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quinta-feira, 4 de setembro de 2014
CANÇÃO DA ALMA MEDITATIVA
O vento sopra nas telhas
lembranças de um vento antigo.
Há um frio de horas velhas
na alma que se medita.
Sopra o vento, sopra o tempo
- e o que se medita a alma?
Não diz. Mas, seja o que for,
será, como tudo, nada.
Ruy Espinheira Filho
In Estação Infinita e Outros Poemas
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Epílogo
Nunca estive antes tão velho.
Giram relógios na alma
e dessangram-se ampulhetas
- como a esperança e a calma.
Cai a tarde, indiferente,
sobre os muros e o jardim.
Nunca me senti tão vasto
na história contada em mim.
Ruy Espinheira Filho
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
PALAVRAS AO VENTO
Talvez tivesse morrido de tédio em pleno azul da tarde
se não fosse o vento
vir subidamente e dizer
o que disse às suas orelhas pendidas.
Que logo não estavam pendidas: altas, escutavam
o vento,
um vento de setembro com qualquer coisa
dos janeiros limpos pelas chuvas
que jamais cessam de cintilar
na memória.
E o vento falou, depois enovelou-se no capim e dormiu.
Merecidamente, deve ter pensado o que o escutara
e, escutando-o, sentira novo gosto pela vida.
Foi o que concluí, olhando disfarçadamente o velho caçador
erguer-se e distanciar-se pelo campo verde,
soprado assim por um vento que todos nós gostaríamos
de ouvir,
agora jovem perdigueiro
indo-se como, digamos, um barco branco
de orelhas pandas,
leve e cada vez mais longínquo,
até se desfazer azul na tarde
azul.
Ruy Espinheira Filho
In Poemas Reunidos
terça-feira, 23 de agosto de 2011
CANÇÃO DO INVERNO
Faz tempo que cai
a chuva cinzenta
no longo vazio
da rua onde, lenta,
minha alma vai
como nevoenta
brisa em que se embala
a chuva cinzenta.
E faz-se a canção
do inverno assim:
com as cinzas da chuva
e o frio de mim.
Ruy Espinheira Filho
In Sob o Céu de Samarcanda
terça-feira, 9 de junho de 2009
DESCOBERTA

Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.
Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.
Só depois aprendemos
a trilhar o labirinto,
mas como acordar os passos
nos pés há muito dormidos?
Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobe esta
inútil descoberta
enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.
Ruy Espinheira Filho
'REVELAÇÃO'
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Luar

É o luar que me inventa
nesta varanda de prata.
Faz bem pouco, havia apenas
silêncio, e uma alma escassa.
É do luar este conto
solto na espuma do ar,
e que me conta, me sonha
contra ruínas.É o luar
em seu tear me tecendo,
soprando-me uma alma vasta
e as velas desta varanda
em águas iluminadas
por sua lira que respira
este conto - enquanto tarda,
na sombra, a princesa fria
que há de vir me beijar.
Rui Espinheira Filho
BLIND BORGES

La vasta y vaga y necesaria muerte.
Jorge Luis Borges: Blind Pew
A vasta e vaga morte, esse outro sonho,
não é só outro sonho: é a mais remota
ilha de ouro a que nossa derrota
nos leva, inexorável, sonho a sonho.
Latidos pelos cães, sonho após sonho,
sonhamos. Esta é a vida, a vela, a rota
do homem: sonhar. E em áurea praia ignota
sonha o que sonha o sonhador, que é sonho.
Isto é o que pulsa em nós: o ansiado ouro
— distante e aqui, no coração —, tesouro
cuja procura tece a nossa sorte;
rumo que a alma singra e sagra em ouro
até chegar enfim a esse tesouro
incorruptível que nos sonha a morte.
Ruy Espinheira Filho
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