A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

domingo, 31 de maio de 2009

Os amigos, ao entardecer (IV)



No resto do mundo
um murmúrio geral vai crescendo no escuro.
E a noite parece um ladrão a esgueirar-se
sobre os nossos muros.
Limpamos, então, lentos e calados,
nossos retratos no tempo pendurados.
E pensamos no dia em que chegar
o adeus.
Oh, o adeus, essa palavra sagrada
que guardará no infinito
a inutilidade de nosso pobre grito.

Artur Eduardo Benevides

Os amigos, ao entardecer(I)



O tempo é breve e as afeições são poucas.
Os cabelos já tomam a cor das despedidas.
Tantas, as viagens! Quantas, as partidas
para as paixões, as festas e navegações?
Fraternas mãos vieram e me cobriram
com cálidos lençóis.
E preparei anzóis
para pescar os salmões do amanhecer.
Um dia, com os amigos, acendi fogueiras.
Deitamo-nos na relva, de alma ainda inteira.
Ou fomos olhar os trens
que vinham dos verões.
Vezes houve em que rimos, quase alucinados.
Nem vimos os exílios, demorados.
E estivemos unidos em nossos corações.


Artur Eduardo Benevides

Da poesia(I)



A poesia
é um pequenino veio nas colinas
a se espalhar por vésperas e matinas
até encontrar a solidão do mar.
E a solidão somos nós.
O mar:
o pranto o a voz
dos que Jamais puderam regressar.


Artur Eduardo Benevides
(Ceará)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Subia a Lua, Leve...



Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.

Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!


Da Costa e Silva
in: Poesias Completas

DE UM ANDAR NOTURNO



Tempestade, chuva oblíqua,
negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.


De um vão entre escuras nuvens
súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.


Límpidas ilhas do céu,
estrelas sóbrias saúdam;
ao luar, fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.


Alma, prepara-te, alma!
Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.


Alma, responde ao sinal:
banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.


Hermann Hesse
In: Andares

'If we must part '



If we must part,
Then let it be like this.
Not heart on heart,
Nor with the useless anguish of a kiss;
But touch mine hand and say:
"Until to-morrow or some other day,
If we must part".

Words are so weak
When love hath been so strong;
Let silence speak:
"Life is a little while, and love is long;
A time to sow and reap,
And after harvest a long time to sleep,
But words are weak".

Ernest Dowson

'Spleen'



Around were all the roses red
The ivy all around was black.

Dear, so thou only move thine head,
Shall all mine old despairs awake!

Too blue, too tender was the sky,
The air too soft, too green the sea.

Always I fear, I know not why,
Some lamentable flight from thee.
I am so tired of holly-sprays
And weary of the bright box-tree,

Of all the endless country ways;
Of everything alas! save thee.


Ernest Dowson

'When I am old'



When I am old,
And sadly steal apart,
Into the dark and cold,
Friend of my heart!
Remember, if you can,
Not him who lingers,
But that other man,
Who loved and sang,
And had a beating heart,
When I am old!

When I am old,
And all Love’s ancient fire
Be tremulous and cold:
My soul’s desire!
Remember, if you may,
Nothing of you and me
But yesterday,
When heart on heart
We bid the years conspire
To make us old.

When I am old
And ev’ry star above
Be pitiless and cold:
My life’s one love!
Forbid me not to go:
Remember nought of us
But long ago,
And not at last,
How love and pity strove
When I grew old.

Ernest Dowson


‘Quando eu for velho’

Quando eu for velho
E tristemente posto de parte,
Na escuridão e ao frio,
Amigo do meu coração!
Lembra-te, se puderes,
Não dele que vacila,
Mas daquele outro homem
Que amava e cantava
E tinha um coração que batia,
Quando eu for velho!

Quando eu for velho,
E todo o antigo fogo do amor
Se tornar trêmulo e frio:
Meu desejo de alma!
Lembra-te, se puderes,
Nada de ti ou de mim
Senão ontem,
Quando coração no coração
Nós mandamos os anos conspirar
Para nos tornar velhos.

Quando eu for velho,
E cada estrela lá em cima
Se tornar impiedosa e fria:
Amor da minha vida!
Não me proíbas de ir:
Não te lembres de nada de nós
Senão de há muito tempo
E não por último
Como o amor e a piedade se esforçaram
Quando eu envelheci.

Ernest Dowson

quinta-feira, 28 de maio de 2009

'MOSTRADOR'



O ponteiro grande
dá volta ao mundo
de hora em hora;
já o pequeno, não.
Parece-nos parado.
Parado entre o futuro
e o tempo ido.
Irmãos do desencontro:
Um, o ponteiro
da esperança, o outro
o do olvido.

O ponteiro grande
gorjeia de hora em hora.
O pequeno é silente:
Todas as coisas
que caminham pra não
voltar, caminham
assim: Imovelmente.

Horizonte. Atributo
do último minuto.

Cassiano Ricardo
in: Poemas Murais

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa



Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
Substitui o calor.
Para ser feliz tanta coisa é precisa.
Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.

Que se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se for, seria
O tédio de o haver... E a chuva cresce
Na noite agora fria


Fernando Pessoa
18-9-1920
in: Poesias Inéditas (1919-1930).

Amanhecência



Algo peço? ou me pertence?
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas


das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam


nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.


Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?


Setlla Leonardos

O que se é vem à flor?



“Não, não digas nada” Fernando Pessoa


Melhor seria não dizer-te nada
já que as palavras se frustram, Pessoa
- ai! onde as pás sutis e as virgens lavras
do ver de terna fala entre as criaturas?

Já que as palavras nos frustram, pessoas
perdidas no universo das palavras
- ai tempos de durames sem ternuras! -
melhor seria não dizer-te nada.

Calo. Do teu silêncio aflora a fala
desse verde essencial – cerne, mensagem,
viva raiz-mistério da linguagem.
Na força de não ter dito o que mais cala.


Stella Leonardos
(Rio de Janeiro, 1.923)

Retribuição



Cada minuto de satisfação
Em tremores de angústia é retribuído,
Na mesma exata proporção
Do êxtase fruído…

No escambo de cada hora entesourada
- Parca ração dos anos -
Vinténs amargamente regateados,
Cofres de pranto extravasando…


Emily Dickinson
(tradução de Olívia Krähenbühl)


Compensation

For each ecstatic instant
We must an anguish pay
In keen and quivering ratio
To the ecstasy.

For each beloved hour
Sharp pittances of years,
Bitter contested farthings
And coffers heaped with tears.

Emily Dickinson


Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes…
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.


Paulo Bonfim

Cogito



eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


Torquato Neto

Camino al revés



De vez en cuando
camino al revés:
es mi modo de recordar.

Si caminara sólo hacia delante,
te podría contar
cómo es el olvido.


Humberto Alkabal

Después de hoy



Después de hoy
comenzaré la distancia.

Mañana habrá lágrimas,
suspiros y un nombre.

Después,
suspiros y un nombre.

Y más lejos,
sólo será un nombre.


Humberto Akabal

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nuvens


Sobre a lâmina azul de um céu todo bonança
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
- vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...


Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.


Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...


Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido - embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!


Amadeu Amaral
In ‘Espumas’ (1917)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Cada um com sua sombra


Amanhece.
O sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
bichos,
gente...

E pra cada um
faz uma sombra.

Humberto Ak’abal
(Guatemala)

Escreve o mar


Até a folha em que escrevo chega o mar
com seu pulsar cheio de naufrágios
como meu coração.

E na folha, da mesma forma que na areia,
escreve seu segredo trêmulo
e sua canção.

Banha de nácar e cristal meu sonho
diurno e, se calo, escreve em meu silêncio
seu coração.

(Como em outro planeta canta um pássaro.
Quase humana, respira a manhã
de jasmim e limão.

Talvez sonhada ou recordada voa
como uma ferida azul a mariposa
com sua ilusão).

Em uma onda vem todo o mar
e ao pé deste poema se desfaz
como uma rosa que cantara.

Onde é mais só o mar
e mais largo e mais fundo e terno e feroz
é no meu coração.


Eduardo Carranza
(O coração e o Mar 1)
In: Antologia Poética

sábado, 23 de maio de 2009

FUGA DA JUVENTUDE


Fatigado o verão dobra a cabeça
e olha no lago a sua imagem descorada.
Fatigado e coberto de poeira
vou pelas alamedas sombreadas.


Entre os olmos perpassa um vento tímido.
Atrás de mim tenho o vermelho céu
e à minha frente receios da noite
e crepúsculo e morte.


Vou fatigado e coberto de pó:
atrás de mim, hesitante, de pé,
a juventude abana a linda cabeça
e prosseguir comigo não mais quer.



Hermann Hesse
In: Andares

O mar mistura-se ao mar


O mar mistura-se ao mar
Mescla os seus laços, lagos, poças
Suas idéias de gaivotas e de espumas
Seus sonhos de algas e alcatrazes
Aos graves crisântemos azuis ao largo
Aos miosótis em tufos nos muros alvos das ilhas
Às equimoses do horizonte, aos faróis apagados
Aos sonhos do céu impenetrável.

Jean-Michel Maulpoix
Tard: Mário Laranjeira.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

TAL É A NOSTALGIA ...


Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.

Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.


Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética

PODE ALGUÉM DIZER-ME ...


Pode alguém dizer-me
até onde vai a minha vida?
Sou um sopro na tempestade,
uma onda no lago?
Ou serei, talvez,
essa branca e pálida bétula
arrepiada de primavera?


Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética
Tradução Antônio Roberto de Paula Leite

quinta-feira, 21 de maio de 2009

OBSESSÃO I


Algumas coisas na terra


- como certa praia oculta
do mundo por árduas serras,
alcantiladas e plúmbeas,
e protegida de acesso
marítimo por escolhos
onde escuma um mar possesso,
que depois, tranqüilo e morno
dos corais até a areia
(cuja finura seduz),
por água tem luz azul –
que permaneçam secretas
e inacessíveis, senão
a alguma imensa obsessão.

Antonio Cícero Correa de Lima

O PAÍS DAS MARAVILHAS


Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.


Antonio Cícero Correa Lima

CANÇÃO DA ALMA CAIADA


Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.

De dia caio minh'alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.

Antonio Cícero Correa Lima

terça-feira, 19 de maio de 2009

HAGAMOS UN TRATO


Compañera
usted sabe
que puede contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo

si alguna vez
advierte
que la miro a los ojos
y una veta de amor
reconoce en los míos
no alerte sus fusiles
ni piense qué delirio
a pesar de la veta
o tal vez porque existe
usted puede contar
conmigo

si otras veces
me encuentra
huraño sin motivo
no piense qué flojera
igual puede contar
conmigo

pero hagamos un trato
yo quisiera contar
con usted
es tan lindo
saber que usted existe
uno se siente vivo
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos
aunque sea hasta cinco
no ya para que acuda
presurosa en mi auxilio
sino para saber
a ciencia cierta
que usted sabe que puede
contar conmigo


Mário Benedetti
14/09/1920- Passo de los toros
17/05/2009- Montevidéu

Uruguay

OUTONO


As folhas caem, de muito longe
envelhecidas no céu, em longínquos jardins,
caem: é como um gesto de recusa.

E nas noites a terra pesada cai
fora das estrelas, em plena solidão.

Caímos todos. Cai a mão.
E vemos as outras. Dá-se o mesmo em todas elas.

Entretanto há alguém que sustêm essas quedas,
com infinita doçura, entre suas mãos.


Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética
Tradução de Antônio Roberto de Paula Leite

Era o dia...


Era o dia dos crisântemos brancos, -
e eu tinha quase medo de seu pesado esplendor.
Então vieste tomar meu coração,
Vieste a mim,
em plena noite.

Eu tinha muito medo, mas vieste, suave e querida,
em sonho, por um instante, eu pensara em ti.
Vieste, e docemente, como uma ária de lenda,
soou a noite.

Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética
Tradução de Antônio Roberto de Paula Leite

sábado, 16 de maio de 2009

Recordação


E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.

Rainer Maria Rilke,
in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

DIA DE OUTONO



Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.

Rainer Maria Rilke

SOLIDÃO


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.


Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã,
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke
in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

O devanear de um Cético


Tout corps som ombre et tout
esprit son doute. (V. Hugo)



(excerto)
Virá a morte com as mãos geladas
Quebrar um dia esse terrível selo,
Que a meus olhos esconde tanto arcanos?
...............................................................
Ó campa! - atra barreira inexorável
Entre a vida e a morte levantada!
Ó campa, que mistérios insondáveis
Em teu escuro seio muda encerras?
És tu acaso o pórtico do Elísio,
Que nos franqueias as regiões sublimes
Que a luz da verdade eterna brilha?
Ou és do nada a fauce tenebrosa,
Onde a morte pra sempre nos arroja
Em um sono sem fim adormecidos!
Oh! quem pudera levantar afouto
Um canto ao menos desse véu tremendo
Que encobre a enternidade...

Mas debalde
Interrogo o sepulcro - e o debruçado
Sobre a voragem tétrica e profunda,
Onde as extintas gerações baqueiam,
Inclino o ouvido, a ver se um eco ao menos
Das margens do infinito me responde!
Mas o silêncio que nas campas reina,
É como o nada - fúnebre e profundo...
...............................................................
Se ao menos eu soubesse que co'a vida
Terminariam tantas incertezas,
Embora os olhos meus além da campa,
Em vez de abrir-se para a luz perene,
Fossem na eterna escuridão do nada
Para sempre apagar-se... - mas quem sabe?
Quem sabe se depois desta existência
Renascerei - pra duvidar ainda?!...


Bernardo Guimarães
excerto de 'Canto da solidão'

O CISNE



Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.

E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águas

que mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;

então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.


Rainer Maria Rilke
Trad. Dora Ferreira da Silva

Ilusão


Vê, que painel formoso a tarde borda
Na brilhante alcatifa do ocidente!

As nuvens em fantásticos relevos
Aos olhos fingem, que inda além da terra
Novo horizonte infindo se prolonga,
Onde lindas paisagens se desenham
Descomunais, perdendo-se no vago
De vaporosos longes
Lagos banhados de reflexos d'ouro,
Onde se espelham gigantescas fábricas;
Solitárias encostas, onde avultam
Aqui e além ruínas pitorescas,
Agrestes brenhas, serranias broncas,
Pendentes alcantis, agudos píncaros,
Fendendo um lindo céu de azul e rosas;
Fontes, cascatas, deleitosos parques,
Encantadas cidades quais só pode
Criar condão de fadas,
Surdem do vale, entre vapor brilhante,
Com a fronte coroada de mil torres,
De esguios coruchéus, de vastas cúpulas;
E além ainda mil aéreas formas,
Mil vagas perspectivas se debuxam,
Que por longes sem fim se vão perdendo!
Todo enlevado na ilusão donosa
Longo tempo meus olhos espaireço
Porém do céu as cores já desbotam,
Os fulgores se extinguem, se esvaecem
As fantásticas formas vem de manso
A noite desdobrando o véu das sombras
Sobre o aéreo painel maravilhoso;
Apenas pelas orlas do horizonte
Bruxuleia através da escuridade
O crespo dorso dos opacos montes,
E sobre eles fulgindo merencória,
Suspensa, como pálida lucerna,
A solitária estrela do crepúsculo.

Assim vos apagais em sombra escura,
Ledas visões da quadra dos amores!...
Lá vem na vida um tempo
Em que a um sopro gélido se extingue
A fantasia ardente,
Esse sol puro da manhã dos anos,
Que doura-nos as nuvens da existência,
E mostra além, pelo porvir brilhando,
Um céu formoso e rico de esperança;
E esses puros bens, que a mente ilusa
Cismara em tanto amor, tanto mistério,
Lá vão sumir-se um dia
Nas tristes sombras da realidade;
E de tudo que foi, conosco fica,
No fim dos tempos, a saudade apenas,
Triste fanal, brilhando entre ruínas!


Bernardo Guimarães

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quem das legiões de anjos?


(Primeira Elegia)

Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria
o grito? E mesmo se, inesperadamente,
um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua
existência mais forte! Pois o belo não é senão
o princípio do espanto que mal conseguimos suportar,
e ainda assim, o admiramos porque, sereno,
deixa de nos destruir. Todo anjo é espantoso.


E por isso me contenho e refreio o apelo
de um soluço obscuro. Então quem
nos poderia valer? Anjos, não, homens, não,
e os animais inventivos logo se apercebem
de que não nos sentimos muito em casa
no mundo das explicações. Resta-nos talvez
uma árvore na encosta, para vermos e revermos
todos os dias. Resta-nos a estrada de ontem
e o apelo mimado de um hábito
que por nós se afeiçoou, permaneceu e não foi embora.


E a noite, a noite quando o vento cheio de espaços do mundo
nos desgasta a face - para quem ela não saberia ser desejo e suave decepção,
ela, cuja proximidade pesa sobre
o coração solitário! Será mais leve para os amantes?
Juntos, eles apenas encobrem um para o outro seu destino.
Ainda não sabias? Lança o vazio aprisionado nos braços
para os espaços que respiramos! Talvez os pássaros sintam,
num vôo de maior intimidade, o ar mais amplo.


Rainer Maria Rilke
in: Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno
tradução de Emmanuel Carneiro Leão.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

The Wind


I’ve ceased to be, but you’re alive
The wind is whimpering and sobbing.
It rocks the forest and the cabin.
Under its force, the trees are bending
In unison, not pine by pine,
Along with hills that seem unending,
Like wooden frames of yachts withstanding
The wind gusts in the bay at night.
And all this not from reckless pride,
Or from a pointless, frenzied folly,
But to compose a lullaby
For you in time of melancholy.

Boris Pasternak
Translated by Andrey Kneller

'É impróprio ser famoso'


É impróprio ser famoso
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.

O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.

Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão de vir.

O que é preciso rever
é o destino, não antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passos,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.

Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.

E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.

Boris Pasternak
Poeta, romancista e filosofo judeu-russo, ganhador do premio Nobel de Literatura em 1958, impedido, pelo regime de seu pais, de receber o premio, viveu em precária situação até seu falecimento em 1960.Seu romance Doutor Jivago, deu-lhe reconhecimento popular a nível mundial.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

‘PALAVRA, FRASE’


Palavra, frase - E as cifras falam
a vida vivida, súbito sentido,
o sol estaca, as esferas calam,
tudo se concentra a ela volvido.

Palavra - um brilho, um vôo, um fogo,
um jato de chamas, de estrelas um traço -
em redor do mundo e de mim há logo
o escuro medonho no vazio espaço.

Gottfried Benn
(Tradução de Vasco Graça Moura)

‘SONETO’


Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como é belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919- 2004)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Súplica final


Senhor: não peço mais que silêncio,
o silêncio das noites de planície como enevoadas águas,
o silêncio dos montes quando a tarde acabou e as
[pedras
se afiam na friagem que é azul-celeste,
o silêncio do sol encarquilhando as folhas,
e o vento na areia depois de ter passado,
o silêncio das ondas ao longe espumejando tranqüilas,
o silêncio das mãos e o dos olhos,
e o das aves negras que pairam nas alturas
de um céu silencioso e límpido. Não peço
mais que silêncio. O silêncio das idéias que deslizam
no tecto escorregadio da memória silente.
E o silêncio dos sonhos coloridos, e o dos outros
a preto e branco imagens desejadas
que não pensei que desejava e esqueço
ao querer lembrá-las. E o silêncio
dos sexos que se possuem sem uma palavra.
E o do amor também, tão silencioso esse,
que não sei quem amo.
Não peço mais. Afasta
de mim o estrondo: não o das cidades,
ou dos homens, das águas, do que estala
na memória ou penumbra das salas desertas.
Afasta de mim o estrondo com que a vida
se acabará contigo, num rasgar de súbito
em que ficarei inerte e silencioso. O estrondo
em que não ouvirei mais nada. O estrondo
em que não mexerei um dedo. O estrondo
em que serei desfeito. O estrondo
em que de olhos abertos
alguém os abrirá.
Senhor: não peço mais do que o silêncio do mundo,
o silêncio dos astros, o silêncio das coisas
que outros homens fizeram, e o das coisas
que eu próprio fiz.
E o teu silêncio
de senhor que foi. Não peço mais.
Não é nada o que peço. Dá-me
o silêncio. Dá-me o que não fui:
silêncio (porque calei tanto):
o que não sou (pois que calo tanto):
o que hei-de ser (já que falar não adianta):
Silêncio.
Senhor: não peço mais.


Jorge de Sena


Fico pensando se viver não será sinônimo de perguntar.
A gente se debate, busca, segura o fato com duas mãos sedentas e pensa:
Achei! Achei!
Mas ele escorrega se espatifa em mil pedaços, como um vaso de barro coberto apenas por uma leve camada de louça.
A gente fica só, outra vez, e tem que começar do nada, correndo loucamente em busca dos outros vasos que vê. Cada um que surge parece o último, mas todos são de barro, quebram-se antes que possamos reformular as perguntas.
E começamos de novo, mais uma vez, dia após dia, ano após ano.
Um dia a gente chega à frente do espelho e descobre:
Envelheci!
Então a busca termina. As perguntas colam no fundo da garganta, e vem a morte.
Que talvez seja a grande resposta.
A única.


Caio Fernando de Abreu
de 'Limite Branco'