A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

SOMBRAS


A meio desta vida continua a ser
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.

Calmamente sentado num sofá,
começas a entender, de vez em quando
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro, onde vão desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a angústia e estupidez do mundo.

As pessoas – tu sabes – as pessoas são feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pela morte que repete os mesmos gestos
quando o crepúsculo fica a sós conosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.

A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as intenções que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo há muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre tão vazia, sem abrigo
para corpo nenhum.

Fernando Pinto do Amaral

in Pena Suspensa.
Recebido da querida amiga Dione Coppi.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O ÁUGURE


Sou um prisma às avessas
as cores em mim se confundem
sou um tapete de ecos
uma cachoeira de gritos
uma cordoalha de muitos tempos

A esfera de lantejoulas
- passado presente futuro -
roda refletindo mil sóis

Sou essa colméia de incêndios
essa assembléia de sinais
esse rumor insone


Rio, 26/5/80


Helio Pellegrino
in Minérios Domados

terça-feira, 10 de maio de 2011

Frutos da Terra


Benditos os filhos do ventre da terra
que o sol desperta tão cedo
que o trigo e a uva aguardam no campo
para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
que se abrem à manhã
em silêncios e cantos
que se mesclam no ar

e os filhos da paz
que ligam o céu ao mundo,
os que reciclam o dia
dele retirando sustento e eternidade.

Abençoados os que bendizem,
os que curam, os que a dor amenizam
e que por via da tolerância se entendem.

Benditos os que domam a cólera
e se transformam no amor,
amor que bebe da vida em identidade.

Bendito o sol
que amadurece os frutos da terra.
Mais bendita a luz
por que anseia a 'noite escura da alma'.

Fernando Campanella, poema escrito em 1984.

Retirado do Blog do poeta, Palavreares

'É MAIS FÁCIL PARTIR QUANDO O SILÊNCIO'


É mais fácil partir quando o silêncio
transpõe a tua voz.
Mais simples celebrar a tão efémera
certeza de estares vivo.

A música do ar esvai-se nas sombras,
tu sabes que é assim,
que os dias correm céleres, não tentes
perseguir o seu rasto - repara
como em abril as aves são tão felizes.

Sê como elas: não perguntes nada,
deixa que o sol responda à flor da tarde
e esquece-te do mundo.


Fernando Pinto do Amaral
In' Eco de Acédia'

domingo, 8 de maio de 2011

Poema de Graça Pires


Torna-se nítida a textura das conchas
esboçadas em areias onde a lua se despenha
quando o momento é propicio ao silencio das águas.
Um denso azul cresce em espuma
sobre os lábios inacessíveis à passagem
dos mastros assombrados.
Procuro o teu corpo.
Um percurso de repteis contaminou-me o ventre.
Para resistir à morte rastejo pela noite
em busca das sombras que se transfiguram em aves.
Procuro o teu abraço.



Graça Pires
In: A incidência da luz

ARTE POÉTICA


Palavras,
só palavras, nada mais
que a vã matéria, o seu sentido
eco de muitos ecos, repetido
reflexo de poderes tão irreais

como essas emoções graças às quais
terei de vez em quando pretendido
dizer um só segredo a um só ouvido
ciente de que nunca são iguais

os segredos e ouvidos que procuro
às cegas neste mar sempre obscuro
onde a voz desagua como um rio

sem nascente nem foz - apenas uma
incerta confidencia que se esfuma
e só foi minha enquanto me fugiu.


Fernando Pinto do Amaral
(Portugal)

sábado, 7 de maio de 2011

Lamento da mãe órfã


Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, - em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.


Cecília Meireles
In: Mar absoluto -1945-

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O Dom de Ouvir


Ouvir
Como quem abraça e beija
a alma solitária
dos que ninguém escuta.

Ouvir com o coração
a confidência,
a queixa,
a longa história
dos isolados
pela indiferença alheia.

Ouvir com os olhos
e afirmar:
eu compreendo.

Nem é preciso dizer nada.

Helena Kolody

terça-feira, 3 de maio de 2011

AMOR...


Receios, desejos,
promessas de paraísos.
Depois sonhos, depois risos,
depois beijos!
Depois...
E depois, amada?
Depois dores, sem remédio,
depois pranto, depois tédio,
depois... nada!

Menotti Del Picchia

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Haicai - Delores Pires -


Iludindo o tempo
só ao relógio se engana
mas não a si mesmo.


Delores Pires
Passeio ao Luar (2002)

terça-feira, 26 de abril de 2011

E POR QUE NÓS?

(Paint by Farhad Foroutanian)

Dentro de todos nós
há uma casa vazia
escura ou clara
translúcida de vida e morte
cheirando memórias de tempo.

Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .

de pranto e de paz e de luz
de risos e de tardes plenas de azul.

Dentro de todos nós
há uma casa vazia . . .

quando os braços da noite
dizem das coisas vividas e
falam com olhos de menino travesso
como se caracóis e caretas de palhaço
enfeitassem nossos desenganos.

Dentre de todos nós
há sempre uma casa vazia . . .


Alvina Nunes Tzovenos
Palavras ao Tempo

sexta-feira, 22 de abril de 2011

À Noite


Este silêncio, vasto e imponderável,
revive as coisas mortas
atraindo a luz em sua corte.
...Tempo de sedar,
de transbordar as taças
com fluidos de lua -
e de brindar à noite.

Fernando Campanella

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Texto de "Alegrias de Joana", Clarice Lispector

Margarida a Violeta conhecia,
uma era cega, uma bem louca vivia,
a cega sabia o que a doida dizia
e terminou vendo o que ninguém mais via...

como uma roda rodando, rodando, agitando o ar e

criando brisa.

Mesmo sofrer era bom porque enquanto o mais baixo
sofrimento se desenrolava também se existia — como um rio
a parte.

E também se podia esperar o instante que vinha... que
vinha... e de súbito se precipitava em presente e de repente se
dissolvia... e outro que vinha... que vinha...


Clarice Lispector
Excerto do livro 'Perto do coração Selvagem',pag 57
'Alegrias de Joana'

sábado, 9 de abril de 2011

Vozes

Tempo e espaço
não me limitam.
A procura
me avizinha ao mundo.

A moça espera
quem nunca partiu,
depois abraça
o que nunca chegou.

Minha palavra
é explosão de argila.

Prisca Agustoni
in Inventario di Voci/Inventário de Vozes

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um poema de Graça Pires (Portugal)


Um exílio começa no ferrete dos lábios
queimando o ébano dos pianos
que fazem gemer o prelúdio das mãos.
A boca, com sílabas de som tenso,
inventa os murmúrios colados ao archote
das preces que esconjuram a morte.
É invisível, como o uivo dos lobos em noites imensas,
a tormenta que nos intimida
quando, sobre o chão, nenhuma luz cicatriza
a exatidão do tempo e, como náufragos,
nos deslumbramos com a proximidade do abismo.

Graça Pires
In: 'A incidência da luz' Março 2011-

quarta-feira, 6 de abril de 2011

'Soneto de Abril'


Agora que é abril, e o mar se ausenta,
secando-se em si mesmo como um pranto,
vejo que o amor que te dedico aumenta
seguindo a trilha de meu próprio espanto.

Em mim, o teu espírito apresenta
todas as sugestões de um doce encanto
que em minha fonte não se dessedenta
por não ser fonte d'água, mas de canto.

Agora que é abril, e vão morrer
as formosas canções dos outros meses,
assim te quero, mesmo que te escondas:

amar-te uma só vez todas as vezes
em que sou carne e gesto, e fenecer
como uma voz chamada pelas ondas

Lêdo Ivo
Poesia Completa

'Outono'


Outono!
Qualquer coisa lilás,
Schumann em violino,
Ângelus tangido em lentidões de sino...
Preguiçoso torpor de um fim de sono.
Espelho de água quieta dos canais!
Cá dentro, a idade,
restos de sonho e de mocidade;
trechos dispersos
de velhas ambições falhas na vida,
parcelas de antigas ilusões
que ainda, a custo, concentro
e invoco até agora!
Lá fora, a descida.
O crepúsculo inócuo destes dias,
a tristeza das folhas amarelas,
e a cantar sobre estas ruínas frias,
a monótona toada de meus versos.
Desce, Poeta!
A descida é suave...
Não te demanda rigidez de músculos
e nem exige que teu passo apresses...
A natureza é quieta,
da ingênua quietação de um sonho de ave,
e há paina nos crepúsculos...
No outono a luz é um eterno poente,
que mais à calma que ao rumor se ajeita;
Brilha, tão de manso e calma,
que até parece unicamente feita
para o estado d'Alma
de um convalescente.


Mário Pederneiras
-1914-

quarta-feira, 30 de março de 2011

A HORA PROPÍCIA


Hora de se pensar em voz alta
no terraço das trepadeiras.
A claridade quase morta
esmalta
os vidros da janela e borda
de fios de ouro o leque das palmeiras.

Hora em que não há mais distâncias; hora
em que a primeira estrela vem ouvir na sombra
o canto verde da primeira rã;
em que cada palavra tomba
e se desenrola
silenciosa como um novelo de lã.

Guilherme de Almeida
in 'Meu'

KREATIV BLOGGER


Recebi de meu querido amigo Fernando Campanella, do blogger PALAVREARES, a indicação para o prêmio KREATIV BLOGGER.

Gostaria muito de agradecer ao amigo Fernando a honra concedida e compartilhar com todos os amigos do blog, pois ele existe por vocês...
Beijos.

SOLENE MÚSICA DO ENTARDECER



ALLEGRO

Nuvens esgarçam-se; do céu em brasa
errante luz bruxuleia sobre vales ofuscados.
Pando com o vento quente procela
fujo a passo incansável
Atravessando uma vida nublada.
Ah, se por um instante
ao menos, entre mim e a luz eterna
uma propícia borrasca soprasse o cinzento nevoeiro!
Estrangeira é a terra que me cerca:
leva-me longe, arrancado da pátria,
de um lado para outro o poderoso vagalhão do destino.
Vamos, vento: corre com essas nuvens,
rasga esses véus
para que a luz me possa cair sobre os incertos atalhos!


Hermann Hesse
in Andares

segunda-feira, 28 de março de 2011

Canções sem palavras


Pouco a pouco desfolharam-se as rosas
em todos os jardins iniciando o enredo
das chuvas sobre as casas.
Estávamos no mês em que os crisântemos
se tornam mais brancos.
Contra a luz não ousávamos quebrar
o silêncio que na música se abrigava.
Schubert e as canções sem palavras.
O arco da voz preso no violoncelo.
O piano e o rumor sublime dos anjos.
Escutávamos a palavra não dita da sonata:
o azul dos lírios em quintais antiqüíssimos!

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

sábado, 26 de março de 2011

Dora Ferreira da Silva

Ai, não ter a vida provas de revisão
para mudar-lhe as vírgulas, acrescentar-lhe
pontos de interrogação
e sobretudo passar a limpo dores e amores
arranjar vasos de flores, ter um gato de
estimação,
ouvir a rolinha a consolar-lhe a aflição...

Ai, não ter a vida provas de revisão
para endireitar-lhe as linhas, trocar palavras
e afinal arrancar as páginas todas do livro
e suprimir-lhe a edição.


Dora Ferreira da Silva
de JARDINS (esconderijos)
São Paulo: Edição da Autora, 1979. 125 p.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O SONO DAS ÁGUAS


Há uma hora certa, no meio da noite,
uma hora morta, em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folha
geme adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...


Guimarães Rosa

quarta-feira, 23 de março de 2011

Outono

uma aragem
uma estação
um rito de passagem...
um cão sem pelo
...em cima do muro:
não é lava nem gelo
nem claro nem escuro
uma luz quase sedada
em transição
(as árvores confrangem;
os ursos já estendem
suas camas)
um sopro
esta alma esvoaçada
um verso
uma folha de mim
à tua janela
deixada.

Fernando Campanella

segunda-feira, 21 de março de 2011

Chanson d'Automne


Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure

Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine

Canção de Outono


Os longos sons
dos violões,
pelo outono,
me enchem de dor
e de um langor
de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
bater a hora,
lembrando os dias,
e as alegrias
e ais de outrora.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
me transporta
de cá pra lá,
como faz à
folha morta.


Paul Verlaine
Tradução: Onestaldo de Pennafort

Canção do Outono


Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...

Paul Verlaine
Tradução: Alphonsus de Guimaraens

Canção de Outono

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.

Paul Verlaine
Tradução: Guilherme de Almeida

domingo, 20 de março de 2011

EM SURDINA


"Chacun de nous a sa blessure; j'ai la mienne.
Toujours vive elle est là, cette blessure ancienne."
(Rostand)


Ouve. É tão tarde! A música do vento
Embalou-me, de leve, o pensamento
E fez-me, sem querer, pensar em ti.

Lembras? Reinava em torno a primavera
Tu foste bom e crente, eu fui sincera,
Áureo sonho de amor, que não revi.

Depois... Que importa? O mundo permanece,
A vida segue e um dia, a gente esquece
Aquilo que supôs nunca ter fim.

As estações variam, correm anos,
Multiplicam-se os nossos desenganos,
Que a lei universal ordena assim.

Mas, se tudo morreu, por que agora
Eu, que desprezo o coração que chora,
A uma saudade inútil sucumbi?

Ouve e perdoa. É a música do vento,
Que me embala de leve o pensamento
E faz-me, sem querer, pensar em ti.


Alba Saltiel Bianco
In Música do Vento

Do blog da amiga Dione Coppi

Obs; A citação em francês, (da autora), pertence ao livro Cyrano de Bergerac de
Edmund Rostand -

terça-feira, 15 de março de 2011

O SOM DAS ÁGUAS DOCES

Fazer feito o fiel verdureiro:
equilibrar nos ombros largos
dois cestos; ambulante resoluto -
presença diária no pequeno mundo
da enorme fome dos homens simples.

Conferir, compete ao aventureiro:
cada conta pendurar no avental
de quantos aventam saltar,
de inteiro corpo, na tempestade
da afoita vida dos homens simples.

Atentar, cabe àqueles que expiam
tantas perdas; que sonham oceanos
de inéditos pecados ao pé do altar.
Do profano ao sagrado, cabe àqueles
espionar a fantasia dos homens simples.

Avançar, confere venturas a quantos,
atrevidos, gravam nos seixos dos rios
o inominável, o índigo, o quieto Quasar,
e o som dos espíritos das águas doces -
que banha a vida dos homens simples.


Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”

segunda-feira, 14 de março de 2011

'A incidencia da Luz'

Dia 19 de Março de 2.011, lançamento do mais novo livro da maravilhosa escritora portuguesa Graça Pires. 'A incidência da Luz'.





Para visualizar na integra, clicar no convite.
Tomei a liberdade de aqui transcrever, copiado do blog da autora,
por ser ardente admiradora de sua preciosa obra.
A ela desejamos absoluto SUCESSO!



Nada Sei

Nada sei da sedução da morte nos olhos
dos pássaros atingidos pelo trilho dos incêndios
no interior das searas.
Não sei que nome dar ao momento
exacto em que a luz pode ferir
a obscuridade da lua nova
dispersando as aves nocturnas.
Ignoro quais as palavras propícias
à vertigem das nuvens, em novembro,
quando as águas dos temporais
alagam os meus olhos.


Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

As Aquarelas


Não penso azul, nem verde, nem vermelho,
nenhuma cor vejo isoladamente:
quero a vida total, como um espelho
a que não falte flor, folha ou semente.

A natureza, neste abril redondo,
esconde formas, seres, linhas, cores,
aqui e ali bizarramente pondo
manchas involuntárias, multicores.

Recuso-me a adotar bandeira ou marca.
Nada escolho. O mistério natural
me envolve inteiro. Em tuas aquarelas

tudo renasce — como quem da barca
do dilúvio, depois do temporal,
visse de novo a terra das janelas...

Odylo Costa Filho
In:"Boca da noite"

quarta-feira, 9 de março de 2011

Digo ao Vento


se abro minhas cartas
como nervuras ao tempo
não se engane que sou frágil
ou transpareço

- vão meus comboios ao relento
eu retardo
há em mim silêncios de esfinge
sou o cristal que me guardo


Fernando Campanella
(Do blog do autor)

Tempo

Temperatura em elevação,
nuvens isoladas de ausência.
Nebulosidades aumentam
no decorrer do período .
Ao pôr-do-sol,
pancadas de saudade.


Edival Perrini
de 'Traços do ofício'

quinta-feira, 3 de março de 2011

De Gilberto Mendonça Teles


À Linha da Vida


A que, visível, se interrompe
na palma da máo, decisiva:
a ultrapassagem do horizonte
pelo lado avesso da escrita.


À Linha do Universo


A que, invisível, se deleita
no olho sensual da fechadura:
a letra (aleph) e seu pentelho
no espaço-tempo que se enruga.

E, anjo ou demônio, pinta o sete
mas tão relativo e medroso
que o tom azul logo se perde
na linha de fundo do esboço.


À Linha-d’água


Visível enquanto invisível,
compõe seu ritmo avergoado:
a imagem se imprime no nível
do que está deste e do outro lado.

Por sob a carga o sonho e o medo
de haver perdido e haver ganhado:
no contrabando do segredo
o contrapeso do sagrado.

E o que ficou quase perdido
(o que me deixa envergonhado)
ainda viaja sem sentido,
meio à deriva,
e bem calado.


Rio, 1986.


Gilberto Mendonça Teles
De Hora Aberta

terça-feira, 1 de março de 2011

Post-scriptum


Tudo vem a seu tempo,
Um passo, um passo mais…
E estamos nos domínios
Das coisas irreais.

Aí é que nós todos
- Os loucos, os profetas -
Temos direito ao orgulho
De ser poetas.

Porque, depois de tudo
Somado e diluído,
Não há nada melhor
Que amar e ser amado.

Por isso vale a pena
Não ter menos nem mais
Que ter alegria - plena! -
Das coisas irreais.


Raul de Carvalho
(Alvito, Baixo Alentejo,4 de Setembro de 1920 -
Porto - 1984 -)

Memórias de Dulcinéia XX

Ao longo dos anos conservei
uma inesperada tristeza reflectida
em meus olhos cor da sede.
Pedra a pedra, casa a casa,
sombra a sombra vagueio
pelas sensações e aguardo
que se repitam os sonhos
que resistiram à violência do tempo.
Podia escrever com sangue
o instante, sem amparo,
onde reclinei a cabeça
para aguardar a morte
dos desejos.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

OUTONO PRECOCE


Odor picante já de folhas murchas,
trigais a abrir-se vagos e sem vista:
sabe-se que das tempestades próximas
uma desnucará nosso exausto verão.

As vagens da giesta rangem. De repente
avultam ante nós o distante e o lendário:
o que hoje imaginamos ter na mão
perde-se, e cada flor, misteriosamente.

Na alma assustada cresce um tímido desejo:
de não prender-se à vida em demasia,
de aceitar como as árvores o emurchecer,
de não deixar que o seu outono faltem cores e alegria.

Hermann Hesse

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Fazer um Céu


Fazer um céu, com pouco a gente faz
basta uma estrela
uma estrela e nada mais.
Pra ter nas mãos o mundo
basta uma ilusão
um grão de areia
é o mundo em nossa mão.
Sonhar é dar à vida nova cor
dar gosto bom às lágrimas de dor
o sol pode apagar, o mar perder a voz
mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.

Mário Lago

Céus Nossos


Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.

Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.


Péricles Eugênio da Silva Ramos
in 'A noite da memória'
(Lorena- SP 1919 , São Paulo- SP 1992)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Trumpet’s Blues

Tela by Ted Hornes, Blues Silhouette

O dia se foi.
A lua é um nada,
O vento é frio.
Passado, presente


Futuro – é isso:
Um cigarro aceso,
Uma tosse no meio da praça,
Um estalar de dedos na outra esquina.


Então, lá no fundo,
No meio da cidade,
Alguém começa a gritar
Pelo bocal de um piston.



Sérgio Jockyman
De ‘Poemas em negro’, pag 47
Imprensa Oficial do Estado – 1958-


Sérgio Jockyman
(Palmeira das Missões, 29 de abril de 1930- RS — Campinas, 16 de fevereiro de 2011- SP)
foi um jornalista, romancista, poeta e dramaturgo brasileiro.)

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Se recordo quem fui, outrem me vejo,


Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é um presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

26-5-1930



Fernando Pessoa
Em Poesia dos Outros Eus
- Obra essencial de Fernando Pessoa
Editora Assírio & Alvim – 2007 –

De Fernando Pessoa...



Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.

3-1-1929



Fernando Pessoa
Em Poesia dos Outros Eus
- Obra essencial de Fernando Pessoa
Editora Assírio & Alvim – 2007 –

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Regresso


Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.

Graça Pires

Fundo do Mar

Fundo do mar
Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço

Mia Couto

Dizes-me...


Dizes-me: tu és mais alguma cousa
Que uma pedra ou uma planta.
Dizes-me: sentes, pensas e sabes
Que pensas e sentes.
Então as pedras escrevem versos?
Então as plantas têm ideias sobre o mundo?

Sim: há diferença.
Mas não é a diferença que encontras;
Porque o ter consciência não me obriga a ter teorias sobre as cousas:
Só me obriga a ser consciente.

Se sou mais que uma pedra ou uma planta? Não sei.
Sou diferente. Não sei o que é mais ou menos.

Ter consciência é mais que ter cor?
Pode ser e pode não ser.
Sei que é diferente apenas.
Ninguém pode provar que é mais que só diferente.

Sei que a pedra é a real, e que a planta existe.
Sei isto porque elas existem.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram.
Sei que sou real também.
Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,
Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta.
Não sei mais nada.

Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos.
Sim, faço ideias sobre o mundo, e a planta nenhumas.
Mas é que as pedras não são poetas, são pedras;
E as plantas são plantas só, e não pensadores.
Tanto posso dizer que sou superior a elas por isto,

Como que sou inferior.
Mas não digo isso: digo da pedra, "é uma pedra",
Digo da planta, "é uma planta",
Digo de mim, "sou eu".
E não digo mais nada. Que mais há a dizer?

Alberto Caeiro,
in "Poemas Inconjuntos"

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

PARAÍSO


Se houver além da Vida um Paraíso,
Outro modo de ser e de viver,
Onde p’ra ser feliz seja preciso
Apenas ser;


Onde uma Nova Terra áurea receba
Lagrimas, já diversas, de alegria,
E em Outro Sol nosso olhar outro beba
Um Novo e Eterno Dia;


Onde o Áspide e o Pomba de nossa alma
Se casem, e com a Alma Exterior
Numa unidade dupla – sua e calma –
Nossa alma viva, e à flor


De nós nosso intimo sentir decorra
Em outra Cousa que não Duração,
E nada canse porque viva ou morra –
Acalmaremos então?


Não: uma outra ânsia, a de infelicidade,
Tocar-nos-á como uma brisa que erra,
E subirá em nós a saudade
Da imperfeição da Terra.

6-11-1912



Fernando Pessoa
Em Poesia do Eu
- Obra essencial de Fernando Pessoa
Editora Assírio & Alvim – 2006 –

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

À NOITE, EM TRIESTE


Na Argélia, sentiu-se o amargo “estrangeiro”:
sol a pino queimando a sua vereda morena.

Em Berlim, como em Turim, o frio augusto:
tantos graus abaixo de tristes zeros.

Tudo tão distante estava daquilo
que um dia chamara de sua "pátria"...

Na cara nevasca da sua atroz solidão,
só três perguntas ele se permitia fazer,
olhar pousado sobre a Pietà em Milão:

1. Será que a mulher provara, ou desconfiara,
d'algo além das suas palavras mais cruas;
ditas quando envoltos em lençóis de luas?

2. Será que a mulher sabia que ser o rei
tessálico era só ventura de pura fantasia?

3. Será que a mulher percebia, ou vislumbrara,
que repousava nele o ser inverso; outro e mesmo
- capaz de dizer-lhe tudo... Que suado soava,
de um jeito diverso – maroto, sublime e suave?

Nisso pensava o homem desperto, alerta
e sem rumo, dentro daquela noite em Trieste.

Nisso pensava o homem sedento, exilado,
ao mergulhar à noite, incauto, no Mar Adriático.

Tudo sentia, na boca e na alma, ao nadar
em águas itálicas: a dúvida e o estranho
gosto da sorte lançada na ardósia da plaza.

Tudo pretendia, da cabeça ao ventre, estender.

Não queria que ela, por entre outras pegadas,
confundisse seus passos-palavras com algo
menos sublime que sua mais íntima forma de ser.


*Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”