A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O CASTELO



O teu castelo é como um castelo de cartas
Como tantos que ao vento aluíram no mar.
Não lhe toques. Nada ficou por acabar.
Tal como o ergueste hás de deixa-lo quando partas.

Mesmo um friso de espuma é o princípio da morte
Que alonga pela areia o braço da maré.
Muros houve que mal estiveram de pé,
Ainda que parecendo os de uma praça forte.

A areia é eterna, o mar é eterno, eterno é o vento,
Mas eterno será também o esforço vão
De erguer castelos que bem pouco durarão
Nesta praia que só promete esquecimento.


Ribeiro Couto
In: Longe

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

"Epitalâmio"



Apenas as gotas de chuva: compassadas e mansas.
A folhagem, lá fora, adormeceu feliz.
Despertando na relva, cantam grilos baixinhos.
A confidência da chuva, a confidência dos grilos,
Tudo que vem da noite é surdina e doçura.

Certeza não direi, mas direi: esperança.
Deves pensar em mim neste momento mesmo.
Teu pensamento é o meu, tua esperança é a minha.
Através do espaço, não é verdade? as nossas mãos
Estão apertadas, em segredo.
E que o melhor de nós habita na distância
Que nos separa.

Ribeiro Couto
in Apresentação da poesia brasileira"
(1898-1963)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

"ILHA DISTANTE"



Ilha de melancolia,
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;

Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;

Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;

Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;

Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —

Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.


Ribeiro Couto
in Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Litoral Bravio.
Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.422

segunda-feira, 9 de julho de 2007

NO JARDIM EM PENUMBRA



Na penumbra em que jaz o jardim silencioso
A tarde triste vai morrendo ... desfalece...
Sobre a pedra de um banco um vulto doloroso
Vem sentar-se, isolado, e como que se esquece.

Deve ser um secreto, um delicado gozo
Permanecer assim, na hora em que a noite desce,
Anônimo, na paz do jardim silencioso,
Numa imobilidade extática de prece.

Em lugar tão propício à doçura das almas
ele vem meditar muitas vezes, sozinho,
No mesmo banco, sob a carícia as palmas.

E uma só vez o vi chorar, um choro brando...
Fiquei a ouvir... Caíra a noite, de mansinho...
Uma voz de menina ao longe ia cantando.


Rui Ribeiro Couto

'CINCO NOTURNOS'



O momento do adeus virá sozinho
abrirá sobre mim asas e braços,
sentirei que me tocam de mansinho
como que brandos véus de brandos laços.

Quando enfim compreender que me avizinho
de um mundo que se perde nos espaços,
um só olhar terei para o caminho
que atrás deixei com a marca dos meus passos.

A que me foi sinal aberto e estrela,
luz da secreta noite em que respiro,
ah, se eu pudesse junto a mim sabê-la!

Que a hora de morrer será fagueira
desde que vá meu último suspiro
a quem foi meu cuidado a vida inteira.


Ribeiro Couto

ESQUECER




Longos dias de sonho e de repouso...
Ócio e doçura...Sinto, nestes dias,
Meu corpo amolecer, voluptuoso,
Num desfalecimento de energias.

A ler o meu poeta doloroso
E a fumar, passo as horas fugidias.
Entre um cigarro e um verso vaporoso
Sou todo evocações e nostalgias.

Quando por tudo a claridade morre
e sobre as folhas do jardim doente
A tinta branca do luar escorre,

A minha alma, à mercê de velhas mágoas,
É um pássaro ferido mortalmente
Que vai sendo arrastado pelas águas.


Rui Ribeiro Couto

CHUVA



A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.


Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.


Dentro de nós existe uma tarde mais fria...


Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...


Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.


Chove dentro de nós... Chove melancolia...



Ribeiro Couto

ELEGIA



Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...


Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.


Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.


Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.


Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.


Virei no vento...
Direi: acorda...



Ribeiro Couto

ILHA DISTANTE



Ilha de melancolia,
Sem portos e sem cidades —
Só praias de areia fria
E coqueiros com saudades;

Praias de uma areia morta,
Conchas que ninguém apanha,
Coqueiros que o vento corta,
Brandido por mão estranha;

Morta já à flor da onda
A espuma a sumir na areia;
Nenhuma voz que responda
Aos ais que o vento semeia;

Ilha deserta, deserta,
Nem sequer junto a outra ilha;
E à noite uma luz incerta
Que não se sabe onde brilha;

Ilha de um só habitante,
Com seu mar fora do mundo,
Mar que na maré vazante
Cava cem braças de fundo —

Ainda hás de ser a alegria
De um vaporzinho cargueiro
Que a ti chegará um dia
Perdido no nevoeiro.

Ribeiro Couto

O LONGE E O PERTO




Logo que a noite envolve em sombras o jardim
Parece que um mistério estranho me rodeia,
Bocas de flores se entreabrem para mim,
E não sei de quem são estes passos na areia
Nem este murmurar de uma queixa sem fim.


Como a seiva da terra alimenta as raízes,
Uma seiva secreta enche meu coração.
Deve ser o tal "gosto amargo de infelizes",
Plantinha sempre verde entre as pedras do chão,
Cujo travo provei em todos os países.


Tudo que pude fiz para não ser assim,
Mas não posso esquecer o longe pelo perto;
Os que amei e perdi dormem dentro de mim;
A culpa é minha, sou eu mesmo que os desperto,
Logo que a noite envolve em sombras o jardim.


Ribeiro Couto

MONÓLOGO DA NOITE



Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...

A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.

Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.


Ribeiro Couto