A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 19 de abril de 2009

SONETO DA ESPERA INÚTIL



No outro lado de mim mora a criança,
neste lado onde estou é noite fria:
- lancei mão dos pincéis da fantasia
para tornar real minha esperança,

pintar meu ser com as cores da alegria;
então achei a minha semelhança
no menino que fui, não na lembrança
do mundo que perdi e onde vivia.

Se o sonho andei, cruzei meu labirinto
na modelagem abstrata do poema,
virgens manhãs bebi no extinto lago;

e a dor que não senti agora sinto
na amarga solidão, no amargo tema
em que ontem naveguei e hoje naufrago.



Colombo de Souza
im: O Anúncio do Acontecido

quarta-feira, 8 de abril de 2009

SONETO DO NUNCA MAIS



Quem chegou e quem partiu
viu que o farol se reparte:
-navio que chega vazio,
navio que lotado parte.


À que se foi pressagio
venturas com que se farte.
-Não minta mais quem mentiu
e ache o amor em qualquer parte.


Brilha o farol que ilumina
o continente pintado
na paisagem submarina...


Não veio o amor esperado
no navio – que não vejo
da amurada do desejo.



Colombo de Sousa
In: Antologia Poética

TEORIA DA ROSA ANCORADA



De nada vale o êxtase da viagem
na alma sem viagem das flores;


pois as imóveis pétalas das flores
jamais vêem a brisa adormecida
ao lado das folhas secas, nem pressentem
sons de violinos emergidos da lua,
talvez porque suas reservas da alegria
estejam armazenadas nos sujos porões do sono.


Inútil será o êxtase da viagem
na alma sem viagem das flores,
-jamais reanimadas do seu sonambulismo.



Colombo de Sousa
In: Antologia Poética

sábado, 21 de fevereiro de 2009

ARGUMENTO INICIAL




A Verdade existe. Como encontrá-la?
No gesto azul das flores? – Entretanto,
a flor é a alma que perdeu o encanto
e dorme. Só o amor há de acordá-la.

Por que a Verdade não se diz no canto
do pássaro? – Ninguém lhe entende a fala;
se ela se desse a quem tenta alcançá-la,
seria um corpo que despiu o manto,

não a Verdade há tanto desejada.
Seu gesto incontrolável, todavia,
começa em nós e está no outro hemisfério,

no fundo da manhã carbonizada.
Tudo em vão. Nenhum “sézamo” abriria
as portas imantadas do mistério.


Colombo de Sousa
In: Estágio

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

CANTIGA DO ECO



Deixei o rasto no silêncio
jamais vi de que lado cresço;
mas ando em bocas sem silêncio,
onde esqueci o meu começo;


risco metáforas com a bota
do Vento. Aonde vou, componho
a fisionomia remota
achada no Reino do Sonho;


ir ou ficar! – me quebro em mim
entre as curvas do movimento
e, ao olhar-me, descubro em mim
mãos vazias, dedos de vento.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

PAISAGEM PARA O SONÂMBULO



IX


O homem foi verdadeiro enquanto não
olhou o espelho. – O que era um só, depois
(pasmo ao sentir-se dividido em dois)
não pôde achar-se, procurou-se em vão.

Para abrigá-los em sua solidão.
a alma partiu a túnica entre os dois;
talvez antípodas no espelho, pois
vão sem saber por que caminhos vão.

Mas quem será o recém-chegado? – Seu
mudo olhar se procura no vazio.
-Onde ele está? Onde me encontro eu? –

Quando penso alcançá-lo já seguiu;
e fica, em seu lugar, somente o meu
rosto branco de quem nunca se viu.

Colombo de Sousa
in: Estágio

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PAISAGEM PARA O SONÂMBULO


VI


Ando por onde andou meu pensamento,
sigo-o em mim mesmo e além de mim me alongo;
o pensamento se reinventa e lento
salta as muralhas das pupilas longas.

Um dedo branco, um dedo sonolento,
desenha ovelhas cada vez mais brancas.
-Quem fecha os olhos do silêncio? (É o vento ?)
Quem abre rosas nos jardins em branco?

Há um anjo de marfim no esquecimento,
tem gestos de luar, mãos cor de rosa;
nasceu para ser a rosa vermelha,

daí guardar o mistério das rosas.
Ando por onde andou meu pensamento,
ainda a contar e a recontar ovelhas.

Colombo de Sousa
in Estágio

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

ÁRIA PARA FLAUTA



Entre o luar e a praia
tua medida exata


e em meu céu desmaia
outra ilusão de prata;


sempre o amor me atraia
no azul da serenata:


-serás a antiga praia,
serei o luar de prata.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964

domingo, 11 de janeiro de 2009

CÂNTICO




Colho o inefável entre as mãos do vento
como quem colhe rosa em pensamento;

cresço no Tempo e o colorido lento
do vento apaga minha realidade;

pássaro livre nos jardins cifrados,
vôo em violino, em minhas mãos me invento.

Colombo de Souza
in 'Estágio'

'Alegoria do Dia e da Noite'



São dois cavalos de variado porte,
Cavalgando-os por sonhos, pesadelos,
Descubro o colorido de seus pêlos,
Atento aos pontos cardeais da morte.

Talvez ao branco, ao preto me reporte,
Levam-me (sem ouvir os meus apelos)
Aonde não sei. Quem poderá detê-los?
Assim talvez à ilha do sonho aporte.

Soam os dois quais músicas em dueto
E, ao vê-los, minhas lágrimas estanco,
Atos do herói que antes não fui – cometo,

Poemas de amor do coração arranco.
– Sou noite e morte no cavalo preto,
Sou dia e vida no cavalo branco.


Colombo de Souza
in 'Antologia Poética'
(1.973)
Parana

.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

'ÁRIA PARA VIOLINO'




Para nadar no silêncio
ergo as mãos extraviadas;

são estrelas acordadas,
ou meu eco em seu silêncio.

Escorre pelo que sinto
meu perfil escrito e ouvido

e em som e cor divido
entre mim e o que não sinto.


Colombo de Souza
in: Estágio

'ALEGORIA DA BAILARINA NOTURNA'



Ei-la esculpida em seus mistérios, nua
no camarim azul da imensidade;
muros sem fim encarceram a sua
virgem alma no tempo sem idade.

Ei-la a bailar - a música insinua
a transparência do bailado que há de
vestir de espelho seu perfil de lua,
no encantado mural da Eternidade.

Quem não amar a Bela Adormecida
não cantará com ela o hino da vida,
rosas de amor plantando pelo mundo.

Seus gestos musicais nadam contornos
de almas, sonham jardins, descem ao fundo
do seu cenário de violinos mornos.


Colombo de Souza