A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

OS CAMPOS



Campos por onde nunca passarei
no céu esverdeado deste agosto
- que me importa o que serei
se meu ser é um sol já posto.

Findo talvez – e todo branco
envolto em terra, escuro mosto.
Onde imaginar o que é franco
senão na limpidez só deste rosto ?

Se morre agosto, outro tempo
sucede imutável ao próprio vento.
Campos sei, tão cheios de encantos

e tão devastados no momento
que são Campos e campos
ofertados a todos os espantos.


Lúcio Cardoso
in Poemas Inéditos
(Brasil)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

O REPENTE



Preciso de repente, como quem abre
a festa de um relâmpago.
Ah, céu anoitecido onde vivo,
que importa o desalinho
se a febre é o meu sistema?
Descerrem-se portas, retinam
momentos de fuga e de cristal:
galos de luz, trevas feridas,
missas proibidas, primaveras!

Tudo serve à fome que me impele.


Lúcio Cardoso
em Poemas Inéditos

MORANGOS SELVAGENS


(Fragaria vesca- Morangos silvestres, morangos selvagens)

Era há muito tempo. Eu apenas sabia
que em mim havia acabado esse dom
de inventar a amizade
e sentava-me tão triste, olhando
essa estrada que não tem começo nem fim
e passa por entre nós
sugerindo carência e fragilidade.
Era há muito tempo. Mas não havia
estrada, nem havia distância e nem voz.
Achei-me de repente sem dom algum.
Foi quando as frutas cresceram nos seus galhos
e eu descobri essas ácidas pitangas
que, através do seu vermelho,
ensinaram-me de novo a continuar,
indiferente e sozinho.
Fora, o mundo me arrebatava o poder
de crucificado - no entanto,
sem dom, alguma coisa em mim
resplandecia.
Assim eu ia, mas há muito tempo.

Lúcio Cardoso
em Poemas Inéditos
(28 out 1961)