A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

TRISTES E ALEGRES...


(Viktor Vasnetsov)


Resposta a versos de Arthur Miranda


Tu, jucundo cantor das alegrias,
alma forrada de estendais de luz,
que não levas das torvas agonias
a desumana e pungitiva cruz,

vai da existência pelo trilho brando
cantando o sol que te redoura a fronte!
Alegre hás de sentir todo o horizonte,
enquanto, alegre, fores tu andando...

Felizes esses que não têm a funda
tortura atroz da idéia, que, cruel,
mesmo os sorrisos da ventura inunda
de um ressaibo amaríssimo de fel!

E olha: eu não amo os velhos romantismos,
que usam do pranto, como jóia cara,
E cujas rimas de perícia rara
são crises vãs de sentimentalismo.

Vejo a miséria, a insipidez da vida,
que é como um verde e pútrido Paul,
e sei que é sobre nós a desmedida
curva do céu: uma mentira azul.

Então eu vergo irremíssivelmente
-sem que a tal mágoa possa achar remédio-
ao negro peso colossal do tédio
por tudo quanto minha vista sente.

E, pois, se creio todo o mundo triste,
é que a Tristeza na minnh’alma habita;
nela, entre escombros, funeral, crocita
um corvo: o Spleen que dentro em mim existe.

Medeiros e Albuquerque

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

ESTRELAS APAGADAS




Elle vous servira, la foi dans cette fable,
D‘étoile à votre chemin.
JEAN RICHEPIN



Cândida estrela, que no etéreo espaço
brilhas com luz encantadora e viva
e atrás da qual minh’alma pensativa
do céu se lança pelo azul regaço,

quando, às vezes, te fito, em mim se aviva
um pensamento nebuloso e baço
e eu cismo que talvez o último passo
nas órbitas do azul deste, cativa,

e hoje essa luz, a luz que nos envias
-astro apagado do correr dos dias-
teu morto foco nem sequer a tem!

Então minh’alma, desprendida, pensa
que inda perdura o rutilar da Crença
e Deus – seu foco – se extinguiu também!


Medeiros e Albuquerque
In: Canções da Decadência e Outros Poemas

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

'PASSANDO...'


(Photo by Fernando Campanella)

Por entre a louca multidão ruidosa,
que a seus pés se agitava doidamente,
erguia a calma fronte majestosa
a altiva estátua do guerreiro ingente.
Um dia veio a guerra... Ímpia, sacrílega,
mão estrangeira num furor infando
fê-la rolar partida, enquanto as turbas
riam, passando...

O ipê robusto sacudia os galhos,
onde cantava a música dos ninhos;
dos céus bebia os matinais orvalhos
ensombrando as alfombras dos caminhos.
Um lenhador chegou. Os ramos da árvore
caíram todos a seu forte mando...
Hoje, no chão deserto, as feras rudes
Seguem, passando...

Tudo passa no Mundo, no Universo...
Tudo segue seu rumo inevitável...
No mar, na terra, na amplidão, disperso,
nada perdura eternamente estável.
Prantos de dor, invocações ou súplicas,
quem pode desviar a Sorte, quando,
quando a roda fatal nos toma e leva,
leve, passando!

Não! Ninguém nos detém... Lábios de virgem,
sonhos nobres de louros e de glória,
nada detém na intérmina vertigem
o turbilhão da vida transitória.
Ó crianças que amais! Ó almas cândidas,
que acreditais no afeto amigo e brando,
não busqueis ilusões... O amor mais forte
morre, passando...


Medeiros de Alburqueque
In: Canções da Decadência e Outros Poemas

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

'Ilusões'




Velas fugindo pelo mar em fora…
Velas…pontos - depois … depois vazia
a curva azul do mar onde, sonora,
canta do vento a triste salmodia…

Partem pandas e brancas… Vem a aurora
e vem a noite após, muda e sombria…
E, se em porto distante a frota ancora,
é p’ra partir de novo em outro dia…

Assim as Ilusões. Chegam, garbosas,
palpitam sonhos, desabrocham rosas
na esteira azul das peregrinas frotas…

Chegam… Ancoram ‘alma um só momento;
logo, as velas abrindo, amplas ao vento,
fogem p’ra longe solidões remotas


Medeiros e Albuquerque
(in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2004)

sábado, 25 de outubro de 2008

'CREPÚSCULO'



Quando o sol avermelhado
d’água imerge na planura,
e precede a noite obscura
o crepúsculo avermelhado
paira um clarão desmaiado
lutando co’a sombra escura
que desce da curvatura
do firmamento azulado.

Assim, dentro de mim, da Crença
resta um clarão quase frio,
que inda combate a Descrença,

e, nas ânsias d’esta luta,
- qual crepúsculo sombrio,
hoje a Dúvida me enluta ...


Medeiros e Albuquerque
in 'Canções de Decadência e outros Poemas'1.887-