A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

''Fui eu''


(Tela de Emile Munier)
 
Fui eu essa menina que me espia
- melancólico olhar, sereno rosto,
postura fixa e o todo bem composto -
no retrato que o tempo desafia.
Fui eu na minha infância fugidia
de prazeres ingênuos, e o desgosto
de sentir tão efêmera a alegria
bem depressa trocada em seu oposto.
Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa
e tudo altera nem sequer deixou
um grão de infância feito esmola escassa.
Fui eu: e na figura só ficou
o olhar desenganado, na fumaça
em que a criança inteira se mudou.

Fernando Py
in '70 poemas escolhidos'
 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

'O MOMENTO DIVINO'



Quando o crepúsculo caiu,
foi que notaste como as coisas todas são infinitas...

Quando o silêncio te envolveu,
foi que sentiste as pulsações mais profundas do teu ser...
ser, aquilo que está dentro da casca, na interioridade.

E então sonhaste
que o sangue te batia nas artérias
ainda sob o impulso primordial
do Instante da criação...

E que o teu peito ofegava
ainda sob cansaço
das migrações dos povos ancestrais...

E te pareceu que chegavas do fundo dos tempos
como um esclarão das gerações inumeráveis,
que viesse explorando a estrada indefinida,
e ao fim da caminhada
trouxesse ainda nos olhos
a mesma interrogação ansiada
da partida...

E te pareceu que respiravas
ao ritmo das marés montantes e vasantes
ao ritmo das montanhas,
ao ritmo do arfar da Terra toda,
quando mais pesa sobre ela, pela noite,
a mudez do infinito ardendo de astros!...

Tasso da Silveira
(MURICY, 1936, p. 167)

''DIÁLOGO''


Debruçados sobre a vida,
indagamos seus mistérios
e raramente alcançamos
suas respostas cifradas.

Ao calor do interrogar-se
nuvens ocultas esgarçam-se,
a luz em nós amanhece.
Helena Kolody 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

'FLORES'




Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

'LEMBRA?'




Lembra o tempo
em que você sentia

e sentir
era a forma
mais sábia de saber

E você nem sabia?


Alice Ruiz

'REQUIEM'



Não escreverei sobre ausências.
Ausência é bandeira de nada.
É ter partido
em direção de um país sem lodo nem lama.
Onde a identidade se faz de afeto.
E a dúvida é poço entreaberto
e o coração um fruto de semente madura.

Ausência é só lembrar, é só lembrar!

Ausência é só lume de esquecimento.
É só limo de eternidade.
É só flor de certeza e agonia.
Só o corpo impedido, só surdo desejo,
só pele mudada em terra,
só tempo feito areia.

Ausência é só lembrar, é só lembrar!

LINDOLF BELL
In Requiem, 1994

''Hora Grave''



Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

Rainer Maria Rilke
(Tradução: Paulo Plínio Abreu)

'Solidão'


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

''O Último Poema''


Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação

Manuel Bandeira

sábado, 15 de setembro de 2012

'A incidência da luz '


Monótonos se tornam os gestos com que refaço,
grão a grão, o celeiro dos dias, mil vezes ardilosos,
na arca onde se guarda o pão
sem a pressa da fome em ávidas bocas.
Pela janela iluminada vê-se a jarra das mimosas
e o lenço colorido preso à haste do candeeiro.
É o instante em que as sombras dançam
em redor da noite perseguindo as mínimas variações
da luz no amarelo excessivo dos malmequeres
e nas asas das borboletas presas nas traves do tecto.

Graça Pires
De A incidência da luz, 2011

'PRESERVAÇÃO'


Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serranias;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo te faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!

Miguel Torga
In: Antologia Poética

domingo, 9 de setembro de 2012

"Olhos"

Dois pássaros voam,
de um leve azul inebriados.
De onde os vejo
Só há o espelho quieto de um lago.
E já não sei o que é mais visível
se o que enxergo, as aves,
com meus olhos,
ou se aquelas flautas moventes
sincronizadas,
que sonho
com os olhos quietos do lago.

Fernando Campanella

' As Coisas Transitórias'


Irmão,nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

'TODA VIDA É RASCUNHO PERMANENTE '



XXIII

Toda vida é rascunho impermanente
manuscrito com tinta azul lavável.
Não divise futuros, não invente
eternidades nem se torne escrava

de horizontes perdidos e apagados.
Somos mortais, por isso celebramos
casuais centelhas de imortalidade.
Por mais que dure e se transvie em ramos,

uma árvore tem a sua hora.
Se a chuva a curva, sofre mas não chora,
senão, dizem, até se alegra e gosta

sem se dar ao trabalho de sorrir.
Deus, amor, lhe dê olhos de menina
que a paisagem de hoje descortinem.

Tite de Lemos
In: LEMOS, Tite de. Caderno de sonetos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

Biografia: Tite de Lemos

Newton Lisboa Lemos Filho (Rio de Janeiro RJ, 1942 – idem, 1989). Foi poeta, letrista., dramaturgo e jornalista.
Publicou seus primeiros livros de poesia, Marcas do Zorro e Corcovado Park, em 1979. No final dos ...
anos de 1970 produziu três peças teatrais: A Serra, A Liça e A Bola. Trabalhou como jornalista, nos anos seguintes; foi redator do jornal carioca O Globo. Em 1988 foi lançado seu livro Caderno de Sonetos e, em 1989, ocorreu a publicação póstuma de Outros Sonetos do Caderno. No ano de 1970, escreveu em parceria com Gutemberg Guarabira, Luiz Carlos Maciel, Sidney Miller, Paulo Affonso Grisolli e Marcos Flaksman, o musical “Alice no país divino-maravilhoso”, do qual participou Sulei Costa, que viria a se tornar sua parceria musical mais constante. O espetáculo estreou no Teatro Casa Grande, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. No início da década de 1970, junto a Luís Carlos Maciel, Torquato Neto e Rogério Duarte, foi editor da revista literária Flor do Mal. A ilustração que escolhi faz referência ao campo de sua poesia que gravitava entre o clássico e o experimental.

domingo, 26 de agosto de 2012

''JUBILAÇÃO''


(Painting by Alfred Gockel)


Deus me deu um amor na madureza...
(Carlos Drummond de Andrade)

Concedeu-me Deus um amor aos cinquenta
quando Eros põe as barbas de molho
já transposto o vale das primícias
e das tormentas;

estendeu-me para leito o alvo linho,
acercou-me dos anjos de Jó,
deu-me calhas, de anteparo, para a tempestade.

Coroou-me de alvíssaras, no retorno,
e de minhas cismas fez um Éden redivivo -

pôs a arder em mim a chama mesma
dos que não tomam o santo nome do tempo
em vão.

Para o gozo deu-me romã e serpente,
e a vontade infinda, a fome grata de menino.

Fernando Campanella

'ELEGIA N° 2'


Cheiro de flor ao sol. Setembro.

Alada flor,
atingida em pleno vôo,
tombou no asfalto.

O vento fareja suas penas macias,
e só ergue-lhe as asas,
a querer ressuscitar se vôo
ágil e sereno.

Algo belo e frágil
a ser preservado
evolou-se.
E falta.


Helena Kolody
de Trilha Sonora






'Colheita"


Nas asas do sonho arde o meu desejo,
Confiando ao vento minha chama clara,
Que corre o espaço profundo colhendo doçuras.
Sonhar é preciso-gratuito em qualquer lugar,
Mas há que saber trabalhar a quimera,
Acordar ação em hora certeira,
Entender a magia e os limites do tempo.
Sonho é semente de horizonte:
Pede plantio, trabalho, espera.

Stella de Sanctis

terça-feira, 21 de agosto de 2012

***



se um dia tudo for cinza, lembra do vento, ele assobiará uma canção azul...

Denison Mendes

''SONHANDO''

(Tela de Bruno Amadio )

Faço poemas
como criança que chora
como navio que se despede
como pássaro alvejado.


Faço poemas
na paisagem das horas
ao entardecer dos sonhos.


Faço poemas
sem desencanto
como uma vela morrendo
ou como um louco
desenhando painéis
de falsas caricaturas.


Faço poemas crianças
razão de um viver
sabor de fruto
amargo ou doce.


Faço poemas
como um maestro
iludindo-me
de todas as melodias.

Faço poemas.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

terça-feira, 14 de agosto de 2012

'E N T A R D E C E R'


O crepúsculo desce! A tarde finda. . .
Que drama ante os meus olhos se descerra!
O sol, cansado da batalha infinda,
As pálpebras de luz no ocaso, cerra. . .


Silente a tarde a imensidade brinda!
Infinita saudade me soterra! . . .
Ante esta quadra misteriosa e linda,
Recordo-me dos céus de minha terra!


Olho o poente que aos poucos se avermelha!
Nesta contemplação a alma se ajoelha,
Deslumbra ao calor das grandes ânsias


E sequiosa do sol de outra paragem
Integra-se à beleza da paisagem
E mergulha na bruma das distancias! . . .



Jansen Filho
In: Obras Completas

"PÔR DE SOL"


Resfolga a Natureza! Em convulsões tamanhas,
Desce a gaze do céu envolvedora e fina. . .
O espaço esconde a luz da tarde nas entranhas
E sorve as emoções do dia que termina. . .

A cigarra desata um rasgo que fascina
Entre as copas azuis das arvores estranhas!...
A tarde cede! O céu desmaia! O Sol declina
E tomba, ensangüentando a crista das montanhas!...

Espalham-se pelo ar as queixas mais sentidas
De bronzes a gemer, na hora da Ave-Maria,
Num dobre sepulcral de nênias repetidas!


Do côncavo do azul rola a sombra envolvente
E a grande procissão dos astros se inicia
Para o enterro do sol no mausoléu do Poente!



Jansen Filho
In: Obras Completas

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

'SOMA'


De que vale ir somando a própria idade?
certo é somá-la, em dobro, no cansaço
do dia-a-dia lento, na verdade,
qual se escorresse em milenar espaço.

A compreensão da inutilidade
do gesto amigo, do fraterno abraço,
alonga o dia, alonga a soledade,
envelhecendo o coração e o passo.

O tempo, indiferente, traz enganos,
faz os minutos parecerem anos
e num segundo um século caber.

Mas, nada importa a idade acontecida:
importa apenas a canção da vida,
a letra e a melodia de – Viver!



Graciette Salmon
In: Ciranda

''SOLILOQUIO DE SEGISMUNDO''

(Painting by Kathy Ostman-Magnusen)

Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso, que recibe
prestado, en el viento escribe,
y en cenizas le convierte
la muerte, ¡desdicha fuerte!
¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Sueña el rico en su riqueza,
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.

Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño:
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.


LA VIDA ES SUEÑO, Pedro Calderón de la Barca

(Painting by Kathy Ostman-Magnusen)

''SOBREVIVÊNCIA''



Tudo passa, dor e riso,
venturas em róseo friso,
males que em roxo debruam.
Passam deuses, criaturas,
horas azuis ou escuras,
nuvens que alto flutuam.
Tudo passa, gesto e face,
mas a esperança renasce
. . . e as rosas continuam.


Graciette Salmon
In: Ciranda

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"A tarde me convida..."


A tarde às vezes me convida
para um exílio nos campos
entre contornos de montes
ante o silêncio de uma ermida.

A uma luz inclinada
por um certo sopro de outono
às vezes a tarde me quer voo
em transparências de azul
por entre as nuvens à deriva.

A tarde, soberana, irreverente,
se esquece às vezes
que não tenho o descompromisso
das aves, que sou gente.

Fernando Campanella

terça-feira, 31 de julho de 2012

''VIII''


Trânsfuga de agosto –
um prurido rouco –
tanto de mim
em ipês amarelos e roxos.

Fernando Campanella
Poema da série 'Efemérides"
(Atualizado)

'VER'


O dia. Arcos da manhã
em nuvem. Riscos de luz
como vidros arriados.

O claro. A praia armada
entre a sintaxe do verde.

Áreas do ar. Aves
navegando as lajes
do azul.

Antônio Carlos Secchin

segunda-feira, 23 de julho de 2012

"SONETO"


Desponta a estrela d’alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.

Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh’alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!

Fagundes Varela
In ‘Vozes da América’ (1864)

domingo, 15 de julho de 2012

''SE UMA ESTRELA CAíSSE ...''

(Paint By Gustav Klimt)
(July 14, 1862 – February 6, 1918)


Sob o céu estrelado
implorei não me deste
o teu beijo esperado,
tantas vezes sonhado.
E volvendo o risonho
rosto aos astros, disseste :
« Quando cai uma estrela
o que se pensa a vê-la
e com fervor se pede,
Deus infalivelmente
concede. »

Com um sorriso indulgente,
Respondi-te : « Criança ! »
E pensei no meu sonho
e na minha esperança.
E pensei, mas não disse :
« Se uma estrela caísse ... »

José Lannes
in Candeia – l.948.

''MAR CALMO''


Tranquilo, o mar não canta nem ondeia.
O nauta, imerso noutro mar de mágoas,
Os olhos tristes e úmidos passeia
Pela tranquila quietação das águas.

A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta;
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta.

Johann Wolfgang von Goethe
in Poesias Escolhidas

terça-feira, 10 de julho de 2012

''Vieram os pássaros''


Vieram os pássaros, como um poema,
em louca cavalgada por paredes de luz.
Eu ouvi um tumulto de asas.
Ou era a minha própria voz,
enrouquecida pela sede?
Não posso aquietar a boca,
porque me ardem nos pulsos
os escombros de nomes interditos
e o orvalho de meus olhos seca-me a garganta.
Os pássaros, eu sei, voltaram,
e trazem no bico as nascentes do sul.

Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

segunda-feira, 9 de julho de 2012

''SONETO AO INVERNO''


Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfiguras as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma do céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar – inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?


Londres, 1939


Vinícius de Moraes

''TRINTA E DOIS ANOS SEM VINÍCIUS DE MORAES''



''A Vida Vivida''


Quem sou eu senão um grande sonho obscuro em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore dentro da
noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?

De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?

Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?

O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos abraços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?

O que é o meu Amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?

O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante, peregrino de todos os instantes

A quem repondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio

Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso a
Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?

O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontra-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?

O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
o temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado ...
que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?

Vinícius de Moraes
(Rio de Janeiro, 19 /10/1913 — Rio de Janeiro, 9/07/1980)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

'AGORA'


Se tens um elogio a proferir,
é tempo agora.


Não aguardes que o vento da morte
desvaneça da areia da vida
o nome que o merece.


Se há um agravo pungente a perdoar,
é tempo, é hora.


O mais fundo rancor não resiste
a um apelo de braços abertos.


Helena Kolody
In: Sinfonia da vida

segunda-feira, 2 de julho de 2012

'IDEAL'


Preciso semear
em todos os horizontes
brancas paisagens de aves
. . . sendeiro luz aos humanos.


Preciso ver germinar
. . . lá, muito lá,
beijos se encontrando,
desertos sussurrando . . .


preciso ver florescer
nessas vastidões submissas
pensamentos em largos vôos. . .


Desejo então,
nessas nesses raras,
absorver perfeições de céus
. . . ódios sorrindo aos perdões
. . . braços recolhendo ausências
. . . silêncios desenhando canções.



Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

'AO SABOR DOS VENTOS'


Entre ventos de folhas,
ontem,
. . . remansos recados
bailaram cansados.


Entre ventos de folhas,
hoje,
. . . anoiteci cantando,
Horizontes madurando.


Entre ventos de folhas,
amanhã,
. . . amarei saudades,
adocicadas teimosas.


Porque. . .
tua luz,


. . . caricia de brisa sorriso
. . . mares de ondas revoltas,
beijará minh’alma
sempre, sempre,
mesmo AO SABOR DOS VENTOS!



Alvina Tzovenos
In: Buscas de Infinitos

João Guimarães Rosa


Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, E ainda mais alegre no meio da tristeza...

João Guimarães Rosa
Grande Serão Veredas

quinta-feira, 28 de junho de 2012

''O que não se recorda''

(Painting by Willem Haenraets)


Para voltar a ser feliz era
somente preciso ser hábil
ao recordar.
Buscávamos
dentro do coração nossas lembranças.
A alegria talvez não tenha história.
Ao olhar para dentro de nós dois
ficávamos calados.
Teus olhos eram
como um rebanho quieto
que seu tremor reúne sob a sombra
do álamo.
O silêncio
pôde mais que o esforço.
Anoitecia
para sempre no céu.
Não pudemos voltar a recordá-lo.
No mar a brisa era um menino cego.

Luís Rosales
(1910-1992)Espanha

'DESBORDAMENTO'


Por tanta vida que transporto no meu sangue
vacilo
no vasto Inverno.

E de repente,
como por uma fonte que se solta
na estepe,
uma ferida que no sonho
se reabre,

nascem pensamentos
no desértico castelo da noite.

Criatura de fábulas, pelas mudas
habitações onde se consomem as lâmpadas
esquecidas,
transcorre leve uma palavra branca:
voam pombas desde a açoteia
como numa paisagem marítima.

Bondade, regressas a mim:

desfaz-se o Inverno no desbordamento
do meu sangue mais puro,
o pranto ainda pode ser docemente nomeado perdão.


Antonia Pozzi
-Itália-

"Preservação"


Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serranias;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo de faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!

Miguel Torga
de 'Obra Completa'

De Alberto Ceiro...


Vive, dizes, no presente;
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de si próprias, tratando-as por presentes.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro
(Heterônimo de Fernando Pessoa)

terça-feira, 26 de junho de 2012

''LA FUITE DE LA LUNE''



To outer senses there is peace,
A dreamy peace on either hand,
Deep silence in the shadowy land,
Deep silence where the shadows cease.

Save for a cry that echoes shrill
From some lone bird disconsolate;
A corncrake calling to its mate;
The answer from the misty hill.

And suddenly the moon withdraws
Her sickle from the lightening skies,
And to her sombre cavern flies,
Wrapped in a veil of yellow gauze.

Oscar Wilde

'La Fuite de la Lune' was originally published in the Irish Monthly, February, 1877, as part III of Lotus Leaves.

''Quero Chegar ...''

(Painting by Vincent Willem van Gogh)


Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.
Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.
Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.
E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos

Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.
Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.
Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas,
veria as tílias: o horto inteiro
posto em sequência.
E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.
Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.
O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante
do arco dobrado.

Boris Pasternak
1956
(Tradução Nelson Ascher)

(Estse poema de BORIS PASTERNAK pertencem à última fase, quando ele pretendia chegar à dicção mais direta e singela.)

Revista USP, nº 19, set./out./nov. 1993, p. 188-203.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

''Carta aos mortos ''



Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

Afonso Romano de Sant'ana

' Acalanto'


(John William Waterhouse.)

As cordas deste banjo,
tangê-las, uma a uma, num cantar de ninho
de pétalas tecido, rocejando a linho,
desatando em mornos braços o acalanto,
quisera.

O sopro de um arcanjo
no ar dormido, um ruflar tenuíssimo de asas,
macieza de penas - penas de meus cantos -
voejando em rodopios por ruas e campos,
pudera

ir velar-te onde estejas com teu riso claro
acendendo-me as noites de narciso e enfaro.


Ymah Théres
(Lima Duarte - Minas Gerais)
(THÉRES, 1991)

segunda-feira, 18 de junho de 2012

'TERNURA'



Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

Vinícius de Moraes

'SONETO DA FIDELIDADE'


(Minha Filha e meu genro,14/06/2012,bodas em Punta Cana, Republica Dominicana)

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes

(Clique na foto para ver o tamanho original)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

(Excerto de "Song of myself" part 32)


(Foto de Alexander Pylyshenko) (Ucrania)

"Penso que eu poderia mudar-me para viver com os animais,
eles são tão plácidos e independentes,
De pé, eu olho para eles por muito e muito tempo.
Eles não suam nem se lamentam de sua condição,
Não se deitam e rolam acordados no escuro chorando por seus pecados,
Não me deixam enjoado discutindo seus deveres perante Deus,
Nenhum está insatisfeito, nenhum está ensandecido com a mania de possuir coisas,
Nenhum se ajoelha diante do outro, nem para os de sua espécie que viveram há milhares de anos,
Nenhum é respeitável ou infeliz na terra toda..."
(...)

Walt Whitman
(Excerto de "Song of myself" part 32)



I think I could turn and live with animals, they are so placid and
self-contain'd,
I stand and look at them long and long.They do not sweat and whine about their condition,
They do not lie awake in the dark and weep for their sins,
They do not make me sick discussing their duty to God,
Not one is dissatisfied, not one is demented with the mania of
owning things,
Not one kneels to another, nor to his kind that lived thousands of
years ago,
Not one is respectable or unhappy over the whole earth.


Walt Whitman
("Song of myself" part 32)

'SONETO ATRAVESSADO POR UM RIO'



A Manolo Alcántara

Tarde tão bela para estar ausente
e chorar um amor infortunado,
empalidecendo entre o desfolhado
de um claro rio ao som da corrente.

Ainda que aberta na mão do presente,
tarde que já parece do passado
por seu aroma de tempo reprimido
e sua atitude de pensativa fronte.

Tarde pura, Deus meu, como aquelas
em que me surpreendiam as estrelas
triste do céu azul e o vento triste.

Dá-me outra vez, Deus meu, a tristeza,
e a ausência, e o rio que atravessa,
já que esta tarde trêmula me deste.


Eduardo Carranza
In: Antologia Poética

'Novas diagonais'



Calejei-me: sou magna-impenetrável,
Psico-impermeável, tranquilizadoramente forrada de calos.
Estrela vermelha com nervos antiabalos.
Roí o tempo carrasco e insuportável,
Dias e dias quais eras de esferas solitárias:
Clausuras de saudade maçante entupindo artérias de silêncio.

Vomitei a dor famigerada, a tortura inquisitória,
Rasguei o véu cinzento do sacrifício:
Anestesiei-me de ti!
Pisoteei tua ausência descabida, alardeada como hospício:
Tornei não recorrente a retórica exasperante
Da tua boca úmida e insistentemente ausente.

Alargo as madrugadas em luas desfraldadas,
Disponível ao presente, até que outro rosto se apresente
E trace diagonais passionais na minha pele enluarada.
Teu tempo já é nada, vertente desfigurada,
Anulada na luz nascente de outra estrada.
Tantas vezes morri, já tanto renasci de superar-me!

Stella de Sanctis