A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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quarta-feira, 11 de março de 2009

VIDA




Para um destino incerto caminhamos,
Tontos de luz, dentro de um sonho vão;
E finalmente, a glória que alcançamos
Nem chega a ser uma desilusão!

Levanta-se da sombra, entre altos ramos,
Como um fumo a subir, lento, do chão,
A distância que tanto procuramos,
E os nossos braços nunca atingirão...

Mas um dia, perdidos, hesitantes,
A alma vencida e farta, as mãos tateantes,
De repente, paramos de lutar;

E ao nosso olhar, cansado de amargura,
As montanhas têm muito mais altura,
O céu mais astros, e mais água o mar.


Ronald de Carvalho
(1893/1935)

domingo, 8 de junho de 2008

"Anoitece..."




Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...



O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...



Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.



Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...


Ronald de Carvalho
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista

terça-feira, 4 de março de 2008

"ÊXUL " [OS SONETOS DO SANGUE]



Esse que sabe rir vai à festa da Vida...
— Quantos já vi passar neste longo caminho,
com os olhos postos no alto e a boca ressequida,
desejosa de sol, de pâmpanos e vinho...

Vão em busca do céu na alameda comprida
que se perde lá baixo... e eu sempre a olhar, sozinho
a audácia dos que vão para o orgulho da lida,
transpondo luar a luar, vencendo espinho a espinho...

— Caem rosas... depois... outras rosas vêm vindo...
outras rosas cairão... outras virão... e eu preso,
a ver os que lá vão pelo caminho infindo...

— Mas todos ao voltar trazem no passo triste
no lábio êxul, nas mãos senis, no olhar aceso,
a mentira imortal de tudo quanto existe...


Ronald de Carvalho

"O ELOGIO NOS REPUXOS"



Dor dos repuxos ao Sol-pôr agonizando
em plumas e marfins, em rosas de ouro e luz...
Canto da água que desce em poeira, leve e brando,
canto da água que sobe e onde o jardim transluz.

Dormem sinos na bruma -- a cinza tem afagos...
Sombras de antigas naus, velas altas a arfar,
passam em turbilhões pelo fundo dos lagos,
(a aventura, a conquista, a ânsia eterna do mar!)

Repuxos a morrer sobre si mesmos, lentos
curvos leques a abrir e a fechar num adejo,
-- mão vencida que vem de vãos incitamentos,
mão nervosa que vai mais cheia de desejo...

Volúpia de fugir -- ser longe e ser distância,
e tornar logo ao cais e de novo partir!
Volúpia -- desejar e não possuir, ser ânsia...
Repuxos a descer, repuxos a subir...

Não fixar emoções, volúpia de esquecê-las,
Andar dentro de si perdido na memória...
(Caçadores ideais de mundos e de estrelas
repuxos ao Sol-Pôr cheios de mágoa e glória...)

Dor dos repuxos ao crepúsculo cantando!
desespero, alegria -- o lábio, a mão... e um beijo.
Dor dos repuxos, dor sangrando, dor sonhando
Ir tocar a ilusão e morrer em desejo...


Ronald de Carvalho
1893-1935

"ANOITECE"


Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...



O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...



Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.



Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...


Ronald de Carvalho
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista.