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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
"À pancada da onda contra a pedra hostil"
À pancada da onda contra a pedra hostil
a claridade rebenta e decreta a sua rosa
e o círculo do mar reduz-se a um cacho,
a uma gota única de sal azul que tomba.
Oh radiante magnólia desatada na espuma,
magnética viageira cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal destruído, ofuscante agitação marinha.
Juntos, meu amor, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas estátuas perenes
e derruba as suas torres de êxtase e loucura,
porque na trama destes tecidos invisíveis
da água desenfreada, da incessante areia,
mantemos a perseguida e única ternura.
Pablo Neruda,
in "Cien Sonetos de Amor"
(tradução: José Bento)
(Imagem de Isla Negra Chile, onde poeta se encontra enterrado, e onde ele viveu por muito tempo)
segunda-feira, 7 de junho de 2010
O estéril

Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho
em chuviscos sutis de amor e de veneno.
O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.
(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)
Oh! como doem, doem essas dores humildes.
Pablo Neruda
In Cadernos de Temuco
'Encontrado' no blog da amiga Dione,'Gotas de poesias e outras Essências!Aqui.
em chuviscos sutis de amor e de veneno.
O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.
(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)
Oh! como doem, doem essas dores humildes.
Pablo Neruda
In Cadernos de Temuco
'Encontrado' no blog da amiga Dione,'Gotas de poesias e outras Essências!Aqui.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
DÁ-ME A FESTA MÁGICA

este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.
Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.
Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
para que eu seja o óleo de tua luz suprema.
E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingênuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.
Pablo Neruda
Tradução: José Eduardo Degrazia
(Chile)
terça-feira, 23 de dezembro de 2008

"Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, rejeito os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem.
(...)
Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.
De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes... Com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atônitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...
Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias..."
(Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer")
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
'OH TIERRA, ESPÉRAME '

Vuélveme oh sol
a mi destino agreste,
lluvia del viejo bosque,
devuélveme el aroma y las espadas
que caían del cielo,
la solitaria paz de pasto y piedra,
la humedad de las márgenes del río,
el olor del alerce,
el viento vivo como un corazón
latiendo entre la huraña muchedumbre
de la gran araucaria.
Tierra, devuélveme tus dones puros,
las torres del silencio que subieron
de la solemnidad de sus raíces:
quiero volver a ser lo que no he sido,
aprender a volver desde tan hondo
que entre todas las cosas naturales
pueda vivir o no vivir: no importa
ser una piedra más, la piedra oscura,
la piedra pura que se lleva el río.
Pablo Neruda
De Memorial de Isla Negra [1964], Buenos Aires,
Losada, 1964; cuatrena edizión, 1978, p. 207.
'LA NOCHE EN ISLA NEGRA'

Antigua noche y sal desordenada
golpean las paredes de mi casa:
sola es la sombra, el cielo
es ahora el latido del océano,
y cielo y sombra estallan
con fragor de combate desmedido:
toda la noche luchan,
nadie conoce el peso
de la cruel claridad que se irá abriendo
como una torpe fruta:
así nasce en loa costa,
de la furiosa sombra, el alba dura,
mordida por la sal en movimiento,
barrida por el peso de la noche,
ensangrentada en su cráter marino.
Pablo Neruda,
in: "Memorial de Isla Negra"
terça-feira, 8 de abril de 2008

II
En su llama mortal la luz te envuelve.
Absorta, pálida doliente, así situada
contra las viejas hélices del crepúsculo
que en torno a ti da vueltas.
Muda, mi amiga,
sola en lo solitario de esta hora de muertes
y llena de las vidas del fuego,
pura heredera del día destruido.
Del sol cae un racimo en tu vestido oscuro.
De la noche las grandes raíces
crecen de súbito desde tu alma,
y a lo exterior regresan las cosas en ti ocultas.
De modo que un pueblo pálido y azul
de ti recién nacido se alimenta.
Oh grandiosa y fecunda y magnética esclava
del círculo que en negro y dorado sucede:
erguida, trata y logra una creación tan viva
que sucumben sus flores, y llena es de tristeza.
Pablo Neruda
"Veinte poemas de amor y una canción deseperada"
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
"HEMOS PERDIDO AUN ESTE CREPUSCULO"

Hemos perdido aun este crepusculo.
Nadie nos vio esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caia sobre el mundo.
He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.
A veces como una moneda
se encendia un pedazo de sol entre mis manos.
Yo te recordaba con el alma apretada
de esa tristeza que tu me conoces.
Entonces, donde estabas?
Entre que gentes?
Diciendo que palabras?
Por que se me vendra todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?
Cayo el libro que siempre se toma en el crepusculo,
y como un perro herido rodo a mis pies mi capa.
Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepusculo corre borrando estatuas.
Pablo Neruda
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
"COMO NA NOITE"

Como na noite a vila dorme santamente
e não há carruagem, nem armazém, nem gente,
Caminha o homem na noite com a cabeça ao vento,
o corpo agilizado de carne e sentimento,
se imagina suspenso das estrelas.Pensa
que se este céu noturno fosse uma taça imensa
e sua alma como um fruto se espremesse sobre ela
e o sumo de sua alma lavasse assim as estrelas,
a alegria do céu seria a sua alegria
e perdido entre os astros seu cantar ficaria,
e igual às águas de um repuxo imaginário
seu sangue dessedentaria os jardins lunários.
O homem que caminha grita incessantemente.
O homem que caminha deve ser um demente.
Sonâmbulo ou bêbado, deixá-lo que caminhe
tropeçando nas pedras, pisando nos hortos.
Esquecerá do céu ao cruzar uma rua
e ficará cravado como árvore no solo.
Mariposa sem asas, clavicórdio sem notas,
o espírito curvado como uma corda rota
e ouvindo nas estrelas a voz que o não nomeia,
o homem que caminha soluçará na sombra.
Pablo Neruda
domingo, 12 de agosto de 2007
"O RELÓGIO CAÍDO DO MAR"

Há tanta luz sombria no espaço
e tantas dimensões de súbito amarelas,
porque não cai o vento
nem respiram as folhas.
É um domingo detido no mar,
um dia como um navio submerso,
uma gota de tempo que assaltam as escamas
ferozmente vestidas de umidade transparente
Há meses seriamente acumulados numa vestimenta
que queremos cheirar chorando de olhos fechados,
e há anos em um só cego signo da água
depositada e verde,
há a idade que nem os dedos nem a luz apressaram,
muito mais estimável que um leque roto,
muito mais silenciosa que um peixe desenterrado,
há a nupcial idade dos dias dissolvidos
num triste túmulo que os peixes percorrem.
As pétalas do tempo caem imensamente
como vagos guarda-chuvas parecidos com o céu,
crescendo em torno, é apenas
um sino nunca visto,
uma rosa inundada, uma medusa, um longo
latejo quebrantado:
mas não é isso, é algo que toca e gasta apenas,
uma confusa pegada sem som e sem pássaros,
um desvanecimento de perfumes e raças.
O relógio que no campo se estendeu sobre o musgo
e golpeou uma anca com sua elétrica forma
corre destado e ferido debaixo da água temível
que ondula palpitando de correntes centrais.
Pablo Neruda
- In Residência na Terra II
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
"SE CADA DIA CAI"
"AMIGO"

Amigo, leva o que quiseres,
penetra teu olhar nos recantos,
e se assim o desejas, te dou minha alma inteira,
com suas brancas avenidas e suas canções.
Amigo, com a tarde faz que se vá
este inútil e velho desejo de vencer.
Bebe em meu cântaro se tens sede.
Amigo, com a tarde faz que se vá
este desejo meu de que toda a roseira me pertença.
Amigo, se tens fome come de meu pão.
Tudo, meu amigo, fiz para ti, Tudo isto
que sem ver verás em minha estância nua:
tudo isto que se eleva pelos muros direitos
- como meu coração - sempre buscando altura.
Sorris, amigo. Que importa! Ninguém sabe
entregar nas mãos o que se leva por dentro,
mas eu te dou minha alma, ânfora de méis suaves,
e tudo te dou... Menos aquela recordação...
...Que em minha fazenda vazia aquele amor perdido
é uma rosa branca que se abre em silêncio...
Pablo Neruda
domingo, 15 de julho de 2007
MÃOS DE CAMPONÊS

Mãos rústicas e honradas. Mãos bondosas
que adormecem na tarde, milagrosas
sob o incentivo bom da lua cheia
a abençoar os seios de uma esposa.
E adormecem cansadas da tarefa cumprida
rudemente - em silêncio - como que sob o encanto
de possuir nos músculos rosas encalecidas
de ter lavrado muito e ter semeado tanto!
Santificadas sejam em toda litania,
nos dão o trigo de ouro e o pão de cada dia
e seguem os preceitos que lhes deu o Senhor.
Haveria que enchê-las de flores e de gemas
as mãos de camponês que são todo um poema
nos quais os versos cheiram a terra e a suor!
Pablo Neruda
- In O Rio Invisível
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