A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

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terça-feira, 26 de junho de 2012

''Quero Chegar ...''

(Painting by Vincent Willem van Gogh)


Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.
Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.
Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.
E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos

Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.
Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.
Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas,
veria as tílias: o horto inteiro
posto em sequência.
E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.
Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.
O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante
do arco dobrado.

Boris Pasternak
1956
(Tradução Nelson Ascher)

(Estse poema de BORIS PASTERNAK pertencem à última fase, quando ele pretendia chegar à dicção mais direta e singela.)

Revista USP, nº 19, set./out./nov. 1993, p. 188-203.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

The Wind


I’ve ceased to be, but you’re alive
The wind is whimpering and sobbing.
It rocks the forest and the cabin.
Under its force, the trees are bending
In unison, not pine by pine,
Along with hills that seem unending,
Like wooden frames of yachts withstanding
The wind gusts in the bay at night.
And all this not from reckless pride,
Or from a pointless, frenzied folly,
But to compose a lullaby
For you in time of melancholy.

Boris Pasternak
Translated by Andrey Kneller

'É impróprio ser famoso'


É impróprio ser famoso
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.

O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.

Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão de vir.

O que é preciso rever
é o destino, não antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passos,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.

Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.

E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.

Boris Pasternak
Poeta, romancista e filosofo judeu-russo, ganhador do premio Nobel de Literatura em 1958, impedido, pelo regime de seu pais, de receber o premio, viveu em precária situação até seu falecimento em 1960.Seu romance Doutor Jivago, deu-lhe reconhecimento popular a nível mundial.