quarta-feira, 31 de março de 2010
IV
Abril são céus azuis
em ciprestes longos,
agulhados
E uma brisa,
um quase olfato
de jardins submersos,
não decodificados.
Aves breves
bicam leve
a eternidade.
Fernando Campanella
Poema da série 'Efemérides'
terça-feira, 30 de março de 2010
Pensei que a Paz já tinha vindo
domingo, 28 de março de 2010
Sete poemas portugueses
Neste leito de ausência em que me esqueço,
desperta um longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho – o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio e silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.
Ferreira Gullar
(Maranhão-1930)
sábado, 27 de março de 2010
Versos Íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto dos Anjos
quinta-feira, 25 de março de 2010
Retroviagem
Adiada a chegada
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
Ronaldo Cagiano
(Cataguases,MG, 15 de abril de 1961)
sexta-feira, 19 de março de 2010
A TARDE ÀS VEZES ME CONVIDA
(Foto by Fernando Campanella)
A tarde às vezes me convida
para um volteio nos campos
entre contornos de montes
ante o silêncio de uma ermida
a uma luz inclinada
por um certo sopro de outono
em transperências de azul
às vezes a tarde me quer voo
por entre as nuvens compartidas
- a tarde se esquece às vezes
louca e lindamente
que não tenho o descompromisso
das aves, que sou gente.
Fernando Campanella
(Poema dedicado à minha querida amiga Maria Madalena)
A tarde às vezes me convida
para um volteio nos campos
entre contornos de montes
ante o silêncio de uma ermida
a uma luz inclinada
por um certo sopro de outono
em transperências de azul
às vezes a tarde me quer voo
por entre as nuvens compartidas
- a tarde se esquece às vezes
louca e lindamente
que não tenho o descompromisso
das aves, que sou gente.
Fernando Campanella
(Poema dedicado à minha querida amiga Maria Madalena)
quarta-feira, 17 de março de 2010
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segunda-feira, 15 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
Diz o que quiseres
Quando a imensidade das sombras
se acercar de mim promete que dirás
que fui com as aves matinais
pernoitar à boca das marés em busca
do sulco da lua pelas noites dentro.
Diz as coisas mais banais.
O que quiseres. Diz.
Nunca te faltam as palavras
para enganar as sombras.
Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009
CANTO MÍNIMO
Poesia de arco-íris,
magia de luz morrendo,
felicidade em musica diluída,
paixão no rosto da Virgem,
êxtase amargo da vida...
Flores batidas pela tempestade,
grinaldas postas sobre sepulturas,
alegria que não dura,
estrela que cai no escuro:
véu de beleza e de luto
sobre a voragem do mundo.
Hermann Hesse
In: Andares Antologia Poética
Tradução: Geir Campos
FOLHA MURCHA
Para o fruto tende a flor,
para a tarde o amanhecer:
nada é eterno na terra
- salvo o mudar e o des-ser.
Mesmo o mais belo verão
há de em outono murchar:
tem paciência, folha, espera
vir o vento te buscar!
Faz teu papel sem teimar:
suceda o que suceder,
deixa o vento te arrancar
e em tua casa te deixar.
Hermann Hesse
In: Andares Antologia Poética
Tradução: Geir Campos
terça-feira, 9 de março de 2010
Revoada
os pássaros quando voam
não deixam sequer rastro ao vento
porque não voam com as asas
apenas com o sentimento.
os pássaros em revoada
não buscam tão simplesmente
o ninho de algum lugar
porque já estão pousados
no próprio ninho do ar.
quando pássaros em pleno voo
não há nem asas nem vento
tudo fica com o tempo
apenas paz e firmamento.
Salgado Maranhão
in Mural de Ventos
(Maranhão 1953)
segunda-feira, 1 de março de 2010
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