A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 21 de junho de 2015

4


Venha a canção de cada vez mais vaga e etérea.
Fez-se bruma lunar a amargura que sou.
Diluíram-se na sombra antiga as formas feéricas.
O mundo enorme se esvaziou.


Noutros longínquos céus talvez estrelas tremulas
esplendam. Mesmo assim: também se apagarão.
Venha a canção de cada vez mais leve e efêmera,
para morrer na solidão. . .

Tasso da Silveira
In: Puro Canto

OS CAVALOS DO TEMPO


Os cavalos do Tempo são de vento.
Têm músculos de vento,
nervos de vento, patas de vento, crinas de vento.

Perenemente em surda galopada,
passam brancos e puros
por estradas de sonho e esquecimento.

Os cavalos do Tempo vão correndo,
vêm correndo de origens insondáveis,
e a um abismo absoluto vão rumando.

Passam puros e brancos, livres, límpidos,
No indescontínuo, imemorial esforço.
Ah! São o eterno atravessando o efêmero:
levam sombras divinas sobre o dorso...


Tasso da Silveira
In: 'Regresso à Origem'

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

'O MOMENTO DIVINO'



Quando o crepúsculo caiu,
foi que notaste como as coisas todas são infinitas...

Quando o silêncio te envolveu,
foi que sentiste as pulsações mais profundas do teu ser...
ser, aquilo que está dentro da casca, na interioridade.

E então sonhaste
que o sangue te batia nas artérias
ainda sob o impulso primordial
do Instante da criação...

E que o teu peito ofegava
ainda sob cansaço
das migrações dos povos ancestrais...

E te pareceu que chegavas do fundo dos tempos
como um esclarão das gerações inumeráveis,
que viesse explorando a estrada indefinida,
e ao fim da caminhada
trouxesse ainda nos olhos
a mesma interrogação ansiada
da partida...

E te pareceu que respiravas
ao ritmo das marés montantes e vasantes
ao ritmo das montanhas,
ao ritmo do arfar da Terra toda,
quando mais pesa sobre ela, pela noite,
a mudez do infinito ardendo de astros!...

Tasso da Silveira
(MURICY, 1936, p. 167)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SINFONIA DO VENTO

Oh, o delírio de, à noite, ouvir o vento uivando!
Vem tão de longe, rodamoinhando,
ora num ímpeto, ora brando,
a uivar em vão...
Como enche o espaço a grande voz reboando!
... e como aumenta a solidão...


O vento vem numa agonia
semeando a treva... Mal chegou,
no céu da noite, que esplendia,
as estrelas, de luz alva e macia,
as estrelas, tão claras, apagou...


Átomo no ar abandonado,
o mundo está como suspenso
no turbilhão...
Ah! Pelo espaço imenso, imenso,
o mundo vai arrebatado
no torvelinho do tufão...


Que altas montanhas, que campinas vastas,
vieste transpondo, em terras varias,
ó vento rude e mau, gemendo, só?
E, assim gemendo, que é que arrastas
pelas estradas solitárias?
- nuvens de pó... nuvens de pó...


Lá fora, entre gemidos
agoniados,
em estranha e funérea procissão,
as arvores são vultos de forçados,
caminhados de braços estendidos,
caminhando na mesma direção...


Que imensa vela palpitante
de legendário barco, ó Vento,
andas buscando, a uivar assim,
para a impelir, veloz, violento,
para um país muito distante,
por mares únicos, sem fim?



E ora, em surdina, ora, violento,
o vento passa aflito,
em turbilhão...


Oh, como sinto grande o Espaço, ó vento,
como eu sinto o Infinito
quando o enches, assim, da tua imprecação!



Tasso da Silveira
In: Poemas
Alma Heróica dos Homens


(Tasso Azevedo da Silveira, Nasceu em Curitiba,PR, 1.895, feleceu no Rio de Janeiro, 1.968.Era filho do poeta simbolista Silveira Neto)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

E-book



Clique na setinha para ler o livro.Tecle F11 para ler em tela cheia.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

BALADA DE HEMINGWAY


(O Velho e o Mar (The Old Man And The Sea)
de Alexander Petrov)


O mar era pleno e puro.
ao fundo, a grande presença.
Em torno ao barco oscilante,
a infinita solitude
das águas, do céu, do vento.
O mar era pleno e puro,
em tôrno a pura beleza
no barco o desejo e o sonho
do lidador extenuado
sentindo a presença enorme
ao fim da linha retêsa.
O mar era pleno e puro.
Hemingway, que a dor me deixe
cantar a balada triste
teu velho, teu mar, teu peixe:
sim, que me deixe cantar.
O mar era puro e pleno:
era todo o imenso mar...


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –

domingo, 6 de setembro de 2009



Os seres amados multiplicaram-se
e cobriram-me a vida como estrelas num céu próximo.

E vivi deslumbrado
longamente.

Mas tinha cada um o seu destino,
tinha cada um o seu caminho diferente.

Os seres amados dispersaram-se,
perderam-se nas distâncias enormes.
E eu fiquei triste e pobre,
sentindo vagamente
na minha solidão
sua profunda pulsação longínqua.

Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


Os seres amados são sombras que se apagam,
são sombras de um jardim, no entardecer.

Nós tínhamos no olhar o encantamento
dos lúcidos recortes,
dos arabescos harmoniosos
desenhados no chão.

Mas um por um diluiram-se os desenhos
numa sombra maior ...

Os seres amados são sombras,
são sombras de um jardim, no entardecer ...


Tasso da Silveira
in Poemas

segunda-feira, 27 de abril de 2009

BALADA DE HEMINGWAY



O mar era pleno e puro.
ao fundo, a grande presença.
Em torno ao barco oscilante,
a infinita solitude
das águas, do céu, do vento.
O mar era pleno e puro,
em torno a pura beleza
no barco o desejo e o sonho
do lidador extenuado
sentindo a presença enorme
ao fim da linha retêsa.
O mar era pleno e puro.
Hemingway, que a dor me deixe
cantar a balada triste
teu velho, teu mar, teu peixe:
sim, que me deixe cantar.
O mar era puro e pleno:
era todo o imenso mar...


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –

terça-feira, 14 de abril de 2009

'M A R'



Há o Mar de Deus, e o Mar dos homens.
O Mar de Deus é o Mar das grandes águas
madrugais em perpétuo instante de gênese.
É o ar de frescor enorme, perenemente renascente e inesperado.
É o plasma fluído em que Deus mergulha ainda
as mãos potentes para modelar as formas virginais.
E é também o Mar milenário, abismal, antigo,
coetâneo das estrelas, batendo em praias espectrais
e enchendo de um grito fundo o côncavo das idades.
O Mar, símbolo do infinito e absoluto mistério.
O Mar dos homens é o Mar das proas inumeráveis.
Dos ancestrais barcos fenícios, das côncavas
naus helênicas, das galeras romanas, das caravelas
descobridoras, dos veleiros alígeros, das jangadas
audazes, dos transatlânticos de negro e potente
vulto rompendo serenos a convulsa massa líquida.
É o Mar que se humaniza em angras suaves, e
em largos e claros golfos, a cuja beira nasceram as
cidades insignes.
Ou a cuja carícia longa se entregam as aldeias
humílimas de pescadores.
É o Mar épico de Ulisses e do Gama, dos
vikings e dos piratas, dos caçadores de baleias e focas.
E é o mar lírico das enseadas adormecidas ao
luar pelas grandes noites de silêncio e sonho.
O Mar de Deus é o limbo em fusão plena,
pronto a escorrer na fôrma das realidades surpreendentes.
É a virgindade e a vertigem, é o Mar eternamente
Primevo, é o Mar sempre solidão e abismo,
o Mar espelhando Deus.
O Mar dos homens é o Mar das proas inumeráveis.
O Mar coalhado de transatlânticos e veleiros,
que levam ouro e trigo, e levam de um cais para
outro cais longínquo os homens palpitantes de desejo
e de ambição, ou de amargor e desalento.
É o Mar que aprendeu a cantar humanamente
com os homens, e a sonhar, e a sofrer, e a lutar, e a
amar humanamente . . .
Há o Mar de Deus, e o Mar dos homens. E
há o o Mar dos Poetas, que é, a um só tempo, o Mar
dos homens e o de Deus . . .


Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Solilóquio



18

Os seres amados multiplicam-se
E cobrindo-me a vida como estrelas num céu próximo

E vivi deslumbrado
Longamente.

Mas tinha cada um o seu destino
Tinha cada um o seu caminho diferente.

Os seres amados dispersaram-se,
Perderam-se nas distancias enormes.
E eu fiquei e pobre,
Sentindo vagamente
Na minha solidão
Sua profunda pulsação longínqua.


Tasso da Silveira
In Poemas de Antes

terça-feira, 31 de março de 2009

TREVA...



Acende a lanterna da Tua graça
na floresta funda
para que eu ache o caminho
da Tua casa perdida entre penumbras tão distantes...

Acende a lanterna da Tua graça,
por que não há trilhos mais ásperos
nem mais secretos precipícios
do que os da floresta funda.
Nem distâncias que se prolonguem tão desesperantemente,
nem medo tão longo de ficar-se perdido para sempre...

Acende a lanterna da Tua graça,
porque para os meus olhos se apagaram
todas as paisagens lúcidas.
Porque a minha treva transbordou de dentro de mim mesmo
sobre as coisas do mundo..."


Tasso da Silveira

ESSÊNCIA



Do fundo do abismo de fragilidade
e de miséria
em que assentou a nossa pobre poeira humana,
eu contemplei, Senhor, as estrelas sagradas.
E vi que há pensamentos infinitos
que o homem ainda não pensou.
Que há palavras profundas
que ainda não foram pronunciadas.
Porque as imagens visíveis
da tua grandeza invisível
estão muito além
do que, através dos milênios,
o espírito concebeu.

Senhor, a antena mágica do espírito
ainda não captou
todas as tuas mensagens de beleza.

A antena trêmula do espírito
ainda não captou
todos os teus ritmos
essenciais.

Tasso da Silveira
in Poemas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009




Que temos neste mundo, meu Deus, afora o amor e o sofrimento?
Temos os ventos, as areias, as árvores, o mar,
e os caminhos na montanha e na planície,
e as estrelas na noite, e os pássaros, e as manhãs puras,
e as coisas humildes e gloriosas que o homem talhou com mão trêmula,
os barcos no porto manso, ao crepúsculo,
a talha de água num recanto escuro de cozinha,
os longos perfis de torre,
a massa antiga, sob o sol, dos mosteiros em silêncio . . .

Que temos neste mundo, meu Deus, afora o amor e o sofrimento?
Todos os seres, e as coisas, e as realidades
que são fonte de amor e sofrimento,
que são fonte da sede de beleza
ou da profunda melancolia . . .


Que temos neste mundo, meu Deus, afora o amor e o sofrimento?
O Mar para perpetuar a ânsia de virgindade e infinitude,
As manhãs puras, as árvores, os pássaros, as areias,
para acordarem a saudade da inocência,
as estrelas na noite para porem esplendor e inquietação no espírito,
os caminhos na montanha e na planície,
para manterem vivo este ímpeto de fuga,
e as coisas humildes ou gloriosas que o homem modelou com mão trêmula,
para lembrarem que a vida foi sempre esta mesma vida.

Que temos neste mundo, meu Deus, senão amor e sofrimento?



Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Outono"




O outono é pomo... É puro pomo o outono.
Pomo de sonho e de recolhimento,
pendendo, longe do amargor violento,
num perdido pomar de sombra e sono.

Há o vento, é certo, o lamentoso vento,
uivando, uivando como cão sem dono.
E a tristeza passando a passo lento
na alameda... E as lembranças. E o abandono.

Mas há também, no outono, essa doçura,
essa total renúncia de oferenda,
esse eterno alheiamento à dor e ao mal,

que faz do pomo uma presença pura
da bondade de Deus na ânsia tremenda,
no degredo da angústia universal.



Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –

"Fronteira"




Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.



Tasso da Silveira
in "Regresso à Origem" (1960).

"Canção"




Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.

Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.



Tasso da Silveira
in "Regresso à Origem" (1960)
POETAS do modernismo: antologia crítica. Org. Leodegário A. Azevedo Filho. Brasília: INL, 1972. v.4, p.69. (Literatura brasileira, 9C)

"Canção"




No fim de contas, um pássaro
cantando na noite densa
é coisa que a gente encontra
muitas vezes, mesmo longe
do vago mundo da lenda.

Alma é dor, mas também êxtase.
E quando menos se espera
da areia surge uma fonte,
nasce uma rosa na sombra,
canta um pássaro na treva.

A amada chegando tímida
é a rosa por que esperamos,
o amigo, uma fonte fresca,
e a lua no céu acesa
vale um pássaro cantando.

Solta um pássaro notívago
profunda e grave cantiga
no entanto pura e singela:
isto ocorre quando o Poeta
canta na noite da vida.


Tasso da Silveira
1.895-1.968

sábado, 19 de janeiro de 2008

"FRONTEIRAS"



Os cedros, a lua, os túmulos
geraram este silêncio,
ou do silêncio nasceram
cedros, túmulos e lua?

Indiscerníveis limites:
não podemos saber nunca
se triste é este pobre mundo,
se nós é que somos tristes.


Tasso da Silveira
Poemas Tristes – l.966 –

"NOTURNO'



Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.

Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?

Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.


Tasso da Silveira
In Tasso da Silveira - Poemas
Organização e seleção de Ildásio Tavares
ABL/Edições GRD, São Paulo, 2003