A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"Crânios humanos somem..."

Crânios humanos somem pilha a pilha,
onde, invisível, mínguo na distância,
mas num bom livro e em jogos de criança,
direi, ressuscitando, que o sol brilha.

Vorôniej, maio de 1935

Ossip Mandelstam,
In:Cadernos de Vorôniej

"Roubar-me os mares..."


Roubar-me os mares, ares, vôo, tolhendo
meus pés na terra atroz – foi o bastante?
Mas, malgrado o teu cálculo estupendo,
não me arrancaste os lábios murmurantes.

Vorôniej, maio de 1935


Ossip Mandelstam
in:Cadernos de Vorôniej

Não é a lua


Não é a lua, não, é um mostrador.
Que culpa tenho se as estrelas baças
Me parecem leitosas, sem fulgor?

Batiúshkov não merece piedade.
"Que horas são?", perguntaram-lhe uma vez,
E ele só respondeu: "Eternidade."


Ossip Mandelstam
in "Não é a lua"
Trad. de Augusto de Campos.
CAMPOS, Augusto. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

*Óssip Mandelstam nasceu em Varsóvia, Polónia, em 1891, descendente de uma família judia. Cresceu na cidade imperial de S. Petersburgo, onde frequentou a prestigiada escola Tenishev, seguindo mais tarde para Paris (1907-08) e para Heidelberg (1909-10) com intenção de estudar Literatura Francesa. A partir de 1911 estudou Filosofia na Universidade de S. Petersburgo, curso que abandonou para se dedicar à escrita. Publicou o seu primeiro livro, Kamen (Pedra) em 1913. Embora tivesse inicialmente apoiado a Revolução, a censura sobre os artistas e a execução de Gumilev, em 1921, afastaram Mandelstam do regime. Este afastamento obrigou-o a viajar para províncias distantes como jornalista. Em 1933 Mandelstam escreveu um poema satírico sobre Estaline. A «insolência» só não lhe trouxe a pena de morte devido à protecção de Bukárine. Mas no ano seguinte, Mandelstam foi preso e viveu alguns anos exilado, em companhia de sua mulher Nadyeshda. Regressaram a Moscovo no início de 1938. A 2 de Agosto Mandelstam foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados. O último perído da sua vida é mal conhecido. Sabe-se que esteve na prisão de Butyrskaya em Moscovo à espera de seguir para Kolyma, na Sibéria. Terá morrido a 20 de Dezembro, na barraca n.º 11 do campo de trânsito 3/10 de Usvitlag, entre os presos acusados de «actividades contra-revolucionárias.»
(Excerto da nota biográfica contida em Fogo Errante – antologia poética, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio D’Água, Julho de 2001.)