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domingo, 10 de março de 2013
''TARDE DE DOMINGO''
assim
disposta num terraço
aberto ao tempo
a cadeira se balança
com cuidado e conforto
mas leve indecisão
quanto ao ritmo
não tanto
pelo frágil frêmito
da imagem do mar
seu brilho
de espelho fraturado
sob o sol
mas sobretudo
pela regularidade
do movimento mesmo do mar:
avanço sistemático
e recuo estratégico
a tracejar
uma linha de ameaça
ou simples prenúncio
de perigos mais fundos
— o frio dos abismos
e os restos
que habitam esta baía
não fosse vir
de dentro da casa
essa música
feita de limpidez
e medida
maquinaria impalpável
de emoção à flor da matéria
que numa recusa ao devaneio
se articula avessa à dispersão
para expor
por entre sombras
iluminadas pela razão
todo o seu desalento
[Júlio Castañon Guimarães]
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Júlio Castañon Guimarães
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Noturno à janela

certas noites
a névoa invade
tão densa tudo
que impede ver
o outro lado da baía
não apenas
a linha do horizonte
ou o corpo das montanhas
ou mesmo o espaço de mar
e as ilhas interpostas
que toda noite
quase ocultos
já tendem a se tornar
mera hipótese
salvo a brisa
e o que nela há
de memória e suposição
mas sobretudo
os faróis
suas luzes intermitentes
ora pontuações do silêncio
ora suturas de uma arquitetura
sem limites sem traves
volumes insuspeitos opacos
sim um tudo desmesuradamente nada
Júlio Castañon Guimarães
(do livro Matéria e paisagem, 1998)
(Minas Gerais -1951)
DESACORDO

passos sem retorno
deflagram o desamparo da memória:
ruas em silêncio
te ignoram e se demitem
de fotografias imunes
resta
trégua irônica ante o pasado
um vago poema
desperto porém
contra as arestas do dia
Júlio Castañon Guimarães
(Minas Gerais - 1951)
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