A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

terça-feira, 29 de maio de 2012

'Todas as águas dormem'

Há uma hora certa,
No meio da noite, uma hora morta,
Em que a água dorme. Todas as águas dormem:
No rio, na lagoa,
No açude, no brejão, nos olhos d’água,
Nos grotões fundos.
E quem ficar acordado
Na barranca, a noite inteira,
Há de ouvir a cachoeira
Parar a queda e o choro,
Que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
Todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
Fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
Nas placas da folhagem.
E adormece
Até a água fervida,
Nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
De torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
E chorando, a noite toda,
Porque a água dos olhos
Nunca tem sono...

Guimarães Rosa

''Poema''


De resto na ventania
sumiram sonhos. É a vida
não vivida só metade
no rosto metade amarga
que se escaveira de ruga
papel crepom e mais nada.

Vivi de sonho meu passo
que andei sozinha perdeu-se
desapontado vencido e não
houve braço amigo nem
carinho nem palavra
nem calor que fosse abrigo:
de resto na ventania
sumiram sonhos. É a vida.

Ymah Théres
(THÉRES, 1991, p. 33)

Álvaro de Campos

[...]
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.[...]

Álvaro de Campos
Heterônimo de Fernando Pessoa

''Sentido''


Os homens vinham e havia um caminho.
Continuavam, e o prumo os esperava,
e eles seguiam acreditando nisso:
sempre rumar — sempre sempre sempre.

Os homens nunca chegavam a algum lugar,
mas iam eternamente em busca de,
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.

José Inácio Vieira de Melo

'DO PENSAMENTO'

O mistério me leva à estrada
e a estrada revela
a poeira que sou.

O espanto me conduz à reflexão
e a reflexão revela
a peneira que sou.

José Inácio Vieira de Melo

'SOLIDÃO'

um rio que não
se cruza mais
uma aurora

indecifrável

uma noite sem
eco um
horizonte

que se
nega

tardes incontornáveis
ventos sem direção

um poema que
se
repete

Adair Carvalhais Junior

'CANÇÃO'


As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.


Gilberto Mendonça Teles
Planície “in” Hora Aberta

domingo, 27 de maio de 2012

''CÂNTICOS''


Certos cantares são quase eternos,
nascem uns que vieram de outros
que beberam às fontes,
aos fundamentos do ar.

Certas canções, as trazemos do berço
ou de antes dos salmos,
as entoamos de cor
anônimas, acéfalas,
um só coraçõe pulsante
de lágrimas e pétalas.

Priscos diamantes -
cantigas, idílios ou cânticos -
certos cantares seriam eternos
(os anjos não considerados)
não fosse o princípio,
e desde o princípio
é o verbo em glória.
(Amar).

(Fernando Campanella)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

'Transitório'


Amanheço com a chuva
dos anos da memória
e nada exaure mais
que este gosto de sal

E quanto queria
amanhecer longe
destes páramos
e perder com justeza
e sorrir com a vida
mas nada transporta
ou redime
os amigos mortos

A vida dói na alma
como uma tina de fel
e guardamos o segredo
de continuar vivos
para incrível surpresa
dos que comandam a vida

Luís de Miranda

(Uruguaiana, RS - 6 de abril de 1945) é um premiado poeta brasileiro, autodenominado autor da obra poética mais extensa do mundo, com 2.705 páginas (seguido por Pablo Neruda, com 2.080 páginas).[carece de fontes] Trabalhou e escreveu em diversos órgãos de impressa de Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

Em 1987 é eleito para a Academia Rio-Grandense de Letras, e em 2000 é eleito para a Academia Sul Brasileira de Letras.

'O CISNE'

Calmo, do espelho azul d’água profunda e calma
à face errando, os pés, lânguido, o cisne espalma
E desliza. Da neve os raros flocos brancos
Lembra o fino frouxel que lhe amacia os flancos;
Línea vela parece a asa que encurva e brande,
Esbelto, e ora retrai, ora sacode e expande;
Entre as ninféias indo, o alvo pescoço apruma,
Colhe-o após, some-o n’água, estende-o sobre a espuma,
Curva-o mole e gracioso, e ânfora antiga imita.

Dos pinheiros ao longo, onde o silêncio habita
E a paz e a sombra, vai; rastejando na esteira,
Que atrás fica, semelha intensa cabeleira
A basta ervagem fresca a palpitar. A gruta,
Que a alma atrai do poeta e a voz da tarde escuta,
Praz-lhe e a fonte que além flui, regurgita e bolha.
Vendo-as, lento se arrasta. às vezes numa folha
Leve cai do salgueiro e, em sua queda, leve,
Roça-lhe, muda sombra, as plumas cor de neve.
Caminha agora ao largo; o implexo da ramagem
Deixa e a parte procura onde o esplendor selvagem
Diz melhor com o brilhar d’água anilada e pura.
Do lado é a parte mais azul que ele procura;
E lá vai... a cismar sobre as ondas serenas,
Entrega à luz do sol a brancura das penas.

Depois, quando, em redor, se confundem, caindo
A noite, do amplo lago as margens, e no infinito
Horizonte há somente um ponto avermelhado;
Quando tudo quedou, quando no ilimitado
Do céu paira da lua o globo enorme e albente;
Quando acende o lampiro a luz fosforescente,
E nem o menor sopro o débil junco embala:
O cisne, sob o olhar dessa noite de opala,
Em seu lago sombrio, enfim, descansa; e, acaso
Visto de alguém, assim, lembra de prata um vaso...
Põe sob a asa a cabeça, os olhos sonolentos
Fecha, e dorme, feliz, entre dois firmamentos.

Sully Prudhomme
(Trad. de Alberto de Oliveira)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

René Armand François Prudhomme, mais conhecido como Sully Prudhomme (Paris, 16 de Março de 1839 — Châtenay-Malabry, 6 de Setembro de 1907), foi um poeta francês.

Filho de Sully Prudhomme, comerciante, e de Clotilde Caillat, ingressou num instituto politécnico para estudar na área científica. No entanto, devido a uma doença oftalmológica, teve que desistir desse objectivo. Trabalhou numa fábrica, como escriturário, mas, descontente, decidiu estudar direito, em 1860.

Em 1865, publica a sua primeira obra poética, Stances et Poèmes.

Pertence ao grupo de poetas parnasianos, responsáveis pela publicação da revista Parnasse contemporain.

Foi eleito para a Academia Francesa em 1881, ocupando a cadeira 24.

Foi o primeiro autor a receber o Nobel de Literatura, no dia 10 de dezembro de 1901.

Sully Prudhomme morreu em Châtenay-Malabry, França, em 6 de setembro de 1907, e foi sepultado no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris.

*Um poema de Victor Hugo*

(Paint by Thomas Cole)

Misérrimo montão de vaidades do homem,
Sonhos! que o menor vento e o menor sopro somem
Como se acaba tudo e tudo se dispersa!
O poderio, a dor, a dor na noite imersa,
Cólera, orgulho, amor, tudo, tudo, em resumo,
Não é mais do que pó, não é mais do que fumo!

Para que tanto afã, por que tanta esperança
Se em vão se corre atrás de um bem que não alcança?
Dizei, homens! por que? Por que sempre rugindo
Ameaçais mar e céu? Dir-se-ia, em vós ouvindo
Soprar nesse braseiro aceso de paixões,
No meio do furor das vossas ambições,
Em torno do que a alma abraça, crê e espera,
Que sois feitos de bronze, e entanto sois de cera!

Victor Hugo
(Trad. de Fontoura Xavier)

O SINO


Quisera ser um sino ressonante
Para dizer, quando rompesse o Dia:
Ao que vive entre lágrimas: - “Confia!”
E ao sorridente e valoroso: - “Adiante!”

Para lançar meu cântico vibrante,
Que desperta venturas e energia,
E afugentar a lúgubre agonia
Que entenebrece o coração do amante.

Para à Mulher ir segredar: - “Redime”;
Ao Pecador: - “Vai reparar teu crime”;
Ao velho: - “Pensa na passada história”;

Para, afinal, reconfortar o Atleta,
E, ébrio de sons, quando morresse um Poeta,
Rachar meu bronze repicando à Glória!

Salvador Rueda
(Trad. de Humberto de Campos)

Salvador Rueda Santos (Macharaviaya (caserío de Benaque), Málaga, 3 de diciembre de 1857- Málaga, 1 de abril de 1933), fue periodista y poeta español. Se le considera precursor español del Modernismo

segunda-feira, 21 de maio de 2012

'Até se diluir'


A tarde, em lise nestes vultos
Que cruzam meus passos lentos,
Confunde verdes no mar cinzento.
Gelo e fogo por dentro!

Deixo-me divagar, devagar,
No andar retrô, no vento que enverga.
Ninguém suspeita que me rasga
A fome oculta na nesga da prega.

Ninguém imagina que levo no esboço
Poças de silêncio e alvoroço,
Crispado e liso, vácuo e peso...
Largo- estreito, passo.

E um carro amarelo cruza avenida,
Dobra esquina, atrás da ilusão,
Deixando rastros do som da vida.

Minh’alma, numa bolha de sabão,
Intenta pousar no chão,
Como pingo de chuva.

Stella de Sanctis

Stella Maris de Sanctis (assina seus escritos como Stella de Sanctis), nascida e criada em Campinas - SP, formada em Biologia pela PUCC -Pontifícia Universidade Católica de Campinas-, é docente de Biologia, com passagem pela coordenação pedagógica, autora de peças teatrais infanto-juvenís ( algumas encenadas: Santuário, Ouro Azul, Droga: A Barca para o Inferno, Paralelo Brasil-Japão), autora do livro "Roteiro das Cores - Poética", com lançamento do segundo livro ,"O Fogo das Palavras", previsto para final de março deste ano, juntamente com a segunda edição de "Roteiro das Cores", ambos pela editora Nelpa.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

''XXXIV''


Esta chuva tem uma melancolia
de úmidas árvores, de pálidas luas,
de aromas sonâmbulos no tempo.
Um frêmito perpassa os ruídos
e bate à porta de meu silêncio
e entra.

Algo em mim, eu sinto,
chama as almas
que de outros reinos
isentas de voz me chegam.
(Eu sou o dócil instrumento
daquelas naturezas dormentes
que eu sei
agora me são algo de dentro)

Fernando Campanella
Da série 'O EU confesso'

'Sonho'


Lá do umbral de um sonho me chamaram…
Era a suave voz, a voz querida.

— Diz-me: virás comigo a ver a alma?…
Veio a meu coração uma carícia.

— Contigo sempre… E segui em meu sonho
por uma larga, precisa galeria,
sentindo o roçar da veste pura
e o palpitar suave da mão amiga.

Antonio Machado

"Silêncio"


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octávio Paz

domingo, 13 de maio de 2012

"ESQUECIMENTO"


Tentei me lembrar
dos momentos importantes,
felizes, mesmo distantes.
Tentei,
vasculhei a memória,
perscrutei,
numa desgastante
teimosia.
Nada. Estava vazia.
Onde está a alegria que vivi ?
Sou tão esquecida,
esqueci...

Wadad Naief Kattar Camargo

Tal é a nostalgia...


Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.

Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.


Rainer Maria Rilke,
in Antologia Poética
Tradução Geir Campos

"CAMINHANTE"

Sem rumo, sem norte
sem prumo,
mergulhei na vida,
Morros escalei, curvas venci
e em algumas mágoas me feri.
O vento da solidão fustigou
soltando as folhas da saudade,,
que amenizaram o caminho,
que os desenganos cavaram.
Trajando o clássico cinza,
o inverno chegou gelado,
nublado, querendo intimidar.
Esperando por trás da janela,
com o olhar verde terno
eu o consegui aquecer.
Que cessem os ventos
e tinjam-se de cores os vales!
É hora de despertar a ilusão,
semear a esperança
e fecundar novamente o coração.
Novo ciclo vai recomeçar...
É preciso espalhar quimeras no ar...


Wadad Naief Kattar Camargo

'Cair da noite'

Cai a noite a mudar devagar os vestidos
que uma franja de árvores velhas lhe segura;
olhas: e separam-se de ti as terras:
uma que vai para o céu, outra que cai;

e deixam-te, sem pertenceres de todo a qualquer delas,
não tão escuro como a casa silenciosa,
não tão seguro a evocar o eterno
como a que cada noite se faz estrela e sobe;

e deixam-te (indizível de desenredar!)
a tua vida, angustiada, gigantesca, a amadurar, tal
que, ora limitada ora compreensiva,
alterna em ti - ou pedra ou astro.

Rainer Maria Rilke

sexta-feira, 4 de maio de 2012

ÍNTIMO TEMPO



Não me pergunte a hora, certamente não é a sua, talvez a minha.
Ela anda depressa, às vezes lentamente caminha.
Hoje qual é a estação?
Não sei se é inverno ou verão.
A temperatura? É a do coração.
O momento é o meu e não o teu!
Vivemos juntos no aparente instante presente ,
Mas em tempo sentido diferente.
O calendário é farsa de um disfarce,
Que não engana a nossa íntima face.

Jorge Cabral.

(Porto Alegre- RS)

INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER



As palavras caiem pesadas
no vácuo azul
entre o céu e o mar
uma distância
feita de gestos outrora
sonhados
em barcos azuis

Meus olhos
encharcam-se de espanto
fechando-se sob o pranto
de uma inevitável tristeza

Do outro lado de mim
as pontes ruíram
num pressentido fragor
de guerra e de amor

Estende-se agora um manto
de névoa num casulo azul
guardando intacta
toda a beleza

Luiza Caetano
(Portugal)

ANIVERSÁRIO



o brinde
da vida
aflora em festa

já borbulha
na borda
da manhã que começa

tim-tim, minha carne:
reacorda!

tim-tim, minha alma:
fica ébria!

Adriano Wintter
(Poema que ganhei do estimado poeta por ocasião de meu aniversario.)
28/04/2012

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Verdade


A verdade é a luz pequena
ardendo na escuridão.
Da terra, ela nasce e cresce
de vida, na tua mão.
Quem a encontra, gasta um rio
de palavras, inaugura
braços e barcos, mostrando.
Ninguém a vê. De repente,
é um sol imenso no peito
da multidão: é a verdade
no centro do seu poder.
Mas ela também se acaba.
E quando se acaba
é uma brasa oca, faminta,
devorando o coração.


Thiago de Mello
In: Poesia Comprometida Com a Minha e a Tua Vida

quinta-feira, 19 de abril de 2012

CARTA ABERTA


Ao anagrama Magog

aos que de mãos impolutas assinam a miséria
aos que preferem o bunker ao abismo
aos que propõem civilizar o coração selvagem
aos que no teorema petrificam o poema
aos que não riem do dicionário
aos que emplumam o cão
aos que evitam os olhos do inimigo
aos contra-regras do gran teatro del mundo
aos que prefixam o radical
aos que prometem Ítaca sem epopéia
aos que rezam para adormecer o escorpião
aos que não sabem fazer o plural
aos que horizontalizam a paisagem
aos que tomam assento

a todos advirto:
escrever é também vingar-se


Fernando Fábio Fiorese Furtado
De Papéis Avulsos

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Paradoxo dos Sentidos


A distância nos aproxima.
A ausência traz tua presença.
Quando não te vejo mais te percebo.
No silêncio a sós ouço tua voz.
Na solidão ando contigo em pensamento pela mão.
Enxergo claro a noite através da escuridão.
No antagonismo da adversidade
mostra-se os sentidos e a autenticidade.
Será sempre assim?
Precisaremos do oposto em nosso posto.
Do amargo para lembrar o doce do gosto.
Indeléveis marcas da vida são os reversos.
Que muitas vezes só entendemos nos versos.

Jorge Cabral
(Porto Alegre RS)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

LIII


Aspiro a eternidade neste vento.
que entra pela janela, de surpresa.
Ah! pudesse eu saber se o pensamento
é uma emanação da natureza...

Onestaldo de Pennafort
In: Poesia

Aquela criança


Aquela criança, aquela
ainda não compreendeu o mundo
ainda se busca no espelho
ainda inventa viagens
ainda ri sem motivo
- quando os fantasmas deixam.

Aquela criança, aquela
teve as asas cortadas
e a máscara afivelada
na morte dos seus amores.

Aprendeu que o tempo
- como tudo mais -
é só miragem.

Lya Luft

(Tela de William Bouguereau)

COMBOIO


Por sobre as águas cismam os ventos,
cismam os ventos sobre as águas.
Os navios sonolentos
lá vão sobre as águas...


À proa levam esperanças,
na popa pressentimentos.
O mar desfia ondas mansas,
enquanto cismam os ventos.


A água leva e traz os navios
e os pensamentos...
A viagem é dos navios,
mas quem comanda são os ventos.


Onestaldo de Pennafort
In: Poesia

terça-feira, 27 de março de 2012

ODE AO OUTONO



1

Estação de neblinas, doce e fecunda!
Companheira íntima do sol, com ele vais,
Quando ele abençoa e inunda
De frutos as videiras junto dos beirais;
Pra vergar de maçãs a musgosa macieira
E a fruta por inteiro tornar madura
Pra inchar as cabaças, prà avelã ficar gorda
Com uma doce amêndoa; há flores com fartura
Pra que a abelha as tenha sempre que queira
E pense haver dias quentes a vida inteira,
Pois o verão seus favos pegajosos transborda .

2

Quem não te viu já de fartura rodeada?
Às vezes, quem te procura sob outros céus,
No chão dum celeiro encontra-te descuidada,
O vento da limpeza ergue-te os cabelos.
Ou num rego meio-ceifado, em fundo torpor,
Tonta do perfume das papoulas, parada
A foice, junto da ceara a ceifar te demoras;
Às vezes, tens direita, qual rebuscador1,
A pesada cabeça, ao passar a ribeira;
Ou, junto de a prensa, observas tranquila
A cidra a gotejar no fluir das horas.

3

Que é das canções da Primavera? Onde hão-de estar?
Esquece-as, tua música também tem valor –
Nuvens orlam o dia morrendo devagar
Tingem os restolhos de sua rósea cor;
De os mosquitos a dorida serrazina,
Crescente, entre os salgueiros do rio se ouvia,
Diminuindo, se o vento fica mais brando;
Os cordeiros balem na próxima colina;
Cantam grilos, alto, mas cheios de harmonia,
Num quintal, pisco vermelho assobia,
E as andorinhas chilreiam nos céus em bando.

John Keats (1795-1821)

in «Antologia de Poesia Anglo-Americana – De Chaucer a Dylan Thomas », edição bilingue, pp. 239 e 241, Selecção, tradução, prefácio e notas de António Simões, edição “Campo das Letras”, Outubro de 2002.

segunda-feira, 26 de março de 2012

"TEATRO DE SOMBRAS"


Façamos um acordo, sombra minha:
brindaremos a cada noite às mariposas
e sob o pálio das Três Marias tomaremos
porres de dracenas e jasmins;

terei assim a face que quiseres
- dos párias, dos deserdados,
dos medos que arquitetam a noite -
teu servo, e personagem, porei em cena
o fantasma que bem buscares.

Mas, atenta, ouve-me, quando a lua,
após a mais discreta vênia,
sonolenta de seu palco se afasta,
e tão logo os galos cantem,
ensaiando o dia, debulhando a madrugada,
já de ti me disperso, não mais te enxergo.

Recolherás tua cauda, então, saciada e quieta,
adormecerás nossa ressaca, sombra minha,
atrás, bem atrás de mim.

Fernando Campanella

"Do lado da manhã"


Do lado da manhã revi o mar,
trazido no olhar de quem partia.
Erectos, os mastros, desnorteiam
as gaivotas que ostentam uma âncora
pintada nas penas.
Um perigoso vento marítimo
inclina-se sobre a noite caiando, de negro,
a deriva dos búzios.
Os barcos ancorados nos meus braços,
impedem-me de abraçar o mar.
O voo impreciso dos veleiros
torna errante a espuma das conchas.
Mas que mar é este, anterior às dunas,
só conhecido pelos náufragos?

Graça Pires
De Não sabia que a noite podia incendiar-se nos meus olhos, 2007


Agora no Brasil o livro da poetisa portuguesa , Graça Pires,

"Uma vara de medir o sol"

publicado pela Editora Intermeios -
Casa de Artes e Livros, de Joaquim Antonio Pereira.
Rua Luís Murat, 40 - Pinheiros, São Paulo, SP 05436-050
-
Um livro que não pode faltar na biblioteca de quem ama poesia contemporânea de ótima qualidade.
Encomende seu exemplar através de :

www.intermeioscultural.com.br

domingo, 25 de março de 2012

'NOTICIAS LIVRES'


Chove um dia de maravilhas interiores
neste jardim que tudo compreende
e onde está fincada a alma das plantas,
apaziguada.
Sabe-se que os olhos estão acesos
e o dialogo que interromperam
se continua com a chuva.
Mais do que se pode conhecer,
permanece nos pequenos ramos:
ainda mais soberanamente,
que agora lavados.

Quando a chuva parar, outra dança
(irregular, porém perfeita)
vai ressurgir de insetos e zumbidos.

Este é o jornal do jardim de hoje.


Jorge Wanderley
In: Antologia Poética

sábado, 24 de março de 2012

"DOR OCULTA"


Quando uma nuvem nômade destila gotas,
Roçando a crista azul da serra,
Umas brincam na relva, outras tranquilas
Serenamente entranham-se na terra.

E a gente fala da gotinha que erra
De folha em folha e, trêmula, cintila,
Mas, nem se lembra da que o solo encerra
Da que ficou no coração da argila!

Quanta gente que zomba do desgosto mudo,
Da angústia que não molha o rosto
E que não tomba, em gotas, pelo chão.

Havia de chorar, se adivinhasse,
que há lágrimas que correm pela face
e outras que rolam pelo coração!

Guilherme de Almeida
in Messidor

quarta-feira, 21 de março de 2012

"Baú"


Seguir com pés envoltos
por panos de luz,
entender o dia
como um baú de possibilidades.
E sorrir,
porque o tempo nos encontra
e é mais recomendável
que estejamos livres,
suaves
e iluminados

Wilmar José Matter
(Escritor gaúcho)

terça-feira, 20 de março de 2012

"MONÓLOGO"


Há restos de tempos. . .
folhas soltas aos ventos
aos luares despertos.


Há restos de tempos. . .
noites lúgubres.
. . . momentos aos cantares da vida.


Há restos de tempos. . .
perdidos nos templos
das memórias aos sonhos.


Há restos de tempos.
em mim,
desfolhados, molhados.
. . . céus de chuvas sobre folhas
amarelas, esquecidas deformadas.



Alviana Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

segunda-feira, 19 de março de 2012

Respirar...

(Tela de Anouk Lacasse)


Respirar, invisível dom – poesia!
Permutação entre o espaço infinito
e o ser. Pura harmonia
onde em ritmos me habito.


Única onda, onde me assumo
mar, sucessivamente transformado.
De todos os possíveis mares – sumo.
Espaço conquistado.


Quantas dessas estâncias dos espaços
Estavam já em mim. E quanta brisa
Como um filho em meus braços.


Me reconheces, ar, nas tuas velhas lavras?
Outrora casca lisa,
céu e folhagem das minhas palavras.


Rainer Maria Rilke
In: Poesia - Coisa
Tradução: Augusto de Campos

"A nós , nos cabe andar"



A nós , nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,

são mínimos pedaços
do que há de ficar.

É perda pura
tudo o que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.

Jovem, não há virtude
na velocidade
e no voo aonde for.

Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.


Rainer Maria Rilke
In: Poesia - Coisa
Tradução: Augusto de Campos

PÁSSARO SOLITÁRIO


Ceifaram-me as asas
antes de as sentir

Como
abri-las
senão imaginando?


Casimiro de Brito
In: Ode & Ceia
Poesia 1955-1984

domingo, 18 de março de 2012

"RECORRENTE"



Às vezes, a dor de chuvas passadas
cai em mim tão fina, reelaborada,
a tanto de não ser eu mais que uma bolha
na espuma da tarde molhada.

(Fernando Campanella)

quinta-feira, 15 de março de 2012

RIO VERDE


Para melhor compor as madrugadas
também os galos acordavam cedo.
O vento ao passar pela varanda
contava à folhagem um segredo.
A hora era imensa e tão pouca
ó rastro da manhã que já desanda
no tempo, despetalando sim cada
palavra frágil flor de nossa boca.
Os colibris voavam bailarinos
sobre as sépalas verdes do futuro.
A brisa prenuncia assim os finos
dedos da chuva fria sobre o muro.
Então o relógio para, a vida zera.
Desfaz-se a neblina de quimera.

Lenilde Freitas

MÚSICA SURDA



Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.


Dante Milano
• In Obra Reunida
Organização e estabelecimento do texto,
Sérgio Martagão Gesteira
Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, 2004

AO TEMPO


Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida


A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

Dante Milano
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.41. (Pedra mágica, 1)

CONTA-ME OUTRA VEZ

(Tela de Jack Ventriano)

Conta-me outra vez, é tão bonita
que não me canso nunca de a ouvir.
Repete-me de novo, os dois da história
foram felizes até à morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de a enganar. E não te esqueças,
apesar do tempo e dos problemas,
continuavam a beijar-se cada noite.
Conta-me mil vezes, por favor:
é a história mais linda que conheço.

Amalia Bautista

CUÉNTAMELO OTRA VEZ

Cuéntamelo otra vez, es tan hermoso
que no me canso nunca de escucharlo.
Repíteme otra vez que la pareja
del cuento fue feliz hasta la muerte,
que ella no le fue infiel, que a él ni siquiera
se le ocurrió engañarla. Y no te olvides
de que, a pesar del tiempo y los problemas,
se seguían besando cada noche.
Cuéntamelo mil veces, por favor:
es la historia más bella que conozco.

Amalia Bautista

LAS HORAS PASAN LENTAMENTE...


Las horas pasan lentamente
Como el desfile de un entierro
Llorarás la hora en que lloras
Que huirá también rápidamente
Como pasan todas las horas

Guillaume Apollinaire
(Versión de Andrés Holguín)

"A la santé, V"
''Que lentement passent les heures''
Que lentement passent les heures
Comme passe un enterrement

Tu pleureras l'heure où tu pleures
Qui passera trop vitement
Comme passent toutes les heures
 
Originale en français
de
 
Alcools (v)  de  Guillaume Apollinaire

'Tempos-juncos'


Na margem do lago,
Onde as pedras são tempo,
Onde o tempo é de pedra.
No lago da margem,
Tempos, juncos,
Na margem do lago,
Santos, juntos.

Velimir Khlébnikov
(Tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman).

domingo, 11 de março de 2012

Como um lamento



Tento esboçar o tamanho da lua cheia
no vértice das empenas viradas a nascente.
Tento calcular a geometria do mar
que bate nos limites do molhe
como um lamento adivinhado.
Tento seguir as pombas que invadem as cidades
com rumores de solidão colados nas asas.
Trago a enfeitar-me o decote pérolas de areia e sal.
A surpreendente claridade das águas
lava meus olhos da sugestão de tormenta
que guardo por hábito sobre o rosto.


Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

"ESTRANHA SOMBRA"


A noite entra
sem levantar os olhos.

A lâmpada acesa
é mero lampejo
— sorriso sem alegria.

No desenho do prato
sobre a mesa
um pássaro cruza o horizonte
onde rubra declina a luz do dia.

Por que sangra
o céu desta paisagem?

Por que resmunga
lá fora a ventania?

Lenilde Freitas

sábado, 10 de março de 2012

"PONTO DE FUGA"


"...Earth's the right place for love..."
("...A terra é o lugar certo para o amor...")
(Robert Frost)


Fitam me olhos de folhagens
molhados de chuva no jardim.
Não sei se me dizem algo
ou se trago carências de um sim.


Se imagem é degredo, ignoro -
tão míope o infinito
onde paralelas haverão de se unir.


Fernando Campanella

quinta-feira, 8 de março de 2012

Caio Fernando Abreu


Te desejo uma fé enorme
em qualquer coisa, não importa o que,
como aquela fé que a gente teve um dia,
me deseja também uma coisa bem bonita,
uma coisa qualquer maravilhosa,
que me faça acreditar em tudo de novo,
que faça a cada um de nós acreditar em tudo outra vez.”

Caio Fernando Abreu