A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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segunda-feira, 30 de julho de 2007

"ENTRE A SOMBRA..."




Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde aves não cantam,
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!

— E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.

Onde nada se move, uma estrela suspensa.

E tão inutilmente despedaço o encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
— o intocável, único espaço.


Maria Alberta Menéres

"PRONTO"



Pronto. O ponto ponte para tudo.
Fim do silêncio balançado no lance.
O desespero agora e de granito
a pequena picada de sugarem o sangue.

Pronto. A eternidade numa terna cidade
de vendavais ao vento e doces automóveis
- Pele que repele o ódio sobre a pele,
alcatrão da memória em cor imóvel.

E quando de repente da violência
de um nefasto fastio irrompe o sono
- Pronto – eis o ponto ponte para nada
A pequena picada de sugarem o nome.

Loucura é não gritar de noite ao meio-dia
quando as florestas iniciam os gestos.
Tudo o que às vezes nasce, masca e morde:
palha de burro é coração de insectos!


Maria Alberta Menéres

"ÁGUA-MEMÓRIA"




Que súbita alegria me tortura
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?

Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?
Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?

Maria Alberta Menéres

'CÂNTICO DE BARRO'



Inquieta chuva, inquieta me dispersa,
esquecida a tradição e o cansado som.
Dentro e fora de mim tudo é deserto
como se as ervas fossem arrancadas
ou se esgotasse a dor por que se chora.

Na grande solidão me basta, e a contemplo
para o sonho interior que me resolve!
Tão fácil é esperar, que já nem sinto
o que vem a dormir ou a morrer
na mesma angústia que o silêncio envolve.

Maria Alberta Menéres