A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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terça-feira, 28 de maio de 2013

''Baile de máscaras''

O cetim rodeia o decote,
a roda da saia juntada
sobre a perna, elegantemente, cruzada.
Acidez mal disfarçada.
Na bolsa trancada,
três batons,
por via das dúvidas.
E por via crucis,
o comprimido calmante.

Só e nublada,
ei-la "alegre"
na festa do seu desamparo. 

  Elizabeth Gontijo

de "Setembros"

''De um segredo''

Do interior, quero
um vestido semeado de flores
a repetir em seus botões de vidro,
em suave reticência:
o musgo do beco
a luz pungente do meio-dia,
a praça,
a poesia de um cemitério pequeno... Quero do meu interior
o caminho sombrio das entranhas
e seus quentes humores...
Do interior do interior
quero
a intensidade do fogo,
o sangue,
e deles
a coragem para os abismos.

 Elizabeth Gontijo
in 'De um segredo"

''Púrpura''

Retoco mais uma vez o batom.
Tento fingir-me intacta.
Mancho de roxo as taças onde bebo,
amargo com lágrimas o que toco.
Longos e vastos pensamentos e vestes.
Amanheço entrecortada;
sonho e dor.
Faço planos,
ando,
me agito.
As quaresmeiras confirmam:
é tempo de paixão.

Elizabeth Gontijo
in 'Cor"

 

 

 

''TRAVESSIA''


Mais um dia,
A noite disfarça o pungente contorno das coisas
e delas se alastra o mistério.
Em balcões, terraços
e peitoris
o silêncio dos restos.
Na fisionomia calada das casas
impresso o segredo do tempo.
Refugia-se o homem
no breu de seu poço.
Sob o pano cerrado das pálpebras
é peixe, pássaro,anjo...
fantasma de si mesmo.

Sono de cada dia,
nosso ensaio
para o sempre.

Elizabeth Gontijo
in 'De um segredo'