A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

LEGADO



Eu já não deixo as mesmas madrugadas,
nem o luar em que me batizei.
Minha alma de carícias renegadas
contempla das imagens desmaiadas,
imagens clandestinas que acordei.

Não deixo qualquer nome de linhagem,
tampouco o da beleza e da magia.
Ficam as minhas cismas, a miragem;
o pouco de investida e de coragem
e as nuances de uma estranha fantasia.

Meu bem-querer - seu derradeiro espanto
que guardarei comigo até o final.
Minhas tardes quebradas de quebranto
num servilismo ao júbilo, conquanto
não fosse minha têmpora imortal.

Deixo a poesia - meu amor primeiro
onde cantei a vida e a solidão;
o tempo mais feliz e prazenteiro;
o dom de superar todo braseiro,
que ardia dentro em mim - no coração.

Deixo saudade onde encobri dstâncias
vôos longínquos do albatroz sem asas.
Parto pelo caminho de outras ânsias
a desvendar nas graves ressonâncias,
o limite do céu por entre as gazas.

Eu deixo a fé primeira do aprendiz
que navega nos mares da inquietude.
o meu farnel - a lira me bendiz,
o tempo que sonhei em ser feliz
e finalmente ser feliz não pude.

Deixo também meus poucos descendentes
ancorados à flor da mocidade.
São córregos de lúcidas vertentes;
são rios de pequenos afluentes,
mas são sementes para a eternidade.

Jandira Grillo
em Antologia 2000 - Academia Amparense de Letras

PESCA MARAVILHOSA



Lança a rede no fundo da memória
que as águas da consciência, revolvidas,
trarão à tona a pesca compulsória
das almas mais carentes, mas queridas.

A vida, que transcende a trajetória
humana, vai além dessas medidas
de tempo e desta Saga expiatória,
no reacender de dores e feridas.

No contorno profundo desses mares,
há feições reprimidas de luares,
por canseiras sem fim, por tantas mágoas...

Como eu quisera, então, por um momento,
abrir essas comportas de lamento
e encher de amor o fundo dessas águas.

Jandira Grillo
in: 'Uma canção de amor para você'
São Paulo

domingo, 15 de julho de 2007

"ARREPENDIMENTO"




Se ao coração que chora fora dado
Em dose,embora escassa de beber,
A taça misteriosa do esquecer,
Quanto ser viveria embriagado.

Viver embriagado do viver,
E não lembrar jamais o que é lembrado,
Lembrar somente e apenas com cuidado
Que o cuidado maior é o de esquecer.

Divina fantasia de quem ama,
Tolher a chama ,quando a vida é chama
Matar a sede,quando a sede é de arte.

O intimo mistério de querer-te!
Maior que a própria pena de perder-te
Foi o arrependimento de buscar-te!


Jandira Grillo