A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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sábado, 19 de outubro de 2013

''VIAGEM''

 
Sob o esplendor lunar,
a Noite,
imensamente silenciosa,
com ruídos
roucos,
nas toiceiras de ácidos perfumes.
Além, na longa estrada, o carro.
Avança. Vem.
¿ Quem eras tu, Viajante?
Passou.
Nunca saberás.
Uma estrela cadente
cintila
¿ Quem eras tu, no Espaço?
Fugiu, foi-se.
Nunca saberás.
Só saberás a ninharia
circundante
da tua vida.
Mas livra tua Alma
de todas as estreitezas.
Vê o infinito
do gesto bom
e
sem causas finais,
o gesto que brilha
como o Sol.
Vê a órbita dos planetas
e dos eléctrons invisíveis.
Se quiseres, se puderes, vê Deus.
Mas nunca, nunca desprendas os teus olhos
da Beleza
inatingível.

Pontes de Miranda,
de 'Inscrições da estrela interior',
in Obras literárias Prosa e poesia, 1960

''TRANQÜILIDADE''


A água misteriosa
pelas montanhas
desce,
sem cessar,
sem se ouvir...

Tranqüilidade.
Longe, na curva do oceano,
as velas
silenciosas,
sem se moverem,
sem se ouvirem,
avançam...

Tranqüilidade.
Espaçadamente,
mais uma pétala murcha
no chão recoberto de flores
aparece,
sem se ver,
sem se ouvir.

Tranqüilidade.
O perfume das árvores, dos campos,
canta, nas urnas de pólen,
o silencioso canto de amor...

Tranqüilidade.
Descendo às furnas úmidas
de mim mesmo,
paro,
e
debruço-me
sobre o lago inestanque,
imóvel,
do meu Pensamento.

Tranqüilidade.

Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda,
de 'Inscrições da estrela interior',
in Obras literárias Prosa e poesia, 1960.

(Maceió, 23 de abril de 1892 — Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 1979) foi um jurista, filósofo, matemático e escritor brasileiro.