A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 6 de julho de 2014

O HOMEM QUE CONTEMPLA


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anônimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens",
(1902).. [tradução Maria João Costa Pereira]

SOLIDÃO


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens", (1902)..
[tradução Maria João Costa Pereira

O HOMEM QUE LÊ



Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke,
em "O Livro das Imagens", (1902)..
[tradução Maria João Costa Pereira].

[Tela by Edgar Degas]

terça-feira, 26 de março de 2013

''DIA DE OUTONO''


Senhor, é tempo. O verão foi grande.
Pousa sua sombra nos cadrans solares,
e pelos ares os ventos expande.

A tardia fruta torna madura;
dá-lhe mais dois dias meridionais,
amadurece-a com toques finais
e concentra na uva toda a doçura.

Não mais fará casa quem agora não a tem.
Quem agora está só, muito tempo há de ficar,
irá ler, velar e longas cartas esboçar,
pelas alamedas, inquieto, vai vagar,
enquanto no alto as folhas secas vão e vem.

Rainer Maria Rilke
In Senhor, é Tempo

''A FONTE''


Quero uma lição, a tua serve,
fonte, que sobre ti mesma cais, -
a das águas ousadas a quem cabe
esta celeste volta para a vida em terra.


Tanto quanto teu vário rumor
nada saberia me servir de exemplo;
ó tu, coluna leve do templo
que desmorona no próprio vigor.


Na tua queda, quanto que canta
cada esguicho que finda a sua dança.
Como sinto-me o aluno, o rival
de tua nuance incardinal!


Mas o que mais que teu canto a ti me empurra
é este instante de um silêncio em delírio
quando de noite, pelo teu fluído impulso
dás a volta por cima levantando um suspiro.


Como é bom pensar às vezes como tu,
irmão mais velho, ó meu corpo,
como é bom estar forte
da tua força,
sentir-te casca, caule, folha
e tudo o que podes tornar-te ainda,
tu, tão junto ao espírito.


Tu, tão franco, tão unido
em tua alegria manifesta
de ser esta arvore de gestos
que, num instante, desapressa
as marchas celestes
para aí pôr a sua vida.



Rainer Maria Rilke
In: Jardins
Tradução: Fernando Santoro

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Não deves entender a vida"

 
Não deves entender a vida,
seria então como uma festa.
Deixe que cada dia aconteça,
como uma criança que passa
e a cada dor
com muitas pétalas se presenteia.

Juntá-las e guardá-las
para a criança não tem sentido.
Retira-as suavemente dos cabelos,
onde tão facilmente se prenderam,
retoma os jovens e amados anos
de novo em suas mãos.

Rainer Maria Rilke

(Arte : Amanda Cass)

"Moro entre o dia e o sonho"


   Moro entre o dia e o sonho.
Onde cochilam crianças, quentes da correria.
Onde velhos para a noite sentam
e lareiras iluminam e aquecem o lugar.

Moro entre o dia e o sonho.
Onde tocam claros sinos vesperais
e meninas, perdidas da confusão,
descansam à boca do poço.

E uma tília é minha árvore querida;
e todos os verões que nela se calam
movem outra vez os mil galhos,
e acordam de novo entre o dia e o sonho.

Rainer Maria Rilke

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

''Hora Grave''



Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

Rainer Maria Rilke
(Tradução: Paulo Plínio Abreu)

'Solidão'


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

domingo, 13 de maio de 2012

Tal é a nostalgia...


Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.

Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.


Rainer Maria Rilke,
in Antologia Poética
Tradução Geir Campos

'Cair da noite'

Cai a noite a mudar devagar os vestidos
que uma franja de árvores velhas lhe segura;
olhas: e separam-se de ti as terras:
uma que vai para o céu, outra que cai;

e deixam-te, sem pertenceres de todo a qualquer delas,
não tão escuro como a casa silenciosa,
não tão seguro a evocar o eterno
como a que cada noite se faz estrela e sobe;

e deixam-te (indizível de desenredar!)
a tua vida, angustiada, gigantesca, a amadurar, tal
que, ora limitada ora compreensiva,
alterna em ti - ou pedra ou astro.

Rainer Maria Rilke

segunda-feira, 19 de março de 2012

Respirar...

(Tela de Anouk Lacasse)


Respirar, invisível dom – poesia!
Permutação entre o espaço infinito
e o ser. Pura harmonia
onde em ritmos me habito.


Única onda, onde me assumo
mar, sucessivamente transformado.
De todos os possíveis mares – sumo.
Espaço conquistado.


Quantas dessas estâncias dos espaços
Estavam já em mim. E quanta brisa
Como um filho em meus braços.


Me reconheces, ar, nas tuas velhas lavras?
Outrora casca lisa,
céu e folhagem das minhas palavras.


Rainer Maria Rilke
In: Poesia - Coisa
Tradução: Augusto de Campos

"A nós , nos cabe andar"



A nós , nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,

são mínimos pedaços
do que há de ficar.

É perda pura
tudo o que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.

Jovem, não há virtude
na velocidade
e no voo aonde for.

Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.


Rainer Maria Rilke
In: Poesia - Coisa
Tradução: Augusto de Campos

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O cisne

Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.


E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águas


que mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;


então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.


Rainer Maria Rilke
Tradução de Dora Ferreira da Silva



'The Swan''

This laboring through what is still undone,
as though, legs bound, we hobbled along the way,
is like the akward walking of the swan.

And dying-to let go, no longer feel
the solid ground we stand on every day-
is like anxious letting himself fall

into waters, which receive him gently
and which, as though with reverence and joy,
draw back past him in streams on either side;

while, infinitely silent and aware,
in his full majesty and ever more
indifferent, he condescends to glide.

Rainer Maria Rlke
Translated by Stephen Mitchel

Wolga

WolgaBist Du auch fern:
ich schaue Dich doch an,Bist Du auch fern:
mir bleibst Du doch gegeben ---
Wie eine Gegenwart, die nicht verblassen kann.
Wie meine Landschaft liegst
Du um mein Leben.
Hätt ich an Deinen Ufern nie geruht:
Mir ist, als wüsst ich doch um Deine Weiten,
Als landete mich jede Traumesflut
An Deinen ungeheuren Eisamkeiten.


Rainer Maria Rilke

Volga


Por longe que estejas: posso ainda te ver,
Por longe que estejas: tu permanecerás
Qual presença que não pode empalidecer,
Qual paisagem, a mim sempre contornarás.
Se tuas margens eu jamais tivesse tocado,


Mesmo assim saberia tua imensidão:
Ondas de meus sonhos me teriam levado
À beira de tua infindável solidão

Rainer Maria Rilke

Photography :
The Volga (Russian: Во́лга; [ˈvolɡə] ( listen)) is the largest river in Europe in terms of length, discharge, and watershed. It flows through central Russia, and is widely viewed as the national river of Russia. Out of the twenty largest cities of Russia, eleven, including the capital Moscow, are situated in the Volga's drainage basin. Some of the largest reservoirs in the world can be found along the Volga. The river has a symbolic meaning in Russian culture and is often referred to as Volga-Matushka (Volga-mother) in Russian literature and folklore.

Rainer Maria Rilke -(Praga, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926)

Amo as horas noturnas do meu ser em
que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.

Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.


Rainer Maria Rilke
(In ‘Poemas As Elegias de Duíno Sonetos a Orfeu’,
Tradução de Paulo Quintela, ( 2001)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

SOLIDÃO


A SOLIDÃO É COMO CHUVA

Sobe do mar nas tardes em declínio;
das planícies perdidas na saudade
ela se eleva ao céu, que é seu domínio,
para cair do céu sobre a cidade.

Goteja na hora dúbia, quando os becos
anseiam longamente pela aurora,
quando os amantes se abandonam tristes
com a desilusão que a carne chora;
quando os homens, seus ódios sufocando,
num mesmo leito vão deitar-se: é quando
a solidão com os rios vai passando...


Rainer Maria Rilke
In o livro das imagens, 1902


Solidão (outra tradução)


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


©Rainer Maria Rilke
Tradução de Maria João Costa Pereira

TAL É A NOSTALGIA


Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.

Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.

Rainer Maria Rilke
Tradução de Antônio Roberto de Paula Leite
In Antologia Poética

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
Do coração e eu estarei à borda:
Onde não há mais nada, ainda acorda
O indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
Das coisas, e uma luz depois do escuro,
Um rosto extremo do desejo obscuro
Exilado em um nunca-apaziguar,

Ainda um rosto de pedra, que só sente
A gravidade interna, de tão denso:
As distâncias que o extinguem lentamente
Tornam seu júbilo ainda mais intenso.

Rainer Maria Rilke,
Tradução Augusto de Campos

terça-feira, 27 de julho de 2010

Tal é a nostalgia...


Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.

Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.


Rainer Maria Rilke,
in Antologia Poética
Tradução Geir Campos