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quinta-feira, 21 de novembro de 2013
''PARA SER FELIZ''
...nada saber de Geografia
ignorando, assim, a semelhança
entre a ilha perdida no oceano
e o sozinho em meio à multidão
....não conhecer História Natural,
imaginando integram um só reino
os animais e os minerais,
não havendo surpresa ao defrontar,
a cada passo, corações de pedra
....nunca ter aprendido Matemática
e não poder, então, somar angústias,
multiplicar tristezas e desgostos,
contar e recontar horas vazias
....desconhecer Astronomia,
posição e distância das estrelas
supondo ser possível alcançá-las,
trazê-las aos punhados, faiscantes,
para o enlevo dos olhos bem amados
....não ter qualquer noção de Geometria,
de ângulos, triângulos, polígonos;
não entender de círculos e retas,
porque só é feliz quem nada sabe,
nem percebe que o Sonho e a Realidade
fazem jornada em ruas paralelas.
Graciette Salmon,1960
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
'SOMA'
De que vale ir somando a própria idade?
certo é somá-la, em dobro, no cansaço
do dia-a-dia lento, na verdade,
qual se escorresse em milenar espaço.
A compreensão da inutilidade
do gesto amigo, do fraterno abraço,
alonga o dia, alonga a soledade,
envelhecendo o coração e o passo.
O tempo, indiferente, traz enganos,
faz os minutos parecerem anos
e num segundo um século caber.
Mas, nada importa a idade acontecida:
importa apenas a canção da vida,
a letra e a melodia de – Viver!
Graciette Salmon
In: Ciranda
''SOBREVIVÊNCIA''
Tudo passa, dor e riso,
venturas em róseo friso,
males que em roxo debruam.
Passam deuses, criaturas,
horas azuis ou escuras,
nuvens que alto flutuam.
Tudo passa, gesto e face,
mas a esperança renasce
. . . e as rosas continuam.
Graciette Salmon
In: Ciranda
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
CIRANDA

(Severino Ramos)
Eu passei por aqui . . . Fico lembrando
um instante, uma hora de algum dia
onde o giro da vida, cirandando,
era festa de luz e de alegria.
Eu passei por aqui, feliz, cantando . . .
Mas, das lindas cantigas que sabia,
foram adormecendo, nem sei quando,
as palavras, o tom, a melodia.
O tempo segue, mas eu vou de volta
-a saudade por guia e por escolta –
aos caminhos azuis que percorri.
Ah! os longes da vida! . . . e as lembranças,
qual uma alegre ronda de crianças,
refazem a ciranda que perdi.
Graciette Salmon
In: Ciranda
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Soledade
Nunca mais nos veremos. Nesta vida
nossos caminhos não se encontram mais,
seja longa e jornada, ou resumida,
carregada de risos ou de ais.
Não sei de ti, de teu viver, tua lida,
se te alcançaram beijos ou punhais;
e não sabes se vou, sombra perdida,
pisando sobre estrelas ou roçais.
A dor é inútil, a esperança é vã:
não temos o claror de um “amanhã”
rasgando a escuridão do desconforto.
Nunca mais nos veremos. A Saudade
-traço de união em nossa Soledade –
estende as asas sobre o Sonho morto.
Graciette Salmon
In: A Vida Por Dentro
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Inutilmente

Floriram os ipês ali da praça
e, quando a gente passa,
-porque o vento as derruba em profusão –
vai esmagando flores pelo chão.
Como ciclópica oficina
pulsa, ao redor, a vida citadina.
Arranha-céus fugindo para o alto
numa arquitetura funcional;
automóveis rodando sobre o asfalto
e, de fundas angústias carregada,
a multidão correndo, alucinada,
vazia de Ideal.
Babélica, apressada,
toda essa gente não repara em nada:
não vê, em cima, a loira floração,
nem vê que pisa em flores pelo chão.
Os ipês se enfloraram, mas em vão . . .
Sua mensagem clara, colorida,
-um hino de louvor ao Belo e à Vida –
fica rolando, inútil, pelo chão,
fica, inútil, rolando pelo ar,
pois os homens não sabem mais sonhar.
Graciette Salmon
In: A Vida Por Dentro
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
'A VIDA É UMA VITRINA...'

(Audrey Hepburn in 'Bonequinha de luxo')
A Vida é uma vitrina de tecidos.
A gente, por instantes,
fica de olhos perdidos
na beleza das telas deslumbrantes.
Depois, entra na loja e vai comprar.
Caixeirinha gentil, a Ilusão
vem vender ao balcão
e não se cansa de mostrar,
não se cansa
de exibir delicados,
rendilhados,
leves panos de Sonho e de Esperança.
As mãos tocam de leve
na leveza das telas.
Não vá o gesto, por mais breve,
esgarçar uma delas!
Todas tão lindas! Mas a que fascina
não está ali na grande confusão
das peças espalhadas no balcão.
E a gente diz,
num ar feliz:
"Levo daquela rósea, muito fina,
exposta na vitrina."
Logo o Destino vem (da loja é o dono)
e fala sobranceiro, com entono:
"É artigo raro.
Marca, padrão e cor: - Felicidade.
É um artigo de alta qualidade
o mais caro
de todos os tecidos.
São cortes especiais...e estão vendidos!"
...................................................................
E a gente vai comprar do áspero pano
que se encontra na seção do Desengano.
Graciette Salmon
in 'O que ficou do sonho'
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