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domingo, 19 de abril de 2015
JOGO
Ímpar –
Solidão que se acredita
Feliz se chegar a par.
Par –
Dois ímpares que se juntam
Em solidões separadas...
Par ou ímpar?
Tanto faz –
O resultado da escolha
É a mesma falta da paz.
Homero Frei
In: Lado Alado
[Arte; Denis Nolet]
domingo, 6 de julho de 2014
DA BREVIDADE
Nas coisas breves
Da eternidade.
Coisas da vida...
Vida, quem há de
Ser infinito
Pela metade?
Homero Frei
In: Lado Alado
domingo, 16 de março de 2014
'PASSO A PASSO'
Os passos são andaimes interiores
Com que construo a habitação da espera.
Chovem horas em volta até que um dia
Alguém descobre infiltrações no tempo.
Tudo está só. Tudo são passos sós;
Eles que vivem soterrando as asas.
Por isso os dias doem por entre as rosas
Que afasto em busca de uma dor sem flores.
Depois (pobre depois – nome de um nome;
Coisa que é coisa porque as coisas partem
Envelhecendo a infância do futuro)...
Os passos são fraturas no meu voo;
Oprimidos retalhos do infinito;
Portos viajando no porão de um barco.
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
[Arte: Leszek Sokól]
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
'ÚLTIMA HISTORIA'
terça-feira, 15 de junho de 2010
SONETO DE PAPEL

"Por escrito sou mais do que respiro”
Antônimo de mim, há sinonímias
Em eu querer já não querer mais nada,
Senão a minha ausência de mãos postas.
Por escrito! E a escrever que ninguém pode!
Contudo, que descanso em que pudesse!
A única viagem que é só minha
Mora na asa infinita da palavra!
Hã muitas vozes neste vôo e entanto
O meu suspeito coração consegue
Amealhar fortunas de silêncio!
Natureza concreta que rabisco
De almas, à custa de buscar-me um outro
Nos dicionários que anoiteço em mimm...
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
Antônimo de mim, há sinonímias
Em eu querer já não querer mais nada,
Senão a minha ausência de mãos postas.
Por escrito! E a escrever que ninguém pode!
Contudo, que descanso em que pudesse!
A única viagem que é só minha
Mora na asa infinita da palavra!
Hã muitas vozes neste vôo e entanto
O meu suspeito coração consegue
Amealhar fortunas de silêncio!
Natureza concreta que rabisco
De almas, à custa de buscar-me um outro
Nos dicionários que anoiteço em mimm...
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
PENUMBRA

Minha cabeça afaga o meu cansaço
Como uma luz no coração da sombra;
Corpo da sombra, coração da terra,
Rima do verso branco que sou eu.
Qual uma rosa que fizesse falta
Às ruas murchas de não serem rios,
Embalo a sombra como um berço estéril,
Antecipando o último berço imóvel.
Felizmente ainda venta no destino.
Ainda o perfume comparece às flores.
Sim! Afinal, a vida é uma verdade
(Por que falei tão alto, se acredito?)!
Meu cansaço fecunda a minha sombra –
A morte amanheceu, quase nasci!
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
Como uma luz no coração da sombra;
Corpo da sombra, coração da terra,
Rima do verso branco que sou eu.
Qual uma rosa que fizesse falta
Às ruas murchas de não serem rios,
Embalo a sombra como um berço estéril,
Antecipando o último berço imóvel.
Felizmente ainda venta no destino.
Ainda o perfume comparece às flores.
Sim! Afinal, a vida é uma verdade
(Por que falei tão alto, se acredito?)!
Meu cansaço fecunda a minha sombra –
A morte amanheceu, quase nasci!
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
A Sagrada Receita - IIII

As nenhuma palavra sobrevive...
O que se diz não diz o que se diz –
É essa profundidade bem acima
Da dor, onde passei a rosa a limpo.
Rosa desfeita em sílabas suicidas.
Ouço-a que quer o solo do poema.
Não há mais solo, o tempo está doente
Da ferrugem das noites solitárias.
Não mais beijo, nem poema ou nuvem.
Há um desenho de músicas quietas
Sobre o imóvel remorso do papel.
Há o lápis que enganei e que se deita
Sobre a fotografia das palavras.
E a mão pesada de uma ausência de asas...
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
PASSO A PASSO

Os passos são andaimes interiores
Com que construo a habitação da espera.
Chovem horas em volta até que um dia
Alguém descobre infiltrações no tempo.
Tudo está só. Tudo são passos sós;
Eles que vivem soterrando as asas.
Por isso os dias doem por entre as rosas
Que afasto em busca de uma dor sem flores.
Depois (pobre depois – nome de um nome;
Coisa que é coisa porque as coisas partem
Envelhecendo a infância do futuro)...
Os passos são fraturas no meu voo;
Oprimidos retalhos do infinito;
Portos viajando no porão de um barco.
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
sábado, 13 de fevereiro de 2010
NÉVOA DE PEDRA
Reais a página e a caneta e a tinta
E a mesa e o chão e os olhos das janelas.
E as sediças respostas da memória
Viciada em consumir o meu silêncio.
Reais a mão e a rédea dos seus nervos
E o rumor deste dia e o sol lá fora.
E o sexo da sombra inconseqüente
Propondo gerações de fiéis dilemas.
Reais as cores secas dos três reinos
E a aparência de morte dos minérios
E a entrevida das folhas e das águas.
Reais estas palavras inimigas –
Luzes pesadas esculpindo a angústia –
Bem mais leves que a névoa que elas moem.
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
PÁSSARO SEMPRE

A Olney Borges P. de Souza
O pássaro em repouso no telhado
Está florindo a música iminente.
Súbito, morre. E todo desabrocha
Numa jarra de céu – é o céu que voa!
Voa sua flor de pétalas vazias
Numa viagem de canções quietas –
Um ninho em fuga, uma implosão da morte
Nos telhados carente de repouso.
Porém, eu sei – não há pássaro morto.
Pássaro morto são todas as coisas
Sem pássaros – telhados de si mesmas,
Desaprendendo o céu e, de asas findas,
Errando o último pássaro possível,
Até que é Deus e a madrugada voa!
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
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