terça-feira, 8 de outubro de 2013
''Fio da vida''
Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.
Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração
no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.
Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.
Thiago de Mello,
em "Campo de milagres", 1998.
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.
Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração
no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.
Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.
Thiago de Mello,
em "Campo de milagres", 1998.
''Água de remanso''
Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente
em paz comigo: ternura.
Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.
Ternura: maneira funda,
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer.
Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.
É ter o gosto da vida,
amar o festivo, o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.
Pode também ser tristeza:
tranquilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.
Sou: estou e canto.
Thiago de Mello,
em "Faz escuro mas eu canto",
''Arabesco''
Já próximos escutamos o rumor
dos cavalos que correm pela treva.
Até agora, porém, nada aprendemos:
não conquistamos nem a paz dos loucos
nem a mudez das fragas solitárias.
E enquanto a noite enorme, que nos ronda,
estende as suas mãos para afagar-nos
na areia das palavras desenhamos
o arabesco invisível desta mágoa:
— somos frágeis demais e não sabemos
sequer o que nos falta para sermos
completos como um deus — ou como um pássaro.
Thiago de Mello,
em "Vento geral", 1960.
dos cavalos que correm pela treva.
Até agora, porém, nada aprendemos:
não conquistamos nem a paz dos loucos
nem a mudez das fragas solitárias.
E enquanto a noite enorme, que nos ronda,
estende as suas mãos para afagar-nos
na areia das palavras desenhamos
o arabesco invisível desta mágoa:
— somos frágeis demais e não sabemos
sequer o que nos falta para sermos
completos como um deus — ou como um pássaro.
Thiago de Mello,
em "Vento geral", 1960.
''Como um rio''
Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.
Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.
Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.
Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de água impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.
Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.
Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.
- Thiago de Mello,
em "Mormaço na floresta", 1981.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
''Prece''
dá-me a lucidez das
correntezas para que eu descubra
entre as tristezas que se
avolumam algum
sorriso mesmo
que não seja para mim
dá-me a serenidade de uma
estrela para que eu imagine
entre as lágrimas que não
me deixam qualquer
paz ainda
que breve
dá-me a claridade das
luas cheias para que eu invente
entre as angústias que se esparramam um
horizonte mesmo
que se transmutem em ilusão
dá-me a esperança das
árvores para que eu teça
entre as ausências que se
intensificam uma sanidade ainda
que estofada de
delírios
[Adair Carvalhais Junior]
''PELAS MULHERES ANÔNIMAS''
Rogo hoje a Deus pelas mulheres esquecidas
que sempre foram ‘caso’ e nunca foram tema:
mulheres sem o amor das musas pertencidas
sem o nome lembrado ao menos num poema.
E penso nas mulheres nunca compreendidas
as que sofrem sozinhas porque sentem pena
das mulheres que choram porque suas vidas
são extremos entre o prazer e a dor suprema.
E Deus se apraza das mulheres sem história
que desistem do sonho sem deixar memória
ou vivem de ilusões dos sonhos já passados.
Rogo de Deus o amor de dias complacentes
eis porque todas as mulheres são nascentes
dos milagres de amor que foram realizados!
Afonso Estebanez
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
''RETROVIAGEM''
Adiada a chegada
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
Ronaldo Cagiano
De Canção dentro da noite
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
"As estrelas do lago'
Havia, ontem à noite, tanta estrela
A tremer, a luzir n’água do lago,
Que eu pensei que era o céu
Que, por artes de algum mago,
Tinha descido à terra, de repente! ...
Parei-me junto ao lago, contemplando ...
E as estrelas, uma a uma,
Como espuma,
À flor d’água tremiam, refulgiam ...
Mas pouco a pouco foram reduzindo
O seu brilho,
E desapareceram ...
Olhei o céu: Lá estavam todas elas
A tremer, a brilhar! ...
Por certo riam
Da minha ingênua confusão ...
Que importa! ...
As estrelas do céu também se apagam.
Terra e céu cabem juntos
Dentro do mesmo sonho e da mesma ilusão ...
Emilio Kemp
in ‘Cantos de Amor ao Céu e à Terra’
(1873-1955)
''A lua canta ao rio''
Sou única no firmamento
e múltipla dentro do abismo.
Do fundo rio me contempla
a minha imagem refletida.
Sou a verdade no firmamento,
sou o imaginário no abismo,
Do fundo do rio me contempla
a minha imagem, no seu enganoso destino.
Lá no alto estou rodeada de silencio;
no abismo sussurro e canto.
No firmamento sou um deus,
no rio sou uma oração.
Lea Goldberg
in Poesia de Israel
[Tradução: Cecília Meireles]
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
''Embalo''
Ao balanço das águas,
Ao trépido pulsar
Da máquina, embalar
As persistentes mágoas
Das peremptas feridas...
Beber o céu nos ventos
Sabendo a sonolentos
Sais e iodados relentos.
Anseios de insofridas
Esperas e esperanças
Diluem-se na bruma
Como na vaga a espuma
— Flores de espumas mansas —
Que a um lado e outro abotoa
Da cortadora proa.
Azuis de águas e céus...
Sou nada, e entanto agora
Eis-me centro finito
Do círculo infinito
De mar e céus afora.
— Estou onde está Deus.
- Manuel Bandeira,
em "Estrela da tarde", 1960.
''Beira mar''
Tardinha. Á débil luz do sol que já declina
e se esconde por traz das montanhas distantes,
toda a linda avenida esplende e se ilumina
de estranhos, orientais, imprevistos cambiantes.
E é desde Botafogo, a indolente e divina,
e o Russel e o Flamengo em luzes cintilantes,
até onde a Avenida esplêndida termina,
todo um grande fulgor de apoteoses flamantes.
Pelos lindos jardins abrem-se as azáleas.
Começa a despontar a luz do luar medrosa....
E, ao crepúsculo triste, um som de piano evoca
tênues, meigas, subtis, inefáveis ideias,
como que, a me prender, feminina e amorosa,
a sedução sem fim desta terra carioca....
José de Mesquita,
“Paisagens Cariocas”, Da Natureza - em "Poesias".
Cuiabá, 1919.
''Beira de rio''
Nunca me ha de esquecer a beleza, a poesia
dessa beira de rio, azul, ao sol radiante,
em que dias passei repletos de alegria,
na minha adolescência em flor, linda e distante!
A risonha sazão florigera corria.
Longe ia a cheia atroz ... Era pela vazante.
E a safra de um olor misterioso embebia
o ar todo a trescalar a mel puro e fragrante.
O “Morrinho” no azul seu vulto delineia,
e a praia é fulva, ao sol, e o canavial ondeia,
da várzea para além, num suave pendor...
E eis-me a ver, a alma inerte e lânguidos os músculos,
incendiarem o poente os rubidos crepúsculos
e baixar o luar do céu todo esplendor ...
José de Mesquita,
‘Impressões e Paisagens, Mato--Grosso pinturesco’ -
em "Terra do Berço".
Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927.
''Deslumbramento''
Há, na vida, por mais áspera, rude e escura,
horas que valem tudo e compensam as dores
que afligem, dia e noite, a pobre criatura,
neste vale em que há mais espinhos do que flores.
Quem não sentiu jamais essa hora de ventura,
Vaga entre-luz do céu, do averno entre os horrores,
sutil emanação do Amor, que, eterno, dura,
do qual são simples sombra, os mais belos amores ?
Essa Visão de Deus, Graça, Paz, Euforia,
ou nos vem, pela fé ao cérebro cansado,
ou, pelo Amor, nos desce à alma tediosa e fria.
E ficamos, assim, de olhar turvo e tremente,
sentindo esse fulgor do Ser iluminado,
tal como quem fitou o sol de frente a frente !
José de Mesquita
(Março 1938), em "Escada de Jacó".
Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1945.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
'CANÇÃO DE DE INVERNO'
Cai a neve de mansinho.
Cai a neve em meus cabelos,
Que eram de ouro e são de luar,
Altas torres de castelos...
Cai a neve de mansinho,
Para os sonhos sepultar.
Cai a neve...tão de leve!
No meu rosto, brando e brando.
Será neve resvalando
Ou é pranto a deslizar?
Helena Kolody.
de Viagem no Espelho.
'Á lágrima'
Oh!Lágrima cristalina,
tão salgada e pequenina,
quanta dor tu não redimes!
Mesmo feita de amargura,
és tão sublime, tão pura.
Que só virtudes exprimes.
Ao coração torturado,
pela saudade magoado.
Pelo destino cruel,
Tú és a pérola linda,
do rosário que não finda,
feita de tortura e fel.
Helena Kolody
[Poema publicado na revista Garoto de 1928]
[Tela de Robert Ball, 'Tears"]
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
''A DISTRIBUIÇÃO DO TEMPO''
Um minuto, um minuto de esperança
e depois tudo acaba. E toda crença
em ossos já se esvai. Só resta a mansa
decisão entre morte e indiferença.
Um minuto, não mais, que o tempo cansa
e sofisma de amor não há que vença
este espinho, esta agulha, fina lança
a nos escavacar na praia imensa.
Mais um minuto só, e chega tarde.
Mais um pouco de ti, que não te dobras,
e que eu me empurre a mim, que sou covarde.
Um minuto e acabou. Relógio solto,
indistinta visão em céu revolto,
um minuto me baste e a minhas obras.
Carlos Drummond de Andrade
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Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
''ESTRELAS DE OUTONO''
Folhas secas e amarelas
A cair, leves, no chão,
Trazem segredos que o verão
Contou, de ti, às estrelas
Quando, amor, no meio delas
Brilhavas e teu clarão
Lhes dava a doce ilusão
De serem flores, das mais belas!
De teu sorriso, a alegria,
De teu olhar a esperança
Que ao peito dá confiança
E à noite a luz, que nem dia
Elas me falam; mas, fria
A aragem do vento dança
E, humedecendo a lembrança,
Lhes torna a vida sombria!
E as saudades do luar
De Agosto, nas noites claras,
Das praias que iluminaras
Com teus olhos cor de mar,
Já só lhes deixam sonhar
Que as alegrias, tão caras
E, agora, mais e mais raras,
Desse tempo hão de voltar!
Joaquim do Carmo
Amanhecer pelo Fim da Tarde
Pag. 80.
''Lírica Urbana''
Poema I
Rosto na árvore de névoa
minha solidão é de granito
Um grande mar divide a esperança
e a onda telepática dos gritos
A vitrine sua pelos poros de néon
os cosméticos da mulher e mito
Ricardo Augusto dos Amjos
de Agrolírica
pag 18
Rosto na árvore de névoa
minha solidão é de granito
Um grande mar divide a esperança
e a onda telepática dos gritos
A vitrine sua pelos poros de néon
os cosméticos da mulher e mito
Ricardo Augusto dos Amjos
de Agrolírica
pag 18
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Ricardo Augusto dos Anjos
''PERDIDA NO TEMPO''
... Meu corpo é trevo
e pelos meus dedos
soletro o tempo amargo,
nas páginas secretas
deste livro fechado,
com estampadas borboletas desbotadas,
e as asas de aladas borboletas...
Minha alma perdida em labirinto,
que ninguém encontrou,
nem achei, sequer... saída redentora...
Minha alma...ninguém viu!
Só existe estampada
nas páginas secretas
deste «livro» infinito
qu´inda ninguém abriu ! ...
e pelos meus dedos
soletro o tempo amargo,
nas páginas secretas
deste livro fechado,
com estampadas borboletas desbotadas,
e as asas de aladas borboletas...
Minha alma perdida em labirinto,
que ninguém encontrou,
nem achei, sequer... saída redentora...
Minha alma...ninguém viu!
Só existe estampada
nas páginas secretas
deste «livro» infinito
qu´inda ninguém abriu ! ...
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MARIA LEONOR DE MELLO HORTA
domingo, 25 de agosto de 2013
''CHUVA''
"Chove e eu penso: haverá coisa mais viúva
que a saudade possuir olhos de chuva
e eu ter o coração de girassol?"
Cassiano Ricardo
Mais chove. E se chover soubesse
da enorme paz que me empresta,
não mais o sol, ainda que me desse
a luz essencial de sua festa.
Não mais cintila a luz que me aquece,
eu que me exponho em cada fresta.
Parte de dentro a razão: calor e prece
esta chuva é tudo que me resta.
Cismo na sala o queixo rente
e raras frutas dão notícia deste vento.
Mais chove. E a solidão furtivamente
em gotas flui também no pensamento.
Quem sabe não serei parte da chuva,
líquida noiva transformada em viúva?
Cacaso
In 'A palavra Cerzida'
''Um Sorriso ''
Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…
Manuel Bandeira
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto…
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…
Manuel Bandeira
“A vocês que não vi”
atrás da porta
branca
três
em lentos movimentos
de clara sombra
definindo aos poucos
foco da memória
de quem supõe do outro lado
é bom
que exista vida atrás da porta branca
e alguns caminhos percorridos
Ricardo Augusto dos Anjos
De Agrolírica
Edições Quíron, pag 43
branca
três
em lentos movimentos
de clara sombra
definindo aos poucos
foco da memória
de quem supõe do outro lado
é bom
que exista vida atrás da porta branca
e alguns caminhos percorridos
Ricardo Augusto dos Anjos
De Agrolírica
Edições Quíron, pag 43
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Ricardo Augusto dos Anjos
''LEMBRANÇA''
Hoje a infância voltou com a chuva.
Rosto colado à vidraça, vi pequenos rios
arrastando folhas e formigas
rumo ao desconhecido de sempre.
Ricardo Augusto dos Anjos
de 'Agrolírica'
Edições Quíron, pag. 38
Rosto colado à vidraça, vi pequenos rios
arrastando folhas e formigas
rumo ao desconhecido de sempre.
Ricardo Augusto dos Anjos
de 'Agrolírica'
Edições Quíron, pag. 38
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Ricardo Augusto dos Anjos
''Os Homens Ocos''
“A penny for the Old Guy”
(Um pêni para o Velho Guy)
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
T.S. Eliot
Tradução: Ivan Junqueira
" Qualquer Coisa "
Não sei se já notaste, más existe
qualquer coisa entre nós; um sentimento
uma força sutil mas que resiste
ao tempo e às convenções. Por vezes tento
explicar a mim mesmo em que consiste
essa coisa qualquer: encantamento?
Afinidade? Amor? O pensamento
em vão busca dizer, debalde insiste
em sondar a verdade dentro da alma.
Mas esse doce enlevo, e a doce calma
que eu sinto que me envolvem se te vejo;
e depois essa angústia, esse desejo
de tudo, essa afeição, não sendo amor...
Deve ser qualquer coisa ainda maior.
*Virgílio Moojen de Oliveira
do livro "Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou"
J.G . de Araujo Jorge - 1a edição - 1963
*Dr. Virgílio Moojen de Oliveira nasceu em 16 outubro 1902 em Leopoldina, Minas Gerais, Brasil. Ele faleceu em 1980.
[Tela de Willem Haenraets]
Marcadores:
Virgílio Moojen de Oliveira
''RETRATO''
Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.
Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.
A força heroica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.
Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.
Marli de Oliveira
De Cerco da Primavera (1958)
[Tela de John Revitte 'Many Faces In The Mix']
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
De José Tolentino Mendonça
'' Falta, talvez, (re)descobrir o caminho marítimo para o porto secreto de cada coração.''
A vida hoje afastou-nos da natureza: as paisagens urbanas, com as suas florestas de betão, encerram a vida entre paredes eficazes, muito cómodas, é certo, mas o ar que respiramos por alguma razão se chama “ar condicionado”. O que acredito é que precisamos de amplitude, de campos vastos a perder de vista, de viagens mais profundas que as da rotina. Precisamos perceber o silêncio das coisas, cúmplice do silêncio da nossa alma. Precisamos da liberdade leve dessas horas inapreensíveis que passamos junto ao mar. Há um poeta que diz: “Deus anda à beira d’água”. Não me admiro nada. A imensidão, o nome límpido, a alegria azul do mar são lugares onde Deus deixou o seu toque. Os caminhos marítimos para os outros continentes estão descobertos. Falta, talvez, (re)descobrir o caminho marítimo para o porto secreto de cada coração.
José Tolentino Mendonça
“QUASE”
... no desfiar dos dias, momento que nos pode separar do tudo ou do nada!
... sob a ditadura do relógio, instante que une o antes e o depois e
Torna presente ou ausente o agora!
...em luta pela afirmação da pessoa, impulso que permite ou impede
De escolher e, então ... então ser ou não ser!
... na aventura da vida, lapso de espaço ou de tempo que resiste entre
Sermos participantes ou meros espectadores do movimento nesse
Espaço e do devir desse tempo!
“Quase” ... no limiar do risco, o risco de ser ou ...
“apenas viver! ...
Joaquim do Carmo
De: Amanhecer pelo Fim da Tarde
Pag. 23
... sob a ditadura do relógio, instante que une o antes e o depois e
Torna presente ou ausente o agora!
...em luta pela afirmação da pessoa, impulso que permite ou impede
De escolher e, então ... então ser ou não ser!
... na aventura da vida, lapso de espaço ou de tempo que resiste entre
Sermos participantes ou meros espectadores do movimento nesse
Espaço e do devir desse tempo!
“Quase” ... no limiar do risco, o risco de ser ou ...
“apenas viver! ...
Joaquim do Carmo
De: Amanhecer pelo Fim da Tarde
Pag. 23
''Poema para Iludir a Vida''
Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
[portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
[o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
Fernando Namora,
in "Mar de Sargaços"
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
[portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
[o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
Fernando Namora,
in "Mar de Sargaços"
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
''MARIA MADALENA''
Num agradecimento especial,
venho elevar-te
à altura dos criadores de ARTE,
que usam a paleta como escape,
para gravar suas ilusões,
para deixar vir ao de cima
a sua formação espiritual...
Mas ,tu, tu, és especial !
Levantas o meu astral ,
enganado pela vida,
nos momentos impiedosos
das minhas impiedosas desilusões...
E, como magia, cobres
com tua soberba arte ,
a melancólica poesia,
dos meus atos escritos,
tresloucados,
cobrindo com desenhos castos
e véus diáfanos de sonho,
as palavras empobrecidas
que em frases ponho...
Minhas asas voam mais alto...
Voam como libelinhas
poisando, levemente,
nas suaves cores das tuas figuras,
na precisão das tuas silhuetas,
nos recortes e linhas
das imagens belas e discretas,
que tão bem combinas...
E, fico divagando... comigo só...
Que profundidade de alma,
há, na maravilhosa cambiologia
e simbologia deste ser,
que tudo dá...
...sem nada receber...
OEIRAS, 9-8-2013
Nìdia Horta
Poema que ganhei da poeta portuguesa Nìdia Horta, o qual muito me emocionou...
Muito obrigada amiga, você é muito generosa com seus belíssimo versos.
Meu coração agradece comovido...
terça-feira, 6 de agosto de 2013
"Garras dos Sentidos"
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
Agustina Bessa-Luis
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.
Agustina Bessa-Luis
''Há certas coisas de voar''
Há certas coisas de voar –
Aves – abelhas – horas do dia –
Delas nenhuma elegia.
Há outras coisas de ficar –
Dor – colinas – eternidade –
Não me competem, em verdade.
E há outras que o repouso re-anima –
O arcaz dos céus posso eu expor?
Tão quieto jaz o enigma!
Emily Dickinson
in 'Uma centena de poemas'
segunda-feira, 29 de julho de 2013
''Pressinto a hora dos naufrágios''
Sobre a linha do horizonte sulco
a tristeza que se apodera da noite
pela extrema possibilidade da mudez.
Pressinto a hora dos naufrágios
em meus lábios onde rangem
os cascos dos barcos sem rota.
Tenho nos joelhos a turbulência das marés.
E fico com os dedos arroxeados
como se remasse dias a fio
até amainarem os ventos.
Quando a cegueira me exigir,
posso olhar a minha sombra sem medo do luto.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
a tristeza que se apodera da noite
pela extrema possibilidade da mudez.
Pressinto a hora dos naufrágios
em meus lábios onde rangem
os cascos dos barcos sem rota.
Tenho nos joelhos a turbulência das marés.
E fico com os dedos arroxeados
como se remasse dias a fio
até amainarem os ventos.
Quando a cegueira me exigir,
posso olhar a minha sombra sem medo do luto.
Graça Pires
De A incidência da luz, 2011
''Com o silêncio emboscado na voz''
Com o silêncio emboscado na voz
uma mulher atravessou um impossível retorno
rente a horários sem sentido.
Na linha das marés o magoado vértice das sombras
desenhava a solidão dos barcos destruídos.
Como se um frio de aço mutilasse todas as esperas.
Graça Pires
De ''Uma vara de medir o sol'', 2012
'DE VENTOS'

(Bouquet of spring flowers, Renoir)
Tua beleza, inconsciente de si,
Me puxa em seus encantos
Para o seu leito.
Mas o que fazer de tua beleza
Senão armá-la em vaso
Para nutrir a mesa?
(Senão sofrer/gozá-la em doses
de solidão noturna e densa?)
Como um jardineiro de ventos
Prefiro ver-te
Hera galgando muros
Erva tecendo pastos
Ou aérea flor da memória.
Amar tua beleza , não mais,
Como cor que não apreendo
Rio que não estanco
e que passa.
(F.Campanella)
terça-feira, 23 de julho de 2013
''DISTÂNCIA''
Levanto-me e olho o céu
numa tarde de primavera sob o voo
Estranho! A estrela maior
é uma coisa minúscula, pequenina
que a folha do vidoeiro pode cobrir.
– – –
Distância, é a distância
que torna o que é eterno suportável
Ainda bem que lança tão grande sombra,
a pequena coisa que está próxima…
das galinholas.
Hans Børli
(1958)
[Fotografia retirada do Google ; Galinhola d'agua]
quarta-feira, 17 de julho de 2013
***
Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um voo de ave
E me entristeço!
Por que é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Por que vai sob o céu aberto
Sem um desvio?
Por que ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade
Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh’alma alheia
Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do voo suave
Dentro em meu ser.
( Fernando Pessoa )
''No ciclo eterno das mudáveis coisas''
No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me fiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Ricardo Reis
heterônimo de Fernando Pessoa
''Como Sou''
Sou brumas de calmarias
embaladas em melodias,
diáfanas esperanças
nas mãos que me afagam
Transgrido normas,
quebro paradigmas
sou açoite do tempo,
prece dos arrependidos
Silencio a alma
nas asas de cada instante,
sou fruto da descrença,
poder da indiferença,
caminhos itinerantes
Realizo travessias
coloridas de venturas,
acalentando a magia
tal dores do pensamento
nos sabores de muitas lágrimas
Conceição Bentes
***
Tu és o que eu supunha,
és as lições que aprendi sobre delicadeza,
és a ternura que precisei por tanto tempo,
és tudo o que não sei e quero aprender.
Pela vida, mesmo sem o saber, estavas lá,
pois te busquei em cada rosto,
procurei teus gestos entre os mais raros gestos,
pude te ver em cada olhar que me olhava.
Mesmo ainda não estando,
mesmo quando eu não estava,
já aprendíamos para o instante
em que te pude ver e ternamente te olhar.
(Igz Furiati)
Poema da amiga Ignez Furiati
***
Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque *Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
Fernando Pessoa, 15-11-1930.
de Poesias Coligidas
*O poeta faz menção a Paul Marie Verlaine, poeta francês.
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não.
E a chuva cai levemente
(Porque *Verlaine consente)
Dentro do meu coração.
Fernando Pessoa, 15-11-1930.
de Poesias Coligidas
*O poeta faz menção a Paul Marie Verlaine, poeta francês.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
***
Amanhece.
O Sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
animais,
pessoas…
E a cada um
lhe põe sombra.
Humberto Ak’abal
De Tecedor de palavras
p. 45 - Melhoramentos Livrarias
sexta-feira, 5 de julho de 2013
"POEMA"
III
Hoje não vou colher
nem laranjas, nem flores, nem amoras.
Vou ver crescer o dia
no redondo das frutas,
e ouvir sem pressa o canto destas aves.
Serão as mesmas de ontem?
Um dia a mais que fez de mim, que faz?
E as aves que cantavam,
se não são estas, onde
estão? O canto apenas se repete?
Aquela que ontem via
o que ora vejo não é mais em mim?
Então eu me renovo
como as águas e as plantas?
Sou outra ou me acrescento ao que já sou?
No entanto, é tudo igual,
embora eu saiba que só na aparência;
e meu prazer me vem
de estar sentada aqui,
detendo um tempo que se não detém.
[ Marly de Oliveira]
Marly de Oliveira (Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo 1935 — Rio de Janeiro, 1 de junho de 2007) foi uma poetisa brasileira.
Era a ex-mulher do poeta e membro da Academia Brasileira de Letras, João Cabral de Melo Neto. Foi também professora de língua e literatura italiana, assim como de literatura hispano-americana.
''Minha felicidade vem de quando estou só''
Minha felicidade vem de quando estou só
e ninguém me interrompe no poema,
essa espécie de transfusão
do sangue para a palavra,
sem qualquer estratagema.
A palavra é meu rito, minha forma
de celebrar, investir, reivindicar:
a palavra é a minha verdade,
minha pena exposta sem humilhação
à leitura do outro,
hypocrite lecteur, mon semblable.
[Marly Oliveira]
''Parecia um pássaro''
Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma libélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
[Marly de Oliveira]
''POEMA''
IV
Na tarde sem soçobro o azul instala
sobre as coisas um líquido silêncio,
e a mim me deixa só, desapartada,
na observância fiel de um obsidente
solilóquio amoroso, propiciado
por tua ausência e minha infausta mente.
Do jugo não imposto e incerto estado
ninguém me livra, que este mal de agora
ainda é o bem em mal transfigurado
por obra de distância e da memória,
não do acaso ou do sonho, não da sépia
que às vezes cobre o chão de melancólicas
paisagens. Que noturnas, vãs, repletas
formas criadas pelo imaginar
venturoso (que nem o sonho aquieta)
sobem de mim a ti, crescem no ar,
sem perguntas, propósitos, certezas,
e enrolam-se em si mesmas devagar,
impregnadas de límpida escureza.
Em torno a solidão não desampara,
antes fecunda a antiga natureza
que dorme a tanto mito entrelaçada
[Marly de Oliveira]
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Um poema de Nidia Horta
Preciso de voltar à idade
- do trigo loiro,
- das cigarras
-das borboletas
- de todo o fulgor
que só dura um voo...
Preciso de voltar
ao tempo da sensatez
quando não havia
- rugas no rosto
- escuros na tez...
Preciso de recordar o passado
- cerrar os olhos
- ver o mar azul
- ver as colunas de oiro
do mar do meu sul...
Preciso de escutar
- sussurros da memória
- vozes familiares
em sons de míticas saudades...
Erosão de imagens
que desfiguram a minha face
tão tranquila (outrora)...
Preciso de tempo
para o tempo que me resta...
O universo e a noite
são agora, apenas,
magia do pensamento...
Tornei-me idosa,
com mais chuva
e menos horizontes.
A consciência efémera,
a doçura do ensinamento
são moléculas perdidas,
algures, nos espaços...
Preciso, outrossim,
de desfalecer, por fim,
esquecida do tempo
em que não amei
nem vivi...
Nìdia Horta
sábado, 15 de junho de 2013
''QUE IMPORTAM, OS JARDINS, AS LINDAS FLORES ...''
Que importam, os jardins, as lindas flores,
As leves aves voando no céu?
Que importa o sol, a lua e as estrelas,
Se, de beleza, me enche o encanto teu?
Que importam rios, as fontes, os montes,
Tudo o que a terra, de graça, nos deu,
Os frutos doces, os peixes dos mares,
Se tu, inteira, és todo o enlevo meu?
Tu és para mim mais do que flor ou ave,
Mais do que o Sol, a Lua e as estrelas,
Bem mais que o belo azul do imenso céu,
Mais que em palavras, nestes versos, cabe,
Tanto mais digam, mais que sejam belas:
Tu és joia viva que a vida me deu!
Joaquim do Carmo
De ' Amanhecer pelo fim da tarde'
Lua de Marfim Editora
''À ESTRELA ''
Até à estrela que reluz
Há uma distância de trespasse.
Correu milênios sua luz
Para que enfim nos alcançasse
Talvez há muito já se fora
No longe azul extinto astro
Porém seus raios só agora
Ao nosso olhar mostram seu rastro.
A aura da estrela que morreu
No alto do céu se faz dar fé.
Era, e ninguém a percebeu,
Hoje que a vemos já não é.
Também assim a nossa dor
Na abissal noite se finda.
Porém a luz do extinto amor
Os nossos passos segue ainda.
Mihai Eminescu
in "Luar"
quarta-feira, 5 de junho de 2013
''ITINERÁRIO DAS URZES''
"...Não tenha rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo."
(Parte final de suposta inscrição na tumba de Ciro, o Grande, rei da antiga Pérsia, em Pasárgada)
Quando eu me sentir triste,
triste de doer, da dor barroca,
ou imemorial, inominável,
sem fundo, sem alças,
triste das coisas cridas,
dos impérios que inventei
ou do que nem senti nascer -
triste da palavra em mortal ferida -
serás meu fiel retorno,
capelinha das urzes, à beira da estrada,
meu cavalo sem peias, minha jornada de ossos -
minha Ítaca, minha Pasárgada.
Fernando Campanella
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