quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
O retrato não diz mais...
O retrato não diz mais
- Bom dia -
ou então - Boa noite -
leves sonhos
até o amanhecer.
Não, não diz nada
é só um retrato
onde, ao invés de reflexivo olhar
deita-se impune
a poeira dos dias.
E de quem, no excessivo encanto
de o ver e ouvir
se perdia a enlouquecer
hoje, nele não mais se reconhece.
Maior que o amor é o Tempo.
Margarida Finkel
de 'No tear dos ventos"
- Bom dia -
ou então - Boa noite -
leves sonhos
até o amanhecer.
Não, não diz nada
é só um retrato
onde, ao invés de reflexivo olhar
deita-se impune
a poeira dos dias.
E de quem, no excessivo encanto
de o ver e ouvir
se perdia a enlouquecer
hoje, nele não mais se reconhece.
Maior que o amor é o Tempo.
Margarida Finkel
de 'No tear dos ventos"
Há na tristeza vadia
que brinca na minha rua
dia e noite, noite e dia,
uma tal melancolia
que não sei se é minha ou tua
essa tristeza vadia
que brinca na minha rua.
Há na tristeza vadia
que brinca pela calçada
uma lágrima suspensa
que fica parada e fria
e se desfaz entre os dedos
das sombras de Ave Maria.
Nestes doridos momentos
todos os meus pensamentos
dentro de mim eu silencio,
lanceada pela saudade
que martiriza e extenua
sinto a tristeza vadia
que brinca na minha rua.
E fico de alma vazia,
sem saber se é minha ou tua
essa tristeza vadia
que brinca na minha rua.
Margarida Finkel
No tear dos Ventos
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
''Epitafio''
Un pájaro vivía en mí.
Una flor viajaba en mi sangre.
Mi corazón era un violín.
Quise o no quise. Pero a veces
me quisieron. También a mí
me alegraban: la primavera,
las manos juntas, lo feliz.
¡Digo que el hombre debe serlo!
(Aquí yace un pájaro.
Una flor.
Un violín.)
Juan Gelman
Una flor viajaba en mi sangre.
Mi corazón era un violín.
Quise o no quise. Pero a veces
me quisieron. También a mí
me alegraban: la primavera,
las manos juntas, lo feliz.
¡Digo que el hombre debe serlo!
(Aquí yace un pájaro.
Una flor.
Un violín.)
Juan Gelman
'Muere el poeta argentino Juan Gelman.'
- 3 de mayo de 1930, Buenos Aires, Argentina,14 de enero de 2014, Cuidad de México, México -
El escritor argentino Juan Gelman, ganador del Premio Cervantes y un superviviente del exilio, que buscó desesperadamente y encontró en Uruguay a su nieta desaparecida, ha muerto en Ciudad de México a los 83 años.
El Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Conaculta) confirmó a dpa la muerte del poeta, ganador del Premio Nacional de Poesía en Argentina (1997), el Juan Rulfo de Literatura Latinoamericana y del Caribe (2000), el Iberoamericano de Poesía Ramón López Velarde (2004), el Reina Sofía de Poesía (2005) y el Cervantes (2007).
"Juan Gelman, poeta del alma mexicana, poeta mayor, ha muerto. Mi pésame a sus deudos", escribió en su cuenta de Twitter el presidente de Conaculta, Rafael Tovar.
Gelman nació el 3 de mayo de 1930 en Buenos Aires y se exilió en Italia, Francia y finalmente México por la persecución de la dictadura militar argentina (1976-1983).
La dictadura le arrebató a su hijo Marcelo y a su nuera, la española Claudia García, embarazada de siete meses. A pesar de que ambos formaron parte de la larga lista de desaparecidos, el poeta pudo encontrar a su nieta Macarena hace un par de años. Su vida estuvo marcada por ese dolor.
"Hay recuerdos que no necesitan ser llamados y siempre están ahí y muestran su rostro sin descanso. Es el rostro de los seres amados que las dictaduras militares desaparecieron", señaló Gelman al recibir el Cervantes.
(El Mundo)
El escritor argentino Juan Gelman, ganador del Premio Cervantes y un superviviente del exilio, que buscó desesperadamente y encontró en Uruguay a su nieta desaparecida, ha muerto en Ciudad de México a los 83 años.
El Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Conaculta) confirmó a dpa la muerte del poeta, ganador del Premio Nacional de Poesía en Argentina (1997), el Juan Rulfo de Literatura Latinoamericana y del Caribe (2000), el Iberoamericano de Poesía Ramón López Velarde (2004), el Reina Sofía de Poesía (2005) y el Cervantes (2007).
"Juan Gelman, poeta del alma mexicana, poeta mayor, ha muerto. Mi pésame a sus deudos", escribió en su cuenta de Twitter el presidente de Conaculta, Rafael Tovar.
Gelman nació el 3 de mayo de 1930 en Buenos Aires y se exilió en Italia, Francia y finalmente México por la persecución de la dictadura militar argentina (1976-1983).
La dictadura le arrebató a su hijo Marcelo y a su nuera, la española Claudia García, embarazada de siete meses. A pesar de que ambos formaron parte de la larga lista de desaparecidos, el poeta pudo encontrar a su nieta Macarena hace un par de años. Su vida estuvo marcada por ese dolor.
"Hay recuerdos que no necesitan ser llamados y siempre están ahí y muestran su rostro sin descanso. Es el rostro de los seres amados que las dictaduras militares desaparecieron", señaló Gelman al recibir el Cervantes.
(El Mundo)
domingo, 12 de janeiro de 2014
'POEMA DO AMOR SEM EXAGERO'
Eu não te quero aqui por muitos anos
Nem por muitos meses ou semanas,
Nem mesmo desejo que passes no meu leito
As horas extensas de uma noite.
Para que tanto corpo!
Mas ficaria contente se me desses
Por instantes apenas e bastantes
A nudez longínqua e de pérola
Do teu corpo de nuvem.
Joaquim Cardozo
(Poemas, 1947)
[Painting by Willem Haenraets]
Poema
Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.
Joaquim Cardozo
[Painting by Willem Haenraets]
'A tarde sobe'
Ao rés da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.
Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.
Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.
A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.
A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.
Joaquim Cardozo
[Fotografia de Fernando Campanella]
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.
Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.
Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.
A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.
A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.
Joaquim Cardozo
[Fotografia de Fernando Campanella]
'Atônita"
Olho pro céu
nada vejo.
Olhos pros lados
ninguém.
Olho pra baixo
abismos
olho pra trás
nem um passo
olho além
muito além
é lá
que eu quero
estar.!
Miriam Portela
do blogger da autora.
''O SÍMBOLO DE TODA A NOSSA VIDA''
Há noites que deveriam ser a vida.
Intensas longas noites irreais
com o sabor amargo do efémero
e o sabor venenoso do pecado
como se fôssemos mais jovens
e ainda nos fosse permitido desbaratar
virtude, dinheiro e tempo impunemente.
Deveriam ser a vida,
o símbolo de toda a nossa vida,
a memória dourada da juventude.
E, como o despertar repentino de uma velha paixão,
que de novo voltassem aquelas noites
para ferir-nos de inveja
de tudo quanto fomos e vivemos
e ainda nos tenta
com a sua insolência.
Porque deviam ser a vida.
E foram-no talvez, já que a recordação
as salva e lhes concede o privilégio de fundir-se
numa única noite triunfal,
inolvidável, aquela em que o mundo
parecesse ter posto
suas apelativas galas tentadoras
aos pés da nossa altiva adolescência.
Longa noite gentil, noite de neve,
que a memória te conserve como uma gema cálida,
com brilho de estrelinhas de verbena,
no céu apagado em que flutuam
os anjos mortos, os desejos adolescentes.
Felipe Benítez Reyes
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
''Ano novo''
A quem direi dessa nova
manhã que tinge o horizonte
de uma cor que se renova?
Ao que em toda a caminhada
teve a alma crucificada
e, já sem alma, resiste,
embora não tenha nada,
além do sonho, que é menos
do que nada?
Ou, antes, ao que sentia
estar o mundo já morto
quando mal amanhecia?
Ao pária, ao triste, ao mendigo?
Dá-la a todos? A ninguém,
para que morra comigo
e todos acabem sem?
Ah, não saber a quem dá-la,
não saber a quem levá-la,
mensagem, flâmula, palma,
um sim nítido que fosse
até o sonho, até a alma
já perdida
no que há de morte na vida!
Emílio Moura
In: Itinerário Poético
Noite Maior
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
"Quando um homem quiser"
Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
...És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
José Carlos Ary dos Santos
(Lisboa, 7 de Dezembro de 1936 — Lisboa, 18 de Janeiro de 1984)
-Portugal-
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
''Anseio''
Ah, eu quisera ser aquela árvore
coberta pelas garças brancas de vôo incerto!
Árvore plantada pelo acaso
à margem do rio enorme!
Árvore de frondes anantos,
desejosa, quase humana,
que se arrepia ao contato
das penas dos papagaios que passam!
Árvore que tem o grande amor do vento
e que da sombra para o gado descansar.
Árvore estéril, árvore bela, árvore fresca,
árvore amante de todos os crepúsculos,
no solstício do inverno ou do verão,
Árvore do pensamento das outras árvores!
- Adalcinda Camarão,
do livro "Poesia do Grão-Pará"
(seleção e notas de Olga Savary). Rio, Graphia, 2001.
Marcadores:
Adalcinda Magno Camarão Luxardo
''SORTILÉGIO''
Há um pensamento chorando dentro da noite erma.
Há um pensamento virgem, solitário,
apalpando a floresta,
roçando no rio largo,
por onde bóia, em cada estirão,
o sortilégio da mãe-d’água.
O jurutai canta para a lua cheia,
Os grilos arremedam o assobio do vento,
As nuvens sacodem chuva e tristeza
só porque eu quero luar nos meus pés.
E vem lá de dentro da mata,
lá de onde eu não sei como está,
a voz rouca do silêncio amazônico
consolando as umbaubeiras perdidas
que a trovoada vergou.
Há um pensamento chorando dentro da noite esquecida…
Descendo pela correnteza,
pedindo a mão das estrelas…
Há um pensamento com sono e sem poder dormir…
Marinheiro, vê se tu podes compreender
esse pensamento de mulher.
Adalcinda Magno Camarão Luxardo
Poesia do Grão-Pará
(Rio, Graphia, 2001, seleção e notas de Olga Savary)
Marcadores:
Adalcinda Magno Camarão Luxardo
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
''CANÇÃO''
Passa o vento de outono
derrubando a tarde:
caem torres douradas,
folhas azuis caem.
E passa o tempo louco
derrubando os sonhos:
caem torres de amor,
trêmulas folhas caem.
No vazio cai,
sem fim, meu coração.
Nada pode salvar-me.
Deus sabe que estou morto.
Sobre mim passa um rio
de esquecimento sem remédio.
Acima cruzam flores.
Sei que ninguém me ouve.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
derrubando a tarde:
caem torres douradas,
folhas azuis caem.
E passa o tempo louco
derrubando os sonhos:
caem torres de amor,
trêmulas folhas caem.
No vazio cai,
sem fim, meu coração.
Nada pode salvar-me.
Deus sabe que estou morto.
Sobre mim passa um rio
de esquecimento sem remédio.
Acima cruzam flores.
Sei que ninguém me ouve.
Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
''PARA SER FELIZ''
...nada saber de Geografia
ignorando, assim, a semelhança
entre a ilha perdida no oceano
e o sozinho em meio à multidão
....não conhecer História Natural,
imaginando integram um só reino
os animais e os minerais,
não havendo surpresa ao defrontar,
a cada passo, corações de pedra
....nunca ter aprendido Matemática
e não poder, então, somar angústias,
multiplicar tristezas e desgostos,
contar e recontar horas vazias
....desconhecer Astronomia,
posição e distância das estrelas
supondo ser possível alcançá-las,
trazê-las aos punhados, faiscantes,
para o enlevo dos olhos bem amados
....não ter qualquer noção de Geometria,
de ângulos, triângulos, polígonos;
não entender de círculos e retas,
porque só é feliz quem nada sabe,
nem percebe que o Sonho e a Realidade
fazem jornada em ruas paralelas.
Graciette Salmon,1960
terça-feira, 19 de novembro de 2013
"O Vento e Eu"
O vento morria de tédio
porque apenas gostava de cantar
mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção
tão comprida como a minha vida
e com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
e fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso,
me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!
Mario Quintana
de 'velório sem Defunto'
[Tela by Dima Dmitriev]
porque apenas gostava de cantar
mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
cada vez mais vazia...
Tentei então compor-lhe uma canção
tão comprida como a minha vida
e com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
e fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo...
Mas o vento, por isso,
me julga agora como ele...
E me dedica um amor solidário, profundo!
Mario Quintana
de 'velório sem Defunto'
[Tela by Dima Dmitriev]
domingo, 17 de novembro de 2013
'noturna'
passam as horas
lentas na chuva
que passa
na janela
exaustas dos dias
ardentes
passa sua dor
silenciosa nos olhos
que miram a chuva
por trás dos vidros
alheia pelo que
somos
silêncio e melancolia
Adair Carvalhais Júnior
Do blogger do autor;
[ http://ventosdesencontrados.blogspot.com.br/]
''Transitório''
Amanheço com a chuva
dos anos da memória
e nada exaure mais
que este gosto de sal
E quanto queria
amanhecer longe
destes páramos
e perder com justeza
e sorrir com a vida
mas nada transporta
ou redime
os amigos mortos
A vida dói na alma
como uma tina de fel
e guardamos o segredo
de continuar vivos
para incrível surpresa
dos que comandam a vida
Luís de Miranda*
*Luiz Carlos Goulart de Miranda (Uruguaiana, 6 de abril de 1945) é um premiado poeta brasileiro, renomado autor da obra poética mais extensa do mundo, com 3432 páginas contabilizadas (seguido por Pablo Neruda, 2.080 páginas; Ezra Pound, 837 páginas). Poeta gaúcho com mais de quarenta e cinco anos de carreira literária, possui 33 livros publicados num total de páginas que impressiona pelo volume, pela qualidade e conteúdo. Trabalhou e escreveu em diversos órgãos de impressa de Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.
Em 1987 é eleito para a Academia Rio-Grandense de Letras, e em 2000 é eleito para a Academia Sul Brasileira de Letras. Em junho de 2010, tendo sido informado por Diva Pavesi, recebeu uma insignia da Academia de Artes, Ciências e Letras de Paris.
Foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura pela parceria da PUCRS com o comitê organizador do prêmio sueco.
[Tela by Dima Dmitriev]
dos anos da memória
e nada exaure mais
que este gosto de sal
E quanto queria
amanhecer longe
destes páramos
e perder com justeza
e sorrir com a vida
mas nada transporta
ou redime
os amigos mortos
A vida dói na alma
como uma tina de fel
e guardamos o segredo
de continuar vivos
para incrível surpresa
dos que comandam a vida
Luís de Miranda*
*Luiz Carlos Goulart de Miranda (Uruguaiana, 6 de abril de 1945) é um premiado poeta brasileiro, renomado autor da obra poética mais extensa do mundo, com 3432 páginas contabilizadas (seguido por Pablo Neruda, 2.080 páginas; Ezra Pound, 837 páginas). Poeta gaúcho com mais de quarenta e cinco anos de carreira literária, possui 33 livros publicados num total de páginas que impressiona pelo volume, pela qualidade e conteúdo. Trabalhou e escreveu em diversos órgãos de impressa de Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.
Em 1987 é eleito para a Academia Rio-Grandense de Letras, e em 2000 é eleito para a Academia Sul Brasileira de Letras. Em junho de 2010, tendo sido informado por Diva Pavesi, recebeu uma insignia da Academia de Artes, Ciências e Letras de Paris.
Foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura pela parceria da PUCRS com o comitê organizador do prêmio sueco.
[Tela by Dima Dmitriev]
''Nada existe''
Nada existe do outro lado do mar,
a não ser o azul que sonhamos,
as parreiras densas de algum vinho,
havido nos barris do sonho
e envelhecido na resina espessa
que em nós ensina a solidão.
Ah, coração, solta teus fantasmas,
o que dorme no silêncio mas vibra
antigas cinzas, vidros, espelhos,
paisagens esquecidas, retratos.
Ah, coração, transporta a acidez,
do verão, os utensílios diários da insônia,
o que me silencia os nervos
e arde neste vento de dezembro,
violino enlouquecido.
Nada existe do outro lado do mar
que não sejam velhas cartas,
poemas interminados,
o silêncio das palavras.
Nada existe do outro lado da vida,
animal exposto a visitação pública.
Passageira como nós, que não vai ao mar,
e morre em ais pelos caminhos.
Luiz de Miranda.
[Tela de Dima Dmitriev]
''NEM TUDO''
Nem tudo é proibido:
a rosa é dádiva
e há pétalas no caminho salpicadas
O sol é dádiva
o mar, o vento, o fruto
o pouso do guerreiro e as suas asas
abertas na ilusão do viadante
A sombra, o sonho, o olhar de súplica
a voz inesperada, o amor incerto
o gesto sôfrego, o adeus, o abraço,o afago
...nem tudo é proibido
A vida passa na folha que cai
no momento perdido
e na dúvida que fere vezes mais
que este medo de espinhos de que fugimos
Mauro Salles
In O Gesto
[Tela by Oksana Kravchenko]
a rosa é dádiva
e há pétalas no caminho salpicadas
O sol é dádiva
o mar, o vento, o fruto
o pouso do guerreiro e as suas asas
abertas na ilusão do viadante
A sombra, o sonho, o olhar de súplica
a voz inesperada, o amor incerto
o gesto sôfrego, o adeus, o abraço,o afago
...nem tudo é proibido
A vida passa na folha que cai
no momento perdido
e na dúvida que fere vezes mais
que este medo de espinhos de que fugimos
Mauro Salles
In O Gesto
[Tela by Oksana Kravchenko]
sábado, 16 de novembro de 2013
O SONO DAS ÁGUAS
Há uma hora certa, no meio da noite,
uma hora morta, em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folha
geme adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...
Guimarães Rosa
In 'Magma'*
*O livro “Magma” (1936) foi ganhador do concurso literário criado pela Academia Brasileira de Letras, com o autor assinado sob o pseudônimo “Viator”.
Considerado pelo próprio Guimarães um “livro menor”, foi publicado apenas 61 anos depois, pela Editora Nova Fronteira.
"Song of myself" part 32 (excerpt)
I stand and look at them long and long.
They do not sweat and whine about their condition;
They do not lie awake in the dark and weep for their sins;
They do not make me sick discussing their duty to God;
Not one is dissatisfied-not one is demented with the mania of owning things;
Not one kneels to another, nor his kind that lived thousands of years ago;
Not one is responsible or industrious over the whole earth.”
Walt Whitman
(Excerpt by "Song of myself" part 32)
(Excerpt by "Song of myself" part 32)
''Harpa Esquisita''
Dói-te a festa feliz da verdade da vida...
Tanges da harpa, em teu sonho, almas e cordas, cantas,
Bóiam-te as notas no ar, a asa no azul diluída
E, assombrados, reptis – homens, não! tu levantas!
E apupilam-te a frente as mil pedras agudas
De ódios e ódios a olhar-te... E és um rei que as avista,
No halo, do Amor, que tens! se em colar as transmudas
Vais – um dervixe persa, o manto azul – Artista!
Inda olhar adormido abre, e é de ocre, e avermelha!...
Vem colar-te ao colar...e, oh! tua harpa esquisita
Plange... flora a zumbir, minúscula, que imita
A abelheira da Dor, em centelha e centelha.
E é a sombra... E o instrumento, a gemer, iluminado,
Como que à noite estrela um núbio corvo... E lindo
(Inda que as asas não no terás ao lado)
Por que os pétalos d’ouro, a haste de prata, abrindo,
Um lírio de ouro se alça?...Os passos voam-te, pelas
Ribas...Oh! que ilusões da flor, que tantaliza!
Sobe a flor? Sobes tu e a alma nas pedras pisa?....
Pairas... Em frente, o mar, polvos de luz – estrelas...
Pairas... e o busto a arfar – longe, vela sem norte.
Negro o céu desestrela, o seio arqueado: escuta.
No amoroso oboé solveja um vento forte
E, alta, em surdo ressoo, a onda betúmea e bruta.
A ânsia do mar, lá vem, esfrola-se na areia...
Seu líquido cachimbo é mágoa acesa, e fuma!
E chamas a onda: “irmã!”. E em fósforo incendeia
Na praia a onda do mar, ri com dentes de espuma.
De ametista, em teu sonho, uma antiga cratera
Mal te embebe – alegria! – alvos dedos de frio,
Eis se emperla o rosto e a prantear vês, sombrio
A onda crescer, rajar-se em brutal besta-fera!
Olhas... E, soluçoso, à música das mágoas
Amedulas o Mar e amedulas a Terra!
A sombra aclara... E é ver a dança verde de águas
E arvoredos dançando ao coruto da serra!
Gemes... Dedando o Azul as magras mãos dos astros
Somem, luzindo... Ao longe, esqueleta uma ruína
Em teu sonho a anervar argentina, argentina...
De ilusões, no horizonte, ossos brancos... são mastros!
Quente estrias a alma, à frialgem, nas cousas...
Que bom morrer! manhã, luz, remada sonora....
Pousas um dedo níveo às níveas cordas, pousas
E és náufrago de ti, a harpa caída, agora.
Ah! os homens percorre um frêmito. Num choro...
Move oceânica a espécie, amorosa, amorosa!
Mais que um dervixe, és deus, que morre, a irradiosa
Glorificação de ouro e o sol de ouro... à paz de ouro.
Pedro Kilkerry*
*Pedro Kilkerry (Salvador BA, 1885 – 1917) formou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, em 1913. Na época, já atuava como colaborador das revistas Nova Cruzada, Os Anais, Via Láctea, A Voz do Povo e de vários jornais, entre os quais A Tarde, A Gazeta do Povo e Jornal Moderno, onde publicou a série de crônicas Quotidianas - Kodaks. Foi advogado e escriturário da Repartição de Contabilidade do Tribunal de Contas de Salvador. Poeta simbolista, Kilkerry não publicou livro em vida. Apenas em 1971 ocorreria a publicação póstuma de 36 de seus poemas, no livro ReVisão de Kilkerry, de Augusto de Campos. Para Campos, “Kilkerry não só compreendeu mais conscientemente que outros simbolistas o papel desempenhado na criação pelo subconsciente - mais tarde supervalorizado pelo Surrealismo - como soube levar mais longe a liberdade de associação imagética. Por outro lado, a capacidade de síntese, assim como a consciência das limitações da sintaxe ordinária, são mais agudas em Kilkerry do que em qualquer outro poeta do nosso Simbolismo”.
Tanges da harpa, em teu sonho, almas e cordas, cantas,
Bóiam-te as notas no ar, a asa no azul diluída
E, assombrados, reptis – homens, não! tu levantas!
E apupilam-te a frente as mil pedras agudas
De ódios e ódios a olhar-te... E és um rei que as avista,
No halo, do Amor, que tens! se em colar as transmudas
Vais – um dervixe persa, o manto azul – Artista!
Inda olhar adormido abre, e é de ocre, e avermelha!...
Vem colar-te ao colar...e, oh! tua harpa esquisita
Plange... flora a zumbir, minúscula, que imita
A abelheira da Dor, em centelha e centelha.
E é a sombra... E o instrumento, a gemer, iluminado,
Como que à noite estrela um núbio corvo... E lindo
(Inda que as asas não no terás ao lado)
Por que os pétalos d’ouro, a haste de prata, abrindo,
Um lírio de ouro se alça?...Os passos voam-te, pelas
Ribas...Oh! que ilusões da flor, que tantaliza!
Sobe a flor? Sobes tu e a alma nas pedras pisa?....
Pairas... Em frente, o mar, polvos de luz – estrelas...
Pairas... e o busto a arfar – longe, vela sem norte.
Negro o céu desestrela, o seio arqueado: escuta.
No amoroso oboé solveja um vento forte
E, alta, em surdo ressoo, a onda betúmea e bruta.
A ânsia do mar, lá vem, esfrola-se na areia...
Seu líquido cachimbo é mágoa acesa, e fuma!
E chamas a onda: “irmã!”. E em fósforo incendeia
Na praia a onda do mar, ri com dentes de espuma.
De ametista, em teu sonho, uma antiga cratera
Mal te embebe – alegria! – alvos dedos de frio,
Eis se emperla o rosto e a prantear vês, sombrio
A onda crescer, rajar-se em brutal besta-fera!
Olhas... E, soluçoso, à música das mágoas
Amedulas o Mar e amedulas a Terra!
A sombra aclara... E é ver a dança verde de águas
E arvoredos dançando ao coruto da serra!
Gemes... Dedando o Azul as magras mãos dos astros
Somem, luzindo... Ao longe, esqueleta uma ruína
Em teu sonho a anervar argentina, argentina...
De ilusões, no horizonte, ossos brancos... são mastros!
Quente estrias a alma, à frialgem, nas cousas...
Que bom morrer! manhã, luz, remada sonora....
Pousas um dedo níveo às níveas cordas, pousas
E és náufrago de ti, a harpa caída, agora.
Ah! os homens percorre um frêmito. Num choro...
Move oceânica a espécie, amorosa, amorosa!
Mais que um dervixe, és deus, que morre, a irradiosa
Glorificação de ouro e o sol de ouro... à paz de ouro.
Pedro Kilkerry*
*Pedro Kilkerry (Salvador BA, 1885 – 1917) formou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Bahia, em 1913. Na época, já atuava como colaborador das revistas Nova Cruzada, Os Anais, Via Láctea, A Voz do Povo e de vários jornais, entre os quais A Tarde, A Gazeta do Povo e Jornal Moderno, onde publicou a série de crônicas Quotidianas - Kodaks. Foi advogado e escriturário da Repartição de Contabilidade do Tribunal de Contas de Salvador. Poeta simbolista, Kilkerry não publicou livro em vida. Apenas em 1971 ocorreria a publicação póstuma de 36 de seus poemas, no livro ReVisão de Kilkerry, de Augusto de Campos. Para Campos, “Kilkerry não só compreendeu mais conscientemente que outros simbolistas o papel desempenhado na criação pelo subconsciente - mais tarde supervalorizado pelo Surrealismo - como soube levar mais longe a liberdade de associação imagética. Por outro lado, a capacidade de síntese, assim como a consciência das limitações da sintaxe ordinária, são mais agudas em Kilkerry do que em qualquer outro poeta do nosso Simbolismo”.
[Tela by Vered Fishman]
"Um poema de Moacir Félix"
Inalterável, eu, que atravessei o tempo
com a mensagem triste dos velhos outonos
presa no meu relógio,
eu, védica sandália, Atenas grave e trágica
ou doce fruto de uma dor hebraica,
às margens deste rio
cantarei no que fui como criança
a lenda
de uma princesa adormecida
(tão bela como a vida)
que dormia e dormia
(tão bela como a vida)
até que a despertaram
tão bela como a vida.
Moacyr Félix*
*Moacyr Félix (de Oliveira) nasceu no Rio de Janeiro em 11 de março de 1926. Fez o antigo curso primário e parte do antigo ginásio em Juiz de Fora, Minas Gerais. De 1939 a 1941, já no Rio de Janeiro outra vez, concluiu o ginasial no colégio Santo Inácio, onde também fez um curso complementar de Direito da Universidade Católica do Rio.
Ainda como estudante de direito, e depois como advogado, trabalhou no Departamento Jurídico da Companhia Auxiliar de Empresas Elétricas (Caeeb), de 1946 a 1949.
Em 1950, foi convidado oficialmente pelo governo francês para prosseguir seus estudos na França, na qualidade de étudiante patronné, seguindo até 1953 vários cursos de filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Paris (Sobornne). Foi aluno, então, de grandes nomes como Etienne Souriau, Jean Poirier, Jean Wahl, Merleau-Ponty e Gaston Bachellard. Em 1953, estudou filosofia com o prof. M. Goueroult, e psicologia e história das artes plásticas com os profs. René Huyge e Pierre Francastel, no Collège de France. Ainda em Paris, trabalhou, durante dois anos, como redator e locutor de um programa de Radiodifusão e Televisão Francesa para a América Latina.
De volta ao Brasil, em 1954 e 1955, foi membro do Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (Ibesp). Em 1954, fez parte da equipe de redação da revista literária Marco, e de 1954 a 1956 integrou a comissão de redação da revista Caderno do Nosso Tempo, do Ibesp (sendo o seu ensaio mais conhecido o publicado sob o título "Aspectos da Questão Colonial", no nº 2 dessa revista).
[Tela by Christian Schloe]
''Es un sueño la vida"
Es un sueño la vida,
pero un sueño febril que dura un punto;
cuando de él se despierta,
se ve que todo es vanidad y humo. . .
¡Ojalá fuera un sueño
muy largo y muy profundo!
¡Un sueño que durara hasta la muerte!. . .
Yo soñaría con mi amor y el tuyo.
Gustavo Adolfo Becker*
*Gustavo Adolfo Domínguez Bastida
(Sevilla, 17 de febrero de 1836 – Madrid, 22 de diciembre de 1870),
más conocido como Gustavo Adolfo Bécquer, fue un poeta y narrador español, perteneciente al movimiento del Romanticismo, aunque escribió en una etapa literaria perteneciente al Realismo. Por ser un romántico tardío, ha sido asociado igualmente con el movimiento posromántico. Aunque mientras vivió fue moderadamente conocido, sólo comenzó a ganar verdadero prestigio cuando, tras su muerte, fueron publicadas muchas de sus obras.
Sus más conocidos trabajos son sus Rimas y Leyendas. Los poemas e historias incluidos en esta colección son esenciales para el estudio de la Literatura hispana, siendo ampliamente reconocidas por su influencia posterior.
pero un sueño febril que dura un punto;
cuando de él se despierta,
se ve que todo es vanidad y humo. . .
¡Ojalá fuera un sueño
muy largo y muy profundo!
¡Un sueño que durara hasta la muerte!. . .
Yo soñaría con mi amor y el tuyo.
Gustavo Adolfo Becker*
*Gustavo Adolfo Domínguez Bastida
(Sevilla, 17 de febrero de 1836 – Madrid, 22 de diciembre de 1870),
más conocido como Gustavo Adolfo Bécquer, fue un poeta y narrador español, perteneciente al movimiento del Romanticismo, aunque escribió en una etapa literaria perteneciente al Realismo. Por ser un romántico tardío, ha sido asociado igualmente con el movimiento posromántico. Aunque mientras vivió fue moderadamente conocido, sólo comenzó a ganar verdadero prestigio cuando, tras su muerte, fueron publicadas muchas de sus obras.
Sus más conocidos trabajos son sus Rimas y Leyendas. Los poemas e historias incluidos en esta colección son esenciales para el estudio de la Literatura hispana, siendo ampliamente reconocidas por su influencia posterior.
XLVIII -'' Da Mais Alta Janela da Minha Casa''
Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
Alberto Caeiro
(Fernando Pessoa)
"roça"
saber que o horizonte
não tem fim
e continua se abrindo
através dos silêncios
e as árvores permanecem
protegendo os segredos
que se espalham
horizonte afora
perceber que a terra
viceja sob mãos ásperas
e se desvenda devagar
para as águas mais fundas
constroem se raízes
que se entrelaçam lentamente
para sustentar cada manhã
e nutrir os dias
em silêncio
Adair Carvalhais Júnior*
*Mineiro de Governador Valadares, graduado em História e Direito e mestre em Filosofia pela UFMG.
[(Tela by Benjamin Parlagreco (1856–1902)]
''NÉVOAS''
À frente a lua, atrás os sonhos,
qual a distância a percorrer?
Não a suspeitam nossos olhos:
a bruma sobe das estradas
e desorienta homens e bússolas.
Mesmo que voássemos bem alto,
e os céus se abrissem para nós,
nem mesmo assim divisaríamos
os frutos rubros que buscamos
pelos pomares das estrelas.
Como condores, fronte a pino,
cortando os ares meio tontos,
em vez de dar com o rumo certo
cairíamos na terra cega,
ruiríamos no mar opaco.
Este é o castigo que nos deram:
imaginar com vista ousada,
porém achar grossas neblinas
fechando o mundo que buscamos
por tê-lo visto em pensamento.
E assim deixamos para trás
os sonhos, deuses compassivos:
sem os podermos contemplar
olhamos como um branco enigma
- nevoentos, zonzos os caminhos –
somente a lua à nossa frente.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
in 'A Noite da Memória'
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Péricles Eugênio da Silva Ramos
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
DE Rubem Alves
Elas têm o poder de ir lá no fundo da alma
Onde moram os esquecimentos
E quando um desses esquecimentos acorda
A gente sente um estremeço no corpo
Essa é a missão da poesia:
Recuperar os pedaços perdidos de nós...
Rubem Alves
''CONVERSA COM O SILÊNCIO''
O silêncio sussurra sua voz
Ante a multidão de vestígios
Que vai passando (in)consciente
Em busca de amantes.
Por onde quer que se ande
Imagens atravessam os sons
São sorrisos e faces disfarçadas
Brilho de saudade permanente.
Há também deleite do passado
Guardando-se do dia longo
Ruidoso que contou a história
De sobrevida desta memória.
Nos lastimamos em olhares
Do tempo insistente de hoje
Das eras de recordações vivas
Subjetivas de emoção e ardor.
O compasso do tempo marca
O sopro das estações que chegam
Nas palavras nos cabelos soltos
Nas alvoradas de outrora.
Vany Campos
In 'Poemas à Flor da Pele', Volume 7
Pag. 156
Ante a multidão de vestígios
Que vai passando (in)consciente
Em busca de amantes.
Por onde quer que se ande
Imagens atravessam os sons
São sorrisos e faces disfarçadas
Brilho de saudade permanente.
Há também deleite do passado
Guardando-se do dia longo
Ruidoso que contou a história
De sobrevida desta memória.
Nos lastimamos em olhares
Do tempo insistente de hoje
Das eras de recordações vivas
Subjetivas de emoção e ardor.
O compasso do tempo marca
O sopro das estações que chegam
Nas palavras nos cabelos soltos
Nas alvoradas de outrora.
Vany Campos
In 'Poemas à Flor da Pele', Volume 7
Pag. 156
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
''Dos Silêncios''
As vozes da multidão soam
Sussurram silêncios longos
Lembranças de um passado
Por onde se andasse alado.
Imagens atravessam as paredes
Sorrisos disfarçados escondidos
Deleitando saudade no relógio
Na sobrevida das memórias.
O pensamento lastima-se
Nos hiatos da hora insistem
Nas lembranças das eras
Recordações de emoções passadas.
Acordam as manhãs do tempo
Dormidas nos corações dos homens
Onde existe um sopro de primavera
Que afaga os cabelos da aurora.
Vany Campos
[Arte de Viola Sado]
''Lembranças''
Na penumbra do passado
Há fatos acordados
Cada vez mais longe
Na saudade se esconde.
Há ternura em minha alma
Por idos que espalma...
Tantas tormentas vencidas
Dentro da própria vida.
Gira na minha lembrança
Uma onde que dança
De ontem à hoje é quanto
Na seara da vida é tanto...
Vany Campos
15/08/2010
terça-feira, 5 de novembro de 2013
''SONETO MELANCÓLICO''
Quando o teu sol de luar de ti se esquece,
e seus raios, ausentes, se consomem
sobre o pesar, a nódoa, o abismo e a prece
da minha obscura circunstância de homem;
ou quando a sombra do teu dedo cobre
a minha estrada e a minha sede antigas,
e o teu rumor lava o meu mundo pobre,
com arco-íris, ovelhas e cantigas;
ou, no ar, a tua forma transeunte
relâmpagos escreve, e frutos, e ondas,
não sei o que suplique, nem pergunte,
e bebo o escuro do silêncio aberto,
por temer, ó manhã, que me respondas
tua escada de fogo e o meu deserto.
Abgar Renault
Obra Poética – 1.990 -
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
''Ode ao Vento Ocidental''
1
Oh, Vento Ocidental selvagem, exalas dos seres do outono o cheiro,
De tua presença invisível, as folhas mortas
Lançadas são tal como fantasmas fugindo de um mágico.
Multidões delas de peste acometidas !
Amarelas, pretas, pálidas e sanguíneas! Ó tu
Que, em carruagens, te transportas ao seu sombrio canteiro de inverno
As sementes aladas, nas quais jazem frias e miúdas
Cada qual como um cadáver na sua cova, até que
Tua azul-celeste irmã da Primavera toque
O seu clarim sobre a terra em sonhos, e encha de
Pressurosos suaves rebentos iguais a flores povoando o ar,
Nas planícies e colinas, com cores e odores vivos.
Espírito selvagem que por toda a parte se move;
Destruidor e preservador: escuta, oh, escuta!
2
Tu, em cuja corrente, em meio à íngreme convulsão do firmamento,
Onde, como folhas murchas da terra, nuvens dispersas se derramam
Galhos emaranhados do céu e oceano sacudiste,
Anjos da chuva e dos raios! Aí espraiados
Sobre a superfície azul de teu vagalhão etéreo
Qual brilhantes cabelos levantados
De alguma terrível Bacante, que vão da fina borda do
Horizonte às alturas do zênite,
As madeixas da tempestade que se avizinha. Nênias entoas
Ao ano que se despede, para o qual esta noite se acaba
Será a cúpula de um vasto sepulcro
Construído com todo o teu poder concentrado
De vapores, de cuja sólida atmosfera
Chuva negra, e fogo e granizo arrebentar-se-ão: Escuta!
3
Tu que de fato acordaste de seus sonhos de verão,
O azul Mediterrâneo, onde jazia,
Acalentado pelo azul espiralado de suas correntes cristalinas,
Junto a uma ilha de pedra-pome na baía Baiae,
Viste adormecidos vetustos palácios e torres
Agitando-se num dia mais intenso de ondas,
Invasão completa de musgos e flores azuis
Tão suaves que os sentidos não conseguem pintá-las! Tu
Por cujo caminho as forças do nível do Atlântico
Abrem-se em abismos, enquanto, bem no fundo,
As florações marinhas e as florestas lodosas, que destroem
A folhagem seca dos oceanos,
Se agitam e se anulam, conheces
Tua voz e súbito te tornas medroso: Escuta!
4
Ah, fosse eu uma folha morta que pudesses segurar,
Ah, fosse eu uma nuvem veloz para contigo:voar
Uma onda suspirando por sob teu poder e extirpar
O impulso da tua força, só que menos livre
Do que tu, ó incontrolável! Se pelo menos
Ainda estivesse na minha infância e pudesse ser
O companheiro de tuas andanças nos céus
Pois então, quando fosse para superar tua velocidade celeste
Mal pareceria uma visão, - Nunca teria eu feito tanto esforço
Quanto assim contigo em prece nas horas de dolorida necessidade.
Oh! ergue-me como se uma onda fosse, uma folha, uma nuvem!
Desmaio sobre os espinhos da vida! Eu sangro!
Um fardo enorme de horas acorrentou-me e me oprimiu
Alguém também como tu – rebelde, dinâmico e orgulhoso.
5
De mim fazes a tua lira, igual assim à floresta:
O que ocorreria se minhas folhas com as dela caíssem!
A desordem das tuas poderosas harmonias
Um profundo tom outonal retirarão de ambos,
Suave embora triste. Sê tu, Espírito selvagem,
Meu espírito! Fazes de ti o meu ser, impetuoso espírito!
Conduze meus pensamentos mortos através do universo,
À semelhança da folhas murchas, a fim de um novo nascimento apressar;
E, pela magia destes versos,
Difundir, como se viessem de uma lareira sempre ardente,
Cinzas e centelhas, minhas palavras à humanidade
Através de minha boca para uma terra adormecida
Sê tu, ó vento, a trombeta de uma profecia!
Com o retorno do inverno, não poderia a primavera logo sucedê-lo?
Percy Bysshe Shelley
(Trad. de Cunha e Silva Filho)
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