A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Chuva de Cinzas



Chuva de cinzas...Cai a tarde lá por fora
na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.

Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.

Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.

Gilka Machado
in Velha Poesia

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A lua canta ao rio



Sou única no firmamento
e múltipla dentro do abismo.
Do fundo rio me contempla
a minha imagem refletida.

Sou a verdade no firmamento,
sou o imaginário no abismo,
Do fundo do rio me contempla
a minha imagem, no seu enganoso destino.


Lá no alto estou rodeada de silencio;
no abismo sussurro e canto.
No firmamento sou um deus,
no rio sou uma oração.

Lea Goldberg
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles

SEPARAÇÃO



Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.


Israel Zangwill
(1864 – 1929)
in Poesia de Israel
Tradução: Cecília Meireles

SUTIL INTENÇÃO



Há que haver amor em cada gesto
Para que as almas se completem,
Para que as angústias se aquietem
Na mudez do amor mais inquieto.

Há que haver prazer no que se faça
Para que a vontade se enterneça
E a solidão desapareça
Na sutil presença que abraça.

Há que haver lirismo na poesia
Para que, no cerne da emoção,
Haja mais vontade que paixão,
Haja mais paixão que hipocrisia.

Há que haver palavra na mudez
Porque assim a dor evidencia
Que todo silêncio que se cria
Flui da mais sublime embriaguez.

Há que haver, na pétala da flor,
A essência leve e colorida
Que possa fazer da própria vida
A intenção sutil de todo amor.

Luiz Gilberto de Barros

domingo, 28 de junho de 2009

CONCERTO DE PASSOS



Ouço passos
na calçada da ilusão
orquestra de um sonho.

Nuvens quentes
em concerto
brincam de Mozart, Chopin.

Em passos de concerto
o céu tornou-se cenário
palco festivo
de estrelas dançarinas
namorando a lua.

Solene e grave
a orquestra
veste-se de noite.

Há concertos de passos
passos de um concerto
a brincar de sonhos
-ela é nossa emoção.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

sábado, 27 de junho de 2009

Da poesia



11.

Sim, a poesia é a verdade mágica.
É o sonho a emplumar as tardes do real.
Ou alguma coisa que chega-nos, pelágica,
ou uma palavra eterna e pastoral.
A lógica poética é a beleza
a nascer do esplendor do ser em sagração
ou ao grito terrível da tristeza.
E tudo a voar, nas almas, é canção.


Artur Eduardo Benevides
(do livro Noturnos de Mucuripe & Poemas de Êxtase e Abismo,
(1992)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

ROSA SECA



Caiu de um livro no meu regaço
uma dessas velhas
relíquias de um sonho de juventude:
uma rosa seca.

E eu perguntei ao livro de onde vinha
aquela flor.
O livro calou-se: não chegou ao meu ouvido
nem palavra nem som.

Então meus olhos descobriram uma página
onde havia uma nódoa.
Há muito tempo, muito tempo alguém tinha chorado.
Oh, quando e onde?

Beijei a rosa murcha, a rosa seca
e a lágrima também.
Há muito tempo alguém tinha amado:
Oh, quem? e a quem?


Salomon Blaumgarten
(1870 – 1927)
in 'Poesia de Israel'
Tradução: Cecília Meireles

quarta-feira, 24 de junho de 2009

SONETO DE INDAGAÇÃO



Será tarde, Senhora, será tarde?
A vida, igual ao dia, encontra ocaso.
Termina, pouco a pouco, o nosso prazo
E o frio olhar da morte já nos carde.


Que tua luz me salve ou me resguarde.
Tuas chamas me queimam. Já me abraso.
Estamos bem além de um simples caso.
A alma, outrora errante, em ânsias arde.

Tenho estranho fulgor de adolescência,
Mas, ao notar que tudo pede urgência,
Sinto que amar me traz um certo alarde.

E ao ver o tempo inexorável, lento,
Escravo de teu grande encantamento
Aflito te pergunto – será tarde?



Artur Eduardo Benevides
In: Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer


Com a inquietação de toda a vida que se aproxima
Desce também sobre mim o destino implacável como a noite
Colhendo tudo de surpresa, chegando de cima.
O vento joga no meu rosto as sombras das vozes passadas,
Os ruídos eternos, o eco dos inextinguíveis silêncios
Nascidos das confissões estancadas.
Vazios e inúteis como as vigílias sem cansaço
São meus pedidos de auxilio para uma germinação estranha de ímpetos
Que correm para mim, semeados no espaço.
Meus sentidos se prolongam na agonia da tarde
Procurando encontrar na treva da noite
O fim misterioso e sem alarde.
Minha existência é o ultimo pensamento no estertor do suicida
Que abraça a morte
Esperançoso de vida.


Adalgisa Nery
In: Mundos Oscilantes

sábado, 20 de junho de 2009

METAMORFOSES



sou o que sou:
o silêncio após o mas
e o ou

fui o que fui:
um ruído entre
o constrói e o rui.

fosse o que fosse:
a ponte (que pena!)
quebrou-se

ser o que seria:
já crepúsculo mal
começa o dia?

José Paulo Paes

quarta-feira, 17 de junho de 2009

ELEGIA DE MAIO


Longo, lento, infindável o crepúsculo.
Na larga enseada uma tinta imprecisa
antes do lusco-fusco
insinua-se em tudo, esmaiada.
Corre um brusco arrepio de brisa,
encrespa-se de leve a água vidrada.

Difuso em tudo, o ouro da luz de outono
resiste, como a clara
recordação de um longo dia pára
e ainda hesita, antes da noite e o sono.

Escurecer que é quase amanhecer...
Um não sei quê de claridade escura
diluído em tudo, em tudo arde e perdura:
já é quase noite o longo dia
e a noite espera e sonha: ainda é dia.

Lá no alto, o adeus da tarde que ficou...
É dia ainda, o sol acorda agora
no largo oceano o sono de outra aurora,
mas derrama no seio do meu rio
todo o ouro do dia que passou.
Serena esta luz de ouro em meu outono:
recordação, antes do grande sono...


Augusto Meyer
in Poesias, 1957
(Rio Grande do Sul)

terça-feira, 16 de junho de 2009

POETA



Deixa cair todo este orvalho puro
sobre os teus ombros doloridos.

Vê como é suave a terra:
mesmo nos galhos mais bruscos,
olha: há carícias amigas.

Tudo é mais coração, porque és mais coração.

Orvalho... Orvalho... Parece
que em tua vida alguma cousa amadurece.

Deixa cair, deixa rolar teu poema
como um fruto maduro, pelo chão.


Augusto Meyer
in Coração Verde

domingo, 14 de junho de 2009

Soneto X


Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos

De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito…

Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.

Narrei-me à sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido…

Centauro, n°l, Out-Dez. 1916.


Fernando Pessoa
in: Poemas Ocultistas

sexta-feira, 12 de junho de 2009

INTERDICTA

(Clovers and lilacs white, Photomontage of Regina Helena)


(Anima interdicta
in saecula seculorum)

I felt you come blind-folded
into the flanks of my night
bringing me a handful of buds:
roses, clovers and lilacs white.

But, o, poetry,
let’s seal it a secret -
all my captive birds fly
by your passing I saw

though men shall not be granted
the solace of flowers
in our unscripted stone-aged law.


Fernando Campanella

>

terça-feira, 9 de junho de 2009

DESCOBERTA



Só depois percebemos
o mais azul do azul,
olhando, ao fim da tarde,
as cinzas do céu extinto.

Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.

Só depois aprendemos
a trilhar o labirinto,
mas como acordar os passos
nos pés há muito dormidos?

Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobe esta
inútil descoberta

enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca.

Ruy Espinheira Filho

CANTO DA LUZ NO POENTE



De cinza e de aura as nuvens param
No limite da tarde que se desfaz;
E da própria luz da tarde que anoitece
Que o escuro se realiza e se refaz.

Com o olhar profundo ausculto a noite
Quando há mistura entre cinza e aura;
- E do sol, muito longe, não se sabe
Por onde vai. A natureza canta em coro.

Joaquim Cardozo
In: Um Livro Aceso e Nove Canções Sombrias

'REVELAÇÃO'



Só o passado que
aguarda no futuro
revelará a limpidez
maior desta tarde.

Ai que somos felizes
agora
mas não tanto
como amanhã, no passado.

Ruy Espinheira Filho

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Tear



Num reino de bruma, entre os ramos
de árvores quase secas e breves trilhos,
o ar libertava uma vaga espuma,
e a luz soltava líquidos brilhos.

Numa clareira, sombras de saudade
caíam sobre arbustos rasos, e um canto
de campo enchia de sede os vasos
que o tempo partiu num dobrar da idade.

Colhi antigas papoilas, e colei-as
no álbum do horizonte, com o cuspo
do poente, enquanto uma voz distante
rezava o fim de uma oração doente.

E na água parada da lagoa, com os
braços soltos como remos sem uso,
uma parca branca vogava, à toa,
tecendo o destino na linha do seu fuso.


Nuno Júdice
Postado no blog do autor na véspera seu aniversário,
28/04/2008

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A ORQUESTRA INVISÍVEL


John Singer Sargent

Num liso papel assim tão próximo
Com a mão percorro a escuridão.
Vou tateando levemente os seus contrastes
Vou descobrindo formas e objetos,
Ou medindo os elementos escondidos
Na ordem sem sentido e tenebrosa.

A escuridão se quebra em teclas negras
Que se encadeiam, que se dispersam. . .
Surgem teclados de instrumentos raros
Cujo som perfeito não se sabe bem.

É um som apenas? É um canto claro?
De uma sinfonia ou de uma sonata?
Noturno de Chopin em sol maior?

Do outro lado há tímbales, tambores,
O branco aparece puro e consagrado,
Na sua alvura imaculada;
Há longos fagotes, há clarinetes,
Há flautas e oboés: escondidos
No escuro cantam violinos, violoncelos;
E a luz branca brilha eternamente
Nessa orquestra invisível e nihilsonora.

O som, o cântico, a música da esquecida orquestra
Estão no fim, estão no branco-luz constante e claro.

Joaquim Cardozo
in: Poesia Completa

Vida... Vida de Mim se Despedindo



Existe um EU dentro de mim
que não me pertence
não é meu.
Mas pode estar em mim;
Do outro lado de mim.
Lado que comigo não tem contato.
Um EU antagônico para o meu ser de agora
Agora e agônico.

O que faço está mais além desfeito:
É um fazer contrafeito que morre
E renasce, depois, no meu peito.

Nada me vem contra o que está dentro de mim vizinho
O que me vem é contra o que de eterno em mim me oprime

- Aquilo que está no que era de outra vez;
E que esteve noutro sentido e ainda perdura e se antepõe
E que me destrói, me impõe, me presume e suprime.

Todos os meus atos são atos reflexos
No projetivo espelho tempo/espaço, no fechado não denso.
Correspondência injetiva, deprimente, fria, de interno entorno.


Ouço a voz paralela a minha voz,
Ouço o canto que é um eco do que, outrora, foi meu.
em conflito com o que poderia ser silêncio
se este pudesse fluir lentamente como o tempo
e ser, se pudesse, confundidamente tempo-silêncio

No que aqui é doce, no paralelo é amargo
No que aqui é macio, no paralelo é áspero
Mundo paralelo!

Nele é que vou me apagar, me sumir, me perder,
Me esconder, para sempre, no esquecer.
Noitemente amanhecer.

Joaquim Cardozo
in: Poesias Completas

terça-feira, 2 de junho de 2009

Dos caminhos e descaminhos da solidão (VIII)



Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.

Artur Eduardo Benevides

Dos caminhos e descaminhos da solidão (VI)



Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.


Artur Eduardo Benevides

"POESIA DA PRESENÇA INVISÍVEL"



Através do quadro iluminado da janela
Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente
E me lembro dos homens que seriam meus amigos
Se eu tivesse nascido em Cingapura.

E aqueles que estiveram comigo nas horas concluídas
Ainda impressionam o ar
— Todos eles perderam-se no mar.

Agora, na praia deserta estou sozinho
— Caminho com os pés descalços na areia.
Nesta tarde morta o perfume das almas
Invade as enseadas, estende-se sobre os rios, paira sobre as colinas
— A Natureza assume a precária presença de um sonho;
Um trem corre sereno na planície dos homens ausentes;
Do fundo de minha memória sobe um canto de guitarras confusas;
Sinto correr de minha boca um rio de sombra,
A sombra contínua e suave da Noite.


Joaquim Cardozo
(Pernambuco)

A tarde sobe



Ao rés da Terra o tempo é escuro
Mas a tarde sobe, se ergue no ar tranqüilo e doce
A tarde sobe!
No alto se ilumina, se esclarece.
E paira na região iluminada.

Sobe, desfaz a trama de entrelaços
Superpostos na maneira dos esquadros
Sobre o chão aos poucos escurecendo.
Sobe: No meio da parte densa.

Sobe alva, serena para as estrelas
Que irão em breve aparecer,
Luzindo, no princípio da noite;
No espaço branco em que se completa
Preenchendo o centro e a esquerda
Branco que saiu limpo
De um fundo escuro de hachuras.

A tarde sobe!
Sobe até o zênite dando aos que passam
A paz e a serenidade do entardecer.

A tarde sobe pura e macia!
As linhas de baixo se inclinam
Se afastam e vão deixá-la subir.


Joaquim Cardozo

Espumas do Mar


(Tela By Gary Benfield)



Cavalos ligeiros
De eriçadas crinas
Por que sobre as ondas
Passais sem parar?
Vencendo procelas,
Ressacas em flor,
Num fulgor de estrelas
A poeira das águas
Fazeis levantar.

Espumas do mar.

Nas serenas curvas
Da carne marinha
Há sopros, há fugas
De véus a ondular;
Vestidos de rendas...
Vestidos, mortalhas
De noivas morenas
Que em noites de lua
Virão se afogar.

Virão se afogar.

Se há fomes noturnas
Mordendo e chorando,
Lívidas, remotas
Fúrias soltas no ar,
Que os lábios do vento
Se abrindo devorem
A flor de farinha
Que as vagas maiores
Irão derramar.

Espumas do mar.

Nesse fogo verde
De cinza tão branca
Que se apure um mel

De brilho sem par;
Turbinas, moendas
No giro girando
E o açúcar nascendo
Na folha das ondas
Constante a rolar.

Constante a rolar.

Sobre os seios mansos
Das baías claras
Em puro abandono
Não hei de ficar;
Saudades das ilhas,
Amor dos navios,
Segredo das águas
Nas barras dos rios
Irei desvendar.

Espumas do mar.

Em mares incertos
Irei navegar;
E direi louvores
Às velas latinas
Por bem velejar;
Louvores direi
Aos lírios de sal
E às vozes dos búzios
Que sabem cantar.

Que sabem cantar.

Teu rosto esqueci,
Teus olhos? Não sei...
Da face marcada
O espelho quebrei
De muito sonhar;
Nos laços retidos
Das águas profundas
Tesouros perdidos
Quem há de encontrar?
Espumas do mar.


Joaquim Cardozo
(Pernambuco-1897-1978)

domingo, 31 de maio de 2009

Os amigos, ao entardecer (IV)



No resto do mundo
um murmúrio geral vai crescendo no escuro.
E a noite parece um ladrão a esgueirar-se
sobre os nossos muros.
Limpamos, então, lentos e calados,
nossos retratos no tempo pendurados.
E pensamos no dia em que chegar
o adeus.
Oh, o adeus, essa palavra sagrada
que guardará no infinito
a inutilidade de nosso pobre grito.

Artur Eduardo Benevides

Os amigos, ao entardecer(I)



O tempo é breve e as afeições são poucas.
Os cabelos já tomam a cor das despedidas.
Tantas, as viagens! Quantas, as partidas
para as paixões, as festas e navegações?
Fraternas mãos vieram e me cobriram
com cálidos lençóis.
E preparei anzóis
para pescar os salmões do amanhecer.
Um dia, com os amigos, acendi fogueiras.
Deitamo-nos na relva, de alma ainda inteira.
Ou fomos olhar os trens
que vinham dos verões.
Vezes houve em que rimos, quase alucinados.
Nem vimos os exílios, demorados.
E estivemos unidos em nossos corações.


Artur Eduardo Benevides

Da poesia(I)



A poesia
é um pequenino veio nas colinas
a se espalhar por vésperas e matinas
até encontrar a solidão do mar.
E a solidão somos nós.
O mar:
o pranto o a voz
dos que Jamais puderam regressar.


Artur Eduardo Benevides
(Ceará)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Subia a Lua, Leve...



Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.

Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!


Da Costa e Silva
in: Poesias Completas

DE UM ANDAR NOTURNO



Tempestade, chuva oblíqua,
negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.


De um vão entre escuras nuvens
súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.


Límpidas ilhas do céu,
estrelas sóbrias saúdam;
ao luar, fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.


Alma, prepara-te, alma!
Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.


Alma, responde ao sinal:
banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.


Hermann Hesse
In: Andares

'If we must part '



If we must part,
Then let it be like this.
Not heart on heart,
Nor with the useless anguish of a kiss;
But touch mine hand and say:
"Until to-morrow or some other day,
If we must part".

Words are so weak
When love hath been so strong;
Let silence speak:
"Life is a little while, and love is long;
A time to sow and reap,
And after harvest a long time to sleep,
But words are weak".

Ernest Dowson

'Spleen'



Around were all the roses red
The ivy all around was black.

Dear, so thou only move thine head,
Shall all mine old despairs awake!

Too blue, too tender was the sky,
The air too soft, too green the sea.

Always I fear, I know not why,
Some lamentable flight from thee.
I am so tired of holly-sprays
And weary of the bright box-tree,

Of all the endless country ways;
Of everything alas! save thee.


Ernest Dowson

'When I am old'



When I am old,
And sadly steal apart,
Into the dark and cold,
Friend of my heart!
Remember, if you can,
Not him who lingers,
But that other man,
Who loved and sang,
And had a beating heart,
When I am old!

When I am old,
And all Love’s ancient fire
Be tremulous and cold:
My soul’s desire!
Remember, if you may,
Nothing of you and me
But yesterday,
When heart on heart
We bid the years conspire
To make us old.

When I am old
And ev’ry star above
Be pitiless and cold:
My life’s one love!
Forbid me not to go:
Remember nought of us
But long ago,
And not at last,
How love and pity strove
When I grew old.

Ernest Dowson


‘Quando eu for velho’

Quando eu for velho
E tristemente posto de parte,
Na escuridão e ao frio,
Amigo do meu coração!
Lembra-te, se puderes,
Não dele que vacila,
Mas daquele outro homem
Que amava e cantava
E tinha um coração que batia,
Quando eu for velho!

Quando eu for velho,
E todo o antigo fogo do amor
Se tornar trêmulo e frio:
Meu desejo de alma!
Lembra-te, se puderes,
Nada de ti ou de mim
Senão ontem,
Quando coração no coração
Nós mandamos os anos conspirar
Para nos tornar velhos.

Quando eu for velho,
E cada estrela lá em cima
Se tornar impiedosa e fria:
Amor da minha vida!
Não me proíbas de ir:
Não te lembres de nada de nós
Senão de há muito tempo
E não por último
Como o amor e a piedade se esforçaram
Quando eu envelheci.

Ernest Dowson

quinta-feira, 28 de maio de 2009

'MOSTRADOR'



O ponteiro grande
dá volta ao mundo
de hora em hora;
já o pequeno, não.
Parece-nos parado.
Parado entre o futuro
e o tempo ido.
Irmãos do desencontro:
Um, o ponteiro
da esperança, o outro
o do olvido.

O ponteiro grande
gorjeia de hora em hora.
O pequeno é silente:
Todas as coisas
que caminham pra não
voltar, caminham
assim: Imovelmente.

Horizonte. Atributo
do último minuto.

Cassiano Ricardo
in: Poemas Murais

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa



Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
Substitui o calor.
Para ser feliz tanta coisa é precisa.
Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.

Que se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se for, seria
O tédio de o haver... E a chuva cresce
Na noite agora fria


Fernando Pessoa
18-9-1920
in: Poesias Inéditas (1919-1930).

Amanhecência



Algo peço? ou me pertence?
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas


das cantigas que amanheçam.
Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".
Talvez tuas penas caiam


nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.


Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?


Setlla Leonardos

O que se é vem à flor?



“Não, não digas nada” Fernando Pessoa


Melhor seria não dizer-te nada
já que as palavras se frustram, Pessoa
- ai! onde as pás sutis e as virgens lavras
do ver de terna fala entre as criaturas?

Já que as palavras nos frustram, pessoas
perdidas no universo das palavras
- ai tempos de durames sem ternuras! -
melhor seria não dizer-te nada.

Calo. Do teu silêncio aflora a fala
desse verde essencial – cerne, mensagem,
viva raiz-mistério da linguagem.
Na força de não ter dito o que mais cala.


Stella Leonardos
(Rio de Janeiro, 1.923)

Retribuição



Cada minuto de satisfação
Em tremores de angústia é retribuído,
Na mesma exata proporção
Do êxtase fruído…

No escambo de cada hora entesourada
- Parca ração dos anos -
Vinténs amargamente regateados,
Cofres de pranto extravasando…


Emily Dickinson
(tradução de Olívia Krähenbühl)


Compensation

For each ecstatic instant
We must an anguish pay
In keen and quivering ratio
To the ecstasy.

For each beloved hour
Sharp pittances of years,
Bitter contested farthings
And coffers heaped with tears.

Emily Dickinson


Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes…
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.


Paulo Bonfim

Cogito



eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


Torquato Neto

Camino al revés



De vez en cuando
camino al revés:
es mi modo de recordar.

Si caminara sólo hacia delante,
te podría contar
cómo es el olvido.


Humberto Alkabal

Después de hoy



Después de hoy
comenzaré la distancia.

Mañana habrá lágrimas,
suspiros y un nombre.

Después,
suspiros y un nombre.

Y más lejos,
sólo será un nombre.


Humberto Akabal

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nuvens


Sobre a lâmina azul de um céu todo bonança
passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,
- vaga que adormeceu num mar que não estronda,
nas mudas convulsões de uma tormenta mansa...


Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avança,
busca a forma fugaz, que se esboça e esbarronda;
aqui se esgarça, ali descai, além, redonda,
bóia ao sol que a redoira e ao vento que a embalança.


Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,
sobem-nos da alma assim, livres, espaço em fora,
na lenta indecisão dos informes vapores...


Possam os meus pairar na luz por um momento,
ser a nuvem que arrasta o olhar perdido - embora
suceda a cada esboço um desmoronamento!


Amadeu Amaral
In ‘Espumas’ (1917)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Cada um com sua sombra


Amanhece.
O sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
bichos,
gente...

E pra cada um
faz uma sombra.

Humberto Ak’abal
(Guatemala)

Escreve o mar


Até a folha em que escrevo chega o mar
com seu pulsar cheio de naufrágios
como meu coração.

E na folha, da mesma forma que na areia,
escreve seu segredo trêmulo
e sua canção.

Banha de nácar e cristal meu sonho
diurno e, se calo, escreve em meu silêncio
seu coração.

(Como em outro planeta canta um pássaro.
Quase humana, respira a manhã
de jasmim e limão.

Talvez sonhada ou recordada voa
como uma ferida azul a mariposa
com sua ilusão).

Em uma onda vem todo o mar
e ao pé deste poema se desfaz
como uma rosa que cantara.

Onde é mais só o mar
e mais largo e mais fundo e terno e feroz
é no meu coração.


Eduardo Carranza
(O coração e o Mar 1)
In: Antologia Poética

sábado, 23 de maio de 2009

FUGA DA JUVENTUDE


Fatigado o verão dobra a cabeça
e olha no lago a sua imagem descorada.
Fatigado e coberto de poeira
vou pelas alamedas sombreadas.


Entre os olmos perpassa um vento tímido.
Atrás de mim tenho o vermelho céu
e à minha frente receios da noite
e crepúsculo e morte.


Vou fatigado e coberto de pó:
atrás de mim, hesitante, de pé,
a juventude abana a linda cabeça
e prosseguir comigo não mais quer.



Hermann Hesse
In: Andares

O mar mistura-se ao mar


O mar mistura-se ao mar
Mescla os seus laços, lagos, poças
Suas idéias de gaivotas e de espumas
Seus sonhos de algas e alcatrazes
Aos graves crisântemos azuis ao largo
Aos miosótis em tufos nos muros alvos das ilhas
Às equimoses do horizonte, aos faróis apagados
Aos sonhos do céu impenetrável.

Jean-Michel Maulpoix
Tard: Mário Laranjeira.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

TAL É A NOSTALGIA ...


Tal é a nostalgia: habitar sobre as ondas
e jamais ter abrigo no tempo.
E tais são os desejos: diálogo em surdina
da hora cotidiana com a eternidade.

Tal é a vida. Até o dia em que de ontem
se eleva a mais solitária dentre todas essas horas,
e, sorrindo diferentemente das irmãs,
em silêncio se oferece ao eterno.
Cala-se, como uma oferta ao eterno.


Rainer Maria Rilke
in Antologia Poética