A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 15 de julho de 2012

''SE UMA ESTRELA CAíSSE ...''

(Paint By Gustav Klimt)
(July 14, 1862 – February 6, 1918)


Sob o céu estrelado
implorei não me deste
o teu beijo esperado,
tantas vezes sonhado.
E volvendo o risonho
rosto aos astros, disseste :
« Quando cai uma estrela
o que se pensa a vê-la
e com fervor se pede,
Deus infalivelmente
concede. »

Com um sorriso indulgente,
Respondi-te : « Criança ! »
E pensei no meu sonho
e na minha esperança.
E pensei, mas não disse :
« Se uma estrela caísse ... »

José Lannes
in Candeia – l.948.

domingo, 1 de março de 2009

VESPERAL



Hora de benção, de perdão, de prece ...
E que, no entanto, é das que mais afligem ...
Entardecer ... O azul empalidece
como um rosto na agônica vertigem ...

Em breve a noite vai colher a messe
das estrelas ... E da cerúlea origem
a alma do vago sobre as almas desce
e as saudades para elas se dirigem ...

Morreu da luz o fulgurante império ...
O poente, como as ilusões perdidas,
os nossos sonhos vãos, se fez cinéreo ...

E sobre tantas ruínas, quando é noite,
virão chorar, nas horas esquecidas,
as cristalinas lágrimas da noite ...


José Lannes
in Candeia – l.948.

'SIMBOLISMO DA CISTERNA'




Só, na adusta amplidão de um deserto maldito,
ao cáustico do sol, redonda brasa eterna,
voltada para o azul, num anseio infinito
de água, como a implorá-la, ei-la a pobre cisterna.

Em vão! O azul é surdo e a dor incompreendida!
Nesse árido deserto é intérmino o verão!
- Alma, assim tu também, pelo Saara da vida,
cisterna do ideal, ansiará sempre em vão!


José Lannes
in Candeia – l.948.

'CREPUSCULAR'



Crepúsculo da tarde, esta agonia
de cores meigas e de luz magoada
não a compreende a mente rude e fria,
onde a ilusão e a dor não têm pousada.


Mas à alma sonhadora e amargurada
bem familiar é a tua nostalgia:
- Efêmera saudade eternizada
na velhice infantil de cada dia ...


Cada dia a morrer eternamente,
é como o sol que agora já não arde
esta minha alegria descontente.


Ante o cair da noite muda e calma,
é como tu, crepúsculo da tarde,
sempre triste gêmeo de minha alma ...


José Lannes
in Candeia – l.948.

sábado, 25 de outubro de 2008

'NUMA ESTRANHA ALAMEDA ...'



Numa estranha alameda, à luz magoada e fria
de roxo plenilúnio e onde ninguém passasse,
numa estranha alameda é que eu desejaria
que minha pobre vida em breve me deixasse ...

Como se ensombra a alma esta melancolia!
Como seria bom que esse instante chegasse!
Numa estranha alameda, após suave agonia,
sem hissope, sem cruz, sem requiescat in pace ...

Na quietude feral das noites estreladas
sonharia, feliz, meus sonhos de outros mundos,
tendo perto de mim, como guardas paradas,

dois renques laterais de palmeiras sem palmas,
altas, quase tocando o azul dos céus profundos,
para onde embalde voa a esperança das almas ...


José Lannes
in Candeia – l.948.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

"Filosofia'



“A nossa pobre vida nos ilude:
— A maior alegria ainda é pequena,
guarda no âmago, um gérmen que envenena:
porque jamais atinge a plenitude...

Eis que enfim a Renúncia nos acena
e diz: — Eu sou a máxima virtude.
Só é feliz o que se desilude,
e tem, ante o mistério, a alma serena.

Mas a vida nos foge...e é quando basta,
para na dor cruel que nos devasta,
nesta insidiosa e trágica incerteza,

gozarmos nossa mísera alegria,
ainda a mais ilusória e fugidia,
com uma ansiedade, que já é tristeza...”


José Lannes
(RJ-1895-SP-1956)

'Griet'




Pensava em ti profundamente... quando
chegaste... E tão absorto me sentia
que, ao ver-te, apenas te sorri contente

e quedei, duvidando
se eras tu que chegavas realmente
ou se era em pensamento que te via...

José Lannes
(1895-1956)