A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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domingo, 27 de dezembro de 2009

"Intervalo"



Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...

Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...

Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...

Às vezes,
Os silêncios , numa praia derradeira
Desaguam...

Às vezes...
Só às vezes...


Vera Muniz
(Queen of Hearts)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Persona




Eu,
Que nesta mutação vou me perdendo,
E no casulo destes poucos anos
Limitada - mente
Fico assim, acabrunhada, ardendo
Descontente
Todos os dias , ao recolher pedaços
Pistas,
Arroubos psicanalistas
Que encontrar-me é mais forte que viver
E completar-me, mais mágoa que morrer.

Lá longe tem um mar. E além mais outro.
Atrás desse universo tem eu mesma.
E fico assim
Feito estrela
Borboleta
Fechada aqui qual mapa de tesouro
No mar que tem lá longe do outro mar.

E nesta mutação vou me esquecendo
Num canto das minhas ternuras
Brinquedos
Fechada qual caminhante
Nesta noite que se afoga
Nas águas de si mesma.


Queen of Hearts (Vera Muniz - 1976)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

"Febre"



Derramarei na taça ardente
Os sonhos, a morte, a vida
Mil pensamentos perdidos
Mil ecos e canções tristes
A juventude esquecida.

Derramarei na taça quente
O veneno mortal das serpentes
Ou o néctar fresco das flores?

Qual poção mágica e fria
Refrescará a dor latente?
Que caminhos entrelaçados
Conduzirão, inexoráveis
A beber do amor fervente?

Talvez o sono seja o meu socorro.
E, então, consiga repousar
O coração que sente
Tanto, tanto
Que , quem sabe arrebente
Ao sorver da taça ardente.


Vera Muniz

"Madrugada na Inglaterra"




Na pedra cinza desenhou-se o vulto
esguio e lúgubre, a cabeça altiva
de quem desvenda o além...
Sabe, porém, que a lua invasiva
Revela os traços, pistas decadentes,
de quem não é ninguém.

Na pedra cinza projetou-se o medo
a desesperança triste do infeliz
que mais amou os corredores frios dos palácios
que o pássaro que cantava em seu jardim,
que mais prezou do cinismo o vil verniz
que a bucólica alegria de amar
e se entregar, enfim...

Na pedra cinza, uma lágrima tardia
amolecendo o irônico sorriso
que não espera mais que a noite
seja dia...


Vera Muniz