A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

terça-feira, 4 de março de 2008

"ÊXUL " [OS SONETOS DO SANGUE]



Esse que sabe rir vai à festa da Vida...
— Quantos já vi passar neste longo caminho,
com os olhos postos no alto e a boca ressequida,
desejosa de sol, de pâmpanos e vinho...

Vão em busca do céu na alameda comprida
que se perde lá baixo... e eu sempre a olhar, sozinho
a audácia dos que vão para o orgulho da lida,
transpondo luar a luar, vencendo espinho a espinho...

— Caem rosas... depois... outras rosas vêm vindo...
outras rosas cairão... outras virão... e eu preso,
a ver os que lá vão pelo caminho infindo...

— Mas todos ao voltar trazem no passo triste
no lábio êxul, nas mãos senis, no olhar aceso,
a mentira imortal de tudo quanto existe...


Ronald de Carvalho

"FRUTOS DA TERRA"


Benditos os filhos do ventre da terra
Que o sol desperta tão cedo,
Que o trigo e a uva aguardam no campo
Para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
Que se abrem à manhã
Em silêncios e cantos
Que mesclam no ar

e os filhos da paz,
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
e dele retiram sustento e eternidade.

Abençoados os que bendizem,
Os que curam, e que a dor amenizam,
os que por via de tolerância
se entendem.

Benditos os que domam a cólera
E se transformam no amor,
Amor que bebe da identidade da vida.

Bendito o sol que amadurece os frutos de terra.
Mais bendita a luz
por que anseia ‘a noite escura da alma’.


(Fernando Campanella)
*
(Tela "Plantação de trigo" Guilherme Matter)

"O INFERNO DO CÉU"



Em parte somos feitos mais de sonhos
em parte mais de morte e pesadelos...
Em parte entre conselhos de serpentes
que mentem como a face dos espelhos.

Flores não sangram sob seus espinhos.
Rosas nem sabem quando vão morrer...
Calam-se os ninhos quase indiferentes
se é para sempre quando amanhecer...

Amor é dom que não celebra a morte
são flautas gêmeas da canção da vida
que suaviza como o êxtase das almas
acalma o coração que ainda agoniza...

Não há inferno onde um grão de amor
viceja em forma de uma flor qualquer...
Ah, luz do arco-íris dos portais do céu!
Oh, véu da flor de quando o amor vier!

Inferno é a dor que queima sem amor.
Amor é fogo que arde sem queimar...
Amor que amarga e dói e permanece
chama que a alma aquece sem tocar.

Malgrado tudo existe essa esperança
de que o sonho de luto dos enfermos
seja apenas lembrança desse inferno
que jaz eterno dentro de nós mesmos.


A.Estebanez

"O ELOGIO NOS REPUXOS"



Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando
em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz...
Canto da água que desce em poeira, leve e brando,
canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma -- a cinza tem afagos...
Sombras de antigas naus, velas altas a arfar,
passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,
(a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos
curvos leques a abrir e a fechar num adejo,
-- mão vencida que vem de vãos incitamentos,
mão nervosa que vai mais cheia de desejo...

Volúpia de fugir -- ser longe e ser distância,
e tornar logo ao cais e de novo partir!
Volúpia -- desejar e não possuir, ser ânsia...
Repuxos a descer, repuxos a subir...

Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las,
Andar dentro de si perdido na memória...
(Caçadores ideais de mundos e de estrelas
repuxos ao Sol-Pôr cheios de mágoa e glória...)

Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando!
desespero, alegria -- o lábio, a mão... e um beijo.
Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando
Ir tocar a ilusão e morrer em desejo...


Ronald de Carvalho
1893-1935

"ANOITECE"


Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...



O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...



Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.



Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...


Ronald de Carvalho
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista.

"CANÇÃO DA LUA QUE LAVA"


Lua, que lavas teus linhos,
sempre a lavar
numa lixívia de nuvens,
branca, branquinha de espuma,
e escorres tudo lá no alto
para secar;


lua que lavas teus linhos
pelos valados maninhos,
na serra onde vai nevar;


oh lua alagando o mundo
nesta espuma de cegar!


lua que lavas teus linhos
e que os enxáguas
e os pões em qualquer lugar —
nos terraços lageados,
nos velhos muros caiados,
nos laranjais do pomar
ou nos campos orvalhados
onde estão a gotejar —


lua que lavas teus linhos
até nas praias do mar —


vem, lua, e lava minha alma!


Oh lava minha alma em lágrimas,
para que Deus, sol das almas,
venha a enxugar.


Murilo Araújo

segunda-feira, 3 de março de 2008

"FALLING STAR"



Wish on me,
I sparkle when the day is off
And the frolicking birds are flown -
wish, wish, never tire
when the ultimate light is far
and the whispering dreams are done,
wish for the very sake of a jailer
that sensing the wants of your heart
would leave somber cells unattended
and massive night portals ajar.


(Fernando Campanella)

'MILAGRE'



Eu caminhava entre árvores
E espremia nos dedos
O mudo cipreste, roçando
um acridoce olfato
Ao silêncio de meu nariz.
Ali entre cúmplices imagens,
Onde o vento me sabe
E o sem- fundo do lago me diz,
No frescor do mais contido sumo,
Cheirei a poesia, assim do nada,
E caminhei sobre as águas,
O naufrágio por um triz.


(F. Campanella)

"PSICOFOTOGRAFIA"



Há o sabor acre do pranto
o amor rústico das vinhas
e há o êxtase dos cânticos
das almas das andorinhas...

Há o amor dos namorados
o enlace das almas gêmeas
entre eflúvios perfumados
dos canteiros de alfazemas...

E amores chegam de trem
ou nos destinos das cartas
às vezes chegam do além
no murmúrio das cantatas...

E apesar dos desencantos
o ofício das bem-amadas
é de haver os reencontros
das almas desencontradas...

A. Estebanez

domingo, 2 de março de 2008

"Ao mundo..."



Vai entender os poetas,
os que almejam o fluir
dos rios indômitos, dos cantos
dos pássaros notívagos
e da manhã.
Alcançariam tal intento
quando a fatalidade os desperta,
(real tormento)
a cada incauto morder de romãs?
Sim, pois que destilam os sonhos
nas entrelinhas.
Ao mundo
o que é do mundo;
ao estado límpido de alma
(entendamos os poetas)
o que da longa tradição
dos pastores, da poesia.


(Fernando Campanella)

"Quebranto"



Mira-te encanto traído
Teu vento virado
Na água.

Afasta a dor e o sentido
E lambe as tuas cinco chagas.

Afaga então a pedra
Chama os deuses
Asperge na concha do ouvido
O eco de luas sonhadas.

Corta o quebranto
Na lâmina funda
Da água.

Mira-te agora
Mira-te flor enquanto
Te espalhas em ondas
Na água.


(Fernando Campanella)

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

“AO QUE FINDA E AO QUE INICIA”




Um brinde
à santa paciência dos homens de boa vontade, à inclusão do amor, ao coração breve, à equanimidade, à noite escura que aguarda a madrugada, ao Espírito que nos aquece, à boa palavra, ao alívio da dor, aos amigos, aos que nos cercam – e um perdão aos que nos ferem , aos que nos esquecem...

Bebamos à saúde
de Bagdá, Telavive, Palestina e Nova Iorque, das Áfricas de sul a norte, da Europa, Ásia e Islândia, dos Lamas, do cordeiro de Deus, do papa, das madrassas, dos avatares, dos babalorixás, da boa política de todos os credos, das Américas de toda sorte, do continente australiano, das ilhas, dos oceanos, dos pingüins da Antártida, dos ursos do Pólo Norte...

Uma saudação
aos judeus, cristãos e mulçumanos, aos mouros, hindus e budistas, e aos ecologistas militantes, aos celtas, índios , beduínos, esquimós, pigmeus, ( aos eventuais alieníginas), aos peregrinos, aos românticos, aos ateus, aos poetas errantes, aos bem resolvidos e aos que sofrem – os do mundo excluídos, os encarcerados, os terminais e delirantes - ao velho e à criança, aos grandes e pequeninos...

Loas
aos pássaros de toda plumagem e canto, aos insetos, répteis e sapos, à dança da chuva, à alquimia do sol, às folhagens, ao pólen, aos cristais de quartzo, aos riachos, à lua, aos céus, ao solo, aos planetas, aos meteoritos e pirilampos, aos buracos negros e às intransponíveis galáxias – e à arte maior que a tudo abraça e que de tudo se encanta...

Uma libação
aos vivos e aos mortos, ao ano que principia e ao que se desmancha, ao dia-após-dia, à Terra, à nossa espoliada casa , à nossa jornada, ao protocolo de Kioto, à física quântica, a Você, a Mim, à nossa imensa família, aos vários sexos e raças, às nossas diferenças e igualdade, à utopia, a um novo milênio , à esperança de um novo mundo com mais LUZ e TOLERÂNCIA, a um DEUS, enfim, maior à nossa própria imagem, às cores, ao arco da nova aliança.



(F. Campanella, 31 de Dezembro de 2006)

Encontrei este fantástico poeta nas páginas de uma amiga, e "tomei emprestado" para este blog.Deliciem-se com sua maravilhosa lirica.
MM

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

"NA SOLIDÃO DO PARQUE ABANDONADO"



Na solidão do parque abandonado,
chora, abraçado às àrvores, o vento.
Ouve-se da água o trêmulo lamento
sobre as conchas de mármore gelado.

Sobe, lúcida, a lua. Solitário,
foge smorzando, sob o azul sereno,
como um grito de amor, o último treno
do último e doloroso stradivário.

— "Oh, dá-me o teu desejo! Sob o vasto,
noturno encanto, dá-me o teu desejo!
Quero a tua alma que, entre os lírios, vejo
como outro lírio, luminoso e casto!

Por que te afastas sempre do meu passo?
Sou o mudo exilado do teu seio...
Não sentirás jamais o meu anseio?
Levam-me o Amor e a Morte, pelo braço."

Que estranha insônia acorda o mal pressago,
vem despertar o antigo pesadelo?
Pudesse a lua, ao menos, compreendê-lo!
Perde-se, ao longe, o último acorde vago.

Sobre as conchas de mármore, gelado,
não se ouve mais o trêmulo lamento.
Queda-se a lua. Silencia o vento.
Dorme, sombrio, o parque do Passado.


Eduardo Guimaraes
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 194

"ILHA DISTANTE"



Ilha de melancolia,
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;

Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;

Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;

Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;

Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —

Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.


Ribeiro Couto
in Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Litoral Bravio.
Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.422

"O OCASO NO MAR"



O céu a valva azul de uma concha semelha
De que outra valva é o mar ouriçado de escamas.
No ponto de junção, o sol - molusco em chamas -
Do bisso espalha no ar a incendida centelha.

Listões de intenso anil, raias de cor vermelha,
Grandes manchas de opala, arabescos e lhamas,
Da luz todos os tons, da cor todas as gamas
Vibram na valva azul que a valva verde espelha.

Mas todo este fulgor esmaece e se apaga.
Tímido, o olhar do sol bóia de vaga em vaga,
Porque uma sombra investe a sua concha enorme.

É a noite: como um polvo, insidiosa, se eleva.
Desenrola os seus mil tentáculos de treva:
E o sol, vendo-a crescer, fecha as valvas e dorme


Arthur de Salles
In: "Sete tons de uma poesia maior "
Ed Record- Cláudio Veiga pag .123

"MANHÃ ENTRE ÁRVORES"



Claro azul matinal, cortado de asas claras;
Num frêmito, sorrindo, a alma verde do campo;
Finas tramas de luz, suavíssimas e raras,
Vestindo a penedia, a praia, o mar escampo...

Anda esparzida no ar, maravilhoso e casto,
Uma unção de bondade e de carícia extrema.
Vem do arvoredo em flor, murmurejante e basto,
Em ondas, o fulgor de uma vida suprema.

Céu de safira, mar de esmeralda tremente ...
A ária fulva de luz, a indômita alegria
Dos pássaros ... Que dia! Isto deifica a gente.
Vou-me ao campo gozar da esplendidez do dia.

Saio. Uma brisa leve estremece a folhagem.
E sigo, envolto em luz e bêbedo de sons.
Galgo o outeiro e daí, do alto, abranjo a paisagem,
Na insólita explosão multíplice dos tons.

. . .

Ver as árvores, ver esses verdes delubros ...
Tanta festa de amor sob essas ramas! Vê-las,
Heróicas, suspendendo os frutos, ora rubros,
Ora fulvos, lembrando um punhado de estrelas!

Como os gozos daqui, trópicos, rutilantes,
Com o meu guloso olhar de desejos vibrado!
Como a árvore me estende os braços tremulantes,
Para a festa pagã desse vinho aromado!

Aves, aos turbilhões, voejando em torno, inquietas ...
Com as aves também vou, na mesma ânsia insofrida,
Nesses frutos sorver, como em taças repletas,
Luminosas porções flamejantes de vida.

Frutos áureos, à luz, estrelejando as ramas
De incidências iriais e vívidas de sol ...
Frutos, glória do olhar, vermelhos como as chamas,
Como o pedaço vivo e quente de arrebol!

..................................................................................

Árvores, sois na terra o símbolo bendito
Da bondade e do amor, do carinho risonho:
Agasalhais o mau, a ave, a fera, o precito;
Dais o fruto, que é a Vida; e dais a flor, que é o sonho!



Arthur de Salles
in "Sete Tons de Uma Poesia Maior"
Ed Record- Cláudio Veiga-1984-

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

"HEMOS PERDIDO AUN ESTE CREPUSCULO"



Hemos perdido aun este crepusculo.
Nadie nos vio esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caia sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

A veces como una moneda
se encendia un pedazo de sol entre mis manos.

Yo te recordaba con el alma apretada
de esa tristeza que tu me conoces.

Entonces, donde estabas?
Entre que gentes?
Diciendo que palabras?
Por que se me vendra todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayo el libro que siempre se toma en el crepusculo,
y como un perro herido rodo a mis pies mi capa.

Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepusculo corre borrando estatuas.


Pablo Neruda

AÇÃO DE GRAÇAS


Eu Te agradeço Senhor,
pelas belezas esparsas no mundo,
mesmo por aquelas que não posso tocar...
Eu Te agradeço pelas belezas ocultas
que alguém não vê
mas que minha alma é capaz de adivinhar.

Eu te agradeço o sorriso da criança
a flor que se balança
e o pássaro que corta o ar...
Mas também Te agradeço
a canção que me cantas
quando o sofrimento se avizinha,
maltratando o coração
que se esquece de cantar...

Obrigada, Senhor,
por poder participar
dos trabalhos deste mundo
em construção...

Obrigada por teres-me ensinado
a chorar cantando
para que na minha humana fraqueza
o meu canto amparasse
a minha alma submissa e indefesa...

Sobretudo eu Te agradeço
as lindas rosas de amor
que jogaste em meus caminhos...
- Obrigada, Senhor,
pois fiz delas um bouquet
só de rosas sem espinhos.


Zoraida H. Guimarães
in Ainda Há Sol Atrás da Montanha

domingo, 10 de fevereiro de 2008

"TANTA TRISTEZA NAS ÁGUAS ..."



Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Em que reino vive agora
a princesa que vivia
na infância sob amoreiras
acesas à luz do dia?

Onde o sol, onde o tumulto
de pombas no céu ardente
onde o frio da tarde morta
entre escombros do poente?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Onde a lua marinheira
no alto céu que surgia –
negro mar cheio de espantos
mordido de ventanias?

Onde o Rei do reino ausente
onde a fada que fazia
do mundo um sono profundo
e do sonho a luz do dia?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida

"NOSTÁLGICA N.º 2"



Esse tempo que passa como um vento brando
agitando um ramo desfolhando o aroma
esse tempo de asa entre flor e flor
que leva pólen e insetos embriagados
esse vento quase tristeza em meus lábios
que vai levando e me deixando a sós
fala da alma que me desabita
do meu corpo ausente quando não estás


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida

METAFÍSICA



Vai tempo onda marinha afogando teus mortos
rola na orla estreita búzios e medusas
põe no ouvido ávido dos vivos
a breve canção do invisível mar
canção de um longe que ressoa
vai tempo fantástica maré
anêmona vibrante
colhe em teu cerco o sorriso do homem
e o pólen dos séculos.

Voa pássaro marinho
semente viva entre rochedos
foge para as ilhas
à beira das águas taciturnas

Tempo
mar e marinheiros
barco e viagem
arrasta teus cansados velames e o vento que os impele
vai velho marujo
rumo aos horizontes incompletos


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida

Valsas de Esquina de Mignone



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.


Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.


Dora Ferreira da Silva
in "Poesia reunida"

"O VENTO"



Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?

Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).

Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.


Dora Ferreiora da Silva
in Jardins (Esconderijos) (1979)

PROCURA-SE UMA ROSA



A rosa de que preciso
é flor nativa de mim.
Eu quero a rosa precisa
princípio
meio e fim.

A rosa de que preciso,
não a rosa dos poetas...
Mas a rosa imponderável
dos loucos
e dos profetas.

A rosa de que preciso,
não das mãos dos jardineiros...
Quero a rosa padecida
das feridas
dos romeiros.

A rosa de que preciso
vem do olhar dos passarinhos.
A rosa para ser rosa
não precisa
dos espinhos.

Eu quero a rosa votiva
dos vitrais e reposteiros
entre preces conspirada
no conluio
dos mosteiros.

A rosa de que preciso
não é a rosa-dos-ventos...
Quero a rosa irresoluta
biruta
dos cata-ventos...

A rosa de que preciso
vem de abismos e desertos
como a palavra perdida
reencontrada
em meus afetos.

Às vezes mais que loucura!
Às vezes mais que razão...
A rosa de que preciso
é amor
mais que paixão...


A. Estebanez

"DELICATESSE"



A gota de orvalho
soltou-se do galho:
a gota caída.

A gota de orvalho
caída nas águas:
a gota perdida.

A gota de orvalho
da tua presença
virou minha vida.

A.Estebanez

PASTOREIO



Depois que aqui for deixado
e todos tiverem ido
vou ser vento libertado
pelas mãos dos desvalidos
espalhando flor e pólen
no solo fertiliza
com o pranto dos oprimidos...

Vou soltar as estribeiras
cavalgar nuvens em pêlo
e aboiar as corredeiras
de meus rios represados...
Vou montar a liberdade
fingida das carpideira
na pena dos condenados.

Sob os lábios comprimidos
dente por dente calado
olho por olho cerrado
na masmorra dos sentidos...
Vou virar redemoinhos
e girar pelos caminhos
como pássaros banidos.

Meus sonhos pagens de ninfas
Luzes sombras sobre os lagos
prado em flor de claras tintas
de mistérios desvendados...
Vou apascentar meus mortos
na paz de ovelhas famintas
entre lobos saciados...

A Estebanez

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

"SONETO DA IMPERFEIÇÃO"



É possível que esse mar
de tanto bater na encosta
pare no âmago da forma
d’alma perfeita da rocha

E é possível que o vento
degrane tanto o rochedo
que esbarre no substrato
do ser de pedra perfeito.

E tanto comigo mesmo
vou lutar estando preso
libertar meu ser preciso.

O que for remanescente
(o que dói e se ressente)
nem sempre é definitivo.


A. Estebanez

"POEMA DA PEDRA BRUTA"



Eu pedra bruta do tempo
que me passou esquecido
no inventário do momento
de viver de eu ter morrido
percorro o longo decurso
de todo o tempo perdido.

Eu profetas de gomorras
ruir de torres tombadas
sodomas de meus sentidos
de extintas almas salgadas
artesão de antigos sonhos
de mãos rudes algemadas.

Eu perdido se me encontro
sensível ao que não sente
descaminho de um futuro
de algum passado presente
vou pedra fingindo a carne
e sangue fingindo a gente.

Eu castelos de crepúsculos
naus sombrias sobre vagas
eu mortalha dos moluscos
de esperanças naufragadas
faz-se em mar a minha vida
das marés que são choradas.

Eu templo de deuses mortos
becos tortos sem calçadas
vendo o mundo das janelas
que o amor deixou fechadas
sou um elo entre essas vidas
que se atraem separadas.

Hoje sou pastor de rios
sentinela das colinas
mirante das fortalezas
nas ameias das neblinas...
É por mim que à noite
os ventos vêm chorar
sobre as ruínas.


A. Estebanez
(Afonso Estebanez Stael-RJ-Brasil)

sábado, 19 de janeiro de 2008

"NOCHE DE LUNA LLENA"



Noche blanca en que el agua cristalina
duerme queda en su lecho de laguna
sobre la cual redonda llena luna
que ejército de estrellas encamina

vela, y se espeja una redonda encina
en el espejo sin rizada alguna;
noche blanca en que el agua hace de cuna
de la más alta y más honda doctrina.

Es un rasgón del cielo que abrazado
tiene en sus brazos la Naturaleza;
es un rasgón del cielo que ha posado

y en el silencio de la noche reza
la oración del amante resignado
sólo al amor, que es su única riqueza.


Miguel de Unamuno

"AS HORAS"




As Horas cismam no ar parado:

— Passado.
As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.



Da Costa e Silva
in "Poesias Completas" edições "O cruzeiro" 1.950
Imagem
Marc Chagal

"O HOMEM QUE VOLTA"



Quando fui, com o meu sonho ingênuo e lindo,
Pelas estradas amplas, luminosas,
Vinham as Graças desfolhando rosas.
Ergui os olhos para os céus, sorrindo,
A beleza da vida pressentindo...

Quando vim, com o meu tédio miserando,
Pelos estreitos e áridos caminhos,
Iam as Parcas espalhando espinhos...

Baixei o olhos para o chão, chorando,
E fiquei para sempre meditando...


Da Costa e Silva

"VITA NUOVA"



Outrora pretendi que a vida fosse
um jardim em florida primavera,
um recanto de bosque, ameno e doce,
com flores presas em guirlandas de hera.

Apenas comecei minha jornada
vi como tristes eram os caminhos.
Em vez de flores enfeitando a estrada
em cada ramo só encontrava espinhos.

Mas cantando chegaste, ao sol-poente,
a fronte luminosa engrinaldada
e um lírio branco te florindo a mão.

Tornou-se o céu mais claro e transparente,
e a sombra má que me toldava a estrada
mudou-se em rosas, recobrindo o chão!.


Alfredo Cumplido Sant'anna

"BEM-VINDO AMADO..."



Bem-vindo ao meu mundo calado...
Sinta-se em casa, pouse em meu coração.
Traga alegria que há muito já não o habita.
Venha desarmado, traga paz e acalanto.

Cante doce melodia qual rouxinol na minha janela.
Traga flores...As mais belas e perfumadas!
Pinte um quadro que traduza imensa harmonia...
Observe meu devaneio...Sinta o ar romântico que me rodeia...

Conceda-me uma dança e descubras pueril contentamento.
Convide-me a caminhar contigo...Dê-me tua mão.
Silencie as palavras e olha-me...Saberei o que dizes.
E caso a ternura neles eu venha encontrar,
Serás então meu amado...Eternamente bem-vindo.

Cida Luz
19/11/07
Nova poetisa que entra para o coração dos admiradores,com toda força poética e maestria, panegíricos à parte!
Te desejamos toda ventura do mundo, para o lançamento do novo livro!
Maravilhosa, Cida Luz!

"OLHAS OS AMANHECER"



Olhas o amanhecer,
vives o amanhecer como o único instante
em que o céu é entreaberto segredo de um deus mudo.

Espera: algo vai se revelar e deves estar pronto
para mergulhar teu sonho num poço de luz casta.

O intocado te espera. E amanhece. E te iluminas
como se trincasses com os dentes a polpa do absoluto.


Alphonsus de Guimarães Filho
in Luz de Agora, Editora Cátedra, Rio de janeiro, 1991

DESPEDIDA



Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada
à luz fosca desse dia abandonado.
Que severa parecias, longínqua e inviolada
flor deste inverno findando.
Recolhi-me entre os crisântemos
que te vestiam tristonhos:
tanto abandono querida uma parede tão dura
impermeável ao pranto à ternura
levados para te dar. Ao meu sim de desalento
nenhuma resposta ou lamento,
nada. Teu segredo, só ele persistia.
Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia.



Dora Ferreira da Silva
Cartografia do Imaginário , T.A. Queiroz, Editor, 1999

"VALSAS DE ESQUINA DE MIGNONE"



Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.


Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.


Dora Ferreira da Silva
in "Poesia reunida"
Illustration
Jack Vettriano

'INTERROGAÇÃO'



Sozinho, sozinho, perdido na bruma.
Há vozes aflitas que sobem, que sobem.
Mas, sob a rajada ainda há barcos com velas
e há faróis que ninguém sabe de que terras são.

- Senhor, são os remos ou são as ondas o que dirige o meu barco?
Eu tenho as mãos cansadas
e o barco voa dentro da noite.


Emílio Moura

"COMO A NOITE DESCESSE..."



Como a noite descesse e eu me sentisse só, só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam
gritei alto, bem alto: ó doce e incorruptível Aurora! e vi logo
só as estrelas é que me entenderiam.

Era preciso esperar que o próprio passado desaparecesse,
ou então voltar à infância.
Onde, entretanto, quem me dissesse
ao coração trêmulo:
- É por aqui!

Onde, entretanto, quem me dissesse
ao espírito cego:
- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...

se só as estrelas é que me entenderiam?


Emílio Moura

"IN EXTREMIS"



Antes isso. Agora chegou o momento em que o teu espírito não terá mais dúvida.
A fogueira está acesa, os homens desvairados, e a noite caminha como uma fatalidade.
Procura uma só estrela dentro da noite: tua esperança há de morrer antes que os teus olhos
já estejam fatigados
e a melodia do vento já haja desaparecido sob o fragor e a fúria dos elementos.

Antes isso. A pedra fala, o vento eleva-se, a terra agita-se.
Que pranto é esse que rola em silêncio sobre tantas faces iluminadas?
(Choram as fontes, tremem as árvores, a noite está deserta ...)
Que mãos são essas que, de repente, cessam de amaldiçoar e se aquietam em êxtase?

Senhor! Do fundo dos corações obscuros ainda há, entretanto, corações feridos que
transbordam humildemente de esperança e de reconhecimento,

e lábios que oram:
- Sim, na verdade, Ele era o Esperado – e se enchem, Senhor, de espanto e de silêncio.



Emílio Moura
Itinerário Poético

"CANÇÃO DE CRISTAL"



Onde a menina, a inocência
Que acendia a terra e os mares
O sorriso cuja essência
Enchia de azul os ares

Fugiam, se aparecia
As sombras e os noitibós
Era a manhã de alegria
Com rios claros na voz

Era o que ninguém mais ninguém era

Mudava toda penumbra
nesses jardins de quimera
Que o sol cantante deslumbra

Em sua presença havia
Rosas, orvalho, esplendor...
Era a manhã de alegria
Toda em pássaros de amor.

Auras leves, sons de sino, ouro
E lilás pelos vales
Tudo trouxe ao meu destino
Mudando em luz os meus males

Trouxe o milagre do dia
Para que estrela emigrou?
Era a manhã de alegria
Por que, mal veio a lua, acabou?


Murilo Araújo
in "Carrilhões"

"FRONTEIRAS"



Os cedros, a lua, os túmulos
geraram este silêncio,
ou do silêncio nasceram
cedros, túmulos e lua?

Indiscerníveis limites:
não podemos saber nunca
se triste é este pobre mundo,
se nós é que somos tristes.


Tasso da Silveira
Poemas Tristes – l.966 –

"NOTURNO'



Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.

Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?

Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.


Tasso da Silveira
In Tasso da Silveira - Poemas
Organização e seleção de Ildásio Tavares
ABL/Edições GRD, São Paulo, 2003

domingo, 13 de janeiro de 2008

"O último dia de trabalho do pôr-do-sol no mar(ou do penoso ofício de sonhar)"



Havia o mar na sombra do horizonte
havia o pôr-do-sol na água sombria
havia o porto e a encosta do mirante
e os corpos dos amantes na mortalha
da água fria...

Havia as naus no dorso dos destinos
e a brisa que saudava a volta ao cais
com os corais dos cantos peregrinos
das harpas e violinos dos noturnos
vendavais...

Havia como um repousar do mundo
nos profundos jardins das enseadas
havia vasta ausência no mais fundo
das almas insepultas que sonhavam
acordadas...

Havia o céu de estrelas rutilantes
e havia o mar de ninfas reluzentes
e a corrente de espumas flutuantes
das errantes escunas entre luzes
fluorescentes...

Havia como um êxtase em preparo
talvez a luz em seu estado impuro:
mais parte escura do seu lado claro
do que mais parte clara do seu lado
escuro...

Agora onde era o mar há o oceano
o poente sem sonhos naufragados...
Jaz agora no cais em ritmado sono
o pertencido amor dos navegantes
afogados...

Ainda há aves mortas no convés
e há naves ancoradas sem destino
o declínio de auroras dispersadas
pelas marés da saudade em pleno
desatino...

Ficou uma canção de marinheiro
e um canto rústico de pescadores
o pôr-do-sol no doloroso encanto
de renascer, sonhar, depois morrer
sem dores...



Afonso Estebanez

domingo, 4 de novembro de 2007

"Si nostre vie est moins qu'une journée..."




Si nostre vie est moins qu'une journée
En l'eternel, si l'an qui faict le tour
Chasse nos jours sans espoir de retour,
Si périssable est toute chose née,

Que songes-tu, mon ame emprisonnée ?
Pourquoy te plaist l'obscur de nostre jour,
Si pour voler en un plus cler sejour,
Tu as au dos l'aele bien empanée ?

La, est le bien que tout esprit desire,
La, le repos où tout le monde aspire,
La, est l'amour, la, le plaisir encore.

La, ô mon ame au plus hault ciel guidée !
Tu y pouras recongnoistre l'Idée
De la beauté, qu'en ce monde j'adore.



Joachim Du Bellay -França-

*********

Se a nossa vida é menos que uma jornada...


Se a nossa vida é menos do que uma jornada
No infinito, se o ano quando reinicia
Nos leva os dias só deixando nostalgia,
Se qualquer coisa ao nascer já está condenada,

Com o que tu sonhas, minha alma aprisionada?
Por que te agrada a escuridão do nosso dia,
Se a fim de voar a mais brilhante moradia
Tu tens no dorso essa asa tão bem empinada?

Lá está o bem que todo espírito deseja,
Lá está o repouso que todo mundo almeja,
Lá o amor, lá o prazer também tem o seu canto.

Lá, ó minha alma, guiada ao céu mais altivo,
Reconhecerás ali o Ideal mais vivo
Da beleza, que neste mundo eu amo tanto


Joachim Du Bellay
Tradução- Ivan Justen Santana

"Sonnets to Orpheu- XXI"




Frühling ist wiedergekommen. Die Erde
ist wie ein Kind, daß Gedichte weiß,
viele, o viele... Für die Beschwerde
langen Lernens bekommt sie den Preis.

Streng war ihr Lehrer. Wir mochten das Weiße
an dem Barte des alten Manns.
Nun, wie das Grüne, das Blaue heiße,
dürfen wir fragen: sie kanns, sie kanns!

Erde, die Frei hat, du glückliche, spiele
nun mit den Kindern. Wir wollen dich fangen,
fröhliche Erde. Dem Frohsten gelingts.

O, was der Lehrer sie lehrte, das Viele,
und was gedruckt steht in Wurzeln und langen
schwierigen Stämmen: sie singts, singts!


Rainer M. Rilke -República Tcheca-

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Sonetos a Orfeu - XXI

Eis outra vez a Primavera. A Terra
é um menino que sabe dizer versos;
tantos, oh tantos... Por aquele esforço
de longo estudo vai receber um prémio.

Severo foi o mestre. Nós gostávamos
da brancura da barba daquele velho.
Agora podemos perguntar o nome
do verde, o azul: ela sabe, ela sabe!

Terra feliz, em férias, brinca agora
co'as crianças. Queremos agarrar-te,
Terra alegre. A mais jovial consegue-o.

Oh, o muito em que o mestre as instruiu
e o impresso nas raízes e nos longos
troncos difíceis: ela o canta, canta!


Rainer M. Rilke
(de 'Sonetos a Orfeu' - tradução de Paulo Quintela)

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

"LLUVIA"


Enero de 1919
(Granada)

La lluvia tiene un vago secreto de ternura,
algo de soñolencia resignada y amable,
una música humilde se despierta con ella
que hace vibrar el alma dormida del paisaje.

Es un besar azul que recibe la Tierra,
el mito primitivo que vuelve a realizarse.
El contacto ya frío de cielo y tierra viejos
con una mansedumbre de atardecer constante.

Es la aurora del fruto. La que nos trae las flores
y nos unge de espíritu santo de los mares.
La que derrama vida sobre las sementeras
y en el alma tristeza de lo que no se sabe.

La nostalgia terrible de una vida perdida,
el fatal sentimiento de haber nacido tarde,
o la ilusión inquieta de un mañana imposible
con la inquietud cercana del color de la carne.

El amor se despierta en el gris de su ritmo,
nuestro cielo interior tiene un triunfo de sangre,
pero nuestro optimismo se convierte en tristeza
al contemplar las gotas muertas en los cristales.

Y son las gotas: ojos de infinito que miran
al infinito blanco que les sirvió de madre.

Cada gota de lluvia tiembla en el cristal turbio
y le dejan divinas heridas de diamante.
Son poetas del agua que han visto y que meditan
lo que la muchedumbre de los ríos no sabe.

¡Oh lluvia silenciosa, sin tormentas ni vientos,
lluvia mansa y serena de esquila y luz suave,
lluvia buena y pacifica que eres la verdadera,
la que llorosa y triste sobre las cosas caes!

¡Oh lluvia franciscana que llevas a tus gotas
almas de fuentes claras y humildes manantiales!
Cuando sobre los campos desciendes lentamente
las rosas de mi pecho con tus sonidos abres.

El canto primitivo que dices al silencio
y la historia sonora que cuentas al ramaje
los comenta llorando mi corazón desierto
en un negro y profundo pentágrama sin clave.

Mi alma tiene tristeza de la lluvia serena,
tristeza resignada de cosa irrealizable,
tengo en el horizonte un lucero encendido
y el corazón me impide que corra a contemplarte.

¡Oh lluvia silenciosa que los árboles aman
y eres sobre el piano dulzura emocionante;
das al alma las mismas nieblas y resonancias
que pones en el alma dormida del paisaje!


Frederico Garcia Lorca

"ELEGÍA DEL SILENCIO"



Julio de 1920

Silencio, ¿dónde llevas
tu cristal empañado
de risas, de palabras
y sollozos del árbol?
¿Cómo limpias, silencio,
el rocío del canto
y las manchas sonoras
que los mares lejanos
dejan sobre la albura
serena de tu manto?
¿Quién cierra tus heridas
cuando sobre los campos
alguna vieja noria
clava su lento dardo
en tu cristal inmenso?
¿Dónde vas si al ocaso
te hieren las campanas
y quiebran tu remanso
las bandadas de coplas
y el gran rumor dorado
que cae sobre los montes
azules sollozando?

El aire del invierno
hace tu azul pedazos,
y troncha tus florestas
el lamentar callado
de alguna fuente fría.
Donde posas tus manos,
la espina de la risa
o el caluroso hachazo
de la pasión encuentras.
Si te vas a los astros,
el zumbido solemne
de los azules pájaros
quiebra el gran equilibrio
de tu escondido cráneo.

Huyendo del sonido
eres sonido mismo,
espectro de armonía,
humo de grito y canto.
Vienes para decirnos
en las noches oscuras
la palabra infinita
sin aliento y sin labios.

Taladrado de estrellas
y maduro de música,
¿dónde llevas, silencio,
tu dolor extrahumano,
dolor de estar cautivo
en la araña melódica,
ciego ya para siempre
tu manantial sagrado?

Hoy arrastran tus ondas
turbias de pensamiento
la ceniza sonora
y el dolor del antaño.
Los ecos de los gritos
que por siempre se fueron.
El estruendo remoto
del mar, momificado.

Si Jehová se ha dormido
sube al trono brillante,
quiébrale en su cabeza
un lucero apagado,
y acaba seriamente
con la música eterna,
la armonía sonora
de luz, y mientras tanto,
vuelve a tu manantial,
donde en la noche eterna,
antes que Dios y el tiempo,
manabas sosegado.


Frederico Garcia Lorca

"SUEÑO"




Mayo de 1919

Mi corazón reposa junto a la fuente fría.

(Llénala con tus hilos,
araña del olvido.)

El agua de la fuente su canción le decía.

(Llénala con tus hilos,
araña del olvido.)

Mi corazón despierto sus amores decía.

(Araña del silencio,
téjele tu misterio)

El agua de la fuente lo escuchaba sombría.

Araña del silencio,
téjele tu misterio.)

Mi corazón se vuelca sobre la fuente fría.

(Manos blancas, lejanas,
detened a las aguas.)

Y el agua se lo lleva cantando de alegría.

(¡Manos blancas, lejanas,
nada queda en las aguas!)

Frederico Garcia Lorca

"CANTOS NUEVOS"



Agosto de l920
(Vega de Zujaira)

Dice la tarde: "¡Tengo sed de sombra!"
Dice la luna: "¡Yo, sed de luceros!"
La fuente cristalina pide labios
y suspira el viento.

Yo tengo sed de aromas y de risas,
sed de cantares nuevos
sin lunas y sin lirios,
y sin amores muertos.

Un cantar de mañana que estremezca
a los remansos quietos
del porvenir. Y llene de esperanza
sus ondas y sus cienos.

Un cantar luminoso y reposado
pleno de pensamiento,
virginal de tristeza y de angustias
y virginal de ensueños.

Cantar sin carne lírica que llene
de risas el silencio
(una bandada de palomas ciegas
lanzadas al misterio).

Cantar que vaya al alma de las cosas
y al alma de los vientos
y que descanse al fin en la alegría
del corazón eterno.

Frederico Garcia Lorca