A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.
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terça-feira, 18 de setembro de 2007

"AS CHAVES"




Felizes os homens que tem as chaves
porque só encontram portas abertas...


Como podem tantos homens dormir sossegados e felizes
de portas fechadas,
quando essas portas se fecham para tantos homens
que ficam sempre ao relento
e nunca podem entrar?

Neste mundo de tantas portas,
quando teremos cada um, a sua chave,
e a sua hora de voltar?...


JG de Araújo Jorge-Brasil-

terça-feira, 24 de julho de 2007

RIO-ME



Rio-me, e entretanto, eu sei que estou doente
que um cansaço de tudo às vezes a alma invade,
e de repente, sou como um mendigo ao fim do dia
sem ter para onde ir, à hora em que todos voltam...

Rio-me, e entretanto, eu sei que às vezes choro
sem lágrimas, sem pranto, só por dentro, e sinto
que a vida de repente é uma coisa sem nada
que lhe possa explicar um segundo que seja!

Rio-me, e entretanto, a vontade que tenho
é de às vezes deitar-me na rua, e esperar
que um vento sopre a luz dos meus olhos, mais forte,

e acabe de uma vez com o que nunca devera
um dia começar, se o fim que se anuncia
ninguém sabe seu nome: é vida,sonho, ou morte?


J.G.Araújo Jorge
- In Quatro Damas

'CHUVA'



Há tanto tempo que não chove assim!

O dia veste um céu triste e cinzento,
e ouço a chuva a cair como um lamento
no seu rumor monótono... sem fim...

Que estranha sensação de isolamento!
-Nem uma voz ouço ao redor de mim,
escuto apenas lá por fora, o vento
a desfolhar as flores no jardim...

Ninguém ao meu redor... ninguém me fala...
-e me deixo a ficar num tédio imenso,
na tóxica penumbra desta sala...

Que inquietude vazia há dentro de mim!
-Não sei se existo... não sei bem se penso...

Há tanto tempo não chove assim!


JG de Araujo Jorge
in "Bazar de Ritmos" 1.935

terça-feira, 17 de julho de 2007

DESCONFIANÇA...




Que vale a vida afinal
quando chegamos a este ponto?
Deixou de ser romance:
é crônica banal
ou conto.

Vale a pena seguir?
Sem aquele entusiasmo
aquelas ânsias,
sem aquela força de querer,
só para continuar, e se repetir...
( mais pelo hábito da vida que pela alegria de viver?)

Vale a pena continuar?
Ou é melhor fugir? ( fugir ou parar
que são formas diferentes de morrer...)

Já de nada me espanto,
talvez seja tudo paradoxal
mas começo a desconfiar que está chegando esse momento
extraordinário,
em que devo me recolher para ouvir apenas o canto
de meu coração solitário...


J.G.de Araújo Jorge
- In Quatro Damas

RIO-ME



Rio-me, e entretanto, eu sei que estou doente
que um cansaço de tudo às vezes a alma invade,
e de repente, sou como um mendigo ao fim do dia
sem ter para onde ir, à hora em que todos voltam...

Rio-me, e entretanto, eu sei que às vezes choro
sem lágrimas, sem pranto, só por dentro, e sinto
que a vida de repente é uma coisa sem nada
que lhe possa explicar um segundo que seja!

Rio-me, e entretanto, a vontade que tenho
é de às vezes deitar-me na rua, e esperar
que um vento sopre a luz dos meus olhos, mais forte,

e acabe de uma vez com o que nunca devera
um dia começar, se o fim que se anuncia
ninguém sabe seu nome: é vida,sonho, ou morte?


J.G.Araújo Jorge
- In Quatro Damas

quarta-feira, 20 de junho de 2007

'MOMENTO FELIZ'




É isso aí...
Estou quieto, estou no fundo...
Hoje, não quero movimento
meu caminho, meu vento
pelo mundo,
de déu em déu...

Me deixo ficar
como um lago
aconchegado entre ramagens,
pensando nuvens e pássaros, distantes...
no céu...


JG de Araujo Jorge
in " Tempo Será " 1986

'MOMENTO SÓ'




Não há gaivotas
nem velas brancas, nem vultos de navios...
Nos horizontes
há apenas a música das vagas
em cantochão
entoada pelo mar
no coração.

Sou a rocha
ignorada
rasgando de espumas o pano infinito
esticado,
do oceano
sem vida, sem farol
para ver...

Náufrago
estou soçobrando
em mim mesmo
a morrer...



JG de Araujo Jorge
in " Tempo Será " 1986

'FILOSOFIA'



Você quer mesmo saber
como a vida se levar ?
Pois é... primeiro viver...
e depois... filosofar...

Vou pisando folhas mortas
sem amanhã... Sigo a esmo...
Fecham-se todas as portas...
Sou o fantasma de mim mesmo...

Disse Jesus certo dia
com bondade e com saber
- há mais alegria em dar,
muito mais - que em receber !

Não tinha paz nem descanso...
O amor... a vida.... – Voragem !
Hoje, a saudade é um remanso
a refletir a folhagem...

Diz que é rico... Pode ser...
Mas pode ser que não seja...
Ser rico é apenas poder
fazer o que se deseja...

Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento...

Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje chego a ter saudade
daquele... que já morri...

Tu queres mais, sempre mais...
Sê comedido, prudente...
Até o bem quando é demais
acaba enjoando a gente...

Livre da dor, do desgosto,
mais feliz o homem seria
se assim como lava o rosto
lavasse a alma todo o dia.

Paro, as vezes, num momento
feliz, que se vai embora,
e enquanto o vivo, a perde-lo,
sinto saudades... de agora.

- "Crê na Vida"- eis o conselho
da esperança ante a desgraça,
se a face do fria do espelho
de calor ainda se embaça...

Pobre alma triste a cativa !
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu


J.G. de Araujo Jorge
do livro "Trevo de Quatro Versos"

'SOLIDÃO'




Por certo a pior solidão
É aquela que a gente sente
Sem ninguém no coração...
No meio de muita gente...

Praias longe, em solidão
Fora de todas as rotas,
Tal como o meu coração
Só como o sonho... das gaivotas...


J.G. de Araujo Jorge
do livro "Trevo de Quatro Versos"

'HOJE EU QUERIA QUE CHOVESSE MUITO...'



Hoje eu queria que chovesse muito...
- que chovesse...chovesse...intermitentemente,
e tudo se entristecesse: o céu, a terra, o mar...
- e não houvesse alvorada, e não houvesse poente
e não fizesse sol...e não fizesse luar...

Hoje eu queria que chovesse muito
e a terra toda se enchesse de densas neblinas,
e a terra toda se enchesse de estranhas sombras e véus...
- queria turvo o olhar alegre e transparente
das vidraças,
e turvo e triste o olhar sereno e azul dos céus!

Hoje eu queria que chovesse muito...
- que chovesse...chovesse
e não parasse,
e na face
de tudo que vivesse,
uma imensa tristeza se estampasse...
- hoje eu queria que o sol não nascesse,
e a noite, nem uma estrela cintilasse!

Queria as ruas úmidas e silenciosas, e as árvores
como sombras, à beira das calçadas,
encolhidas e embuçadas,
nas roupagens molhadas das ramagens frias...
- queria o sussurro da chuva surdinando
e a ária exótica das goteiras, pingando... pingando
nas latas vazias...

Hoje eu queria que chovesse muito...
(que bem que à alma da gente a chuva às vezes faz!)
- e o dia se escurecesse, e a noite se nublasse,
e que tudo ao redor que vivesse ou passasse
fosse um gesto de paz...

Queria abrir a janela e ver tudo embaciado,
os contornos das coisas desaparecendo
e fugindo
como se a paisagem fosse uma lembrança
esquecida
no passado,
aparecendo esbatida
dentro da chuva caindo!

Hoje eu queria que chovesse muito!

Às vezes a chuva faz-nos tanto bem...
- Quem sabe se não há na alma triste da chuva
um pouco da alma e da música triste de Chopin ?

Ouvindo, noite a fora, além, pelos telhados,
seus monótonos sons, impassíveis,
soturnos,
é como se assistisse em estranhos teclados
dedos nervosos e invisíveis
improvisando "noturnos"!

Hoje eu queria que chovesse muito,
queria a paz, o silêncio, a solidão
de um inviolável recolhimento,
ouvindo a chuva cair... tão doce a sua canção!
- tão bom a gente dormir com a chuva no pensamento!

Hoje eu queria que chovesse muito,
e que dentro da chuva tudo perdesse a cor,
a se esvair...
- não é que eu hoje sofra alguma dor
ou procure esquecer qualquer teimosa mágoa,
não sei o que é - mas bem quisera ouvir
distante... numa lata do quintal
a ária singela e musical
de um pingo d'água!

Queria tudo assim, tudo turvo, tudo baço,
tudo vago
a terra, o mar, o espaço,
a montanha, o rio, o lago,
tudo nublado
tudo assim...
- não sei porque, talvez falte um ambiente adequado
para o meu esplim...
....

Esse dia de sol me faz mal e entontece,
e esta festa de luz e de cores, parece
que zomba e que escarnece
da angústia sem razão que sinto e ninguém vê...
Hoje eu queria que chovesse muito,
(queria porque queria!)
- toda hora, todo o dia...
não sei por quê...

J.G. de Araújo Jorge
em 'Eterno Motivo'

terça-feira, 19 de junho de 2007

"A vida"




Gota d'água transparente
que brilha, cresce...e que cai!
Assim a vida da gente
que num instante se vai!

A Vida, - mistério vão
sombra agora, depois luz,
- estranho traço de união
ligando um berço... a uma cuz!

A Vida - uma onda que avança
e volta, vai-vem do mar...
Quando vai, quanta esperança!
Quanta amargura, ao voltar!

A Vida - visão fugaz,
praia chã, mar que alteia,
onda que faz e desfaz
os seus cabelos de areia...

A Vida - ansiosa escalada
sobre a paisagem do mundo
Tanto esforço para nada
se há sempre abismo no fundo!

Às vezes penso que a vida
que há tanta gente a querer
só existe, - indefinida -
pra gente poder morrer...

Ó pobre vida suicida!
Teu destino é uma ironia
se o que chamamos de vida
é um morrer de cada dia!

Numa amizade perdida,
num amor que se desgraça,
a morte desconta a vida
a cada dia que passa!

Há uma ironia, contida
nas contigências da sorte:
- quanto mais se vive a vida
mais se avança para a morte.

Vive a vida bem vivida
e ao mais, esquece e revela,
que a gente leva da vida
a vida que a gente leva...



J.G. de Araujo Jorge
do livro "Trevo de Quatro Versos"

terça-feira, 12 de junho de 2007

"Oh, a chuva chegou! "




Oh! a chuva chegou! Há que tempo
esperava que a chuva chegasse.
Oh! a terra era um brado de angustia!
Oh! o céu que tristeza, meu Deus!

As estradas andavam às cegas
e os riachos mostravam seus ossos,
duras pedras roliças, polidas,
onde as águas minguavam chorando.

Oh! a chuva chegou! Eis a chuva
a cair pelo espaço e a cantar.
Canta, chuva, que a terra te escuta
e parece dançar de alegria.

Canta, chuva, que as arvores todas
se sacodem felizes, lavando
nessa tua cantiga molhada
suas penas cinzentas de pó.

Oh! a chuva chegou, que beleza!
Há seis meses que a chuva não vinha
e eu que tinha as raízes enxutas
esperava esse dia chegar!


Ougo a chuva cantando, ouço a chuva
e por isso me pus a cantar,
tudo canta molhado, na chuva! ,
tudo canta, molhado, no olhar!

Oh! a chuva chegou! Que alegria!
Oh! a chuva chegou! Vou cantar!



JG de Araujo Jorge

"Sem resposta"




Vale a pena viver ? Quantas vezes nos surpreendemos
na queda
dentro da pergunta prosaica.

E no entanto somos felizes.
E no entanto lançamos nossos galhos para o céu
com frutos, flores e espinhos.
e mergulhamos no chão com segurança
nossas raízes...

Que perguntarão diante da vida, nesses momentos
os infelizes?


JG de Araujo Jorge
do livro " Harpa Submersa "