sábado, 10 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
OS AMIGOS, AO ENTARDECER

O tempo é breve e as afeições são poucas.
Os cabelos já tomam a cor das despedidas.
Tantas, as viagens! Quantas, as partidas
para as paixões, as festas e navegações?
Fraternas mãos vieram e me cobriram
com cálidos lençóis.
E preparei anzóis
para pescar os salmões do amanhecer.
Um dia, com os amigos, acendi fogueiras.
Deitamo-nos na relva, de alma ainda inteira.
Ou fomos olhar os trens
que vinham dos verões.
Vezes houve em que rimos, quase alucinados.
Nem vimos os exílios, demorados.
E estivemos unidos em nossos corações.
Artur Eduardo Benevides
In: Elegia Setenta e Outros Poemas
Os cabelos já tomam a cor das despedidas.
Tantas, as viagens! Quantas, as partidas
para as paixões, as festas e navegações?
Fraternas mãos vieram e me cobriram
com cálidos lençóis.
E preparei anzóis
para pescar os salmões do amanhecer.
Um dia, com os amigos, acendi fogueiras.
Deitamo-nos na relva, de alma ainda inteira.
Ou fomos olhar os trens
que vinham dos verões.
Vezes houve em que rimos, quase alucinados.
Nem vimos os exílios, demorados.
E estivemos unidos em nossos corações.
Artur Eduardo Benevides
In: Elegia Setenta e Outros Poemas
quarta-feira, 7 de julho de 2010
A PASSAGEM

Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho.
Lêdo Ivo
em "O Rumor da Noite"
Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro - 2000.
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho.
Lêdo Ivo
em "O Rumor da Noite"
Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro - 2000.
terça-feira, 6 de julho de 2010
campos entardecidos

O poente em pé como um Arcanjo
tiranizou o caminho.
A solidão povoada como um sonho
remanseou-se ao redor do vilarejo.
Os cincerros recolhem a tristeza
dispersa dessa tarde. A lua nova
é um fio de voz que vem do céu.
Conforme vai anoitecendo
volta a ser campo o vilarejo.
O poente que não cicatriza
ainda fere a tarde.
As cores trêmulas se acolhem
nas entranhas das coisas.
No aposento vazio
a noite fechará os espelhos.
Jorge Luís Borges
tiranizou o caminho.
A solidão povoada como um sonho
remanseou-se ao redor do vilarejo.
Os cincerros recolhem a tristeza
dispersa dessa tarde. A lua nova
é um fio de voz que vem do céu.
Conforme vai anoitecendo
volta a ser campo o vilarejo.
O poente que não cicatriza
ainda fere a tarde.
As cores trêmulas se acolhem
nas entranhas das coisas.
No aposento vazio
a noite fechará os espelhos.
Jorge Luís Borges
segunda-feira, 5 de julho de 2010
SEGMENTOS

E o homem seguiu entre guizos falsos.
Trazia no rosto uma sofreguidão de charcos.
Era noite
e os fantasmas enlouquecidos não o deixavam seguir.
Assim
andarilho de madrugadas
homem de silêncios fartos
ele se enfatizou.
Riscou de seu rosto a mascara da vida.
Continuava só
e só, continuava em sua busca viscosa.
Já não era mais ele quem fremia
na porta dos bares vazios.
Era a nostalgia de seu espectro
que buscava carnavais de sorrisos.
Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo
Trazia no rosto uma sofreguidão de charcos.
Era noite
e os fantasmas enlouquecidos não o deixavam seguir.
Assim
andarilho de madrugadas
homem de silêncios fartos
ele se enfatizou.
Riscou de seu rosto a mascara da vida.
Continuava só
e só, continuava em sua busca viscosa.
Já não era mais ele quem fremia
na porta dos bares vazios.
Era a nostalgia de seu espectro
que buscava carnavais de sorrisos.
Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo
sábado, 3 de julho de 2010
Dunas

Crepúsculo vai desbotando
o mato azul suspenso em sombras.
Em teus olhos enevoados nascem
as estrelas em meio a tua dança
nas areias do deserto que morreu
de saudades da ausência das chuvas.
Horizonte fantasmagórico no
silêncio espinhoso dos cactos.
Visões mágicas em lábios abotoados.
Flutuas em teu vestido branco
transparente a luz pálida da lua,
estranho sentimento místico
de intuições que ateiam fogo
em nossos instintos.
Aharon
*Nelson Aharon
Joenviele -SC
sexta-feira, 2 de julho de 2010
VII
quinta-feira, 1 de julho de 2010
VOZES

Vozes ideais e amadas
daqueles que morreram, ou daqueles que estão
perdidos para nós como os mortos.
Às vezes, em nossos sonhos, elas falam;
às vezes, em nosso pensamento, o espírito as percebe.
E, com seu sussurro, por um momento voltam
ecos da primeira poesia de nossa vida —
como, na noite, música longínqua que se extingue.
Konstantinos Kaváfis
in‘Poema’
Tradução, estudo e notas
de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo, Odysseus, 2006.
terça-feira, 29 de junho de 2010
DESPEDIDAS

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.
Affonso Romano de Sant'Anna
In 'Epitáfio para o Séc.XX'
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
Nada mais é gratuito, tudo é ritual.
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.
Affonso Romano de Sant'Anna
In 'Epitáfio para o Séc.XX'
domingo, 27 de junho de 2010
De mãos erguidas
(The Helia Sculpture))De mãos erguidas
junto das nascentes,
convoco o inacessível
e construo os cenários
da infância que não tive.
Agora vou ser livre
de percorrer o vento
em linha recta,
de receber os afagos
às mãos cheias,
de pintar em todas as paredes
as bonecas de trapos que não fiz.
Agora posso marcar
um percurso feliz
no caminho que leva
à outra margem,
ou fabricar um enredo
onde a minha imagem,
petrificada e bela,
seja sempre o reflexo
do crepúsculo que se extingue.
Depois, a vida há-de mover-se
como um vendaval inesperado,
mas nada toldará a limpidez
das lágrimas e da noite,
no ritual quotidiano de estar só.
Graça Pires
Portugal
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O vento e as bandeiras
(Alessandro Beltrane)A ventania que alçou o amargo aroma
do mar às espirais dos vales,
e te assaltou, desgrenhou teu cabelo,
novelo breve contra o pálido céu;
a rajada que colou teu vestido
e rápida te modulou à sua imagem,
como voltou, tu longe, a estas pedras
que o monte estende sobre o abismo,
e como passada a embriagada fúria
retorna agora ao jardim o hálito submisso
que te ninou, estirada na rede,
entre as árvores, nos teus vôos sem asas.
Ai de mim! O tempo nunca arranja duas vezes
de igual maneira suas contas! E é esta a
nossa sorte: de outra maneira, como na natureza,
nossa história se abrasaria num relâmpago.
Surto sem igual, - e que agora traz vida
a um povoado que exposto
ao olhar na encosta de um morro
se paramenta de galas e bandeiras.
O mundo existe... Um espanto para
o coração que sucumbe aos espíritos errantes,
mensageiros da noite: e não pode acreditar
que homens famintos possam ter sua festa.
Eugenio Montale
in 'Poesias'(Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti)
*Eugenio Montale (Génova, 12 de Outubro de 1896 — Milão, 12 de Setembro de 1981) Poeta italiano, prosador, jornalista e tradutor italiano.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1975.
terça-feira, 22 de junho de 2010
POEMA
O sol ao pôr-do-sol (triste soslaio!)…o arroioEm pedras estendido, em seus soluços
Desmaia o céu d’estrelas arenoso
E o lago anila seus lençóis d’espelho…
Era a Ilha do Sol, sempre florida
Ferrete-azul, o céu, brando o ar pureza
E as vias-lácteas sendas odorantes
Alvas, tão alvas!… Sonoros mares, a onda
d’esmeralda
Pelo areal rolando luminosa…
As velas todas-chamas aclaram todo o ar.
Sousândrade
*Joaquim de Sousa Andrade nasceu na Vila dos Guimarães no Maranhão (consta numa biografia que nasceu em Alcântara, também no Maranhão) no dia 9 de julho de 1832. Formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris, onde também estudou Engenharia. Permaneceu na Europa por muitos anos, viajou muito e conheceu também as repúblicas latino-americanas.Fixou residencia nos Estados Unidos da América.Ao final de sua vida, no Maranhão, incompreendido e só, tido maldosamente como louco, morre só e na mais completa pobreza.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
É um sonho esta vida...

É um sonho esta vida,
mas um sonho febril de um instante único.
Quando dele se acorda,
vê-se que tudo é só vaidade e névoa...
Oxalá fosse um sonho
bem profundo e bem longo,
um sonho que durasse até á morte!...
Eu sonharia com o meu e teu amor.
Gustavo Adolfo Becker
mas um sonho febril de um instante único.
Quando dele se acorda,
vê-se que tudo é só vaidade e névoa...
Oxalá fosse um sonho
bem profundo e bem longo,
um sonho que durasse até á morte!...
Eu sonharia com o meu e teu amor.
Gustavo Adolfo Becker
*Gustavo Adolfo Domínguez Bastida
(Sevilla, 17 de Fevereiro de 1836 - Madrid, 22 de Dezembro de 1870)
Poeta e escritor espanhol, um dos expoentes da literatura romântica.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
‘Retrato do poeta quando jovem’
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregamSobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exato,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
José Saramago

Premio Nobel em literatura- 1.998.
Nasceu em Azinhaga, Golegã, Portugal. 16 de Novembro de 1922-
Faleceu (hoje) 18 de junho de 2010- Lanzarote, Ilhas Canárias, Espanha.
Nasceu em Azinhaga, Golegã, Portugal. 16 de Novembro de 1922-
Faleceu (hoje) 18 de junho de 2010- Lanzarote, Ilhas Canárias, Espanha.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Miudências

Ser feliz
é ter o coração livre
e a consciência tranquila;
é receber a brisa
e falar de alegria!
É vestir
o agasalho da saúde
a camisa do sonho
e os sapatos do amor!
É cantarolar no silêncio
brindar a paz
e então
sair de si
estender seu coração
e dizer:
estou pronto
o sofrimento é canto!
Luiz José Maia
In’ As Quatro Faces do Homem’
é ter o coração livre
e a consciência tranquila;
é receber a brisa
e falar de alegria!
É vestir
o agasalho da saúde
a camisa do sonho
e os sapatos do amor!
É cantarolar no silêncio
brindar a paz
e então
sair de si
estender seu coração
e dizer:
estou pronto
o sofrimento é canto!
Luiz José Maia
In’ As Quatro Faces do Homem’
quarta-feira, 16 de junho de 2010
As Belas, As Perfeitas Máscaras

As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...
Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...
Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!
Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...
Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...
Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!
Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro
terça-feira, 15 de junho de 2010
SONETO DE PAPEL

"Por escrito sou mais do que respiro”
Antônimo de mim, há sinonímias
Em eu querer já não querer mais nada,
Senão a minha ausência de mãos postas.
Por escrito! E a escrever que ninguém pode!
Contudo, que descanso em que pudesse!
A única viagem que é só minha
Mora na asa infinita da palavra!
Hã muitas vozes neste vôo e entanto
O meu suspeito coração consegue
Amealhar fortunas de silêncio!
Natureza concreta que rabisco
De almas, à custa de buscar-me um outro
Nos dicionários que anoiteço em mimm...
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
Antônimo de mim, há sinonímias
Em eu querer já não querer mais nada,
Senão a minha ausência de mãos postas.
Por escrito! E a escrever que ninguém pode!
Contudo, que descanso em que pudesse!
A única viagem que é só minha
Mora na asa infinita da palavra!
Hã muitas vozes neste vôo e entanto
O meu suspeito coração consegue
Amealhar fortunas de silêncio!
Natureza concreta que rabisco
De almas, à custa de buscar-me um outro
Nos dicionários que anoiteço em mimm...
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
PENUMBRA

Minha cabeça afaga o meu cansaço
Como uma luz no coração da sombra;
Corpo da sombra, coração da terra,
Rima do verso branco que sou eu.
Qual uma rosa que fizesse falta
Às ruas murchas de não serem rios,
Embalo a sombra como um berço estéril,
Antecipando o último berço imóvel.
Felizmente ainda venta no destino.
Ainda o perfume comparece às flores.
Sim! Afinal, a vida é uma verdade
(Por que falei tão alto, se acredito?)!
Meu cansaço fecunda a minha sombra –
A morte amanheceu, quase nasci!
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
Como uma luz no coração da sombra;
Corpo da sombra, coração da terra,
Rima do verso branco que sou eu.
Qual uma rosa que fizesse falta
Às ruas murchas de não serem rios,
Embalo a sombra como um berço estéril,
Antecipando o último berço imóvel.
Felizmente ainda venta no destino.
Ainda o perfume comparece às flores.
Sim! Afinal, a vida é uma verdade
(Por que falei tão alto, se acredito?)!
Meu cansaço fecunda a minha sombra –
A morte amanheceu, quase nasci!
Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)
sexta-feira, 11 de junho de 2010
TÃO CÚMPLICES AS PALAVRAS
terça-feira, 8 de junho de 2010
XXXVII
segunda-feira, 7 de junho de 2010
O estéril

Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho
em chuviscos sutis de amor e de veneno.
O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.
(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)
Oh! como doem, doem essas dores humildes.
Pablo Neruda
In Cadernos de Temuco
'Encontrado' no blog da amiga Dione,'Gotas de poesias e outras Essências!Aqui.
em chuviscos sutis de amor e de veneno.
O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.
(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)
Oh! como doem, doem essas dores humildes.
Pablo Neruda
In Cadernos de Temuco
'Encontrado' no blog da amiga Dione,'Gotas de poesias e outras Essências!Aqui.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
XXXVI

Espelho do outono
que me convida a esquecer,
um desabrir , um encerrar
sem no entanto morrer.
Esse tempo de fora
- quando a sombra estremece
e em minha cama se deita -
eu espreito por dentro.
(Faça-se a luz,
invento da alma,
que irisa meus olhos
e me reflui.)
(Fernando Campanella)
Poema da série “O Eu confesso”
-Inédito-
que me convida a esquecer,
um desabrir , um encerrar
sem no entanto morrer.
Esse tempo de fora
- quando a sombra estremece
e em minha cama se deita -
eu espreito por dentro.
(Faça-se a luz,
invento da alma,
que irisa meus olhos
e me reflui.)
(Fernando Campanella)
Poema da série “O Eu confesso”
-Inédito-
A voz de meu rio
'VERDADE DE BRINQUEDO'

A minha verdade
é o Atlântico Amadeus Oceano:
uma saudade tão simples
que não alcanço ou espanto.
A minha verdade
é Flora pura, verbo Purim:
inteira Jazz; Moura
Paulo, Leonardo - princípio e fim.
A minha verdade
é feita de prima Vera: uma Itália
nortista, único Moai em Santiago;
esmeraldas na Serra da Mantiqueira.
A minha verdade
é tão infame quanto Rimbaud:
um espantalho, um alaúde,
“O Novo Arrabalde”: Vitória desnuda.
A minha verdade
é cigana como meus olhos e sonhos,
vã como Veneza; adora a vida em Milão:
é portuguesa como António, o Boto.
A minha verdade
é profana, sacra, rara, sacana:
é Adriana e Frida; passa por Bocage
e Camões, mas deságua seus mitos
na boca saúva da Cobra Norato.
A minha verdade
é longa e Londres, um sítio da City.
É vasta - mais que perfeita escuridão:
dela nada conheço; nela me refaço e fortaleço.
A minha verdade
foi parida em noite de Lua Cheia.
Tão urbana como minha vida em viés:
seleta e diversa como nuvens grávidas.
A minha verdade
é um pouco dali, outro tanto daqui.
Chega de mansinho como um carinho
afoito e fortuito: um verso de areia.
A minha verdade
é benta, nada andarilha, nada Anchieta:
é como ruas vazias; crua como Alfabeto
Celta; Sevilha - Amsterdã adormecida e nua.
A minha verdade
só existe nas línguas, em todos os lábios:
é labareda Amazônica que afoga crenças
de outras eras; ressuscita tempestades.
A minha verdade
não é cômoda, nem alvo escuso:
é certeira como Jorge, reluz como
Lótus no pântano; gira sóis como Van Gogh.
A minha verdade
namora a madrugada; despeja letras
sobre folhas virgens: fatia pão e Pound,
dispensa Salomão - saúda Sandburg!
A minha verdade
é tão incerta como humanos dentes de marfim;
tão pretensa que uma criança pode imitá-la.
Mas é a minha, nem boa nem má:
apenas brinquedo, pura ilusão.
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
é o Atlântico Amadeus Oceano:
uma saudade tão simples
que não alcanço ou espanto.
A minha verdade
é Flora pura, verbo Purim:
inteira Jazz; Moura
Paulo, Leonardo - princípio e fim.
A minha verdade
é feita de prima Vera: uma Itália
nortista, único Moai em Santiago;
esmeraldas na Serra da Mantiqueira.
A minha verdade
é tão infame quanto Rimbaud:
um espantalho, um alaúde,
“O Novo Arrabalde”: Vitória desnuda.
A minha verdade
é cigana como meus olhos e sonhos,
vã como Veneza; adora a vida em Milão:
é portuguesa como António, o Boto.
A minha verdade
é profana, sacra, rara, sacana:
é Adriana e Frida; passa por Bocage
e Camões, mas deságua seus mitos
na boca saúva da Cobra Norato.
A minha verdade
é longa e Londres, um sítio da City.
É vasta - mais que perfeita escuridão:
dela nada conheço; nela me refaço e fortaleço.
A minha verdade
foi parida em noite de Lua Cheia.
Tão urbana como minha vida em viés:
seleta e diversa como nuvens grávidas.
A minha verdade
é um pouco dali, outro tanto daqui.
Chega de mansinho como um carinho
afoito e fortuito: um verso de areia.
A minha verdade
é benta, nada andarilha, nada Anchieta:
é como ruas vazias; crua como Alfabeto
Celta; Sevilha - Amsterdã adormecida e nua.
A minha verdade
só existe nas línguas, em todos os lábios:
é labareda Amazônica que afoga crenças
de outras eras; ressuscita tempestades.
A minha verdade
não é cômoda, nem alvo escuso:
é certeira como Jorge, reluz como
Lótus no pântano; gira sóis como Van Gogh.
A minha verdade
namora a madrugada; despeja letras
sobre folhas virgens: fatia pão e Pound,
dispensa Salomão - saúda Sandburg!
A minha verdade
é tão incerta como humanos dentes de marfim;
tão pretensa que uma criança pode imitá-la.
Mas é a minha, nem boa nem má:
apenas brinquedo, pura ilusão.
*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"
quinta-feira, 3 de junho de 2010
'À NOITE'
Este silêncio, vasto e imponderável,
revive as coisas mortas
atraindo a luz em sua corte.
Tempo de sedar,
de transbordar as taças
com fluidos de lua -
e de brindar à noite.
(Fernando Campanella)
'TO THE NIGHT'
This vast imponderable silence
revives dead things
by casting its charms
upon the light.
Time to sedate,
to overflow the glasses
with moon's fluids -
and here's to the night.
(Fernando Campanella)
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Motivo

No coração
a palavra rumina
a indignidade do chumbo
que escurece as manhãs.
Com suas garras de luz
os versos que vingam
no deserto interior
anunciam o oásis
onde a linguagem sacia
a sede de sonhos.
Na manhã dourada
que se anuncia
entre um vento e outro
as estrelas mortas
ressucitarão na obscuridade da alma
reverberando um farol de mel
contra as varizes do desencanto
sepultando o latifúndio as noites.
Eis o poema
ponte dialética
entre a sintaxe do abismo
e a gramática dos silêncios.
Ronaldo Cagiano
in Suplemento Literário de Minas Gerais
a palavra rumina
a indignidade do chumbo
que escurece as manhãs.
Com suas garras de luz
os versos que vingam
no deserto interior
anunciam o oásis
onde a linguagem sacia
a sede de sonhos.
Na manhã dourada
que se anuncia
entre um vento e outro
as estrelas mortas
ressucitarão na obscuridade da alma
reverberando um farol de mel
contra as varizes do desencanto
sepultando o latifúndio as noites.
Eis o poema
ponte dialética
entre a sintaxe do abismo
e a gramática dos silêncios.
Ronaldo Cagiano
in Suplemento Literário de Minas Gerais
O tempo imóvel
O calor de seu canto vai parandoa tarde. Um pássaro canta.
Ao campo e à tarde a chama do verão
seu canto vai levando.
Fica parado dividindo a várzea
um marinheiro rio. A várzea morta,
o rio sem passar e o pássaro
que o sono do verão leva no canto,
e o tempo de lazer o tempo de jazer
antes da morte mais profunda. A sombra
do campo claro a sombra do silêncio
nasce do canto e do calor e dura
pára na terra pobre o mata-pasto
pára no campo o coração da tarde.
H. Dobal
In: O Tempo Conseqüente
domingo, 30 de maio de 2010
Uma Rosa

Abrem-se ainda tardes como lagos
pálidos sobre os tetos d'ouro,
leve tremendo na quieta luz
a ânsia derramada das árvores.
E não há mais memória ou pranto: só
um mover d'olhos no coração que acorda
do seu sono de pedra e te revê,
claro fulgor de vida, maravilha
revelada e secreta da vida
que vive . E o céu é céu.
Uma rosa se abriu em qualquer ponto
do mundo e inebria todo o ar
do ocaso que se expande sobre o mundo.
*Diego Valeri
in La poesia di Diego Valeri.
Prefazione di Piero Nardi.
Published 1968 by Laviana in Padova
* (Piove di Sacco, 25 gennaio 1887 – Roma, 27 novembre 1976)
pálidos sobre os tetos d'ouro,
leve tremendo na quieta luz
a ânsia derramada das árvores.
E não há mais memória ou pranto: só
um mover d'olhos no coração que acorda
do seu sono de pedra e te revê,
claro fulgor de vida, maravilha
revelada e secreta da vida
que vive . E o céu é céu.
Uma rosa se abriu em qualquer ponto
do mundo e inebria todo o ar
do ocaso que se expande sobre o mundo.
*Diego Valeri
in La poesia di Diego Valeri.
Prefazione di Piero Nardi.
Published 1968 by Laviana in Padova
* (Piove di Sacco, 25 gennaio 1887 – Roma, 27 novembre 1976)
sexta-feira, 28 de maio de 2010
SINFONIA DO VENTO
Oh, o delírio de, à noite, ouvir o vento uivando!Vem tão de longe, rodamoinhando,
ora num ímpeto, ora brando,
a uivar em vão...
Como enche o espaço a grande voz reboando!
... e como aumenta a solidão...
O vento vem numa agonia
semeando a treva... Mal chegou,
no céu da noite, que esplendia,
as estrelas, de luz alva e macia,
as estrelas, tão claras, apagou...
Átomo no ar abandonado,
o mundo está como suspenso
no turbilhão...
Ah! Pelo espaço imenso, imenso,
o mundo vai arrebatado
no torvelinho do tufão...
Que altas montanhas, que campinas vastas,
vieste transpondo, em terras varias,
ó vento rude e mau, gemendo, só?
E, assim gemendo, que é que arrastas
pelas estradas solitárias?
- nuvens de pó... nuvens de pó...
Lá fora, entre gemidos
agoniados,
em estranha e funérea procissão,
as arvores são vultos de forçados,
caminhados de braços estendidos,
caminhando na mesma direção...
Que imensa vela palpitante
de legendário barco, ó Vento,
andas buscando, a uivar assim,
para a impelir, veloz, violento,
para um país muito distante,
por mares únicos, sem fim?
E ora, em surdina, ora, violento,
o vento passa aflito,
em turbilhão...
Oh, como sinto grande o Espaço, ó vento,
como eu sinto o Infinito
quando o enches, assim, da tua imprecação!
Tasso da Silveira
In: Poemas
Alma Heróica dos Homens
(Tasso Azevedo da Silveira, Nasceu em Curitiba,PR, 1.895, feleceu no Rio de Janeiro, 1.968.Era filho do poeta simbolista Silveira Neto)
quinta-feira, 27 de maio de 2010
A LUZ

Não esta luz dos trópicos, ardente,
que o arvoredo orvalhado já pressente
erguendo os ramos para recebê-la.
Não a luz penetrante que a primor
na transparência dos cristais espelha
a mesma luz louvada do criador.
Não essa luz que o nosso olhar prefira,
ávido de celeste azul safira
ou de púrpura régia ou de tons de ouro.
Nem a luz que ilumina os olhos belos,
portadores de amor, formados de elos
torvelinhando em claro sorvedouro.
Mas outra luz de tempo mais profundo,
outra, de que se mostra a leve imagem,
move as almas em flor do velho mundo
para a contemplação desta paragem.
Henriqueta Lisboa
In: 'Melhores Poemas'
De 'Montanha Viva' (1945-1949)
que o arvoredo orvalhado já pressente
erguendo os ramos para recebê-la.
Não a luz penetrante que a primor
na transparência dos cristais espelha
a mesma luz louvada do criador.
Não essa luz que o nosso olhar prefira,
ávido de celeste azul safira
ou de púrpura régia ou de tons de ouro.
Nem a luz que ilumina os olhos belos,
portadores de amor, formados de elos
torvelinhando em claro sorvedouro.
Mas outra luz de tempo mais profundo,
outra, de que se mostra a leve imagem,
move as almas em flor do velho mundo
para a contemplação desta paragem.
Henriqueta Lisboa
In: 'Melhores Poemas'
De 'Montanha Viva' (1945-1949)
terça-feira, 25 de maio de 2010
A CERTAIN SLANT OF LIGHT
There's a certain slant of light,
On winter afternoons,
That oppresses, like the weight
Of cathedral tunes.
Heavenly hurt it gives us;
We can find no scar,
But internal difference
Where the meanings are.
None may teach it anything,
'Tis the seal, despair,-
An imperial affliction
Sent us of the air.
When it comes, the landscape listens,
Shadows hold their breath;
When it goes, 't is like the distance
On the look of death.
Emily Dickinson
Há uma certa inclinação da luz,
Nas tardes invernais,
Que oprime, como o peso
Do dobrar dos sinos nas catedrais.
Celestial ferida ela nos impõe,
Sem nenhuma cicatriz ofertar
Salvo a interna diferença
Onde os sentidos vêm a se encontrar.
Ninguém nada pode lhe ensinar,
Ela é o selo, o desespero,
Uma aflição imperiosa
Enviada a nós do ar.
Quando vem, a paisagem se põe a escutar,
As sombras detêm o fôlego;
Quando vai, é como a distância
do olhar da morte a passar.
(There's a certain slant of light, poema de Emily Dickinson, traduzido por Fernando Campanella)
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Fernando Campanella
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Outono

Uma lâmina de ar
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no outono. E a canção
que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É Outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados elétricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É Outono.
A pouco e pouco despem-se as palavras.
Joaquim Pessoa,
In 125 Poemas,antologia poética.
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no outono. E a canção
que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É Outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados elétricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É Outono.
A pouco e pouco despem-se as palavras.
Joaquim Pessoa,
In 125 Poemas,antologia poética.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
terça-feira, 18 de maio de 2010
ESTA É A GRAÇA

Esta é a graça dos pássaros:
cantam enquanto esperam.
E nem ao menos sabem o que esperam.
Será porventura a morte, o amor?
Talvez a noite com nova estrela,
a pátina de ouro do tempo,
alguma cousa de precário
assim como para o soldado a paz?
Com grave mistério de reposteiros
um augúrio dimana, incessante,
do marulho das fontes sob pedras,
do bulício das samambaias no horto.
No ladrido dos cães à vista da lua,
acima do desejo e da fome,
pervaga um longo desespero
em busca de tangente inefável.
O mesmo silencio da madrugada
prenuncia, sem duvida, um evento
que já não é o grito da aurora
ao macular de sangue a túnica.
E minha voz perdura neste concerto
com a vibração e o temor de um violino
pronto a estalar em holocausto
as próprias cordas demasiado tensas.
Henriqueta Lisboa
In: 'A Flor da Morte' (1945-1949)
cantam enquanto esperam.
E nem ao menos sabem o que esperam.
Será porventura a morte, o amor?
Talvez a noite com nova estrela,
a pátina de ouro do tempo,
alguma cousa de precário
assim como para o soldado a paz?
Com grave mistério de reposteiros
um augúrio dimana, incessante,
do marulho das fontes sob pedras,
do bulício das samambaias no horto.
No ladrido dos cães à vista da lua,
acima do desejo e da fome,
pervaga um longo desespero
em busca de tangente inefável.
O mesmo silencio da madrugada
prenuncia, sem duvida, um evento
que já não é o grito da aurora
ao macular de sangue a túnica.
E minha voz perdura neste concerto
com a vibração e o temor de um violino
pronto a estalar em holocausto
as próprias cordas demasiado tensas.
Henriqueta Lisboa
In: 'A Flor da Morte' (1945-1949)
sábado, 15 de maio de 2010
Tédio

Tudo se acaba aos nossos olhos perto
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.
E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.
Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.
E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...
Saturnino de Meireles
(Rio de Janeiro- 1878-1906)
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.
E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.
Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.
E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...
Saturnino de Meireles
(Rio de Janeiro- 1878-1906)
Estrela Polar

Crepúsculo. No mar a vista ao longe abraça
Dos gelos a extensão ilimitada do norte.
Repousa a natureza amortalhada em baça
Roupagem modelada em nítido recorte.
Flocos de neve no ar lentos se agitam. Forte
Bruma sobe, se espraia, alonga e se adelgaça
E ondula e mais se estende e célere perpassa
No crebro turbilhão fantástico da morte.
Noite. A estrela polar surge no azul, trazendo
Claras irradiações para os abismos tredos,
De montes espectrais relevos esbatendo.
E de tênue neblina em rendas aureolada,
Ergue-se no alto, roça a crista dos penedos
E aclara a vastidão, de luz astral nimbada.
Teotônio Freire
(Manuel Teotônio Freire Filho)
(Acari, RN, 1863 —Recife,PE, 24 de março de 1917)
Escritor brasileiro naturalista da escola recifense, fundador do Silogeu de Pernambuco.
Dos gelos a extensão ilimitada do norte.
Repousa a natureza amortalhada em baça
Roupagem modelada em nítido recorte.
Flocos de neve no ar lentos se agitam. Forte
Bruma sobe, se espraia, alonga e se adelgaça
E ondula e mais se estende e célere perpassa
No crebro turbilhão fantástico da morte.
Noite. A estrela polar surge no azul, trazendo
Claras irradiações para os abismos tredos,
De montes espectrais relevos esbatendo.
E de tênue neblina em rendas aureolada,
Ergue-se no alto, roça a crista dos penedos
E aclara a vastidão, de luz astral nimbada.
Teotônio Freire
(Manuel Teotônio Freire Filho)
(Acari, RN, 1863 —Recife,PE, 24 de março de 1917)
Escritor brasileiro naturalista da escola recifense, fundador do Silogeu de Pernambuco.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Improviso
Se este silêncio da hora infindo se tangência
destas águas finórias, reterá renúncias,
destes viços soçobram honrarias das ondas
do lascivo marulho há esvaído desta praia.
Do silêncio, minha hábil voz vê-lhe fremir
se do pétreo do tempo hoste emigrado pássaro
deste fugido fátuo habitante oceânico
da sôfrega vertigem, habitat liberto.
Esta efígie do ecoar há de espraiar-se do céu
ressoar o murmulhar havido marinheiros
destas nuvens, folhagens, hábito não pesa.
Desta marmórea estátua valor heteróclito
ébrio clamor do voo vicários dos sombrios
velar marinhos hábitos destes terrestres.
Eric Ponty
(Do blog do autor)
quarta-feira, 12 de maio de 2010
"A TAÇA"

Acaso haverá
ou destino
nessa taça com a qual brindamos
todas as formas de desatino?
O que nela se esvazia
somos nós vazando
matéria e energia?
Ou tudo é passagem secreta
a dimensões inéditas
onde nos dispersamos?
É grave ação da gravidade,
submersa gramática de pecados
ou música incandescente,
o som das sílabas
espalhadas em cacos pelo chão?
José Antônio Cavalcanti
nessa taça com a qual brindamos
todas as formas de desatino?
O que nela se esvazia
somos nós vazando
matéria e energia?
Ou tudo é passagem secreta
a dimensões inéditas
onde nos dispersamos?
É grave ação da gravidade,
submersa gramática de pecados
ou música incandescente,
o som das sílabas
espalhadas em cacos pelo chão?
José Antônio Cavalcanti
Poeta, contista e professor. Mestrado em Ciência da Literatura sobre Cacaso (poesia, urbanismo e arquitetura). Doutorando: pesquisa sobre a narrativa de Hilda Hilst. Inédito; apenas algumas publicações em revistas e jornais alternativos de São Paulo, Minas, Pernambuco, Rio de Janeiro e dos Estados Unidos.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
O VENTO
domingo, 9 de maio de 2010
O CORAÇÃO E O MAR

A Pepe Rumeu de Armas
Senhor, já estamos sós meu coração e o mar.
Antonio Machado
1. Escreve o mar
Até a folha em que escrevo chega o mar
com seu pulsar cheio de naufrágios
como meu coração.
E na folha, da mesma forma que na areia,
escreve seu segredo trêmulo
e sua canção.
Banha de nácar e cristal meu sonho
diurno e, se calo, escreve em meu silêncio
seu coração.
(Como em outro planeta canta um pássaro.
Quase humana, respira a manhã
de jasmim e limão.
Talvez sonhada ou recordada voa
como uma ferida azul a mariposa
com sua ilusão).
Em uma onda vem todo o mar
e ao pé deste poema se desfaz
como uma rosa que cantara.
Onde é mais só o mar
e mais largo e mais fundo e terno e feroz
é no meu coração.
Eduardo Carranza
'TEMPO DE ESQUECER'

Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;
Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;
Sabes que sou como o ar, destinado
ao vôo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:
Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.
*Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
*Nasceu em Apiay, nos Lhanos Orientais da Colômbia, a 23 de Julho de 1913.
Morreu no dia 13 de fevereiro de 1985 em Bogotá.-Colômbia.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
A CANÇÃO DO MAR

À sombra dos imensos coqueirais,
Ouço as queixas infindas e os tormentos
Do mar que entre gemidos espectrais,
Confessa à solidão seus sofrimentos!
Gosto de ouvir os mares turbulentos,
Que nas suas canções sentimentais,
Tem a monotonia dos lamentos
Que os sinos soltam pelas catedrais. . .
Escuto ao longe entre profundas magoas,
Os soluços monótonos das águas
Que vão aos poucos para o céu crescendo!
Num cenário de dor e convulsão,
Enquanto as ondas preguiçosas vão
Pela areia da praia se estendendo. . .
Jansen Filho
In: Obras Completas
Ouço as queixas infindas e os tormentos
Do mar que entre gemidos espectrais,
Confessa à solidão seus sofrimentos!
Gosto de ouvir os mares turbulentos,
Que nas suas canções sentimentais,
Tem a monotonia dos lamentos
Que os sinos soltam pelas catedrais. . .
Escuto ao longe entre profundas magoas,
Os soluços monótonos das águas
Que vão aos poucos para o céu crescendo!
Num cenário de dor e convulsão,
Enquanto as ondas preguiçosas vão
Pela areia da praia se estendendo. . .
Jansen Filho
In: Obras Completas
terça-feira, 4 de maio de 2010
" Aeroporto"

Tempo gigantesco é um dia,
para quem perdeu a viagem,
o endereço para onde iria,
seu bilhete, sua bagagem,
para sua alma não vadia,
tempo gigantesco é um dia,
para quem sonhava distância
da própria história e não consegue,
sem asco, lembrar-se da infância,
mesmo com Deus por companhia,
tempo gigantesco é um dia.
Alberto da Cunha Melo
do livro 'Meditação Sob os Lajedos'
para quem perdeu a viagem,
o endereço para onde iria,
seu bilhete, sua bagagem,
para sua alma não vadia,
tempo gigantesco é um dia,
para quem sonhava distância
da própria história e não consegue,
sem asco, lembrar-se da infância,
mesmo com Deus por companhia,
tempo gigantesco é um dia.
Alberto da Cunha Melo
do livro 'Meditação Sob os Lajedos'
sábado, 1 de maio de 2010
'Serenidade'

(...)
Eu, que nasci para um destino manso
de coisas suaves, silenciosas, imprecisas,
e que fico tão bem neste obscuro remanso
onde apenas se infiltra um perfume de brisas,
imagino a tremer: que seria de mim
se essa alegria
esplêndida, algum dia,
houvesse surpreendido a minha inexperiência!...
A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.
Minha alegria deveria ser assim:
Pequenina doçura delicada,
gota de orvalho em pétala de flor,
sempre serena lâmpada velada
que me diluísse as brumas do interior.
Sempre serena lâmpada velada,
símbolo do meu sonho predileto...
Se amanhã tu penderes do meu teto
aureolando minha última ilusão,
- para que eu viva em teu amor e em tua paz,
deixa um rastro de sombra pelo chão...
É nesta sombra que hei de me esconder
quando sentir a falta que me faz
a outra alegria que não pude ter!
Henriqueta Lisboa
in "Velário", 'excerto' do poema 'Serenidade'
Eu, que nasci para um destino manso
de coisas suaves, silenciosas, imprecisas,
e que fico tão bem neste obscuro remanso
onde apenas se infiltra um perfume de brisas,
imagino a tremer: que seria de mim
se essa alegria
esplêndida, algum dia,
houvesse surpreendido a minha inexperiência!...
A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.
Minha alegria deveria ser assim:
Pequenina doçura delicada,
gota de orvalho em pétala de flor,
sempre serena lâmpada velada
que me diluísse as brumas do interior.
Sempre serena lâmpada velada,
símbolo do meu sonho predileto...
Se amanhã tu penderes do meu teto
aureolando minha última ilusão,
- para que eu viva em teu amor e em tua paz,
deixa um rastro de sombra pelo chão...
É nesta sombra que hei de me esconder
quando sentir a falta que me faz
a outra alegria que não pude ter!
Henriqueta Lisboa
in "Velário", 'excerto' do poema 'Serenidade'
When you are old

When you are old and gray and full of sleep
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how love fled
And paced upon the mountains overhead,
And hid his face amid a crowd of stars.
William Buttler Yeats
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how love fled
And paced upon the mountains overhead,
And hid his face amid a crowd of stars.
William Buttler Yeats
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