A alma é um cenário.
Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca,
inundada de alegria.
Por vezes ela é como um pôr do sol...
triste e nostálgico.

-Rubem Alves-

Seja bem-vindo. Hoje é
Deixe seu comentário, será muito bem-vindo, os poetas agradecem.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Miudências


Ser feliz
é ter o coração livre
e a consciência tranquila;
é receber a brisa
e falar de alegria!
É vestir
o agasalho da saúde
a camisa do sonho
e os sapatos do amor!
É cantarolar no silêncio
brindar a paz
e então
sair de si
estender seu coração
e dizer:
estou pronto
o sofrimento é canto!


Luiz José Maia
In’ As Quatro Faces do Homem’

quarta-feira, 16 de junho de 2010

As Belas, As Perfeitas Máscaras


As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...

Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...

Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!


Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro

terça-feira, 15 de junho de 2010

SONETO DE PAPEL


"Por escrito sou mais do que respiro”
Antônimo de mim, há sinonímias
Em eu querer já não querer mais nada,
Senão a minha ausência de mãos postas.

Por escrito! E a escrever que ninguém pode!
Contudo, que descanso em que pudesse!
A única viagem que é só minha
Mora na asa infinita da palavra!

Hã muitas vozes neste vôo e entanto
O meu suspeito coração consegue
Amealhar fortunas de silêncio!

Natureza concreta que rabisco
De almas, à custa de buscar-me um outro
Nos dicionários que anoiteço em mimm...

Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

PENUMBRA


Minha cabeça afaga o meu cansaço
Como uma luz no coração da sombra;
Corpo da sombra, coração da terra,
Rima do verso branco que sou eu.

Qual uma rosa que fizesse falta
Às ruas murchas de não serem rios,
Embalo a sombra como um berço estéril,
Antecipando o último berço imóvel.

Felizmente ainda venta no destino.
Ainda o perfume comparece às flores.
Sim! Afinal, a vida é uma verdade

(Por que falei tão alto, se acredito?)!
Meu cansaço fecunda a minha sombra –
A morte amanheceu, quase nasci!


Homero Frei
In “Sonetos Brancos” (1998)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

TÃO CÚMPLICES AS PALAVRAS


Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.


GRAÇA PIRES
De O silêncio: lugar habitado, 2009

terça-feira, 8 de junho de 2010

XXXVII


Aguarda, resta uma vela, ou duas,
e este vento que as sopra nos basta.
Segura-as ao largo da noite,
e me deita e cerra meus olhos.

Oh velador de meus sonhos,
zela pelas minhas imagens,
tuas águas,
trêmulas ondas que passam.

(Fernando Campanella)
Poema da série “O Eu confesso”
-Inédito-

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O estéril


Dentro da minha vida vou guardando o meu sonho
em chuviscos sutis de amor e de veneno.

O abismo me fecunda e se desfaz o encanto,
com a Dor permaneço dolorido pensando.

(Era um canto dormido
em seda triste e branda,
adormeceu no estéril desencontro dos ventos
e a vida, estilhaçada como árvore deserta,
ficou.)

Oh! como doem, doem essas dores humildes.

Pablo Neruda
In Cadernos de Temuco

'Encontrado' no blog da amiga Dione,'Gotas de poesias e outras Essências!Aqui.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

XXXVI


Espelho do outono
que me convida a esquecer,
um desabrir , um encerrar
sem no entanto morrer.
Esse tempo de fora
- quando a sombra estremece
e em minha cama se deita -
eu espreito por dentro.

(Faça-se a luz,
invento da alma,
que irisa meus olhos
e me reflui.)


(Fernando Campanella)
Poema da série “O Eu confesso”
-Inédito-

A voz de meu rio


Da serra das Gerais ouço a voz de meu rio.


Que me quer o seu eco, se a memória
guarda de tudo apenas esta fimbria
entre o real e o irreal? Tudo se apaga,
terra céu, verde e azul, tudo se apaga,
e há um fluir mais triste que se escuta
em mim, mas já sem mim.


Emílio Moura
In: Intinerário Poético
Lira Mineira

'VERDADE DE BRINQUEDO'


A minha verdade
é o Atlântico Amadeus Oceano:
uma saudade tão simples
que não alcanço ou espanto.

A minha verdade
é Flora pura, verbo Purim:
inteira Jazz; Moura
Paulo, Leonardo - princípio e fim.

A minha verdade
é feita de prima Vera: uma Itália
nortista, único Moai em Santiago;
esmeraldas na Serra da Mantiqueira.

A minha verdade
é tão infame quanto Rimbaud:
um espantalho, um alaúde,
“O Novo Arrabalde”: Vitória desnuda.

A minha verdade
é cigana como meus olhos e sonhos,
vã como Veneza; adora a vida em Milão:
é portuguesa como António, o Boto.

A minha verdade
é profana, sacra, rara, sacana:
é Adriana e Frida; passa por Bocage
e Camões, mas deságua seus mitos
na boca saúva da Cobra Norato.

A minha verdade
é longa e Londres, um sítio da City.
É vasta - mais que perfeita escuridão:
dela nada conheço; nela me refaço e fortaleço.

A minha verdade
foi parida em noite de Lua Cheia.
Tão urbana como minha vida em viés:
seleta e diversa como nuvens grávidas.

A minha verdade
é um pouco dali, outro tanto daqui.
Chega de mansinho como um carinho
afoito e fortuito: um verso de areia.

A minha verdade
é benta, nada andarilha, nada Anchieta:
é como ruas vazias; crua como Alfabeto
Celta; Sevilha - Amsterdã adormecida e nua.

A minha verdade
só existe nas línguas, em todos os lábios:
é labareda Amazônica que afoga crenças
de outras eras; ressuscita tempestades.

A minha verdade
não é cômoda, nem alvo escuso:
é certeira como Jorge, reluz como
Lótus no pântano; gira sóis como Van Gogh.

A minha verdade
namora a madrugada; despeja letras
sobre folhas virgens: fatia pão e Pound,
dispensa Salomão - saúda Sandburg!

A minha verdade
é tão incerta como humanos dentes de marfim;
tão pretensa que uma criança pode imitá-la.
Mas é a minha, nem boa nem má:
apenas brinquedo, pura ilusão.

*Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

quinta-feira, 3 de junho de 2010

'À NOITE'

(Foto by Fernando Campanella)

Este silêncio, vasto e imponderável,
revive as coisas mortas
atraindo a luz em sua corte.
Tempo de sedar,
de transbordar as taças
com fluidos de lua -
e de brindar à noite.

(Fernando Campanella)


'TO THE NIGHT'

This vast imponderable silence
revives dead things
by casting its charms
upon the light.
Time to sedate,
to overflow the glasses
with moon's fluids -
and here's to the night.

(Fernando Campanella)

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Motivo


No coração
a palavra rumina
a indignidade do chumbo
que escurece as manhãs.

Com suas garras de luz
os versos que vingam
no deserto interior
anunciam o oásis
onde a linguagem sacia
a sede de sonhos.

Na manhã dourada
que se anuncia
entre um vento e outro

as estrelas mortas
ressucitarão na obscuridade da alma
reverberando um farol de mel
contra as varizes do desencanto
sepultando o latifúndio as noites.

Eis o poema

ponte dialética

entre a sintaxe do abismo
e a gramática dos silêncios.


Ronaldo Cagiano
in Suplemento Literário de Minas Gerais


O tempo imóvel

O calor de seu canto vai parando
a tarde. Um pássaro canta.
Ao campo e à tarde a chama do verão
seu canto vai levando.

Fica parado dividindo a várzea
um marinheiro rio. A várzea morta,
o rio sem passar e o pássaro
que o sono do verão leva no canto,

e o tempo de lazer o tempo de jazer
antes da morte mais profunda. A sombra
do campo claro a sombra do silêncio

nasce do canto e do calor e dura
pára na terra pobre o mata-pasto
pára no campo o coração da tarde.


H. Dobal
In: O Tempo Conseqüente

domingo, 30 de maio de 2010

Uma Rosa


Abrem-se ainda tardes como lagos
pálidos sobre os tetos d'ouro,
leve tremendo na quieta luz
a ânsia derramada das árvores.
E não há mais memória ou pranto: só
um mover d'olhos no coração que acorda
do seu sono de pedra e te revê,
claro fulgor de vida, maravilha
revelada e secreta da vida
que vive . E o céu é céu.
Uma rosa se abriu em qualquer ponto
do mundo e inebria todo o ar
do ocaso que se expande sobre o mundo.


*Diego Valeri
in La poesia di Diego Valeri.
Prefazione di Piero Nardi.
Published 1968 by Laviana in Padova

* (Piove di Sacco, 25 gennaio 1887 – Roma, 27 novembre 1976)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

SINFONIA DO VENTO

Oh, o delírio de, à noite, ouvir o vento uivando!
Vem tão de longe, rodamoinhando,
ora num ímpeto, ora brando,
a uivar em vão...
Como enche o espaço a grande voz reboando!
... e como aumenta a solidão...


O vento vem numa agonia
semeando a treva... Mal chegou,
no céu da noite, que esplendia,
as estrelas, de luz alva e macia,
as estrelas, tão claras, apagou...


Átomo no ar abandonado,
o mundo está como suspenso
no turbilhão...
Ah! Pelo espaço imenso, imenso,
o mundo vai arrebatado
no torvelinho do tufão...


Que altas montanhas, que campinas vastas,
vieste transpondo, em terras varias,
ó vento rude e mau, gemendo, só?
E, assim gemendo, que é que arrastas
pelas estradas solitárias?
- nuvens de pó... nuvens de pó...


Lá fora, entre gemidos
agoniados,
em estranha e funérea procissão,
as arvores são vultos de forçados,
caminhados de braços estendidos,
caminhando na mesma direção...


Que imensa vela palpitante
de legendário barco, ó Vento,
andas buscando, a uivar assim,
para a impelir, veloz, violento,
para um país muito distante,
por mares únicos, sem fim?



E ora, em surdina, ora, violento,
o vento passa aflito,
em turbilhão...


Oh, como sinto grande o Espaço, ó vento,
como eu sinto o Infinito
quando o enches, assim, da tua imprecação!



Tasso da Silveira
In: Poemas
Alma Heróica dos Homens


(Tasso Azevedo da Silveira, Nasceu em Curitiba,PR, 1.895, feleceu no Rio de Janeiro, 1.968.Era filho do poeta simbolista Silveira Neto)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A LUZ


Não esta luz dos trópicos, ardente,
que o arvoredo orvalhado já pressente
erguendo os ramos para recebê-la.


Não a luz penetrante que a primor
na transparência dos cristais espelha
a mesma luz louvada do criador.


Não essa luz que o nosso olhar prefira,
ávido de celeste azul safira
ou de púrpura régia ou de tons de ouro.


Nem a luz que ilumina os olhos belos,
portadores de amor, formados de elos
torvelinhando em claro sorvedouro.


Mas outra luz de tempo mais profundo,
outra, de que se mostra a leve imagem,
move as almas em flor do velho mundo
para a contemplação desta paragem.


Henriqueta Lisboa
In: 'Melhores Poemas'
De 'Montanha Viva' (1945-1949)

terça-feira, 25 de maio de 2010

A CERTAIN SLANT OF LIGHT

(Foto by Fernando Campanella)

There's a certain slant of light,
On winter afternoons,
That oppresses, like the weight
Of cathedral tunes.

Heavenly hurt it gives us;
We can find no scar,
But internal difference
Where the meanings are.

None may teach it anything,
'Tis the seal, despair,-
An imperial affliction
Sent us of the air.

When it comes, the landscape listens,
Shadows hold their breath;
When it goes, 't is like the distance
On the look of death.

Emily Dickinson


Há uma certa inclinação da luz,
Nas tardes invernais,
Que oprime, como o peso
Do dobrar dos sinos nas catedrais.

Celestial ferida ela nos impõe,
Sem nenhuma cicatriz ofertar
Salvo a interna diferença
Onde os sentidos vêm a se encontrar.

Ninguém nada pode lhe ensinar,
Ela é o selo, o desespero,
Uma aflição imperiosa
Enviada a nós do ar.

Quando vem, a paisagem se põe a escutar,
As sombras detêm o fôlego;
Quando vai, é como a distância
do olhar da morte a passar.

(There's a certain slant of light, poema de Emily Dickinson, traduzido por Fernando Campanella)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Outono


Uma lâmina de ar
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no outono. E a canção
que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É Outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados elétricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É Outono.
A pouco e pouco despem-se as palavras.


Joaquim Pessoa,
In 125 Poemas,antologia poética.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

EM SEDA

(Foto by Fernando Campanella)

Por esta luz que me alumia
e me inventa em seda a estrada

entre a arte, alívio da memória,
e o mais trêmulo aceno do nada

- se com o mundo me acertei/me dasavim
já nem sei -

sou o que perdidamente
tomou rumo de mim.


Fernando Campanella, 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

ESTA É A GRAÇA


Esta é a graça dos pássaros:
cantam enquanto esperam.
E nem ao menos sabem o que esperam.


Será porventura a morte, o amor?
Talvez a noite com nova estrela,
a pátina de ouro do tempo,
alguma cousa de precário
assim como para o soldado a paz?


Com grave mistério de reposteiros
um augúrio dimana, incessante,
do marulho das fontes sob pedras,
do bulício das samambaias no horto.


No ladrido dos cães à vista da lua,
acima do desejo e da fome,
pervaga um longo desespero
em busca de tangente inefável.


O mesmo silencio da madrugada
prenuncia, sem duvida, um evento
que já não é o grito da aurora
ao macular de sangue a túnica.


E minha voz perdura neste concerto
com a vibração e o temor de um violino
pronto a estalar em holocausto
as próprias cordas demasiado tensas.



Henriqueta Lisboa
In: 'A Flor da Morte' (1945-1949)

sábado, 15 de maio de 2010

Tédio


Tudo se acaba aos nossos olhos perto
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.

E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.

Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.

E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...


Saturnino de Meireles
(Rio de Janeiro- 1878-1906)

Estrela Polar


Crepúsculo. No mar a vista ao longe abraça
Dos gelos a extensão ilimitada do norte.
Repousa a natureza amortalhada em baça
Roupagem modelada em nítido recorte.

Flocos de neve no ar lentos se agitam. Forte
Bruma sobe, se espraia, alonga e se adelgaça
E ondula e mais se estende e célere perpassa
No crebro turbilhão fantástico da morte.

Noite. A estrela polar surge no azul, trazendo
Claras irradiações para os abismos tredos,
De montes espectrais relevos esbatendo.

E de tênue neblina em rendas aureolada,
Ergue-se no alto, roça a crista dos penedos
E aclara a vastidão, de luz astral nimbada.


Teotônio Freire
(Manuel Teotônio Freire Filho)
(Acari, RN, 1863 —Recife,PE, 24 de março de 1917)
Escritor brasileiro naturalista da escola recifense, fundador do Silogeu de Pernambuco.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Improviso

P/Paul Valéry

Se este silêncio da hora infindo se tangência
destas águas finórias, reterá renúncias,
destes viços soçobram honrarias das ondas
do lascivo marulho há esvaído desta praia.

Do silêncio, minha hábil voz vê-lhe fremir
se do pétreo do tempo hoste emigrado pássaro
deste fugido fátuo habitante oceânico
da sôfrega vertigem, habitat liberto.

Esta efígie do ecoar há de espraiar-se do céu
ressoar o murmulhar havido marinheiros
destas nuvens, folhagens, hábito não pesa.

Desta marmórea estátua valor heteróclito
ébrio clamor do voo vicários dos sombrios
velar marinhos hábitos destes terrestres.

Eric Ponty
(Do blog do autor)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"A TAÇA"


Acaso haverá
ou destino
nessa taça com a qual brindamos
todas as formas de desatino?

O que nela se esvazia
somos nós vazando
matéria e energia?

Ou tudo é passagem secreta
a dimensões inéditas
onde nos dispersamos?

É grave ação da gravidade,
submersa gramática de pecados
ou música incandescente,
o som das sílabas
espalhadas em cacos pelo chão?

José Antônio Cavalcanti
Poeta, contista e professor. Mestrado em Ciência da Literatura sobre Cacaso (poesia, urbanismo e arquitetura). Doutorando: pesquisa sobre a narrativa de Hilda Hilst. Inédito; apenas algumas publicações em revistas e jornais alternativos de São Paulo, Minas, Pernambuco, Rio de Janeiro e dos Estados Unidos.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O VENTO


Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?


Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).


Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.


Dora Ferreira da Silva
In: Poesia Reunida
Jardins (esconderijos) 1979

domingo, 9 de maio de 2010


(excerto)
"Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves."

(Eugénio de Andrade)

O CORAÇÃO E O MAR



A Pepe Rumeu de Armas

Senhor, já estamos sós meu coração e o mar.
Antonio Machado



1. Escreve o mar

Até a folha em que escrevo chega o mar
com seu pulsar cheio de naufrágios
como meu coração.

E na folha, da mesma forma que na areia,
escreve seu segredo trêmulo
e sua canção.

Banha de nácar e cristal meu sonho
diurno e, se calo, escreve em meu silêncio
seu coração.

(Como em outro planeta canta um pássaro.
Quase humana, respira a manhã
de jasmim e limão.

Talvez sonhada ou recordada voa
como uma ferida azul a mariposa
com sua ilusão).

Em uma onda vem todo o mar
e ao pé deste poema se desfaz
como uma rosa que cantara.

Onde é mais só o mar
e mais largo e mais fundo e terno e feroz
é no meu coração.

Eduardo Carranza

'TEMPO DE ESQUECER'


Sabes que sou como um rio abandonado
no sedento leito do esquecimento,
e a tua vã lembrança tão unido
como a água ao seu céu refletido;


Sabes que sou como o tempo desfolhado
na mão final do que foi perdido
e, como um horizonte proibido,
me envolves o sonho vigilante;


Sabes que sou como o ar, destinado
ao vôo de tuas aves, som ferido
surdidor rouxinol e enamorado:


Sobre este coração crepuscular
e por turvas marés assaltado,
tornas-te nuvem voando para o esquecimento.


*Eduardo Carranza
In: Antologia Poética
*Nasceu em Apiay, nos Lhanos Orientais da Colômbia, a 23 de Julho de 1913.
Morreu no dia 13 de fevereiro de 1985 em Bogotá.-Colômbia.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A CANÇÃO DO MAR


À sombra dos imensos coqueirais,
Ouço as queixas infindas e os tormentos
Do mar que entre gemidos espectrais,
Confessa à solidão seus sofrimentos!


Gosto de ouvir os mares turbulentos,
Que nas suas canções sentimentais,
Tem a monotonia dos lamentos
Que os sinos soltam pelas catedrais. . .


Escuto ao longe entre profundas magoas,
Os soluços monótonos das águas
Que vão aos poucos para o céu crescendo!


Num cenário de dor e convulsão,
Enquanto as ondas preguiçosas vão
Pela areia da praia se estendendo. . .



Jansen Filho
In: Obras Completas

terça-feira, 4 de maio de 2010

" Aeroporto"


Tempo gigantesco é um dia,
para quem perdeu a viagem,
o endereço para onde iria,
seu bilhete, sua bagagem,

para sua alma não vadia,
tempo gigantesco é um dia,

para quem sonhava distância
da própria história e não consegue,
sem asco, lembrar-se da infância,

mesmo com Deus por companhia,
tempo gigantesco é um dia.


Alberto da Cunha Melo
do livro 'Meditação Sob os Lajedos'

sábado, 1 de maio de 2010

'Serenidade'


(...)

Eu, que nasci para um destino manso
de coisas suaves, silenciosas, imprecisas,
e que fico tão bem neste obscuro remanso
onde apenas se infiltra um perfume de brisas,
imagino a tremer: que seria de mim
se essa alegria
esplêndida, algum dia,
houvesse surpreendido a minha inexperiência!...

A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.


Minha alegria deveria ser assim:
Pequenina doçura delicada,
gota de orvalho em pétala de flor,
sempre serena lâmpada velada
que me diluísse as brumas do interior.


Sempre serena lâmpada velada,
símbolo do meu sonho predileto...
Se amanhã tu penderes do meu teto
aureolando minha última ilusão,
- para que eu viva em teu amor e em tua paz,
deixa um rastro de sombra pelo chão...
É nesta sombra que hei de me esconder
quando sentir a falta que me faz
a outra alegria que não pude ter!


Henriqueta Lisboa
in "Velário", 'excerto' do poema 'Serenidade'

When you are old


When you are old and gray and full of sleep
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how love fled
And paced upon the mountains overhead,
And hid his face amid a crowd of stars.

William Buttler Yeats

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A flower to my friend

(Foto by Fernando Campanella)

A flower to my friend -
what other gift
could there be
other than
this ephemeral eternity?

Fernando Campanella
(28/04/2010)
From my heart, Dear Mada, this gift that I hope can express all my friendship to you. HAPPY BIRTHDAY, MY DEAR, DEAR, SISTER IN SOUL.

Muito obrigada...


Agradeço a amiga Regina Helena a lembrança pela passagem do dia de meu nascimento.
Fiquei surpresa e muito sensibilizada pelo lindo trabalho que ela me dedicou.
Não tenho palavras para agradecer, somente pedir a Deus que esteja sempre com ela, e compartilhar com os amigos as coisas mais belas de minha vida, que tão bem colocou nesse carinhoso livro.
Muito obrigada, obrigada cunhada de coração!
Maria Madalena
28/04/2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

RESQUÍCIO



Às vezes
A dor de chuvas passadas
Cai em mim fina,
Reelaborada,
A ponto de não ser eu
Assim mais que bolhas
Na espuma da tarde
Molhada.

Fernando Campanella

sábado, 24 de abril de 2010

O HOMEM DA NEVE


É preciso uma mente de inverno
Para olhar a geada e os ramos
Dos pinheiros cobertos pela nevada

E há muito tempo fazer frio
Para observar os zimbros arrepiados de gelo,
Os abetos ásperos no brilho distante

Do sol de janeiro; e não pensar
Em qualquer miséria no som do vento,
No som de umas poucas folhas

Que é o som da terra
Cheia do mesmo vento
Que sopra no mesmo lugar vazio

Para alguém que escuta, escuta na neve,
E, ausente, observa
Nada que não está lá e o nada que é.


Wallace Stevens
Tradução de Paulo Venâncio Filho


The snow man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place
For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

Wallace Stevens

sexta-feira, 23 de abril de 2010

À HORA CINZENTA

Desce um longo poente de elegia
Sobre as mansas paisagens resignadas;
Uma humaníssima melancolia
Embalsama as distancias desoladas. . .


Longe, num sino antigo, a Ave-Maria
Abençoa a alma ingênua das estradas;
Andam surdinas de anjos e de fadas,
Na penumbra nostálgica, macia. . .


Espiritualidades comoventes
Sobem da terra triste, em reticência
Pela tarde sonâmbula, imprecisa. . .


Os sentidos se esfumam, a alma é essência
E entre fugas de sombras transcendentes,
O Pensamento se volatiliza. . .



Raul de Leoni
In: Luz Mediterrânea

quinta-feira, 22 de abril de 2010

somewhere i have never travelled... (LVII)

(E. E. Cummings "Mt. Chocorua."Oil on canvas. Ca. 1938.)

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, misteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands

e.e. cummings

(October 14, 1894 – September 3, 1962), popularly known as E. E. Cummings, with the abbreviated form of his name often written by others in lowercase letters as ee cummings (in the style of some of his poems), was an American poet, painter, essayist, author, and playwright. His body of work encompasses approximately 2,900 poems, two autobiographical novels, four plays and several essays, as well as numerous drawings and paintings.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

CUIDADO, Ó NUVENS!


Ó nuvens brancas! que passais voando
como crinas de aligeros corcéis,
ides alegres sem saberdes quando
ou mesmo se algum dia voltareis.


Tal como ides assim, claras, brilhando,
soltei ao vento os sonhos meus fieis.
Do alto, porem, caíram se esfolhando
como em prantos de chuva esfolhareis.


Cuidado! ó nuvens! esses ventos leves
logo serão revoltas ventanias,
mãos crispadas em feias contorções.


Em mãos iguais meus sonhos foram breves,
desfizeram-se as minhas alegrias
e o perfume das minhas ilusões.



Alfredo Cumplido de Sant' Anna
In: Poemas e Legendas

segunda-feira, 19 de abril de 2010

VOZES


Grita o vento nos muros da noite
como reflexos de espelhos partidos.


Há um ruído de coisas magoadas
lembrando madrugadas enfermas.


O vento e o ruído acelerando cadencias
são como garças
em tardes eróticas.


Só as luzes se repetem.
Só os sons se beijam
em baladas insanas.


Há pegadas escondidas
entre alamedas tranqüilas
enquanto
o tédio, a busca e a lassidão
ainda se aninham.



Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

sexta-feira, 16 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

quarta-feira, 14 de abril de 2010

XX

(Rudolf Nureyev)


Estou sentado sobre a minha mala
No velho bergantim desmantelado...
Quanto tempo, meu Deus, malbaratado
Em tanta inútil, misteriosa escala!

Joguei a minha bússola quebrada
Às águas fundas... E afinal sem norte,
Como o velho Sindbad de alma cansada
Eu nada mais desejo, nem a morte...

Delícia de ficar deitado ao fundo
Do barco, a vos olhar, velas paradas!
Se em toda parte é sempre o Fim do Mundo

Pra que partir? Sempre se chega, enfim...
Pra que seguir empós das alvoradas
Se, por si mesmas, elas vêm a mim?


Mário Quintana
in Rua dos Cataventos

MOMENTO


Oh! A resignação das coisas paradas,
grávidas de silencio, reverentes,
em sua geometria sem jactância!


A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das arvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!


Todas as coisas – em clausura – cumprem votos,
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.

Rio, 9/9/87



Hélio Pellegrino
In: Minérios Domados

terça-feira, 13 de abril de 2010

Joga todo o teu ser na breve idéia

(Pablo Picasso)

Joga todo o teu ser na breve idéia
que incerta entre o corrente te procura
pra lá do que banal te prende e enleia
e pelo destacá-la emerge pura.

Fazê-lo é dar-lhe já o que perdura.
Porque a banalidade que a medeia
como à pedra vulgar por entre a areia
esquece o que em tomá-la a rareia.

Ser homem é escolher o que o oriente
e ser-lhe o mais a margem que lhe mente.


Vergílio Ferreira,
in 'Conta-Corrente 1'

domingo, 11 de abril de 2010

Fragmento Noturno


O nevoeiro desce lentamente a colina
E conforme subo mais se adensa:
Fecha-se à minha volta, apodera-se de mim
Como lençóis caídos sobre o chão.

Aqui ficam as últimas e ascendentes ruas,
Galerias, que correm pelas veias do tempo,
Quase familiares, onde rastejo em direção ao sono
Como nevoeiro e pelo nevoeiro como sono.


Thom Gunn
in:A Destruição do Nada e outros poemas
Tradução de Maria de Lourdes Guimarães
(England-1929- US-2004)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

4


No resto do mundo
um murmúrio geral vai crescendo no escuro.
E a noite parece um ladrão a esgueirar-se
sobre os nossos muros.
Limpamos, então, lentos e calados,
nossos retratos no tempo pendurados.
E pensamos no dia em que chegar
o adeus.
Oh, o adeus, essa palavra sagrada
que guardará no infinito
a inutilidade de nosso pobre grito.


Artur Eduardo Benevides
In: Elegia Setenta e Outros Poemas

quarta-feira, 7 de abril de 2010

LUZ PROVISÓRIA


Vejo a chuva que cai, e me dispensa
de vê-la cair. Também meu corpo me dispensa
de vê-lo, em sua queda: chuva breve
que escorre, sobre as rugas do tempo.

Sou uma luz provisória, prometida
à chuva que cai, ao rigor
da pedra e do vento, à escuridão
que não se apaga mais.


Rio, 23/1/84


Hélio Pellegrino
in Minérios Domados

terça-feira, 6 de abril de 2010

Morte silenciosa


A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada


Mia Couto
(Moçambique- 1955)