e eu-mesmo,
Tão íntima quanto aberta ao outro,
Na partilha de emoções…

Tu, silêncio, falas de mim, por mim, connosco,
Em cada poema-feito-grito-tempo-vida!

Como dizes meu sentir…
Onde calas meus segredos…
Quando cantas meus lamentos…

A ti, poesia...
… pressinto a soletrar meus silêncios!

Joaquim do Carmo (a publicar)
© (direitos reservados)

''(Da) Insignificância''


dias que se sucedem
espaços vazios
saudade

e… tu, aí, o que fazes?

esperas juntar as pontas, decerto…
e o universo torna-se-te
pe que no (como se fosse possível)
só … a mão

… a minha! … ou a tua?

afinal, que importa? são dias que não temos, nem te temos, nem te demos… perdemos!?

perdemos sempre, mesmo se ganhamos!?…

Joaquim do Carmo (a publicar)
© (direitos reservados)

''Feliz é o dia''


Feliz é o dia
Que amanhece de bem com as estrelas!

Vem de braço dado com a lua,
Madrugada fora,
Dar boas vindas à estrela maior!
Traz na bagagem sonhos,
Anseios, projectos,
Quiçá vidas se gerando!

Promete sorrisos infindos
E, receando cuidados, canseiras ou dores
Avança, corajoso, o passo decidido!
Beija cada instante, apaixonado,
Da vida respirando-se, encantando-se…

Feliz é o dia
Que quase no fim, quase recomeço,
De volta ao reino dos sonhos
Cansado, anoitece mas…
… sempre amanhecendo!

Feliz é o dia, inteiro!...

Joaquim do Carmo (a publicar)
© (direitos reservados)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

''Solidão''


Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!


Juan Ramón Jiménez,
in "Diario de Un Poeta Reciencasado"

''INSTANTE''



Sobressaltado, tento soletrar,
a alma transida, e coração sem ar,
a mensagem do pequenino pássaro
que entra pela janela, a me espiar:

ó punhado de infância, tão certeiro
címbalo que me ilumina, alegria
célere e dançarina, como a graça
que chega sem aviso - e depois passa.


Hélio Pellegrino
In Minérios Domados

-Eduardo Carrnza -





De tudo aquilo restou-me um esquecimento
como um perfume transparente e vago.
E assim posso dizer que o respiro
como a um perfume.

De tudo aquilo restou-me um vazio
como um verso, de súbito, esquecido.
E assim talvez de repente o recorde
como a uns versos.

De tudo aquilo restou-me uma lua
secreta, lentamente evaporada.
E assim é possível que uma tarde volte
como a lua.

De tudo aquilo restaram-me sonhos,
sonhos, sonhos, que o tempo esfuma
E já não sei se aquilo foi sequer
como os sonhos.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

'TEMPO DE ESQUECER'


Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;


Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;


Sabes que sou como o ar, destinado
ao voo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:


Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

quarta-feira, 27 de março de 2013

''CANÇÃO DA INDIFERENÇA''




A vida passa,
leve
como a fumaça,
sem que possa
ao menos compreendê-la.

É um perfume sutil de magnólia,
cintilância indecisa de uma estrela,
um zumbido de vespa que esvoaça
em torno de uma flor
ou junto a um fruto.
É como um nome escrito sobre a areia
para viver o espaço de um minuto.

Aceitemo-la com indiferença,
como se olha a fumaça que se evola
ou se aspira o perfume de uma flor;
tal se escreve na areia um nome amado
porque se sente o amor.

Vivamo-la, pois, serenamente,
trazendo sempre a alma contente
e alegre o coração,
na certeza de que ela é transitória
e que sua glória
é como a glória
de uma bolha de sabão.

Não vale sentir tanta amargura
tanta tristeza
e quanta desventura
a vida possa nos causar.

O que vale na vida indiferente
é o pouco que o acaso nos concede
nesse inclemente
desfiar das horas,
nessa fuga do tempo
que nos mata
lentamente...

imperceptivelmente...

imperceptivelmente...

Alfredo de Cumplido de Sant'Anna
In Poemas e Legendas

{Poema compartilhado do Facebook da amiga Dione]

''MOMENTO''




(Abril de 1937)

O vento corta os seres pelo meio.
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.


Ninguém chega a ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranhacéus, faz chuva
Faz frio. E faz angústia...É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera.


Mario de Andrade
In Poesia Completa

''Crepúsculo de Abril''



Longa pincelada de cinábrio, no poente,
sublinha os nimbos gris.

A púrpura veludosa do amaranto
veste os jardins do outono.

Dorme a névoa dos vales.
No coração transido, a noite desce.

Helena Kolody

terça-feira, 26 de março de 2013

''DIA DE OUTONO''


Senhor, é tempo. O verão foi grande.
Pousa sua sombra nos cadrans solares,
e pelos ares os ventos expande.

A tardia fruta torna madura;
dá-lhe mais dois dias meridionais,
amadurece-a com toques finais
e concentra na uva toda a doçura.

Não mais fará casa quem agora não a tem.
Quem agora está só, muito tempo há de ficar,
irá ler, velar e longas cartas esboçar,
pelas alamedas, inquieto, vai vagar,
enquanto no alto as folhas secas vão e vem.

Rainer Maria Rilke
In Senhor, é Tempo

''A FONTE''


Quero uma lição, a tua serve,
fonte, que sobre ti mesma cais, -
a das águas ousadas a quem cabe
esta celeste volta para a vida em terra.


Tanto quanto teu vário rumor
nada saberia me servir de exemplo;
ó tu, coluna leve do templo
que desmorona no próprio vigor.


Na tua queda, quanto que canta
cada esguicho que finda a sua dança.
Como sinto-me o aluno, o rival
de tua nuance incardinal!


Mas o que mais que teu canto a ti me empurra
é este instante de um silêncio em delírio
quando de noite, pelo teu fluído impulso
dás a volta por cima levantando um suspiro.


Como é bom pensar às vezes como tu,
irmão mais velho, ó meu corpo,
como é bom estar forte
da tua força,
sentir-te casca, caule, folha
e tudo o que podes tornar-te ainda,
tu, tão junto ao espírito.


Tu, tão franco, tão unido
em tua alegria manifesta
de ser esta arvore de gestos
que, num instante, desapressa
as marchas celestes
para aí pôr a sua vida.



Rainer Maria Rilke
In: Jardins
Tradução: Fernando Santoro

quinta-feira, 14 de março de 2013

''SER PÁSSARO''


Quisera ser pássaro
Liberta de preocupações
E cruzando mares e terras
Abençoar as amplidões !

Levaria mensagens
A longínquos destinos:
... restos de saudades!

Em outras paragens
De redobrados caminhos
Eu cantaria meus hinos:
... horizontes de carinhos !

Na leveza da graça,
Rapidez do passo,
Plumagem da raça,
Que seria doçura
Desconhecendo a amargura ...

E traria o amanhecer
Entre as mãos
Como promessa de vida,
Ater cegar-me o entardecer!

Aos céus em oração,
Eu ensinaria aos homens:
“O VOO DA PERFEIÇÃO”!

Alvina Nunes Tzovenos
in 'Sonhos e vivencias'

''MUTAÇÃO''


Eu busco o infinito das coisas,
Só encontro o finito do nada ...

Anseio um brinquedo desejado.

Procuro nas estrelas
O momento de meditar
Mas vejo-as
Em repetida fulguração!

Quero entre as flores
O desejo da perfeição
Mas encontro
Pétalas fenecidas!

Ouço entre pássaros
A alegria de cantar
Mas esse canto
É monotonia esmaecida !

No tudo,
Nos olhos pousando
Nas mãos tocando
Nos ouvidos escutando
Um repetir-se de ritmos iguais, como num prosaico relógio
Marcando horas banais !

Alvina Nunes Tzovenos
in 'Sonhos e vivencias'

''ENTRE O CÉU E O MAR''



Entre o céu e o mar
Há o infinito de esperas,
Conflito de incertezas,
Interrogação de cores,
Tristeza no olhar,
Prenúncio de paisagens.

Alvina Nunes Tzovenos
in 'Busca de Infinitos'

domingo, 10 de março de 2013

‘sobre o nome das coisas’




I
porque todos os mistérios são santos,
não nomearemos o nome das
coisas.
ainda que os desertos floresçam
e o caos das chuvas transborde,
deles, o sangue não diremos.


II
no início era a Vida.
depois aprenderam os cães a ladrar
e o homem a chamar o nome das coisas
e os dedos a cruzar em nome de Deus.


III
ainda que encruado o Filho
ou mesmo que a serpente
renegue por 3 vezes
a árvore do desejo,
o nome não será.
ainda que lambam as chagas.
ainda que as lágrimas escorram,
toda a dor será cuspida
e o sol cumprido.


IV
quando caminhávamos na areia,
os nomes não havia.
havia o mar sem nome.
o céu, as frutas,
as pegadas dos pássaros
e o sonho havia sem nome.
tudo era simples.
simples os homens
sem nomes.


V
eram noites
e dias indefiníveis,
as coisas.
os olhos aprendiam o verde
e pescavam sem nomear.
os olhos ouviam tudo.
maravilhavam-se de
maravilhas!


VI
quem nos carrega nos ombros?
quem nossa língua nos bebe?
a quem dizer, quero?
a quem dizer, preciso?
a quem dizer, inocentes?


VII
as coisas que não diremos
habitam as cidades
e as sombras iluminam
escuras cavernas.
os dentes, os cabelos
arranca-nos, o tigre.


VIII
vivemos dentro de nós.
estrangeiros.
percorremos estradas,
ruas, cidades. nus e
estrangeiros.
cada sorriso, cada
abraço, estrangeiros.
nossos mares e navios,
estrangeiros.


IX
o Tempo se cola ao corpo.
o rosto envelhece.
unhas expurgam.
enruga a pele.
resta esperar.


X
quantas faces temos?
qual delas se chama
amor?
quem em nós se diz a
morte?
qual acende a vela do
templo?


XI
eis que
os nomes não ditos se esquivam
e o Verbo
que era barro
se faz
vento.



 Tanussi Cardoso

"Poema de Inquitação"



O que é a vida de um homem
nesta imensa e bela Argos
que os potentados celestes
puseram a navegar?


Que haverá além das ilhas

e  terras, que não sabemos?
Perde-se o mar no horizonte.
Onde nos leva esta nau?


Quem há de ler nossa história?

São apenas arabescos
em livros inacabados,
nos porões do Panteão.


Giram nas volutas da galáxia,

os milhões, mundos e sóis.
Perdem-se pra sempre nessas vagas.
Então, que será de nós?


Sergio de Sersank

de "Estado de Espírito"


Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.


Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Vinícius de Moraes

Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

Homenagem  a minha filha e genro, casamento em 14/06/2012
Punta Cana- Republica Dominicana

 

''TARDE DE DOMINGO''





assim
disposta num terraço
aberto ao tempo
a cadeira se balança
com cuidado e conforto
mas leve indecisão
quanto ao ritmo

não tanto
pelo frágil frêmito
da imagem do mar
seu brilho
de espelho fraturado
sob o sol

mas sobretudo
pela regularidade
do movimento mesmo do mar:
avanço sistemático
e recuo estratégico
a tracejar
uma linha de ameaça
ou simples prenúncio
de perigos mais fundos
— o frio dos abismos
e os restos
que habitam esta baía

não fosse vir
de dentro da casa
essa música
feita de limpidez
e medida
maquinaria impalpável
de emoção à flor da matéria
que numa recusa ao devaneio
se articula avessa à dispersão
para expor
por entre sombras
iluminadas pela razão
todo o seu desalento


[Júlio Castañon Guimarães]

'Da Esperança"


 
para que servem as palavras
a não ser construir enganos?

por que a morte
com sua voz límpida e solitária

-- vigia cantando no farol --
necessita do amor, de sua carne e sangue?

o medo faz a diferença
entre o oceano e o salto

e o coração determina
a luz do fogo que serve à morte

sonho em desaprender a lucidez
que me atormenta

não desejo a sensibilidade
dos saberes

espero libertar os peixes
dos lençóis

e tal serpente deixando a pele
ofertar-me nos caminhos

as coisas, as plantas
e o lirismo do silêncio

têm a dignidade
de nos ensinar a morrer

o Tempo não tem chão

quero os amanheceres


 Tanussi Cardoso


Em Exercício do Olhar
  (Página 81); Editora fivestar - Rio de Janeiro (2006).